8 GB é suficiente para todo mundo

Close de um pente de RAM.

O mundo está passando por uma crise de escassez de memória. Não a dos nossos cérebros (embora talvez também seja o caso), mas a da memória que equipa computadores e celulares.

A culpa é das empresas de inteligência artificial. “Sempre elas!”, você pode estar pensando. OpenAI, Google, Anthropic e cia. compram o que conseguem da memória fabricada no mundo para usar em seus centros de dados. Sobra pouco, e esse pouco — como é típico da selvageria do capitalismo desregulado — é vendido a preço de ouro.

Limites e escassez artificial de memória não são assunto novo. Atribui-se a Bill Gates, cofundador da Microsoft, a afirmação, feita em 1981, de que “640 KB [de memória] são suficientes para todo mundo”. (Ele nega.)

Nesta semana, Sam Altman, CEO da OpenAI, manteve acesa a chama das declarações bizarras de líderes da tecnologia ao dizer, em um podcast:

Do ponto de vista da alocação global, na verdade, é bastante terrível que todo mundo tenha uma boa parte da oferta limitada de DRAM do mundo guardada no próprio computador, sendo usada 5% do tempo.

É “bastante terrível” para ele, claro, que vende poder computacional para nós, reles mortais com nossos computadores de 8 GB de RAM (eu!).

Por mais que a IA seja útil, a concentração de recursos em meia dúzia de empresas, isso sim, é sempre “bastante terrível” para a coletividade.

Os efeitos práticos da escassez de memória no mercado de consumo são dois, e já visíveis:

  1. Produtos que dependem de memória (RAM e armazenamento) ficam mais caros. Em outras palavras, celulares e computadores estão mais caros. Um efeito colateral aparece nos segmentos de entrada, que, por terem margens de lucro mais baixas, perdem a razão de existir em um cenário de disparada de preços. Ou seja, os produtos “custo-benefício” tendem a sumir das prateleiras.
  2. Menos pessoas e empresas trocam os produtos que já têm, estendendo a vida útil de celulares e computadores que, há poucos anos, já teriam sido descartados por qualquer motivo tolo.

Há certa crueldade em elevar os preços de produtos dos quais, hoje, todos dependemos. Muita gente (a maioria?) só troca de celular por necessidade: quando ele quebra, é furtado ou roubado ou se degrada a ponto de se tornar inutilizável.

Incomoda-me, também, que um resultado que considero muito benéfico isoladamente — o uso por mais tempo de dispositivos eletrônicos — seja motivado não pela conscientização, mas pela disparada da demanda por um componente obrigatório desses dispositivos e pelo seu consequente encarecimento.

Não vou embarcar na teoria de que sairemos melhores dessa. (Se não deu certo com a covid, não será o caso aqui.) Assim que os preços de memória baixarem, cenário previsto por alguns para 2030, as vendas de eletrônicos de consumo provavelmente voltarão a subir. O marketing agressivo, poderoso e falacioso das empresas não nos levará a um reconhecimento coletivo de que trocar um celular que funciona é desnecessário, um luxo.

Ainda assim, talvez saiamos, sim, com algumas vitórias deste período conturbado.

A Microsoft, por exemplo, criou uma força-tarefa para tornar o Windows 11, um glutão de memória, menos exigente em computadores com “apenas” 8 GB de RAM.

A empresa afirma que, em testes controlados, o Windows ficou 20% mais “responsivo” e 40% mais rápido na multitarefa em comparação com o mesmo sistema operacional em janeiro deste ano.

Impressiona-me que, no geral, o uso que se faz de um computador hoje não seja muito diferente do de 20 anos atrás: navegação na web, e-mail, edição de textos, planilhas eletrônicas.

O Windows XP, lançado em 2001, pedia no mínimo 64 MB de RAM, ou 0,78% de 8 GB. Sejamos mais justos: mesmo com 512 MB, um latifúndio de memória na época, ainda estamos falando de 6,25% dos 8.192 MB que se convencionou chamar de “8 GB”.

Entendo que temos imagens de altíssima definição, um punhado de processos internos que fazem as coisas funcionarem, a web moderna — um emaranhado de códigos JavaScript que fazem até computadores potentes suarem — e os aplicativos em Electron, que são sites da web moderna rodando em um navegador próprio. E talvez aí esteja o problema. A abundância de poder computacional, somada a interesses divergentes entre fabricantes e pessoas, nos levou a um cenário de softwares ruins.

O Android mostra bem o que se ganha quando o software emagrece. Devido à sua natureza aberta, ele possibilita o uso de sistemas alternativos ao do Google (e atualizados) ou intervenções profundas para remover ou desativar recursos pré-instalados. Isso tudo a despeito dos esforços reiterados do Google para minar essa natureza aberta do seu Android.

A diferença de desempenho entre um celular com o Android certificado do Google e o mesmo aparelho com um sistema como o LineageOS é chocante.

Tenho um Moto G7 Play para testar coisas no Android. Quando lançado, ele já era lento. Saiu de fábrica com o Android 9 e recebeu apenas uma grande atualização. Graças ao LineageOS, pude atualizá-lo para o Android 16, que ainda recebe atualizações de segurança, e obter um desempenho jamais alcançado com o Android de fábrica.

Embora as chances sejam remotas, a atual crise das memórias é a primeira oportunidade em muito tempo de reverter essa escalada no inchaço dos softwares.

Deixe uma resposta

Por favor, leia as regras antes de comentar.

Markdown *não* funciona. Tags HTML permitidas: <b> <strong> <i> <em> <a> <ul> <ol> <li> <code> <cite> <blockquote>