Como livrar seu e-mail das garras do Google (Gmail) ou da Microsoft (Outlook)
Um dos primeiros passos de quem embarca na jornada para diminuir a dependência das big techs é tirar o e-mail do Google ou da Microsoft.
O processo em si não é dos mais complexos. O problema é de ordem cultural. A hegemonia desses dois serviços — Gmail e Hotmail/Outlook — atrofiou a compreensão de uma das tecnologias de internet mais antigas que ainda usamos e segue importante.
O e-mail é descentralizado, ou seja, diferentes provedores do serviço conversam entre si. Você precisa de um desses provedores e de um domínio — a parte após a arroba em nome@dominio.com — para participar.
Gmail e Hotmail/Outlook empacotam essas duas partes e as oferecem em um formulário de inscrição simples. Ambos escondem todas as abstrações e configurações necessárias. É muito conveniente! Não por acaso, é o tipo de conveniência que te amarra a um provedor.
Fora dali, o cenário ideal é ter seu próprio domínio e escolher o provedor que melhor convém. Um domínio .br custa R$ 40/ano. Após assegurar um, o segundo, o segundo passo é escolher um provedor.
Há duas semanas troquei o provedor dos meus e-mails — deste Manual e do meu e-mail/site pessoa. Até então usava o iCloud+, a mesma assinatura que dá espaço extra para guardar fotos do iPhone na nuvem da Apple.
O iCloud+ é ridiculamente barato, custando a partir de R$ 5,90/mês por 50 GB de espaço, mas é um tanto limitado. A pior coisa do iCloud+ é que endereços distintos caem todos em uma mesma caixa por pessoa. Sem falar que trocar Google ou Microsoft por Apple é trocar seis por meia dúzia, né?
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Minha primeira escolha foi um risco calculado, dado que nunca a havia usado: o Purelymail. “Traga o seu domínio e usuários; a gente lida com o resto”, diz o site do serviço. Ei, é isso o que eu quero!
Uma característica legal do Purelymail é a cobrança. Muitos provedores cobram por “assento”, ou caixa de entrada. Em outras palavras, cada endereço de e-mail adicionada aumenta o valor da fatura. No Purelymail o preço é fixo (US$ 10/mês, cerca de R$ 55) para caixas ilimitadas. Se o seu uso do e-mail ficar acima dos recursos provisionados para cada conta, eles gentilmente solicitam que você pague o extra. Para uma pessoa comum, é difícil bater nesses limites.
Cadastrei-me e comecei a migrar meus e-mails. Uso um serviço gratuito bastante simples e competente, o Imapsync. Basta colocar as credenciais dos provedores antigo e novo, e esperar. Se preferir, existe uma versão local, na linha de comando.
(“Coloque suas credenciais neste site esquisito” é um conselho que não costumo dar. Confiei no Imacsync por ser a ferramenta recomendada pela Migadu, de que falarei mais abaixo.)
(Aliás, outro parêntese: ao se cadastrar em um provedor de e-mail, ele devolverá uma série de “registros DNS” que devem ser copiados, à risca, no gerenciador do domínio. São esses códigos que conectam a caixa de entrada ao domínio que você adquiriu. É algo trivial, porque são operações de copiar e colar. Só é preciso atenção para escolher os tipos de registros corretos e copiar as coisas sem falhas.)
No processo de migrar minhas mensagens do iCloud+ para o Purelymail, topei com o primeiro problema: a lentidão do novo provedor. Foi sofrível migrar as minhas caixas de e-mail, que juntas somavam +70 mil mensagens. (Isso é bastante, certo?)
Outro problema, o que me fez desistir do Purelymail, é o suporte básico ao protocolo CalDAV, o da agenda de compromissos. A implementação deles não tem suporte a convites, recurso que uso com frequência. Existe um sistema extraoficial, o Purelymail Calendar, que preenche essa lacuna, mas… né… é mais uma coisa para manter e totalmente estranha ao fluxo padrão de envio e recebimento de convites.
Desisti. O Purelymail funciona bem para caixas de entrada pequenas e com baixo volume, acho eu. E para quem não usa convites na agenda de compromissos. As coisas funcionam! Só não funcionaram para o meu uso. Diante dessa descoberta, migrei outra vez, agora para a Migadu.
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Já usávamos a Migadu na Célere há alguns meses. A proposta é similar à do Purelymail: traga o seu domínio e usuários e comece a usar. E com uma implementação do CalDAV que suporta convites!
Novamente recorri ao Imapsync para transferir os e-mails do Purelymail para a Migadu. A agenda eu exportei para um arquivo *.ics e os contatos, em um *.vfc — são formatos incomuns, mas que o Thunderbird e outros aplicativos leem numa boa.
Uma desvantagem do Migadu são as soluções web. Há um webmail simples e, até onde eu sei, sem acesso a agendas de compromissos e de contatos. O Purelymail usa uma solução de terceiro — bem mais completa — para seu webmail, o Roundcube. De qualquer forma, o ideal é usar aplicativos próprios, como o já mencionado Thunderbird.
Ah é: aproveitei essa tour por provedores de e-mail para trocar o aplicativo de e-mails que uso no computador. Saíram o trio da Apple (Mail, Calendário e Lembretes), entrou o Thunderbird, que cumpre essas três funções. Nessa, organizei os arquivos dos meus e-mails por ano e migrei eles para o disco local, aliviando a carga no provedor de e-mails. (Falo mais do Thunderbird em outro post? Você me diz nos comentários.)
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Estou satisfeito com a Migadu. O plano “Micro” custa US$ 19/ano (~R$ 100) e, embora os limites pareçam apertados, ainda estou para batê-los.
Dica: A Migadu é uma das parceiras do nosso clube de descontos. Eles oferecem 25% de desconto para assinantes do Manual. (Eu não ganho nada com a sua assinatura; busquei essa parceria porque gosto do serviço deles.)
Eu gosto muito da filosofia que fundamenta esses dois serviços. A Migadu tem uma “lista de desvantagens” longa, com tudo o que esperar (ou não) do serviço. Um dos itens é “não correr atrás do fator ‘descolado’”:
Unicórnios, fadas e investidores. Nenhum por aqui. Não temos dinheiro para queimar. Não falamos em “escalar”, mas sim em servir melhor. Somos cuidadosos com os recursos que trazemos ou tiramos e permanecemos muito leais aos nossos usuários.
É dos poucos lugares onde tenho a certeza de que o serviço que uso e confio hoje estará no mesmo lugar amanhã, sem alterações desnecessárias nem novos recursos para “melhorar a minha experiência de uso”. IA? Hahaha… acho que não. Queria mais coisas assim na minha rotina digital.
Rapaz, por vezes eu fico lendo o que vcs escrevem nesse site. Vejo o trabalhão que vocês arranjam pra fugir das garras das big techs malvadonas.
Parece até que eles vão abduzir a alma de vcs ou sequestrar suas famílias ou identidades.
É só um e-mail gente.
Entendo toda a preocupação com as big techs, porém no fim da leitura fiquei pensando em algo bem similar: “é só um email”.
Você pagará 100 reais por mês pra ter um serviço pior que o Gmail e no fim ainda ter muitos dos seus dados com a big tech do mesmo jeito (seja pelo Android, iPhone, busca, what´s app, navegação, etc…).
Talvez seja uma certa “aceitação” (ou “derrota”) que não tem como fugir das big techs.
Sinto falta de pensar assim, depois que você vê além do muro, fica difícil pensar como antes.
Para quem tem uso pessoal, sem atrelado a domínios, qual a melhor opção gratuita?