Diversos entregadores de moto da Rappi estacionados em uma calçada.

O gosto cada vez mais amargo do hambúrguer pedido por aplicativo


12/7/19 às 12h05

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Em maio, o Guilherme gravou a coluna mais ouvida do Tecnocracia até agora: Os apps de transporte criaram uma dinâmica de trabalho de Robin Hood ao contrário. Ele fez uma análise visceral do entortamento das dinâmicas trabalhistas que aplicativos da chamada “economia dos bicos”, como os de transporte individual (Uber, 99) e entrega de refeições (iFood, Rappi), têm causado.

Nesta semana, mais um capítulo trágico do processo de precarização e desumanização promovido por esses apps foi escrito. Thiago de Jesus Dias, 33 anos, entregador da Rappi, startup colombiana de entrega de refeições, compras de mercado e outras tantas coisas, morreu enquanto trabalhava. Teve um AVC, foi socorrido por clientes que, desesperados, buscaram a ajuda da própria Rappi, do SAMU e de um motorista da Uber. Não conseguiu de ninguém. Duas horas depois de manifestar os primeiros sintomas, amigos de Thiago chamados por sua irmã o levaram de carro a um hospital. Ele resistiu por mais dez horas antes de falecer.

O caso, ocorrido em Perdizes, capital de São Paulo, no último sábado (5), foi divulgado em um post no Facebook pela advogada Ana Luísa Pinto, cliente que recebeu Thiago em sua última entrega e que tentou ajudá-lo. A negligência das empresas e do SAMU já seria revoltante, mas a resposta imediata da Rappi foi inacreditável. Segundo Ana Luísa, “entramos em contato com a Rappi que, sem qualquer sensibilidade, nos pediu para que déssemos baixa no pedido para que eles conseguissem avisar os próximos clientes que não receberiam seus produtos no horário previsto”.

A Rappi afirma estar apurando o caso e que implantará um “botão de emergência” no app dos entregadores. Legal, mas tarde demais para Thiago e seus familiares. Ele era casado e tinha uma filha de seis anos. Provavelmente deixa sua família sem qualquer amparo, pois como entregador “parceiro” não tinha vínculo empregatício com a Rappi. Ele trabalhava fazendo entregas para aplicativos havia dois anos.

Casos chocantes como este não são raridade nem exclusividade brasileira. Nos últimos seis meses, por exemplo, cinco entregadores do UberEATS morreram no México.

Em Bogotá, entregadores da Rappi protestaram em frente à sede da empresa pedindo melhores condições de trabalho. O mais maluco é que há poucos meses a Rappi conseguiu um investimento de US$ 1 bilhão. Mas, convenhamos: seria ingenuidade esperar que parte desse dinheiro fosse destinada a adequar a relação que tem com seus entregadores “parceiros”, pois isso não ajuda a vencer a guerra — agora, literalmente — sangrenta com rivais igualmente bem financiadas e desinteressadas pelo bem-estar daqueles que levam comida de um lado para o outro das cidades.

Saber dessas situações nos coloca, como consumidores, em um profundo dilema moral. É cômodo receber uma pizza quentinha no conforto de casa em uma noite chuvosa pagando barato por isso, mas qual o custo embutido, não financeiro, dessa alternativa? Quantos desses entregadores o são por opção, e não por necessidade? A estagnação econômica e o desemprego elevado formam o cenário perfeito para a velha e abjeta exploração de mão-de-obra. Aquele hambúrguer de R$ 5 da promoção do app, que já estava descendo com um gosto meio amargo, vai ficando cada vez mais indigesto.

Foto do topo: Rappi/Divulgação.

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