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A difícil tarefa de reinventar o e-mail

Telas do Hey contra um fundo com bolhas coloridas.

Muitos aspectos das nossas vidas são tão naturalizados que só os percebemos quando algo sai do roteiro ou alguém chama a atenção a eles. O e-mail, goste dele ou não, é um desses. O pessoal do Basecamp, um prestigiado gerenciador de projetos, lançou um novo serviço de e-mail que, dizem eles, joga luz e resolve alguns dos problemas graves do e-mail.

O Hey é uma abordagem radical do e-mail. A experiência nuclear, ou seja, a troca de mensagens, permanece; o que muda ali são os fluxos de trabalho adaptados a como a maioria — ou, pelo menos, o público-alvo do Hey — usa o e-mail hoje.

Na prática, o Hey rompe alguns paradigmas importantes, como o da caixa de entrada. Em vez de uma só, há três: “Imbox” (assim mesmo, “errado”), com mensagens importantes de pessoas; o feed, com newsletters e mensagens de marketing; e o “rastro de papéis”, com recibos e comprovantes. Outra ruptura é no recebimento de mensagens: qualquer novo endereço que lhe envie um e-mail cai em uma caixa de triagem à parte, onde o usuário pode autorizá-lo ou negar o acesso, o que faz com que futuras mensagens sejam ignoradas de pronto.

Alguém pode dizer que outros provedores, em especial o Google com as caixas prioritárias e o app Inbox (descontinuado), já tentaram essas abordagens. Não deixa de ser verdade. No caso do Hey, a diferença é que todo o trabalho é feito pelo usuário, sem a inteligência artificial por trás das soluções do Google. Essa filosofia, que já movia o bem-sucedido Basecamp, está impregnada no Hey; tem até um “manifesto” nesse sentido. É uma maneira diferente de tentar resolver alguns problemas que, mesmo com todo o peso e recursos do Google, ainda têm arestas a serem aparadas.

O Hey também tem algumas soluções inéditas, como os recursos de organização e edição de mensagens. O usuário pode rebatizar assuntos de e-mails, juntar mensagens distintas que tratem de um mesmo tema em uma thread e anexar anotações às mensagens. Tudo isso só acontece na sua ponta, ou seja, é privado e não altera as mensagens para os interlocutores. Outra coisa legal são as pilhas de “responder depois” e “deixar à mão”, que tiram as mensagens da caixa de entrada e as colocam em filas para fins específicos. Ah, e o Hey bloqueia por padrão os pixels de rastreamento, como os do Mailchimp, além de carregar imagens de seus próprios servidores, funcionando como uma espécie de VPN, preservando a privacidade dos usuários.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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Sendo um meio de comunicação antigo, com cerca de 50 anos de iterações e melhorias, o e-mail é bastante maduro, o que dificulta reformas radicais como a que o Hey propõe. As últimas grandes revoluções no protocolo foram o salto exponencial do espaço para armazenar mensagens, obra do Gmail em 2004, e o aperfeiçoamento dramático dos filtros de spam nos primeiros anos dos anos 2010. O Hey propõe boas ideias, mas talvez elas não sejam revolucionárias. A maioria facilita recursos que já existem e estão escondidos em menus e opções nada amigáveis.

Tomemos, por exemplo, o feed. É uma boa ideia separar newsletters das mensagens comuns. Melhor que isso, é algo que pode ser replicado em qualquer provedor que trabalhe com pastas/etiquetas e regras de mensagens. Eu mesmo implementei isso no meu (Fastmail); a partir de agora, as newsletters que assino passam reto pela caixa de entrada e são marcadas com uma etiqueta específica. No Gmail, como já dito, esse recurso é padrão e automatizado.

Dois prints lado a lado: o feed do Hey e o Apple Mail mostrando a etiqueta de newsletters que configurei manualmente.
À esquerda, o feed de newsletters do Hey; à direita, o filtro de newsletters que configurei no meu velho e-mail.

Outro possível problema do Hey é a quantidade de trabalho extra que ele gera e os dilemas paralisantes que podem surgir nessas tomadas de decisões. A triagem de novos remetentes, por exemplo. Dependendo do volume de mensagens que alguém receba, pode virar um trabalho à parte. Um caso particular ilustra os possíveis dilemas dessa mecânica: algumas agências assessoram vários clientes. Se recebo comunicados e novidades de alguns desses e apenas um realmente interessa à minha cobertura, vou banir o remetente ou permiti-lo, mesmo que isso signifique receber muitas mensagens indesejadas?

O Hey é relativamente caro (US$ 99 por ano, pagos de uma vez só; até US$ 999 por ano se quiser um endereço com duas letras) e deixa de lado deliberadamente alguns recursos básicos de e-mail, como suporte a domínios próprios (está no horizonte da empresa, mas, hoje, todos os e-mails criados terminam com @hey.com) e a protocolos padrões, como o IMAP, que permite usar o e-mail em aplicativos convencionais, num Outlook ou Apple Mail da vida. Não dá, também, para importar o histórico de outros e-mails, caso você decida dar uma chance ao Hey sem gerar uma dividir suas mensagens em dois locais.

A iniciativa de confrontar os problemas remanescentes do e-mail é louvável. Embora seja um meio maduro, fruto de décadas de aperfeiçoamento, ainda há margem para melhorias. Só não sei se são essas propostas pelo novo serviço que darão o salto que a maioria nem espera, mas seria grata em dar. Pelo preço salgado e o tanto de comprometimentos que exige dos usuários, ficarei na dúvida indefinidamente.

Jason Fried, um dos co-fundadores do Basecamp e do Hey, publicou um “tour em vídeo” de quase 40 minutos do Hey (em inglês). É a melhor maneira de conhecer as sacadas do serviço e as idiossincrasias de quem o criou.

Imagem do topo: Hey/Divulgação.

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7 comentários

  1. Acho que prometeram demais e trouxeram algo dentro do imaginável. Eu achei que seria algo super revolucionário, pelo modo como falavam antes de lançarem.
    Eu ia dizer que agora era só esperar as empresas maiores colocarem esses mesmos recursos nos apps, mas se não tentaram algo até agora, não sei se isso mudaria alguma coisa, além de que o Google simplesmente matou um app que muita gente gostava, então…

  2. Acho louvável (e ousada) a tentativa de reinventar algo tão consolidado.
    O Hey terá um público de nicho, mas mesmo assim tem tudo para ser um produto que gere um bom lucro para a Basecamp.

    Uso o Gmail atualmente para o meu email pessoal e ele me atende perfeitamente. O meu grande fluxo de emails é no meu email corporativo, porém só tenho a opção de usar o Outlook da Microsoft (e isso não deve mudar tão cedo).

    Resumindo, o Hey é um ótimo produto que não terei acesso! :)

  3. Eu gosto do e-mail do jeito que funciona atualmente… tudo chegando na caixa de entrada, sem precisar ficar entrando em diversos links ou pastas separadas. Daí eu mantenho o urgente, arquivo o importante e excluo todo o resto.

  4. Eu não me interessei justamente porque não tenho muitos problemas com meu e-mail e esse é bem caro….estava acompanhando mais pela briga do Basecamp com a Apple pela aprovação do aplicativo.

    Entretanto, isso me levantou uma dúvida em relação a esses serviços de e-mail alternativos: alguém já testou esses europeus tipo Mailbox https://mailbox.org/en/ ? Parecem interessantes, funcionando com IMAP acredito que não mudaria em nada minha rotina, já que uso basicamente o Spark como cliente de e-mail.

    1. Serve um australiano? Ou indiano? Uso o Fastmail (pessoal) e o Zoho (Manual) configurados no Apple Mail, tanto do iOS quanto do macOS. É como qualquer outro e-mail, na real, e acho essa consistência positiva.

      O webmail do Zoho é bem caótico. Já o do Fastmail é ótimo, super leve, fluído, muito bom mesmo. Tem até uns recursos bacanas, como o “snooze”, que acabo não usando porque prefiro usar um app para e-mail em vez de acessar a versão web.

      1. Uso o Zoho e prefiro o cliente mobile do que o web. Eles poluíram muito com acesso a outros aplicativos do pacote deles. Talvez façam sentido, mas pra mim é só poluição.

        O Protonmail versão beta é super fluído.

  5. Email, tv, telefone e livros: não existe motivo para reinventa-los.
    Por isso que todos os que tentam, falham.

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