“Vibe codando” este Manual do Usuário
Uns dois anos atrás, curioso com o bafafá em torno da IA generativa para programar, pedi ao Claude para corrigir erros e otimizar o tema que uso neste Manual.
Ele ficou um bom tempo mexendo nos arquivos do tema. As alterações anunciadas faziam sentido. E quanta coisa errada havia caído pelas frestas! Estou no futuro. Super empolgado, coloquei o tema modificado para rodar e… a atualização um erro fatal e derrubou o site. Reverti todas as alterações e segui com a minha vida.
Infelizmente não guardei aquela cópia modificada pela IA nem o pull request no repositório do tema. Você terá que confiar na minha palavra.
Corta para 2026.
Novamente curioso, desta vez com os relatos de que na virada de 2025 para 2026 o Claude “ficou bom de verdade”, pedi a ele para encontrar erros e correções pendentes no tema — o mesmo de dois anos atrás, apenas com as várias atualizações manuais feitas por gente de carne e osso, quase todas minhas.
O Claude, com o “cérebro” Opus 5.5, retornou outra lista enorme de sugestões — algumas me deixaram meio constrangido, do tipo “como deixei isto passar?”. Respondi: “Ok, implemente”. Atualizei a versão do tema para a 5.0, porque adoto o versionamento por orgulho, e subi em produção. Desta vez, o site não caiu — o que já foi um grande avanço. Mais que isso, o tema atualizado funcionou muito bem. Uns poucos erros no console do navegador sumiram e o consumo de recursos do servidor diminuiu. (Tudo bem que o site não consumia nada, mas… né.) Tudo lindo. Fiquei impressionado.
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Daria para continuar sem essas correções e melhorias? Claro que sim. Afinal, o Manual passou quase 13 anos com código escrito à mão por um não-programador. É melhor com o tema corrigido? Sim, óbvio. Vale a pena usar a IA para esse fim? Não sei, mas tendo ao “sim”.
Não são poucos os argumentos contrários à IA generativa, muitos deles (todos?) já levantados neste mesmo blog. E, no sentido contrário, aqui também já deixei pistas do meu ~amolecimento diante dessa tecnologia à luz das evidências, em textos como “Neste texto eu falo bem da IA” (março de 2026), Tudo bem se você usa o ChatGPT para escrever (abril de 2025) e um sobre “vibe coding” (março de 2025).
Ainda assim, creio que a ocasião suscita revisitar alguns aspectos polêmicos da IA generativa.
Tratemos da propriedade intelectual. No nível elementar, sou contrário à lógica dos direitos de autoria — os mesmos que as empresas de IA atropelam sem cerimônia. O que não significa que esteja do lado da Anthropic, OpenAI, Google e companhia. Essa é uma falsa escolha, nas palavras de Leonardo Foletto. Para ele, “o copyright deixou de ser o inimigo principal e, exatamente por isso, também deixou de ser a solução”.
Um pouco antes, Foletto argumenta que:
O que precisa ser freado não é o acesso ao conhecimento, mas a extração sem reciprocidade, a apropriação que não devolve nada ao ecossistema que a torna possível. São coisas distintas, e confundi-las é cair numa armadilha. A questão não é apenas técnica (como impedir a raspagem), é também política e econômica: como garantir que a produção de comuns continue sendo possível, sustentável e plural.
Outro aspecto desse debate é no toque humano existente em códigos de programação. É uma arte? Ou, como o WordPress ainda estampa no rodapé de seu site, “código é poesia”?
Se for, é uma arte perdida. Abra o seu celular, ligue seu notebook. De sites a aplicativos, passando pelo próprio sistema operacional, é difícil encontrar um site ou software que não seja um lixo, mesmo antes do “vibe coding”. Lentos, inchados, instáveis. Talvez alcancemos melhores resultados se deixarmos a IA programar, afinal.
O meu trabalho aqui não é escrever o código do site. Nunca foi. Sempre me apoiei em código alheio, beneficiado pelas maravilhas do software livre. O pouco que me cabe (desenhar o leiaute) é menos uma atividade mecânica (programar) e mais uma série de decisões (como o blog deve ser apresentado e funcionar?). O código é o caminho para a tomada de decisões; não raro, era um entrave intransponível para decidir qualquer coisa.
Esse Claude contemporâneo me livra do gargalo do código. E não substituí um profissional de programação — um que nunca contratei e nem poderia, com o faturamento pífio do projeto. Passado esse primeiro momento, espero que ele me livre das pequenas obsessões com o leiaute do blog e libere “espaço mental” para escrever ou, sei lá, fazer qualquer coisa diferente de olhar para uma tela.
Outro exemplo. O espaço para comentários nativo do WordPress/ClassicPress nunca foi prioridade para seus mantenedores. Existe, funciona, mas é a mesma coisa há mais de uma década. Ao longo dos anos, vez ou outra varria o diretório de plugins em busca de novas opções para enriquecer esse espaço que nos é tão caro aqui. Nunca saí dessa busca com algo usável e que atendesse aos meus padrões.
No último fim de semana “vibe codei” o plugin Upvotes Comments, específico para o ClassicPress e exatamente do jeito que eu queria: com “upvotes” e ordens de visualização dinâmicas. Troquei poucas palavras com o Claude. Pedi o plugin em detalhes, depois alguns ajustes na apresentação e na compatibilidade com o sistema de cache. E… só. Funcionou. Muito bem, aliás. É eficiente, otimizado, feito sob medida, mas possível de ser compartilhado com mais gente que queira essas mesmas funcionalidades em seus blogs. Tem como não gostar disso?
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As breves aventuras recentes (e bem-sucedidas!) não me transformaram em um entusiasta da tecnologia. Ainda, talvez? Refletindo a respeito, acho que estou numa fase de “empolgação contida”.
É realmente empolgante conseguir implementar coisas que sempre quis, mas que a preguiça e/ou ignorância me impediam. Ou que eram triviais demais para gastar o meu tempo. Por exemplo, arrumar o cabeçalho das páginas de assuntos, como a dos links legais. Duvido que muito mais gente além de mim acesse essas páginas, mas elas existem — e, agora, ficaram mais apresentáveis. Outra: padronizar os diversos botões e elementos de formulários espalhados pelo site.
Entende o que quero dizer?
O grande elefante na sala, ou o único estrago indefensável do uso da IA generativa, é o impacto ambiental. Ele não sai da minha cabeça, o que me leva a usos mais comedidos. (A refatoração do tema do Manual é o maior projeto que já empreendi com uma IA.)
Ao contrário de outras tecnologias digitais, a inteligência artificial generativa não tem seus custos (financeiro e ambiental) reduzidos à medida que mais gente passa a usá-la. É o contrário: o aumento da base de usuário, a intensificação das cargas de trabalho e o aperfeiçoamento dos grandes modelos de linguagem (LLMs) só aumentam o consumo de recursos naturais, a poluição.
Tal característica atípica desemboca em centros de dados gigantescos, no consumo volumoso de água, nos aumentos na conta de luz, em lobbies do retrocesso com a promessa vaga de que dias melhores virão, coisa que custo a acreditar. Digo, poderemos até ter dias melhores no futuro, mas — com sorte — não será por causa da IA, mas sim apesar dela. As pessoas à frente dessa “revolução” são clinicamente insanas ou cruéis. Talvez ambas.
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Após os ajustes no tema, por curiosidade gastei mais uma garrafa d’água e pedi ao Claude, no mesmo projeto, para imaginar um leiaute “moderno”. O prompt foi este:
Sem se distanciar muito da atual identidade visual, sugira mudanças e melhorias para tornar o tema/blog mais fácil de entender e agradável a leitores humanos. Liste a sugestão com screenshots.
Este foi o resultado (alerta de imagem pesada).
Os cracudos de IA do Vale do Silício vivem dizendo que nesta nova era, “bom gosto” é a única coisa que importa. Por isso fiquei feliz com o que o Claude produziu: algo insosso, genérico, sem alma; algo de mau gosto.
Até agora, “IA de bom gosto” é uma contradição em termos. O que explica o sucesso da tecnologia na programação, a parte que quase ninguém vê em um software ou site.
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Estou ciente de que o tema é polêmico e desperta reações apaixonadas. Este relato é um exercício da conhecida transparência com que toco o Manual e um convite para refletir o dilema da IA generativa com parcimônia. Respiremos fundo, todos ao mesmo tempo, antes de redigir um comentário. E comente! Estou curiosíssimo com as reações à minha confissão.
O tema sugerido pelo claude é mais bonito que o tema atual do site.