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Pagamentos pelo WhatsApp: O que esperar?

Prints do WhatsApp e WhatsApp Business realizando uma transferência de dinheiro.

De surpresa, o Facebook escolheu o Brasil para lançar seu sistema de carteira digital dentro do WhatsApp na última segunda-feira (15). Por ser o aplicativo mais popular do país, usado por praticamente todas as pessoas que têm um celular, é natural que a notícia tenha causado comoção. Se à primeira vista pode parecer que será mais um passeio do Facebook na dominação de um segmento de mercado, uma olhada mais atenta revela sinais de que, desta vez, talvez não será tão fácil assim.

Comecemos pelo básico: o que é, afinal, esse sistema? Engana-se quem acha que é um “WhatsApp Pay”. O sistema apresentado no WhatsApp é, na realidade, uma carteira digital do Facebook, chamada Facebook Pay e que, no futuro, será estendida às outras plataformas da casa, como Instagram e Messenger. Não é preciso ter conta no Facebook para criar uma no Pay, dá para fazer tudo pelo WhatsApp. Essa mesma conta, porém, deverá funcionar em qualquer propriedade da empresa.

Um aspecto pouco comentado, mas importante, é a necessidade de estar inserido no sistema bancário para transacionar pelo WhatsApp. Isto aqui não tem absolutamente nada a ver com a Libra/Calibra/Novi, aquela criptomoeda anunciada com ares terroristas pelo Facebook em 2019. O Facebook Pay joga com as regras bancárias debaixo do braço, parceiros institucionais a seu lado e respeitando a soberania do país. Menos mal.

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No Brasil, as primeiras parcerias do Facebook no Brasil foram firmadas com Banco do Brasil, Nubank e Sicredi. Segundo levantamento da Folha, esse rol de parceiros se traduz em público potencial de pouco mais de 50 milhões de pessoas, o que é expressivo, ainda que represente menos da metade do total de usuários do WhatsApp no país. Ao demandar a posse de cartões de débito ou crédito para usar sua carteira digital, o Facebook — presumivelmente — exclui do seu escopo os desbancarizados, público que mais se beneficia e que costuma estar na mira de soluções menos burocráticas como é o caso aqui.

Transferências entre pessoas físicas só são possíveis com um cartão de débito cadastrado no Facebook Pay. Elas são gratuitas, mas a transação só se completa em D+1, ou seja, depois de um dia útil. Existem alguns limites: envio de até R$ 1 mil por dia, recebimento de até 20 transações por dia e movimentação máxima de R$ 5 mil por mês. Não está claro, ainda, onde o dinheiro transferido vai parar — se ele fica em uma carteira digital para ser usado dentro do WhatsApp, como acontece com o Ame da B2W, ou se ele entra na conta corrente de quem recebe.

No caso dos pagamentos a empresas que vendem pelo WhatsApp Business, débito e crédito são aceitos, o dinheiro cai na conta (corrente, do banco) em D+2 e é cobrada da empresa uma taxa de 3,99%, o que é bem caro para débito, mas na média do que o mercado cobra nas operações com cartão de crédito de acordo com um levantamento do 6minutos, braço editorial da fintech C6 Bank. Todas as empresas que quiserem aceitar pagamentos pelo WhatsApp terão que se cadastrar na Cielo, parceira do Facebook no processamento dos pagamentos. Não há taxas fixas, mensalidades, nem a necessidade de se alugar ou comprar maquininhas.

Embora para muitos haja um fator de novidade aí, na real o Facebook chega um pouco atrasado a uma festa que já está rolando há tempos em uma das suas propriedades mais populares. Quando conversei com o Juliano Spyer, da Behup, sobre os usos para e-commerce do WhatsApp pelas classes C e D, ele comentou sobre os “links de pagamentos”, um método comumente usado nessas transações. Muitos players agora rivais do Facebook Pay, como PagSeguro, Mercado Pago e Pagar.me, oferecem a funcionalidade, que consiste em criar uma cobrança, com descrição do produto ou serviço e valor devido, compartilhável com um link único e pagável de diversas maneiras, de cartões ao velho boleto. As taxas são similares às do cartão de crédito. Pesa a favor do Facebook a comodidade de ter todo o processo dentro do WhatsApp — tudo, até os cadastros no Facebook Pay e na Cielo, podem ser feitos sem deixar o app —, mas não é como se Mark Zuckerberg estivesse levando a luz ao fundo de uma caverna escura.

Nas redes sociais, uma das grandes preocupações manifestadas foi a de que o novo sistema pode ser um facilitador da aplicação de golpes. Ao, nas palavras de Zuckerberg, “tornar o envio e recebimento de dinheiro tão fácil quanto compartilhar fotos”, uma porteira estaria se abrindo para golpistas. É algo a se acompanhar de perto. Com mais comerciantes, incluindo alguns grandes, como Via Varejo e Magazine Luiza, presentes e vendendo pela plataforma, aumentam as oportunidades para pessoas má intencionadas agirem ali dentro.

O rival brasileiro

Marca do Pix.
Imagem: Banco Central/Divulgação.

A maior ameaça a um suposto plano de conquista do Facebook, porém, ainda não está no mercado. É o Pix, o novo sistema de pagamentos instantâneos desenvolvido pelo Banco Central. Ele deve ser lançado em novembro, será obrigatório a instituições bancárias com mais de 500 mil clientes e tem vantagens consideráveis sobre o Facebook Pay: a transferência é praticamente instantânea e o custo, se houver, será na casa dos centavos.

É curioso, aliás, que o lançamento da carteira digital do Facebook tenha se dado no Brasil, e não na Índia, onde está em testes há mais tempo. Segundo o TechCrunch, o Facebook está “preso em um labirinto regulatório” que o impede de expandir o programa no país asiático. A Índia já possui um sistema similar ao Pix em operação, ao qual o Facebook Pay terá que se adaptar. Fica a sensação, obviamente impossível de ser comprovada, de que o Facebook se antecipou ao Pix numa tentativa de fincar sua bandeira aqui e ganhar terreno antes que um sistema melhor, descentralizado e aberto, criado pelo Banco Central em diálogo com todo o sistema financeiro nacional, chegasse. Em outras palavras, é o Facebook sendo Facebook.

O Banco Central manifestou-se sobre o lançamento do Facebook Pay e os pagamentos via WhatsApp. Em nota à imprensa, disse que “está acompanhando a iniciativa do WhatsApp e avalia que há grande potencial para sua integração ao PIX. Entretanto, o BC considera prematura qualquer iniciativa que possa gerar fragmentação de mercado e concentração em agentes específicos”. Nesse sentido, o BC endureceu o tom ao dizer que será “vigilante a qualquer desenvolvimento fechado ou que tenha componentes que inibam a interoperabilidade e limite seu objetivo de ter um sistema rápido, seguro, transparente, aberto e barato”. Aparentemente, o BC também teme que esse movimento repentino do Facebook tenha motivações monopolistas.

Em nota não relacionada, o Banco Central divulgou nesta quarta (17) a primeira lista de instituições em processo de adesão ao Pix. São 980 nomes, incluindo todas as instituições financeiras parceiras do Facebook Pay.

Atualização às 17h50: Revisada a informação de que o dinheiro transferido entre pessoas físicas fica em uma carteira digital do Facebook Pay. Estou averiguando o que de fato acontece e, quando tiver uma resposta oficial, atualizarei outra vez este post.

Imagem: Facebook/Divulgação.

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7 comentários

  1. Quando li sobre isso semana passada eu tinha ficado com a impressão de que o Facebook estava tentando criar o seu WeChat no ocidente, começando por um país onde ele poderia se valer da alta taxa de desbancarizados para emplacar um sistema de pagamentos/conta que fosse monopolista (sim) mas que facilitasse o seu uso por quem quer pagar/receber por serviços sem burocracia.

    O WeChat na China é assim faz algum tempo, usando QRCode (e foi matéria do Ghedin anos atrás) e criando um sistema de pagamentos muito mais robusto (eu tenho um amigo que mora na China e ele diz que 90% dos vendedores pequenos, de rua, usam o WeChat pra tudo, sem conta em banco efetivamente).

    No final, contudo, o Facebook só criou um AME sem cashback.

    1. Muito legal a definição: “é um AME sem cashback”.

      Por conta dessas limitações e pelo lançamento próximo do PIX não consigo ver muitos motivos para essa forma de pagamento se tornar algo usado pela grande maioria dos brasileiros.

        1. Eu acho que se fosse algo sem a necessidade de uma conta bancária teria bastante sucesso. Usar a base instalada quase onipresente do Whatsapp no Brasil para movimentar dinheiro é uma grande jogada, contudo, isso vai esbarrar na limitação de precisar de uma conta (se for assim de PF pra PF).

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