Foto de Zuckerberg durante o depoimento de 2018 ao Senado dos EUA com moedas desenhadas em seus olhos.

Sobre a moedinha do Facebook


21/6/19 às 14h43

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As aparições públicas robóticas, sempre com um semblante desprovido de emoções, fala monótona e piadas constrangedoramente ruins, colocaram Mark Zuckerberg sob a suspeita de ter algum grau de psicopatia. Isso explicaria, por exemplo, alguém pressionado por sucessivos escândalos de privacidade e deslizes éticos anunciar uma moeda global como se: 1) precisássemos; 2) alguém tivesse lhe pedido; e 3) o Facebook fosse a melhor empresa para empreender ambicioso plano neste momento.

O Libra, a criptomoeda que o Facebook e seus parças do Vale do Silício anunciaram na última terça (18), é uma tentativa de sequestrar o sistema financeiro global usando como cavalos de Troia as plataformas onipresentes do Facebook: WhatsApp, Instagram e a rede social homônima. Não contente em erodir relacionamentos de toda sorte, chacoalhar democracias mundo afora, dar palanque a racistas, xenófobos e misóginos e desencadear linchamentos e genocídios em países do sudeste asiático, agora Zuckerberg tenta substituir os bancos para, segundo ele, “empoderar bilhões de pessoas”. A frase está literalmente na primeira linha do “white paper” e me faz questionar, honestamente, se esse papo ainda cola com alguém.

Um plano tão ambicioso não passaria batido. Foi-se o tempo em que assistíamos à megalomania das grandes empresas de tecnologia indiferentes ou, o que era mais comum, eufóricos, com um olhar otimista mesmo quando os indícios sinalizavam perigo. Governos do mundo inteiro souberam do Libra no mesmo instante que o público, o que motivou reações praticamente imediatas para que Zuckerberg dê explicações sobre o que exatamente ele pretende com o Libra.

O que ele pretende, afinal? Estender o controle autocrático que exerce no Facebook, onde é o CEO, o presidente do conselho e o detentor da maioria das ações com direito a voto e não se submete a regulação alguma? Aumentar ainda mais os lucros já obscenos do Facebook? Aquele rosto pálido e inexpressivo não dá uma sugestão sequer. Malditos robôs!

Muitos dos problemas que o Facebook se propõe a resolver estão bem encaminhados em lugares fora dos Estados Unidos. Charles Arthur lembra que países africanos já usam um sistema móvel para pagamentos, o M-Pesa (e com SMS!), e que os sistemas de pagamentos da Europa e de outros lugares, como o Brasil, estão muito à frente do dos EUA em termos de digitalização e conveniência. (Sem falar no chinês, que pulou direto das cédulas em papel para os celulares e parece inspirar Zuckerberg.) Tudo isso enfraquece ainda mais o argumento de que a motivação do Libra é facilitar a vida dos desbancarizados. O problema, afinal, não é colocar a conta de banco na internet, mas antes disso demonstrar as vantagens de se ter uma conta bancária. Este trabalho, explica o Financial Times, se resolve com confiança, com presença, de maneiras que não escalam. Em outras palavras, a antítese do que o Libra promete ser.

Há grandes chances de que o Libra não vingue, mas ninguém deve descartar uma onda de adoção em massa especialmente em lugares como o Brasil, onde o WhatsApp é o meio de comunicação de fato e o Instagram, o principal lugar onde as pessoas se veem. Todo o linguajar e as medidas tomadas pelo Facebook na apresentação do Libra, como criar uma “subsidiária” e unir-se a outros titãs do Vale do Silício, soam alarmantes. O que não está explícito, como o fato de todo o desenho do negócio ter sido feito apenas pelo Facebook, também.

Que pesem todos os problemas do sistema financeiro mundial, ele funciona, é regulado e é submetido a governos. Tem seus problemas? Inúmeros e bastante graves, como o spread bancário no Brasil, para ficar apenas em um que nos é próximo. Mas é como diz aquele mantra, em que tenho pensado com cada vez mais frequência na cobertura da tecnologia de consumo: nada é tão ruim que não possa piorar.

Foto do topo: Bloomberg/YouTube. Montagem: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

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