O gosto cada vez mais amargo do hambúrguer pedido por aplicativo

Diversos entregadores de moto da Rappi estacionados em uma calçada.

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Em maio, o Guilherme gravou a coluna mais ouvida do Tecnocracia até agora: Os apps de transporte criaram uma dinâmica de trabalho de Robin Hood ao contrário. Ele fez uma análise visceral do entortamento das dinâmicas trabalhistas que aplicativos da chamada “economia dos bicos”, como os de transporte individual (Uber, 99) e entrega de refeições (iFood, Rappi), têm causado.

Nesta semana, mais um capítulo trágico do processo de precarização e desumanização promovido por esses apps foi escrito. Thiago de Jesus Dias, 33 anos, entregador da Rappi, startup colombiana de entrega de refeições, compras de mercado e outras tantas coisas, morreu enquanto trabalhava. Teve um AVC, foi socorrido por clientes que, desesperados, buscaram a ajuda da própria Rappi, do SAMU e de um motorista da Uber. Não conseguiu de ninguém. Duas horas depois de manifestar os primeiros sintomas, amigos de Thiago chamados por sua irmã o levaram de carro a um hospital. Ele resistiu por mais dez horas antes de falecer.

O caso, ocorrido em Perdizes, capital de São Paulo, no último sábado (5), foi divulgado em um post no Facebook pela advogada Ana Luísa Pinto, cliente que recebeu Thiago em sua última entrega e que tentou ajudá-lo. A negligência das empresas e do SAMU já seria revoltante, mas a resposta imediata da Rappi foi inacreditável. Segundo Ana Luísa, “entramos em contato com a Rappi que, sem qualquer sensibilidade, nos pediu para que déssemos baixa no pedido para que eles conseguissem avisar os próximos clientes que não receberiam seus produtos no horário previsto”.

A Rappi afirma estar apurando o caso e que implantará um “botão de emergência” no app dos entregadores. Legal, mas tarde demais para Thiago e seus familiares. Ele era casado e tinha uma filha de seis anos. Provavelmente deixa sua família sem qualquer amparo, pois como entregador “parceiro” não tinha vínculo empregatício com a Rappi. Ele trabalhava fazendo entregas para aplicativos havia dois anos.

Casos chocantes como este não são raridade nem exclusividade brasileira. Nos últimos seis meses, por exemplo, cinco entregadores do UberEATS morreram no México.

Em Bogotá, entregadores da Rappi protestaram em frente à sede da empresa pedindo melhores condições de trabalho. O mais maluco é que há poucos meses a Rappi conseguiu um investimento de US$ 1 bilhão. Mas, convenhamos: seria ingenuidade esperar que parte desse dinheiro fosse destinada a adequar a relação que tem com seus entregadores “parceiros”, pois isso não ajuda a vencer a guerra — agora, literalmente — sangrenta com rivais igualmente bem financiadas e desinteressadas pelo bem-estar daqueles que levam comida de um lado para o outro das cidades.

Saber dessas situações nos coloca, como consumidores, em um profundo dilema moral. É cômodo receber uma pizza quentinha no conforto de casa em uma noite chuvosa pagando barato por isso, mas qual o custo embutido, não financeiro, dessa alternativa? Quantos desses entregadores o são por opção, e não por necessidade? A estagnação econômica e o desemprego elevado formam o cenário perfeito para a velha e abjeta exploração de mão-de-obra. Aquele hambúrguer de R$ 5 da promoção do app, que já estava descendo com um gosto meio amargo, vai ficando cada vez mais indigesto.

Foto do topo: Rappi/Divulgação.

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66 comentários

  1. Rodrigo;

    Acompanho o seu site desde 2013 quando te conheci em indicação no Tecnoblog. E é um pouco triste a sua guinada extrema em certos assuntos.

    Em relação ao dessa matéria, em especial você estava 75 % correto, até propor coisas que não fazem e nunca fizeram sentido.

    Veja bem:

    Já morei em cidades grandes, pequenas, médias, de todo o tipo. Isso incluindo regiões sudeste e Sul. E, bem, não da pra culpar só uma ponta desse iceberg de problemas.
    A Rappi agiu de forma horrível e deveria ser punida processual e criminalmente por isso, bem como medidas deveriam ser tomadas em relação a fatos como esse para que não mais ocorram.
    A questão é que dos apps de entrega, 90 % das entregas são feitos por motoqueiros contratados pelo próprio restaurante, esses sim também responsáveis por eles. Desses, a gigantesca maioria paga apenas um valor fixo de diária além de um percentual ou todo o valor da entrega, a depender do estabelecimento. Não há seguro para a motocicleta, seguro para o próprio trabalhador, nenhum tipo de proteção. É a taxa diária, o valor arrecadado e só.
    Na ponta do lápis, no entanto, a conta até que fecha, e fecha bem. Tenho um amigo que trabalhou até dois meses em uma pastelaria que funcionava no Ifood. Segundo ele, ele recebia R$50/dia além de todo o valor da entrega, que variava entre R$3 a R$12, a depender da distância. Segundo ele, era possível receber até R$150 / dia se trabalhasse das 18 as 0 H, que é o horário que ele fazia.
    Em tempos de precarização de trabalho sejamos honestos. Eliminando os prováveis 50 reais que ele gastaria com a moto diariamente, estamos falando de 100 reais recebidos em 6 horas de trabalho. Cansativo, estressante, mas bem menos danoso do que as 10 horas de trabalho que a população média lida todos os dias, além da média de 1 H 20 em transporte público (Em São Paulo, onde moro, a média é de 3 H).

    Então, antes de boicotarmos as startups e apps simplesmente porque SIM, que tal entender o que faz alguém optar por um trabalho desses? Quem são esses entregadores? Qual o nível de formação deles? Por que assim, eu conheço gente formada que não recebe o que meu amigo recebia e trabalha tanto quanto.

    A precarização do trabalho vai muito além desses apps, e culpá-los é só desviar o foco do problema maior. As pessoas estão ganhando pouco por seu trabalho, e estão cada vez mais vivendo no limite do limite.

    Quanto a entregas, a maioria dos restaurantes que as fazem por meio desses apps já tinha serviço de entregas antes deles e certamente continuará tendo depois. Eu mesmo que sou cego opto por pedir em casa porque, bom, aqui o cardápio é acessível, eu consigo saber o que tem, do que é feito e como vem. Me dirigir a um restaurante apenas para comer ficou raro por que entre o mal tratamento, a falta de acessibilidade e a falta de comodidade “Além do péssimo trato” me fazem preferir isso. Outras pessoas tem seus motivos múltiplos mas, independente disso, não acho que seja sequer possível dar esse passo pra trás.

    Como você mesmo disse em seu texto e nos seus comentários, são 4 milhões de pessoas trabalhando desse modo. São 4 milhões de vidas. Boicotar é a resposta mais simples e que não resolve nada, por que essas 4 milhões de vidas vão precisar comer, beber, vestir e consumir. E tu só vai ter gerado uma onda burra, que combate um resultado e não a causa.

    Enfim.
    Embora tenha começado a discordar demais dos teus posicionamentos vou continuar acompanhando o blog, justamente por esse tom pessoal. Espero que um dia tu volte ao lado ponderado da força.

    1. Licença?

      O ponto de ser ponderado é que a empresa, seja ela o aplicativo contratante ou o restaurante, também tem que ser ponderado com o contratado. Ou seja, fornecer o necessário para o mesmo trabalhar com conforto e segurança.

      Se uma pessoa morre “à serviço” de alguém, teoricamente (quem é de direito pode falar melhor) a responsabilidade geral é do contratante.

      Nessa, a precarização do trabalho apenas oferece uma solução simples, mas que não ajuda tanto: só fornece a subsistência da pessoa que trabalha terceirizada (ou até sub terceirizada), enquanto que o criador e mantenedor do aplicativo de gig economy tem carro de luxo, seguro de vida, etc… (e o investidor, bem, nem precisa falar sobre, né?)

      Quando se fala de boicotar, é lembrar que não precisa apenas do app para ir lá comer a pizza de 20 contos com entrega grátis, enquanto o dono da pizzaria ganha 10 contos, o entregador 3 contos e a empresa que apenas fez a pessoa comprar ganhou 7.

      No seu caso, é até compreensível dado sua história em relação a utilizar dos serviços: infelizmente as pessoas (eu inclusa) têm problemas em lidar com outras pessoas que precisam de uma forma diferente de tratamento, mais especializada – no seu caso, algo que sirva para ilustrar melhor de forma mental como é o produto a ser consumido. A propósito, bem lembrar que existem formas políticas para fazer as empresas atenderem melhor pessoas com tratamento especializado (peço desculpas se não é o melhor termo, não sei que termo usar ultimamente).

      Quanto a questão da ponderação, acho que o Ghedin, junto com outros jornalistas da mesma linha, ponderado desde sempre, mas com posições voltadas ao melhor tratamento a pessoa (algo que deveria ser melhor pensado, já que geralmente jornalismo de tecnologia lida mais com foco nos produtos do que nas pessoas).

      1. Então, vamos lá;

        Antes de tudo, não, eu não defendo que os modelos de negócio dessas empresas continuem como estão, sem qualquer envolvimento da parte delas. Sei de pessoas que trabalham pra Rappi ou Uber Eats que trabalham 12, 13, as vezes 14 horas num único dia. Pra quem lida com trânsito, isso é criminoso. A empresa simplesmente permitir que isso ocorra já incorre em muitos problemas. A questão, é como eu disse, buscar outra saída. Talvez uma regulamentação branda, talvez um intermediário entre CNPJ e CLT que forneça ao entregador alguma garantia e algum seguro e que não diminua tanto o seu recebimento.
        Em relação a percentuais, eu sinto um pouco lhe dizer mas suas contas estão meio erradas. Os apps e serviços ficam em média com 10 a 15 % do valor de cada pedido. Ainda acho muito por simplesmente fornecerem uma plataforma, mas é bem menos do que sua comparação. O que muitos restaurantes fazem, inclusive, é cadastrar o produto um pouco acima do valor de loja nesses serviços.

        Quanto ao atendimento a deficientes, bom, já existe legislação federal que foi aprovada agora em maio que obriga os estabelecimentos a terem cardápio em braille. Lei essa que ninguém vai cumprir, certamente, por que aqui em SP a lei municipal já prevê isso a anos e eu só vi isso até hoje em 4 restaurantes. Quanto ao tratamento em si, não é nada difícil ou complexo, é só tratar como um ser humano normal.
        Alguns dos comportamentos que noto e que são extremamente irritantes são:
        • Garçom se oferecer para cortar a comida, isso quando não corta sem pedir. Normalmente quem precisa pede antes, então, não custa nada esperar a pessoa pedir.
        • Bebidas que não precisam de canudo virem com canudo. Uma vez parei num desses bares chiques de Pinheiros e pedi uma dose de Bourbon. Me mandaram com um canudo. Como eu pagava caro fiz questão de tirar o canudo e pedir pro Barman levar de volta.
        • Oferta de piores lugares. É comum em restaurantes de grande movimento que coloquem pessoas com deficiência nos piores lugares. Nunca aconteceu comigo, mas, alguns amigos já me relataram que as vezes questionam a eles se eles pretendem ir ao banheiro durante o período em que estarão lá e, se eles dizem sim, colocam eles na mesa em frente ao banheiro.
        • Tratamento infantilizado. É comum que pessoas num geral se dirijam a pessoas com deficiência como se estivessem falando com crianças, usando termos no diminutivo, falando de modo infantil e similares. E em restaurantes isso não é exceção.

        Entre outras coisas que nem cabem citar aqui.

        Eu ainda tenho resíduo visual, então consigo me virar bem e sair da maioria dessas situações. Mas quem não tem está sujeito a elas todos os dias.

        Ainda assim, o simples fato de sair de casa sabendo que terei que lidar com isso, o simples fato de pensar que vou sentar num bar, pedir uma bebida e que vou ter que ouvir “Tem certeza que você pode beber isso” do atendente/garçom me faz usar apps de entrega quase que sempre.

        1. Obrigado pela resposta. Só vou me focar em responder o começo.

          A questão da intermediação é o que gerou a briga do Uber X motoristas . (Avise-me se ter colocado o hiperlink atrapalha na hora da conversão.). Se pesquisar “Uber na Justiça do Trabalho”, verá o histórico de brigas judiciais sobre este assunto. Se eu coloco mais de um link externo, sou bloqueado na moderação.

          Então podemos dizer que já é uma briga começada, só falta o pessoal que trabalha nestes apps de entrega se juntarem a esta também.

          Mesmo se acabar os apps, as empresas se reinventam. Atendimento de delivery sempre existiu, mas obviamente sempre ficou restrito a quem tinha condições ou formas de atender (geralmente pizzarias e restaurantes que tenham grande demanda) – e não vamos negar, a relação trabalhista sempre foi neste nível precário – apenas receber por entrega, as vezes com pouco recebimento fixo mensal.

          O ponto é que com os aplicativos, a dinâmica mudou. O motociclista / entregador ganhou mais opções para trabalhar, mas também ganhou com isso menores recebimentos, dado a concorrência (dinâmica de oferta e demanda).

          Posso estar errado, mas questão trabalhista sobre isso já temos – isso é terceirização de mão de obra e é previsto em lei. O ponto é que tá “cinza” a questão de como cobrar, dado que as startups / empresas sempre vão alegar que são “intermediadores sem vínculo” apenas. O que bastaria era uma canetada dizendo que “se por como intermediador automaticamente o coloca como contratante tipo terceirizada”, com isso obrigando as empresas a cumprirem as regras trabalhistas.

          Já pensei em trabalhar para um app – no caso o “GetNinjas”. Mas pensei em toda a dinâmica e a dor de cabeça que eu teria atendendo, e dado leituras que tive sobre empresas de dinâmica similar (como a “Helper”, que era uma startup de contratação de diaristas por app), vi que ganharia menos trabalhando lá, além do risco de estresse e problemas com clientes que poderia ter.

    2. Oi Jonas! É complicado debater questões complexas como essa sem pesquisas e estatísticas com metodologia verificável. Na ausência (desconheço estudos nesse sentido feitos no Brasil), confio em reportagens da grande imprensa. No mínimo, são mais abrangentes que evidências anedóticas.

      Neste fim de semana, por exemplo, o Agora, do grupo Folha, publicou uma matéria sobre o sufoco que passam os entregadores de aplicativos em São Paulo. De lá:

      A economia, no entanto, tem sido difícil. Só para consertar a sua bicicleta, foram R$ 220. Para pagar a bolsa térmica, exigida pelos aplicativos, teve ainda que desembolsar R$ 50, que foram abatidos de seus primeiros pagamentos. Ganhando em média R$ 15 por dia trabalhado meio período (nos fins de semana, como pedala mais, chega a ganhar R$ 60 por dia), Julio encerra o seu primeiro mês com conta para pagar.

      (Fiquei chocado em saber que os entregadores precisam pagar por aquelas bolsas térmicas dos apps.)

      Concordamos que a precarização transcende a questão dos apps, mas discordo que focar neles seja diversionismo. Os apps, ao contrário de outras situações, escancaram e normalizam a exploração sob o argumento de que é uma “parceria” e que os entregadores são espécies de microempreendedores, que fazem seu horário e ganham de acordo com o tempo que estiverem dispostos a trabalhar. A matéria do Agora explica também que, na medida em que o número de entregadores aumenta, o rendimento médio deles cai. A exemplo de um cassino, a banca (o app) controla o jogo e impõe as regras que quiser. De lá:

      Com a popularização dos aplicativos, ao mesmo passo que mais entregadores entraram para o serviço, as empresas diminuíram pagamentos. “No primeiro mês eu tirei uns R$ 1.900. Hoje, se quiser ganhar isso, tenho que trabalhar em dobro”, disse o entregador Charles William, 25, que mora em Embu das Artes (Grande SP) e trabalha em Pinheiros (zona oeste). Há sete meses ele pedala diariamente 30 km das 11h às 16h, com renda média de R$ 1.300 para sustentar mulher e filha de 3 anos.

      Não entenda o meu posicionamento como conservador, por favor. Quando digo que “não precisamos de entregadores”, falo como uma hipérbole. Eles já existiam e há situações e circunstâncias em que eles são necessários. O que questiono é a ideia, encrostada nesses apps, de que se trata de um serviço barato. Não é. Só fica barato porque alguém paga a diferença do preço real — no caso, os entregadores. E, sim, acho que falta ouvirmos, eu incluso, mais e melhor os entregadores. Novamente, minha base para o posicionamento do artigo acima são matérias da imprensa — cito também esta da BBC Brasil e esta outra da Pública.

      Agradeço imensamente a sua disposição em comentar e seguir lendo o Manual do Usuário. Tempos bicudos que são esses em que vivemos, vez ou outra algumas injustiças fazem a temperatura subir e os ânimos se acirrarem, mas espero, sinceramente, que o Manual seja sempre visto como um local receptivo ao debate, por mais discordantes que sejam as partes. (Não é o nosso caso (você disse que concorda com 75% do que eu disse, afinal :) Obrigado, mesmo.

  2. Li o texto, li todos os comentários (sério). Guedin, te acompanho há quantos anos? milhares, talvez. Gosto da sua pegada, mas não concordo 100% com vc dessa vez. Claro que o fato relatado é chocante. Mas não podemos sair blasfemando os aplicativos de entrega e seus entregadores. Para cada um que sair, terão 2 querendo entrar.
    —-
    Mudando um pouco o foco: Os tais clientes não tinham carro para levá-lo a um hospital? Não vi ninguém questionando isso.

    Abraços!

    1. Fui reler o comentário da advogada que atendeu o Thiago, no Facebook. Ela não cita carro próprio, mas muito me surpreenderia se ela tivesse um à disposição e, em meio a todo o desespero, não o tivesse usado. Porque parece, pelo relato e pelas ações (ligações, chamar um Uber, parar motoboys para ajudá-la, colocar cobertores no Thiago), que ela estava genuinamente preocupada.

  3. Ótima matéria Ghedin! Assim como a outra (que fui um pouco mal compreendido), deixo alguns pontos importantes, dessa vez sendo mais claro.

    Sobre a entrega, outro ponto importante a ressaltar é a insegurança generalizada, não nego que peço entregas em minha residência, pois a noite, se não for de carro, não saio nem pra rua ao lado.

    Mesmo assim há uma desumanização por todas as partes quanto ao entregador, dia desses pedi um lanche no iFood e a entrega era R$ 5,00 , indaguei ao meu namorado quanto daquele valor de fato ia pro entregador, afinal de contas, era um grande estabelecimento, e se o cara entregasse uns 20 pedidos por dia, já teria feito em torno de R$ 100,00 só pelo valor da entrega, e não, o lanche não era barato, a entrega não “compensava” o valor do lanche. O que eu acredito é que tenha se tornado um padrão muito agressivo as empresas tentarem “engolir” as concorrentes com ofertas muito agressivas que prejudicam o nó mais fraco na corda Consumidor -> App -> Empresa -> Entregador. Ver aqui discursos que generalizam a “necessidade” social de entregas baratas é lamentável, a meu ver, por mais que seja uma opinião unicamente minha e claro, não deva ser tomado como verdade, e sim ponto pra discussão. A escravidão foi “necessidade” há poucas décadas, e nem por isso era menos execrável, e fingir que essas empresas não maximizam os lucros explorando de uma forma desonesta esses trabalhadores é igualmente inocente, politicas públicas precisam SIM ser tomadas.

    Na outra postagem citei como a falta de politicas públicas fomentando o retorno do crescimento e da qualidade do trabalho tem tornado nossa população pobre e desamparada, e reitero, a população, sem emprego, desesperada e sem nenhuma ferramenta que os defendam dessas “startups cool” estão sendo massacradas. A demanda não vai sumir por conta de um mínimo de regulação, não precisa massacrar a empresa que dá o emprego, mas e o funcionário? sejamos humanos, pelo amor de Deus!

    Infelizmente a unica ferramenta de mudança que temos nesse cenário somos nós mesmos, mesmo que poucos, podemos mudar um pouco o panorama. Eu uso o app de transporte aqui da cidade por exemplo, porque ele remunera (muito) melhor o motorista que o UBER, o preço? o mesmo, muda o quanto o App cobra do motorista, como é menor, a infraestrutura exigida é menos complicada. Um ato mínimo, mas que se multiplicar-se, será mto benéfico.

    Irei colocar um link a essa postagem no meu fórum pra fomentar uma discussão sobre isso, espero que não seja problema. Adoro o conteúdo! Até.

  4. As pessoas ainda compram muito a ideia de que “trabalhe muito para ser um ser justo e honrado”. Trabalha-se muito, reconhece-se muito pouco, enquanto que a pessoa que vendeu a ideia do “trabalhe muito” no final trabalhou menos ainda, e ainda lucrou com o trabalho do cara que trabalhou demais e comprou a ideia dele, seja um pastor, um empresário, um startupeiro ou escritor.

    É nessas que a mão de obra explorada vira o jogo do momento.

    Não sei como está hoje, mas no auge (acho que a um ou dois anos) do Uber, houve muito a questão de “sublocação de veículos”, nisso fazendo a pessoa que conduz um veículo ganhar menos ainda do que o ideal.

    Enquanto o lobo do homem ser o próprio homem, o jogo infelizmente será esse.

    Mas é bom pensar que sempre haverá alguém que pensará como mudar este jogo para algo mais coletivo, comunitário. De lobos para pinguins.

    1. Essa sua questão primeira – do trabalho – é interessante e bastante debatida. Max Weber defende essa integração entre moral e trabalho no seu livro “A ética protestante e o capitalismo” quando ele se coloca num lugar de análise da ideologia e moralidade protestante dentro da sociedade americana.

      Antes desse advento, da moralidade protestante, o lucro e a acumulação eram coisas a serem evitadas (pelo dogma católico romano) e por isso a humildade e a pobreza eram exaltadas (vide os franciscanos que, até hoje, tem alguns dos seus sob voto de pobreza). Nesse sentido era muito ruim pro capitalismo ter essa moral católica como dominante, afinal, execrar o lucro como finalidade da vida era extremamente nocivo pra noção de acumulação do capitalismo. Nesse sentido o protestantismo (de todas as ondas) veio a calhar para a nova moral sócioeconômica que estava surgindo e assim passamos de uma sociedade que tinha o trabalho como meio apenas de sobreviver para uma sociedade de acúmulo e que vê no trabalho a salvação da própria alma – o trabalho passa a ser o ponto central da sua vida.

      Hoje as pessoas, mesmo católicas, se matam de trabalhar porque acreditam que seja o moralmente correto. O capitalismo vendeu a ilusão de que o trabalho “dignifica” as pessoas e, mais ainda, vendeu a ideia de que é possível acumular algo trabalhando para os detentores dos meios de produção. E no Brasil temos o agravante da Teologia da Prosperidade, que veio de denominações como a IURD e a AdD e se espalhou por diversas igrejas neopentecostais criando o cenário atual de liberalismo brasileiro (ainda que o Leo Rossato ache que eles estão em crise, algo que eu discordo).

      Enquanto tivermos essa ideologia dominando o Brasil dificilmente sairemos desse hiper-individualismo que temos hoje porque isso é a base de tudo essas igrejas e empresas pregam.

      1. Vou conversar contigo e com o Leo “nada no front” Rossato para me darem aulas particulares de ciências sócio políticas.

        Espera eu ganhar na mega sena

  5. lamento pelos entregadores mortos.

    por outro lado, em um país de maltrapilhos eles, nem se destacam

    moro no RJ, pego trem diariamente e os vendedores ambulantes parecem mendigos -muitos são magros como faquires (tá bom, tem uns bem gordos também).

    Isso sem falar nos catadores de lixo que perambulam por aqui.

    não tá fácil pra ninguém e apostaria que nenhum deles contribui para a previdência pública, o que seria solução legal

    enfim, morreu o trabalhador, a família fica na mesma miséria de sempre.

    1. Em São Paulo tem ambulante de trem de todos os tipos. Já vi menina loira que caberia em agência de modelos (isso usando de estereótipo machista).

      Cara gordo, magro, cadeirante… tem muito idoso fazendo camelô também, diga-se de passagem…

    2. A previdência é parte da solução, mas não toda ela porque o Brasil adota o sistema de repartição — os da ativa bancam aposentados e “encostados”.

      Curioso que a reforma trabalhista do Temer, amplamente apoiada pelo empresariado (pois menos despesas para contratar) e lançada como solução para o desemprego, não solucionou o desemprego e, pior, aumentou a precarização.

      1. Antes dessa reforma teve a PEC dos gastos que congelou o Estado brasileiro ao atrelar à inflação os investimentos estatais (isso num país com recessão forte) que criaram um cenário de baixa no consumo.

        Depois da PEC que veio a minirreforma trabalhista do Temer com as terceirizações e modalidades de trabalho “avançadas”.

        Ambas eram vendidas como “remédio amargo” para o país voltar ao crescimento e, por conta disso, necessárias sob a ótica de um esforço de guerra contra o desemprego e a recessão. Não faltaram vozes dissonantes na época mas, contudo, muitos ainda acreditavam que a austeridade econômica era a saída e única solução possível. Não foi na Grécia. Não foi na Espanha. Não seria no Brasil também.

        Agora o novo esforço de guerra do brasileiro pobre é não se aposentar. Ou melhor, modernizar o sistema previdenciário. Borbotões de matemáticos e sociólogos apontam a perversidade latente do modelo proposto pelo Paulo Guedes e referendado pela câmara, mesmo assim, a narrativa de “esforço” segue valendo e agora essa é a nova salvação do Estado brasileiro.

        Spoiler: não será.

        Pelo contrário, sem o dinheiro da previdência (a renda de aposentados ainda é amplamente utilizada nas periferias como motor das economias locais e microcréditos) e com as pessoas trabalhando mais tempo (e por isso mesmo gerando menos vagas de trabalho no curto e no longo prazo) a tendência é de uma queda de consumo e, por conseguinte, uma severa queda de arrecadação. Queda de arrecadação que vai nos levar à próxima reforma (provavelmente do ensino superior) onde iremos abrir mão de mais direitos e de mais sustentação social. Vai ser mais um esforço para salvar o que jamais teve chances de ser salvo: o modelo liberal de desenvolvimento.

        O próximo passo rumo ao precipício é sempre o que vai nos salvar. A canalhice desses liberais é não se venderam como “vacas sagradas do sistema bancário” (o que de fato são) e travestirem o seu discurso com um viés social mentiroso.

        Nem o mais pessimista dos brasileiro iria sonhar com o Bolsonaro + Guedes.

  6. Rapaz é por isso que boa parte das vezes quando comento sempre coloco um “rsrs” ou algum emotion mostrando que não é um ataque a ninguém. Dependendo do humor da pessoa que está lendo, seja um comentário ou post, ela interpretar para o lado negro da força.

    Percebo que dependendo do tema do artigo noto uma certa indignação do Ghedin, mas acredito que isso seja normal se tratando de Facebook ou aplicativos como esse :) .

    Nunca usei esse aplicativo, mas uso o Ifood as vezes. Nele noto que algumas vezes aparecem promoções em que penso, o que o dono do restaurante/pizzaria vai ganhar? rsrs

    Percebo que isso e boa parte das coisas que são comercializadas não possuem uma boa margem de lucro em cada produto. Como saída muitos ganham no grande volume comercializando os produtos (com margem pequena em cada um).

  7. Quando lemos essa notícia na Folha de SP essa manhã ficamos eu e minha esposa (q me chamou a atenção pro assunto) estarrecidos com a sequência de negligências, prevaricações e descasos com o cara q morreu…

    Essa lógica é a lógica do mercado, pura e simples. Os envolvidos estão dentro dessa lógica desumana de indiferença sempre justificada por alguma burocracia. Já são como robôs antes da lógica da automação ter dominado a todos nós… Sai o cidadão e entra o consumidor. Sai o servidor público e entra o operado de marketing. Sai o governante e entra um populista de ocasião (no caso, o Doria).

    Aqui em SP, há não muito tempo, um vendedor ambulante, ao defender uma pessoa LGBT, foi espancado até a morte dentro de uma estação do Metrô. Houve alguma comoção, mas as câmeras mostram q NINGUÉM fez nada para ajudá-lo. Tb há não muito tempo, no chiq supermercado PÃO DE AÇÚCAR, vi um morador de rua sendo agredido por um cliente. Eu fui o ÚNICO a me interpor e defendê-lo. Depois passei pito no gerente e na ombudsman do mercado (não deu em nada). Poderia ter chamado a polícia, mas sei q é inútil, eles não veem essas pessoas como gente q merece respeito e atenção.

    O El País publicou, recentemente, matérias sobre a dura vida desses entregadores. Está lá para todos verem (não tem paywall). Dos q andam de bike ou de moto, a vida é uma merda pra eles. Dá pra viver sem essas porcarias de entrega? Pô se dá, mas a classe média em grande parte acha que faz parte da vida ter tudo sendo entregue em casa. É uma cultura da preguiça q só se suspende em poucos casos (ir de carro à padaria, por exemplo).

    AVC é algo complicado de reverter, mas qto mais rápido se recebe o medicamento, menores são as sequelas (é uma escala de horas, qto mais horas, maiores as sequelas). Todo atendente paramédico sabe disso… É algo elementar pra eles.

    Um restaurantizinho era capaz de ter feito MUITO mais q a poderosa Rappi. A falta de humanidade do motorista da Uber é um caso q pode ser contraposto a outros de solidariedade sincera. A prevaricação dos funcionários públicos é abjeta, mas estimulada pelas autoridades da vez… É algo pra sentir muita vergonha: vergonha de como permitimos que nossas vidas sejam arrastadas pra esse lamaçal…

    Parabéns por observar essa questão, Ghedin!

  8. Ótimo texto Ghedin! Recentemente eu entrevistei o diretor do Dieese, Clemente Ganz Lúcio. Ele comenta justamente sobre essa situação. Esses caras não tem segurança nenhuma, qualquer problema ele estará sozinho sem nenhum amparo e, no Brasil já existem mais de 4 milhões de pessoas trabalhando com aplicativos. É ótimo para o consumidor esses aplicativos, mas horrível para quem depende dele para conseguir alguma renda.

  9. Rodrigo,

    Que a Rappi errou ABSURDAMENTE no trato dado ao seu “parceiro” eu não tenho dúvidas. Mas mesmo num ambiente CLT “ideal” se um sujeito cai de AVC no meio da rua, não é responsabilidade da empresa mandar uma ambulância para acudir. O desmonte no SAMU que está sendo promovido pela Prefeitura de São Paulo é o principal culpado dessa morte. É muito mais estarrecedor que qualquer porcaria de aplicativo. Corte de verba em saúde. Em AMBULÂNCIAS. Acho que uma pensata precisa estabelecer prioridades. (e lembro que a Uber, salvo engano, é uma das maiores fontes de impostos da prefeitura, só pelo link do texto).

    Manter entregadores CLT em um restaurante pequeno é muito complicado (por N motivos) e afeta o preço do produto. Esse mercado de entrega e aplicativos ajudou muitos negócios que hoje são restaurantes sem fachada que – respeitando as normas de segurança alimentar – conseguem entregar uma boa comida a um preço barato. E de novo, a CLT não salvaria o meu xará que infelizmente faleceu. Ambulâncias teriam feito isso.

    Por fim: “Quantos desses entregadores o são por opção, e não por necessidade?”. Sendo sicero, acho difícil que existam entregadores por vocação e gosto já que é sabido que é um trabalho complicado, perigoso e cansativo. Mas o que seria melhor? Uma formação escolar ideal para que eles tenham outros empregos? Hum….. A necessidade de entregas acabaria? Acho que não. Com ou sem crise.

    “velha e abjeta exploração de mão-de-obra”: Bom, exploração de mão de obra ocorre em basicamente qualquer sistema, socialista ou capitalista pra ficar nos exemplos mais queridos. Estamos digitando em equipamentos que possivelmente foram fabricados explorando isso…. Apps de entrega são a face visível disso, mas… sem querer defende-los (odeio que me obrigue a fazer isso) eles são só a pontinha do iceberg.

    Uma pensata interessante seria como a CLT pode se adaptar aos novos tempos….

    1. Certamente que não esperava que a Rappi mandasse uma ambulância ao local, mas há um abismo entre isso e simplesmente ignorar que um cara que trabalha para a empresa está morrendo e dizer à cliente que ligou pedindo ajuda apenas para que ela dê baixa no pedido para não afetar os próximos da fila, né?

      Há muita coisa que poderia ser melhor no trato que as startups de entregas têm com seus “parceiros”. Começando por tratá-los como o que realmente são: funcionários. O argumento de que entregar comida é uma necessidade e que portanto é o que temos é muito perigoso. Esticando-o um pouco, chega-se rapidinho a situações análogas à escravidão. Chame-me de utópico ou irrealista, mas trabalho algum deveria estar condicionado à própria subsistência e/ou à da sua família. O mundo nunca produziu tanto, nunca fomos tão ricos, e ainda assim sujeitamos caras como o Thiago a perderem a vida de uma maneira tola entregando sanduíche em uma noite fria sem qualquer amparo daqueles que deveriam ampará-lo.

      Discordo de que a entrega de comida seja uma necessidade. A gente vivia sem esses apps até uns anos atrás. Pagava-se mais pelas entregas e elas eram menos frequentes (pois mais caras), mas a humanidade sobreviveu. Parece-me que vários desses aplicativos de bicos vendem um luxo como acessível, só que a conta obviamente não fecha e aí quem paga a diferença é o coitado que, sem qualquer alternativa, faz a entrega em um negócio precarizado e seja o que deus quiser.

      O mundo é cheio de injustiças. A gente aponta e luta contra uma ou outra, na medida do possível. Não dá para abraçar todas de uma vez só.

      1. De novo, a atitude do Rappi foi absurda. Não tem desculpa nem explicação e mostra uma completa falta de senso básico, para não dizer humanidade. É um bom ponto que deve sim ser explorado, questionado e repreendido. Mas como vc não vive em São Paulo, talvez não soubesse do desmonte do SAMU, que simplesmente ignorou se tornou mais um caso de falta de atendimento.

        Não sou fã de anunciar minhas reações, mas sua resposta ao meu comentário me confirma o que eu deveria ter feito: sequer comentado. Ou sequer ter lido o Manual. E nem estou dizendo pq quero discutir mais ou menos mas ao apelar para utopias ou “a humanidade sobreviveu [sem apps]” vc generaliza o argumento conforme precisa defender seu texto e não há muito o quecomentar mais.

        Em resumo, você acabou de chamar seu leitor de idiota. Tudo bem, mão me ofendo. Só decepciona um pouco, e sem ironias, segue o jogo.

        1. Cara, longe de mim chamá-lo ou a qualquer leitor de idiota. Não foi um comentário irônico, sarcástico ou qualquer coisa do tipo. Aplicativos de entrega são relativamente recentes; não devem ter dez anos. Se antes nos virávamos sem eles, por que seriam uma necessidade? Não foi uma generalização para defender um ponto, foi um argumento genuíno. Se os apps de entrega só funcionam dessa maneira, talvez eles sejam inviáveis. Esse é o meu argumento e, vá lá, talvez eu esteja equivocado, mas de maneira alguma dei cartada para encerrar a discussão.

          Você sabe que eu prezo muito o espaço para comentários daqui e tenho todo o respeito por quem me lê e se dispõe a comentar. Espero que não deixe de ler o Manual. Se quiser trocar uma ideia no privado, sem plateia, me manda um e-mail. Agradeço se o fizer.

          1. Ghedin, entendo sua indignação com o assunto, mas faço das palavras do Thiagones as minhas. É um absurdo a maneira como o aplicativo tratou o assunto, na verdade vejo a resposta como CRIMINOSA, passível de punição por omissão de socorro. O mínimo de humanidade que o atendente deveria ter demostrado seria solicitar ao cliente que procurasse manter a calma, auxiliar o “parceiro” e obter socorro, algo que o mesmo (aplicativo) deveria fazer também. Isso mostra como o ser humano está cada dia mais frio, como o amor tem sido afastado das pessoas, ou as pessoas estão se afastando dele. Agora, colocar a culpa no “progresso”, falando de coisas utópicas, regredindo ao passado, ai é complicado né? Partindo desse ponto de vista deveríamos voltar à viver em tribos, escondidos em cavernas por que antigamente não tínhamos internet, energia elétrica, celular, carro e água encanada, uma vez que vivíamos sem eles e deveríamos continuar sem? Cara, é uma questão de progresso, de avanço. E, querendo ou não, a terceirização é o futuro. Sou empreendedor, filho de empreendedores, que todo santo dia tenho que batalhar pelo pão de cada dia, assim como cada um desses parceiros, que, ao contrário do que pareceu no texto, não são obrigados à trabalhar dessa forma, não é um trabalho escravo. Como empreendedor sei bem o peso de uma CLT, que tinha suas vantagens (e desvantagens) pra mim como empregado, mas que hoje é um grande conjunto de empecilhos para que quer empregar. De um lado temos um governo faminto por arrecadação e do outro um conjunto de regras e direitos que muitas vezes sequer são vantajosos para o trabalhador. O que fazer? Apelar para a terceirização. E, por incrível que pareça, não é algo obrigatório. Eu tive a oportunidade de ser uber, mas depois que conheci as “vantagens” do aplicativo, resolvi nem começar. Sabe por que? Porque achei um absurdo dar 1/4 do meu rendimento para uma empresa sendo que é o meu carro e o meu combustível que estão sendo consumidos. Particularmente não achei viável, mas não critico quem trabalhe. E, não sou hipócrita pra não usar o aplicativo, afinal o dinheiro que ganho exercendo meu trabalho atual, tem o mesmo valor que o motorista do uber ganha fazendo o serviço dele. Então, criticar o aplicativo pela sua atitude DESUMANA é muito cabível, criticar o SAMU pela falha é ainda mais cabível (e acho que deveria ser o ponto central, afinal era responsabilidade principal fornecer socorro), mas vir dizer indiretamente que “os culpados somos nós que usamos o serviço porque nossa rotina hoje é diferente do que tínhamos há 10 anos atrás” é algo meio desconexo. Tudo muda… A rotina das pessoas, os costumes, os hábitos, as profissões, não há como segurar isso, por mais “nobre” que seja o motivo. E, pra finalizar, se os aplicativos são tão injustos, por que o rapaz trabalhou com isso por 2 anos? Por 2 anos, de onde veio o sustento dele? INSS? Seguro desemprego? CLT? Esmola? Bolsa isso ou aquilo? Não me diga que era por falta de opções porque isso sempre tem, as escolhas são nossas. Acho a reflexão do texto interessante, mas direcionar a culpa da fatalidade (e olha que nem foi um acidente, assalto ou algo diretamente ligado à execução da atividade, foi um AVC que poderia ter acontecido à qualquer hora ou local) para a comodidade de se contratar um serviço virtualmente, “porque antigamente não era assim” tirou um pouco do foco do real problema da situação.

          2. @ Diego Gonçalves

            Agora, colocar a culpa no “progresso”, falando de coisas utópicas, regredindo ao passado, ai é complicado né?

            Por que é complicado? Uma das premissas do Manual do Usuário é justamente questionar essa noção de progresso, porque ela, em muitos casos, tem por objetivo enriquecer fundadores e investidores, não em melhorar o mundo. Mudar hábitos é parte do processo e efeitos colaterais são encarados como externalidades ante o real objetivo da empreitada.

            Veja, para ficarmos no caso em debate, como os apps de entrega de refeições se estabeleceram. Startups novas, sem um modelo de negócio comprovadamente sustentável, recebem uma infusão de capital de firmas estrangeiras que, por sua vez, são abastecidas majoritariamente por fundos soberanos de nações que não são lá muito democráticas, como a Arábia Saudita. É cômodo usar um iFood ou Rappi da vida — nunca neguei isso —, mas você vê como quem tem dinheiro usa essa grana para moldar o seu comportamento a fim de que, em alguns anos, eles ganhem ainda mais dinheiro e poder?

            Outro exemplo, este de um ciclo mais fechado e, portanto, mais fácil de enxergar: a Uber. Um lunático, Travis Kalanick, inventa um lance de pedir carros por aplicativo porque, reza a lenda, teve que voltar para casa a pé um dia. Cria uma startup que, ao longo de pouco mais de sete anos, se envolve em todo tipo de escândalo possível, de assédio de funcionárias a monitoramento de autoridades policiais nas cidades onde atuava ilegalmente. Quando chega a hora da saída, após receber dezenas de bilhões de dólares de investimento porque a operação nunca fechou um trimestre no azul, diz com todas as letras no formulário submetido à SEC que talvez jamais dê lucro. Nesse meio tempo, os motoristas, ou melhor, os “parceiros” se viram para lidar com faturamento cada vez menor em condições de trabalho precárias. Mesmo chutado da própria empresa porque tudo tem um limite, Kalanick ainda detém uma fatia generosa das ações da Uber, o que lhe rende uma fortuna obscena de US$ 9 bilhões após o IPO da empresa.

            O que eu quero, com essas discussões, é que a gente enxergue além do que está diante dos nossos olhos. É surreal que a gente consiga cruzar a cidade em um carro pagando R$ 10 e receber um hambúrguer em casa por R$ 3. Óbvio que é vantajoso para quem usufrui. O problema é que a conta não fecha e, até onde eu sei, ninguém joga dinheiro no ralo — principalmente quem já acumulou muita riqueza e coloca milhões, bilhões em empresas novatas sem um modelo de negócio provado.

            Por que fazem isso? Quais são os incentivos e as promessas no investimento pesado em startups? Ao ignorarmos essas questões — que são mesmo difíceis de serem respondidas —, a gente acaba fechando os olhos para injustiças. Sinceramente, eu não quero ter parte nisso. Faço a ressalva que nem todas startups e, arrisco dizer, boa parte dos empreendedores que se aventuram nesse modelo têm boas intenções, mas o mínimo que alguém interessado pode fazer é tentar entender por que e em que condições esse tipo de “progresso” ocorre e, aí sim, bem informado, posicionar-se.

            Nem tudo que é vendido como progresso, que se parece, tem gosto e cheiro de progresso, é, sob uma análise minuciosa, progresso de fato. Tudo o que eu peço é que analisemos essas questões, que julgo importantes, com um pouco mais de critério.

        2. Licença para entrar na conversa?

          Acho que apesar de ter as confluências do seu primeiro comentário – temos um problema sério na questão da saúde – acho que o ponto principal da conversa é que estamos criando vagas de emprego que no final acabam servindo para ocupar mais vagas na saúde pública, seja por estresse, estafa, sobrecarga mental e física.

          Sinceramente, e não por mal, não vi ofensa nas palavras do Ghedin, só a indignação que ele mesmo relatou e sinceramente tenho acompanhado mais essa linha de pensamento dele.

          Se a exploração de mão de obra continua, mesmo sob outras vestes (Agora da “gig economy”), a gente tem que pensar como combate-la. Fica a questão: por que as empresas de App não se unem para ajudar a reformar o SAMU por exemplo? Criar apps de eficiência para o serviço?

          Se “o mercado” ignora os cidadãos do Estado, este que consome o mercado, uma hora estes cidadãos ignorarão “o mercado”.

          “Nada contra, mas…” é uma velha falácia que vou usar aqui, vamos dizer: Nada contra usar aplicativo de gig economy, mas acho que pensar no que essa galera sofre por mixaria seria uma forma de compensar esta mixaria que eles sofrem.

          O único app de gig economy que uso é 99 (só instalo quando uso e desinstalo quando a corrida termina). Prefiro pedir a comida no balcão (até porque sai caro pedir via motoboy, isso quando o motoboy não empina a moto e a mussarela só fica de um lado da pizza, mas não cabe aqui a piada).

    2. Não é apenas em SP que ocorre o desmonte da SAMU e do SUS. Esse projeto é nacional.

      O que mais me deixa irritado nesse caso não é a atuação da Rappi ou a falta de trato da SAMU, o pior é que o motorista do Uber se negou a levar o cara pro hospital. Porque ele fez isso (e por mais que eu não goste do Uber, não vejo culpa da empresa nisso, ainda)?

      E uma desumanização sem fim você não querer levar pro hospital uma pessoa que está morrendo na calçada, seja por qual motivo for.

      1. Paulo, vc tem razão, é um projeto nacional, mas acompanho bastante o problema localizado em São Paulo e acabei focando nisso.

        Não sei os detalhes ou se tem alguma orientação pessoas em emergência médica no Uber e é bem ruim imaginar essa negação. Ainda mais pq é um AVC e não um trauma físico (como um acidente no trânsito). Mas de novo, faltou o básico do básico e que todos podemos precisar algum dia e em alguma rua qualquer: ambulâncias.

        Paulo, você é um cara muito bacana e inteligente e foi muito bom discutir com você por aqui. Abs!

      2. Penso assim também. Em todo canto – inclusive aqui – vejo muita energia sendo gasta apontando o dedo pros apps e suas Evil Corps, mas só um cochicho sobre INDIVÍDUO que cometeu crime de omissão de socorro.

        Não foi a Uber que mandou o cara recusar a corrida. Foi uma pessoa, cidadã e sujeita aos direitos e deveres previstos na Constituição e às penalidades do Código Penal que recusou.

        O mesmo vale pro SAMU, essa sim a entidade que deve ser responsabilizada junto com seu responsável direto, Bruno Covas, que deveria responder criminalmente.
        Se quando uma empresa privada comete crime, o presidente é responsabilizado, por que na administração pública seria diferente?

        Apps não matam pessoas. Pessoas matam pessoas. O erro de Uber e Rappi foi em não ter ferramentas eficientes pra esse tipo de situação, e acabou aí. Quem devia rodar, na minha opinião, é o atendente do Rappi que deu a tal resposta (que aliás, é bizarra, pois no Rappi não existe “fila” de entrega), o “monstrorista” do Uber, e o prefeito de SP, conforme expliquei acima.

        1. A fila de entrega deve ter sido as entregas do entregador que morreu. Normalmente eles tem bem mais de 3/4 entregas naquela bolsa.

          A SAMU e a Rappi tem culpa nas suas políticas, mas o motorista do Uber que se negou a socorrer é apenas um sujeito pequeno e mesquinho que, tomara, se ferre.

    3. eu vejo essa morte como uma combinação de fatores. não era só o samu, apesar do poder público ter a obrigação de ter atendido o homem prioritariamente. a rappi, como uma empresa poderosa, poderia ter ajudado? sim, poderia, pq tem recursos para tanto. inviabilizaria o negócio deles ajudar as pessoas? não… mas diminuiria o lucro no curto prazo.

      o q pega é a sequência e contexto q foram bem observados pelo ghedin. a clt está sob ataque há alguns anos já e eu tb acho q ela precisa ser modernizada, mas modernizada para proteger mais e não menos. equilibrar os deveres de uma super empresa e um micro ou pequeno empresário me parecem fundamentais pra justamente não inviabilizar os q podem menos. mas se isso tb nos levar a uma exploração desumana seria preciso repensar o trabalho como um todo. e a nossa sociedade é plenamente capaz disso, mas obviamente não com essas lideranças.

      qdo vc coloca na balança q esses caras q fazem essas entregas estão carregando coisas q poderiam ser muito bem perfeitamente buscada pessoas, a gente vê a falta de sentido q é fazer um cara se arriscar (pelo nosso pedido e vontade) pra entregar uma simples pizza… submeter uma pessoa a isso, agora por tão pouco, é algo q deveria fazer a gente parar e pensar: não, não é justo.

  10. “Quantos desses entregadores o são por opção, e não por necessidade?”

    É sério isso, Ghedin?

      1. Alguém trabalha por opção como entregador, Ghedin? Alguém faz alguma coisa que não seja por necessidade nessa faixa salarial, nesse nível de risco?

        Alguém se submete aos aplicativos da vida, se não for por necessidade?

        1. Suas perguntas são retóricas? Porque são obviedades e não explicam em nada a sua incredulidade com o meu argumento.

          Nessa linha, te devolvo perguntas também. Você acha correto que alguém se sujeite a qualquer tipo de trabalho, especialmente um precarizado, sem qualquer garantia e ganhando uma mixaria, por não ter opção? Você acha ok alguém aceitar esse tipo de trabalho para subsistir? Que, se esse cara não sair à noite entregando sanduíche, ele e a família dele passem fome?

          1. Ok, primeiro eu vou responder as suas perguntas. Sim, eu acho correto que alguém tenha ao menos a chance de pagar suas contas e de prover para sua família, se é o melhor que tem a fazer no momento. Eu e a torcida do Flamengo, diga-se de passagem. No mundo real é assim que funciona.

            Novamente me pego tentando entender como vivem e do que se alimentam o pessoal que escreve sobre tecnologia. Mas, enfim, divago.

            Sim, eu acho ok alguém aceitar esse tipo de trabalho porque precisa pagar suas contas minimamente, prover para sua família, e efetivamente comer.

            Sim, infelizmente esse cara, se não sair à noite entregando sanduíche, ele e a família talvez passem fome. Já viu a fila do desemprego lá fora, Ghedin? Já viu do que vivem as pessoas? É errado subsistir? Qual a opção? Qual a saída mágica?

            Cara, sinceramente eu não sei o que aconteceu com você na Gazeta. Seus textos estão duros, agressivos, lacrativos. Te acompanho deve ter uns dez anos ou mais, e não estou te reconhecendo. Culpar o App pela morte do cara é de um descompasso atroz com a realidade.

            Minhas perguntas não foram retóricas. Minhas perguntas foram objetivas. São obviedades, sim, mas o seu argumento é tão fora da realidade, que as perguntas se tornam pertinentes.

          2. A Gazeta do Povo tem uma linha editorial mais parecida com a tua opinião do que com a minha; se serviu para alguma coisa nesse sentido, foi para eu reafirmar as minhas convicções. E não consigo imaginar outro veículo de tecnologia brasileiro que tenha os posicionamentos similares aos meus; novamente, a maioria parece mais alinhada a você.

            Eu reconheço que muitos dos meus textos estão mais agressivos. O mundo está ensandecido, estamos em um delírio coletivo e parece que ninguém faz nada, ou pelo menos a parte da população (na qual me incluo) que desfruta desses arranjos cruéis. Porque para mim é muito cruel que alguém tenha que se submeter a um emprego bosta, sem qualquer garantia, para subsistir. Coloque-se nessa situação. Exercite um pouco a empatia. É quase desumano, cara.

            A gente vive em uma sociedade tão rica, mas que concentra a renda nos poucos que já têm de sobra. Isso é muito, muito errado. E é igualmente cruel normalizar esse cenário, porque aí você se torna conivente com um sistema que segrega e explora quem não tem dinheiro. Por isso meus textos estão mais agressivos: porque, além de boicotar essas empresas, é o mínimo que posso fazer com o espaço que tenho aqui.

        2. Licença para entrar na conversa?

          Cara, provavelmente já deve ter visto moleque de 15/16 anos fazendo entrega de bicicleta. Ou até mesmo de moto. Alguns deles fazem por “opção” (vamos colocar assim, entre aspas mesmo), porque o cara não é que não queira ir pra escola ou não tenha estágio. Mas sim porque o cara quer ter “o pisante do momento”, “o pano pra balada”, o dinheiro pra comprar narguilê e o “bagulho”.

          Isso colocando o quê, vamos botar tentando colocar em uma porcentagem, uns 15, 20% dos caras que trabalham nisso.

          Acho que você e o Ghedin brigaram a toa, pois de fato ambos defendem o direito a trabalhar. Mas em uma coisa o Ghedin tá certo: tem que ser justo com o trabalhador, não apenas com o cara que pôs o código pra funcionar, e o outro que cuida do servidor, e ainda mais, não deixar só os louros do lucro com o investidor e/ou dono do app.

      2. Rodrigo, reparou que o público aqui está mudando?

        ALiás, colegas em geral, repararam?

        De uns dias pra cá toda vez que venho ler os comentários tem machista defendendo machista ou então gente defendendo megaempresa…

        Os caras tão saindo do armário ou o publico está mudando?

        Estou com um pouco de medo disso, sério.

        Parece refletir o cenário de destruição do poder no país hoje.

        1. Eu acho que isso é efeito do aumento da visibilidade do Manual nos tempos de Gazeta.

          Mesmo com o conteúdo do site sendo mais “de nicho”, ter ficado num grande portal o trouxe à luz pra mais gente, inclusive os mais extremistas.

          Depois que o site voltou a ser independente (e sem paywall), o acesso só foi mais facilitado pra todos, tanto leitores das antigas, como novos leitores de várias opiniões e humores diferentes.

        2. Em qualquer site de tecnologia de consumo é assim. Meiobit e Tecnoblog são mais tóxicos que a lavoura brasileira em tempos de bolsonaro, por exemplo: o que tem de macho escroto liberalzinho de quermesse não dá pra contar.

          O MdU sempre teve leitores mais interessantes. Infelizmente tem sido invadido por essa escória que acha certo, natural e justo que a mão invisível do mercado enfie o dedo no nosso cu sem a gente ter direito a reclamar.

  11. Por necessidade ou não, é sempre uma opção do indivíduo trabalhar para certa empresa ou não, querer que o governo regule isso é somente uma forma de diminuir a concorrência e aumentar preços do serviço, além de gerar desemprego.
    Este mesmo entregador que morreu trabalhando, poderia ter morrido de fome por não encontrar um emprego, em um cenário hipotético.
    Um solução seria deixar o mercado resolver essa questão, por exemplo com boicote a empresa que não oferecem uma boa qualidade ao funcionários. Se iria dar certo ou não no brasil, so demonstraria a moral media do povo.
    Mas séria melhor do que força empresas a se moldarem a uma legislação extremamente burocrática brasileira.

    1. Mas deixar o mercado livre agir como quiser não dá certo pq empresas podem agir como quiser não cara, o mercado livre é para gerar concorrência com regras justas e sérias para todo mundo. Então vc tá dizendo que o deveria deixar o Mercado Livre agir sem regras justas que mata os funcionários e fecha as empresas que estão começando é mercado livre cego e frio.

      1. O mercado nunca age como quer. O mercado opera para ter lucro. Acho que há uma confusão sobre o que seria de fato um mercado livre. O mercado que impõe regras é aquele que é regulado, e que não é livre.

        1. Na verdade, segundo Friedman e Smith, o mercado precisa de regulações pontuais para manter-se livre (ou, em liberdade de concorrência). É nesse sentido, por exemplo, que a cartilha liberal clássica determina que existam agências reguladoras que determinam marcos regulatórios que balizam a atuação das empresas privadas mantendo o ambiente de competição livre de monopólios indesejados. O papel do Estado é regular esse mercado para que não ocorram assimetrias muito latentes.

          O mercado age com sistemas de pesos/contrapesos que determinam as forças internas do seu funcionamento. Um nicho que demande um determinado serviço ou produto dificilmente será atendido (ROI baixo) dentro da lógica de mercado, exceto, se for possível cobrar bastante dessas pessoas e assim atenuar o preço de se operar com baixo estoque/vendas. O mercado age, essencialmente, suprindo lacunas de massas consumidoras (a moda do consumo médio de cada cidadão) com pequenos desvios dentro da curva gaussiana da distribuição de mercado (uma normal) não existe lucro nas pontas baixas e o lucro nas pontas altas é determinado pela quantidade de operadores (consumidores) de luxo que esse mercado absorve. O lucro, de fato, se dá dentro do espaço de concorrência dos extratos intermediários desses consumidores. Nesse sentido, os mercado age baseado em forças antagônicas (custo/lucro) para operar de maneira máxima dentro do setor.

          Você confundiu livre mercado com mercado sem regras.

          1. Já percebi o seu ânimo e não vou debater com você. Mantenho a minha opinião anterior.

          1. Você não faz ideia do que eu sei ou deixo de saber, e eu sinceramente tenho zero interesse em aceitar suas provocações. São tão rasas quanto os seus argumentos.

        2. Eu não disse que fazia ideia do que você era (eu bem dizer escrevi isso literalmente). Mas meus argumentos, se são rasos, estão expostos. Os seus são apenas wishful thinking.

          Você é demasiadamente agressivo pra alguém que apenas foi questionado.

    2. Não deu certo no Brasil. Não deu certo em nenhum local do mundo. Todos os países da OCDE tem agências e marcos reguladores. No próprio texto temos exemplos de protestos em outros países. Nos EUA não é incomum ocorrerem ganhos judiciais em detrimento do Uber e suas práticas a favor dos trabalhadores.

      O mercado de trabalho é uma relação assimétrica de forças: empregador e empregado. Essas forças precisam estar sob constante escrutínio para manterem-se produtivas e funcionando, por isso a necessidade de justiças trabalhistas, marcos regulatórios e acordos sindicais que matenham o trabalhador com direitos e deveres dentro do sistema de trabalho.

      Sobre ser ou não escolha, isso recai na situação do país. Uma pessoa tem escolha quando ela trabalha ou passa fome? Uma pessoa tem escolha quando ela trabalha ou deixa a sua família passando fome? Qual o grau de escolhe que se tem dentro dessa estrutura de trabalho/consumo?

      1. Dá pra não usar ou usar o mínimo possível. Depende do contexto. Dá pra escrever pra essas empresas e protestar sobre essa situação. Dá pra fazer várias coisas além do boicote. O ponto é: isso muda algo? Talvez mude pouco, mas é importante marcar posição e apoiar qdo esses caras q fazem esses trabalhos se unem por querem direitos e proteções sociais. Infelizmente, qdo fazem isso, a sociedade os chama de vagabundos, petistas etc.

        1. O meu ponto é: sempre que se fala em impor regras para evitar que empresas explorem a força de trabalho sob o argumento de serem “trabalhadores independentes”, algum fulano surge para dizer que a solução para essa exploração no livre mercado é boicotar a empresa – mas dificilmente os filhos de Von Mises colocam em prática essa ideia genial. Ou porque são hipócritas que falam uma coisa e fazem outra, ou porque, na real, não veem essa exploração como um problema, mas são a favor dela sob o argumento de “ah, melhor isso que passar fome”, frase que eu tranquilamente imagino saindo da boca de um senhor de escravos do século passado.

    3. Essa história de deixar o mercado se regular sozinho só funciona numa situação de pleno emprego, onde o trabalhador pode escolher a empresa que te dá melhores condições e dar uma banana às outras.

      Do jeito que está, se uma pessoa boicota a empresa, tem mais mil passando a mão na cabeça dela. O ser humano não dá a mínima pra moral quando a barriga ronca e os boletos chegam.

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