Opinião

O sonho do iFood é um pesadelo para muita gente

Bicicleta e bolsa térmica do iFood seguradas por um entregador, sem mostrar o rosto dele.

O início dos anos 2010 nos encheu de esperança, com o setor de tecnologia dando fortes sinais do seu potencial revolucionário. De um lado, as redes sociais eram o motor de levantes populares; de outro, modelos criativos da economia colaborativa colocavam em xeque o poderio das grandes empresas. Uma década depois, aquele potencial não se realizou. Em vez disso, hoje notícias como as que revelam como plataformas de delivery exploram entregadores e restaurantes parceiros nos chocam. Quando foi que aquela esperança virou esse show de horrores?

Já sabíamos que os entregadores, que ganham uma merreca, carecem de qualquer tipo de benefício e, em casos extremos, são deixados para morrer na rua se algo sai do roteiro, bancavam a comodidade de receber lanches quentinhos no conforto de casa com o apertar de alguns botões no celular. Com esta reportagem da BBC Brasil, publicada no último fim de semana, descobrimos que, na realidade, restaurantes pequenos dividem a conta com eles.

Expostos ao algoritmo secreto dos aplicativos de entregas de refeições, os donos de restaurantes viram reféns de promoções custosas, que destróem suas margens de lucro, e do rankeamento nas interfaces dos apps, que fogem de qualquer padrão ou lógica. Da noite para o dia uma operação financeiramente saudável se torna inviável por um elemento externo, por um iFood da vida. Especialistas ouvidos pela reportagem da BBC sugerem que os apps incorrem em práticas desleais e dumping para controlar o mercado, comportamento em tese intolerável em economias modernas, mas que parece soar aceitável quando apresentado na forma de um aplicativo de celular.

Fabrício Bloisi, o “incorrigível otimista” fundador da Movile — dona do iFood, PlayKids e outras marcas digitais brasileiras —, vislumbra um futuro repleto de empresas Big Tech no Brasil. É estranho que esse prognóstico seja dado em tom positivo no momento em que as Big Tech originais, as grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos, sofrem escrutínio pesado e se vejam ameaçadas por regulações e processos antitruste a fim de quebrá-las em empresas menores. O clima pouco amistoso a nomes como Facebook, Google, Uber e Apple não se criou sem motivo. A esperança que elas fomentaram há uma década virou decepção nesse intervalo.

As redes sociais, que agitaram movimentos como a Primavera Árabe e o Occupy Wall Street, nos anos seguintes corroeram eleições democráticas e deram voz a extremistas de toda sorte. Mark Zuckerberg, CEO da maior delas, chegou ao cúmulo de defender a permanência de posts antissemitas no Facebook.

Já a promessa da economia colaborativa virou pó ante a necessidade de devolver lucros exponenciais aos fundos de investimento que bancaram a ascensão de empresas como a Uber e o acirramento de rivais locais que replicaram o modelo e entraram com tudo na guerra de preços.

A Uber, que nasceu da boa ideia de mobilizar carros ociosos de pessoas com tempo livre e vontade de ganhar uns trocados, hoje é a tábua de salvação de profissionais que não conseguem recolocação em suas áreas. Dos 600 mil motoristas de Uber no Brasil, 400 mil (2/3) dirigem carros alugados. “O Brasil tinha um cenário perfeito para a Uber”, disse Mike Isaac, colunista do New York Times e autor do livro recém-lançado A guerra pela Uber (Intrínseca). A empresa chegou ao país em 2014, atraída pela Copa do Mundo, e encontrou o gol vazio no ano seguinte com o agravamento da crise econômica, que gerou uma legião de motoristas dispostos a trabalhar por qualquer coisa para não passarem necessidade.

O iFood, que surgiu com a promessa de otimizar a logística das entregas de refeições prontas, enfrenta outras empresas igualmente bem financiadas, a colombiana Rappi e o Uber Eats. Apesar disso, tem sido bem sucedida: é a líder do mercado brasileiro. Não é o bastante. Seu futuro consiste em otimizar a logística a níveis extremos, criando “zonas de entregadores” em shoppings, armários de comida em condomínios e robôs entregadores autônomos, e a exercer ainda mais poder sobre seus parceiros com soluções como o iFood Loop, programa em que restaurantes convidados preparam marmitas padronizadas e mais baratas que a média, e que só podem ser encomendadas com antecedência. A margem de lucro do restaurante também diminui e o relacionamento com o cliente, que na modalidade normal do iFood já é ofuscado, deixa de existir por completo. O objetivo é aumentar as vendas, porque de outro modo a empresa corre um risco existencial. “Democratizar a comida”, como alguns executivos do iFood já comentam na imprensa como se fosse uma espécie de missão da empresa, na real é só uma consequência.

A plataforma, que deveria ser um mero intermediário, torna-se um fim em si mesma, um parasita que suga energia de todos os entes da cadeia para satisfazer o consumidor final com incentivos artificiais e finitos, pois insustentáveis, e, dessa maneira, manter-se forte, crescendo sempre. Ainda assim, nada garante que ela seja viável — a Uber, que também aposta tudo no aumento de escala e na automação, jamais lucrou e, em 2019, teve prejuízo de US$ 8,5 bilhões.

A tecnologia tem um potencial gigantesco de melhorar a vida das pessoas, de fazer a diferença para melhor. Só que esse “melhor”, no caso das grandes plataformas digitais, depende de piorar sobremaneira as vidas de uma parte da sociedade já fragilizada. Isso não é progresso. O modelo concede muito poder a um ente dispensável, que só adquire tal importância desmedida devido a uma infusão de capital de gente disposta a apostar alto porque tem dinheiro de sobra. Mas não se engane: essas pessoas nunca perdem. Outros pagam a conta. Hoje, são entregadores, motoristas, restaurantes. Amanhã, pode ser você.

Foto do topo: iFood/Divulgação.

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16 comentários

  1. Cara eu não consigo entender essa neura de vocês em implicarem com os aplicativos como se os entregadores fossem obrigados a manter essa relação de trabalho. E caso esses aplicativos como Uber, Ifood não existissem, como vocês acham que essas pessoas estariam melhores? Dependendo de subsídio governamental? Devemos discutir o que está por trás desse fenômeno, que foi mencionado na matéria: “A Uber chegou ao país em 2014, atraída pela Copa do Mundo, e encontrou o gol vazio no ano seguinte com o agravamento da crise econômica, que gerou uma legião de motoristas dispostos a trabalhar por qualquer coisa para não passarem necessidade.”
    A grande crise econômica que nem vale a pena mencionar o partido, senão o fã clube de político corrupto aparece pra tacar pedra. É torcer pra esse governo conseguir melhorar a economia e as empresas passarem a contratar pra diminuir a dependência desses aplicativos, que acho pouco provável. E há que se chamar a atenção que a grande parcela que criticam esses aplicativos, são usuários contumazes.

    1. Oi Ronaldo! A grande questão é essa: o que fazer para gerar empregos? Existem muitos caminhos a serem tentados, mas o que estamos vendo, desde o governo Temer, é uma aceleração da precarização do trabalho com a promessa de que isso voltaria fazer crescer as vagas. É uma meia verdade, ou 1/4 de verdade, sendo bem otimista. A reforma trabalhista não gerou vagas prometidas e a diminuição do desemprego anotada em 2019 foi concomitante com uma informalidade recorde.

      O que esses serviços em apps fazem é normalizar uma situação que não poderia ser normal. E isso é perigosíssimo, porque se seguirmos a linha de raciocínio em que os apps se fundam, daqui a pouco estaremos justificando condições análogas à escravidão. “Ah, ele trabalha em troca de comida, mas imagina se não tivesse nem isso?”, saca?

      Crises são cíclicas no capitalismo, é um traço inerente, inescapável desse sistema. Cientes disso, não podemos aplaudirmos retrocessos trabalhistas quando uma nos atinge, porque os efeitos dela transcendem o período crítico. Qualquer retrocesso na área trabalhista, como os muitos que já nos últimos anos pós-PT (pode falar o nome de partido aqui, não tem problema), é difícil de ser recuperado.

      Convenhamos: uma política econômica capitaneada por um sujeito que acha bom dólar alto porque assim pobre deixa de viajar à Disney… é de se ficar com os dois pés atrás. Se há tanta gente sobrevivendo graças à exploração de plataformas digitais, é preciso atacar esse problema, não agradecê-las por isso.

      1. Mas foi justamente essa pergunta que fiz Ghedin: o que fazer pra mudar esse quadro? Mas atacar as empresas achando que estão explorando mão de obra barata é reducionismo. TODA EMPRESA FAZ ISSO! Se vc pode contratar um empregado que faça a mesma atividade que os demais pagando menos, vc o fará! Tenho minhas críticas ao Bolsonaro e a declaração do Paulo Guedes sobre o dólar foi ridícula mas a imprensa exagerou no sensacionalismo quando todos sabemos que domésticas não viajam à Disney. E esperar que em 1 ano o novo governo mude todo um cenário catastrófico de 16 anos de PT é exigir demais. Aliás, o tal partido dos trabalhadores contratou o Lula pagando R$20 mil reais como PESSOA JURÍDICA por causa dos encargos trabalhistas! Não é irônico? O mesmo partido que comprou o congresso com o Mensalão, não fez nenhuma reforma significativa. Nem trabalhista, previdenciária ou tributária em 16 anos!! Como esperar que as coisas mudem em pouco tempo? E ainda entra a questão da educação, que nesse país só privilegia o ensino superior e ignora o ensino fundamental. É muita coisa errada! Até desanima…

        1. Ronaldo, como lhe respondi, não sei qual é a solução. Essa pergunta é difícil mesmo, e tem muita gente quebrando a cabeça para encontrar soluções. Mais fácil é responder o que não é solução, que é o caso de empresas se aproveitando da situação para explorar gente desesperada. É o que Uber, 99 e iFood fazem: exploram. E nem assim as contas fecham, o que sinaliza como esse modelo é insustentável e joga a conta toda nas costas do elo mais fraco da corrente. (Aposto o que você quiser que os diretores dessas empresas ganham salários nababescos.)

          A fala de Guedes não foi especificamente sobre domésticas, foi sobre qualquer trabalhador que ascendeu nos “terríveis” anos de PT e que, afinal, puderam viajar à Disney (que também não é determinante; ele diz Disney, mas pode ser qualquer lugar no exterior ou mesmo mais caros dentro do Brasil). Ironia é ver muitas pessoas que defendem essa fala e que, ao mesmo tempo, estão nela; são as domésticas do Guedes e não se dão conta disso. Aos demais, é no mínimo insensível, certamente muito cruel, achar que tem quem pode e quem não pode ter sonhos. Uma sociedade justa busca equalizar diferenças desse tipo em vez de reforçá-las, como faz Paulo Guedes.

          E, cara, comparar a situação do Lula, que com absoluta certeza jamais passará qualquer tipo de necessidade, com a de um trabalhador anônimo, dependente do contracheque para comer e pagar o aluguel… me desculpa, mas Lula, nesse caso, não é parâmetro para nada.

          1. Ghedin, quando mencionei o Lula, me referi a falta de vontade daqueles que se dizem representar os mais pobres e minorias mas são os mais demagogos e hipócritas. A ironia é que um partido denominado “dos trabalhadores” contrata uma pessoa pagando R$20 mil reais com dinheiro público, pra não fazer absolutamente nada e ainda por cima, como Pessoa Jurídica!! E se um partido que se diz representar os trabalhadores não fez nenhuma reforma trabalhista pra favorecer os trabalhadores, o que esperar do Bolsonaro?
            E novamente, se os entregadores estão sendo explorados, o que o governo pode oferecer além do que as tais empresas exploradoras oferecem? Bolsa família ou outro subsídio qualquer? Nem todos estão aptos ou preenchem os requisitos pra receberem benefícios governamentais. O caso é mais complexo. Não existe santo nessa história. Só acho que atacar as empresas ou criar dificuldades (impostos, taxas, etc.) só irá piorar o cenário para o elo mais fraco. Em tempo: acho que os próprios estabelecimentos de bairro poderiam criar uma cooperativa e abrir mão do Ifood. Eles mesmo fariam a entrega.

    2. Vou explicar a minha “neura”: essas empresas exploram violentamente as horas de trabalho dos entregadores — que, no entanto, não possuem NENHUM direito trabalhista assegurado, NENHUM benefício, NENHUMA perspectiva de aposentadoria, de seguridade social (especialmente atividades altamente sujeitas a acidentes de trabalho).

      São trabalhadores ultra-explorados sem qualquer segurança. Ultra explorados. Se acontecer qualquer coisa com eles os patrões continuam ilesos. É um modelo perverso, desumano, desumanizador.

      E — sim — subsídios governamentais são SEMPRE melhores que submeter seres humanos a venderem suas forças de trabalho por migalhas. Numa situação de intensa fragilidade social como essa, é um sinal doentio de que erramos enquanto sociedade por permitir com que seres humanos se submetam a essas situações absurdas de trabalho.

      O que fazer?

      Podíamos começar fazendo o que o PT se recusou a fazer em mais de uma década: taxar agressivamente os ricos. Taxar agressivamente lucros e dividendos. Socializar essa mais-valia difusa que foi roubada dos trabalhadores. Só pra começar. Depois ainda há muito a ser feito.

      Mas enquanto bandidos como Paulo Guedes e Bolsonaro estiverem no poder nada pode ser feito. Então a primeira coisa a fazer é derrubá-los. Vamos?

      1. Taxar os mais ricos não garantem distribuição de renda.
        Fora que os empresários podem simplesmente meter o pé do país e procurar algum lugar com isenção fiscal o que traria dois efeitos trágicos para a economia: redução dos tributos que sustentam os programas sociais e é claro, o desemprego!
        Achar que receber subsídio do governo é melhor do que ter um emprego é subjetivo. Nem todos pensam assim.
        Além do mais, essas empresas, por mais que a rotulamos como exploradoras, pagam seus impostos. Tirando a força de trabalho delas, como o governo irá sustentar esse subsídio à longo prazo?
        E se formos tirar cada presidente que não gostamos, o país ficará ingovernável! E derrubando o Bonoro, quem iremos colocar no lugar? O poste do Haddad? O Ciro “SPC” Gomes? O picolé de Chuchu do Alckmin? Nossas opções não nos dão margem pra utopias.

        1. E a sua solução é manter no cargo um nazista que se orgulha de elogiar torturadores? Um sujeito que mantém como ministro da economia uma pessoa que odeia os pobres? Um sistema econômico que naturaliza a desumanização desses milhões de trabalhadores?

          Alegar que os ricos fugiriam do país é um sofisma desonesto. Fugiriam pra qual país? Pra França, em que o imposto de renda chega a alíquotas de 50%?

        2. Além do mais, essas empresas, por mais que a rotulamos como exploradoras, pagam seus impostos.

          Se pagassem todos os encargos trabalhistas devidos, não estaríamos tendo essa discussão. Não pagam porque quebrariam, porque o modelo é insustentável e só funciona à base da exploração da mão de obra.

          1. Pagar é lógico que elas pagam. Podem não se enquadrar em determinada regra, mas pagam. E vamos entrar numa espiral infinita aqui culpando as empresas ao invés de exigir mudanças estruturais na economia. As reformas são essenciais pra isso. Não tem como o Brasil criar empregos com uma carga tributária absurda e onde a classe média se enquadra na mesma alíquota que os mais ricos. Fora a preocupação com a educação de base, ao invés de privilegiar o ensino superior. Enfim… Como disse, o Coiso fala muita merda mas não tem como exigir que essas mudanças aconteçam em 1 ano com um congresso sanguessuga e que deseja manter seus privilégios. O PT poderia ter feito tudo isso quando possui a maioria na câmara e senado mas deu no que deu…

  2. Que texto mais ingênuo. O objetivo de qq empresa sempre será o lucro. É com esse objetivo em mente que soluções e desenvolvimentos fantásticos são realizados. Mas isto só ocorre quando há concorrência. O Brasil é uma economia muito fechada e pouco dinâmica internamente, por isso estas práticas são mais cruéis aqui. Às vezes acho que esses millenials querem voltar a viver em ocas e tirar comida da selva. Usam e abusam de todo desenvolvimento tecnológico fruto do um capitalismo, mas reclamam quando veem alguma empresa/empregado sofrendo.
    A visão de mundo é muito idealizada em todo esse texto.

    1. Não é um problema exclusivamente brasileiro. Abusos de grandes plataformas são comuns nos Estados Unidos, onde muitas dessas tecnologias nascem.

      Ingenuidade, acho eu, é ter uma visão de mundo tão estreita que é incapaz de imaginar alternativas àquela em que se está imerso — note-se, um capitalismo cruel que só se sustenta porque explora a maioria desprovida de capital.

    2. 1. Não é o capitalismo que gera desenvolvimento tecnológico. É o TRABALHO. São os TRABALHADORES, não os patrões. Fosse assim, Steve Jobs teria feito o iPhone sozinho e não explorando agressivamente horas mal dormidas de milhares de trabalhadores.

      2. Estas práticas são cruéis porque simplesmente não há alternativas. Se taxássemos agressivamente os ricos e todos os brasileiros recebessem uma renda básica de cidadania (uma solução ultra liberal para a economia, aliás), ninguém teria de se submeter a esses sub-empregos e poderia negociar para cima os salários.

  3. o cenário ficou desolador, ao invés das empresas intermediarem a oferta do serviço, elas passaram a tomar conta: qual o preço, tempo de entrega, tamanho do desconto e até alcance do Delivery.
    Eu sou um early adopter de tecnologia, usei desde PalmOs (meu Sony Clie precisa só tirar a poeira) até Symbian UIQ (tenho um Pebble funcionando até hoje), mas não fui com a proposta de redes sociais e apps de serviços – prefiro ligar pra pedir uma Yakissoba…

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