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Talvez eu odeie a tecnologia

Manifestar o meu vício em telas neste Manual, em maio, causou uma repercussão boa. Entre os muitos comentários e e-mails que recebi, uma mensagem da leitora R. se destacou. Ela, desenvolvedora de software, identificou-se com o meu relato. Disse que o que a salva é “meio que odiar tecnologia”.

Desde que li aquele e-mail, meses atrás, tenho pensado nisso.

Pedi à R. que explicasse melhor essa relação contraditória, entre trabalhar com tecnologia e odiá-la. Ela respondeu:

Eu vejo o meu trabalho como… trabalho. […] Mas, para além disso, quando digo que odeio a tecnologia, é, na realidade, meu ódio à cultura “tech bro”.

Por “tech bro”, deduzo que ela se refira a um conjunto mais ou menos definido da cultura que perpassa a área da tecnologia (essa de chips e bits) e que remonta à ideologia californiana: a cena de startups que prometem “salvar o mundo”, a metamorfose de algumas em big techs, o determinismo em torno de ferramentas como a inteligência artificial generativa, os vultuosos investimentos de risco, software/SaaS comercial…

Tomei a liberdade de extrapolar os alvos do ódio da R. porque, após refletir um tanto, concluí que eu também odeio tudo isso.

***

Não seria justo, pois, afirmar que odeio a tecnologia “lato sensu”. O desprezo tem um recorte com contornos bem definidos.

O problema é que, já faz algum tempo, a cultura “tech bro” tornou-se quase sinônimo do que as pessoas imaginam ser tecnologia. É reducionista e equivocado, sim, mas é o que é. Não creio que, quando digo a alguém que escrevo sobre tecnologia, essa pessoa não imagine celulares, ChatGPT e Instagram, por exemplo.

O desgosto que comungo com a R. transparece neste blog desde o final de 2022, momento que marcou uma guinada em mim. Após anos me irritando e aos leitores com os absurdos das big techs, as devassas à privacidade — primeiro pontuais, depois naturalizadas —, a financeirização da vida, o clima pesou demais. Eu não me aguentava mais. Não por coincidência, havia pouco deixara para trás o episódio depressivo mais grave de que me recordo.

A partir dali, quis falar de outras coisas, de coisas boas. De iniciativas legais. De software livre, das minhas inquietações. Compartilhar achados que nos levam a uma relação menos pior com tecnologias inevitáveis. Mostrar que existem alternativas mais úteis e/ou legais que podemos usar por escolha, não por imposição. Relatar experiências que à primeira vista me soam particulares, até excêntricas, mas que ao divulgá-las percebo serem comuns. Ou que são excêntricas mesmo, e tudo bem.

Passei a querer publicar um blog, não um jornal de uma pessoa só. Mais pessoal e menos amargo, mais similar com quem eu quero ser.

Tem gente muito boa cobrindo e lutando contra os descalabros das big techs, as regressões legislativas e tudo que há entre eles. Você provavelmente conhece essas publicações e pessoas, no mínimo porque vez ou outra as menciono aqui — e continuarei fazendo isso.

***

Para este Manual, porém, aproveito o aniversário de 13 anos para, digamos… oficializar a atual fase, a que começou no final de 2022, com um novo slogan:

Vida digital saudável.

Ele condiz com a linha editorial, com a pequena comunidade que cultivamos, com o que encaro como o melhor “impacto” possível que eu e este projeto podemos ter naqueles que nos acompanham. Uma vida digital mais saudável, com escolhas melhores ou, quando impossível, ao menos bem informadas.

Não tenho a pretensão de ser uma autoridade no assunto, um guru, influenciador (deus me livre!) ou coisa do tipo. Não gosto desse papel e não sei desempenhá-lo, sem falar que estou longe de lidar da melhor forma com a tecnologia. Acho que nunca estive desde o primeiro contato com um computador, ~30 anos atrás. Estou sempre aprendendo aqui nos comentários, no grupo dos assinantes, em trocas por e-mail, conversando com as pessoas.

Nesse sentido, que o Manual do Usuário seja um local de referência para aprendermos juntos, das coisas complexas como criar seu próprio servidor doméstico, às corriqueiras, por vezes mais impactantes, como descobrir um site legal que faz uma coisa útil ou divertida. Tudo isso sem deixar o lúdico e a leveza de lado, porque a vida é muito árida de outra forma.

Vida digital saudável. Soa quase utópico a essa altura. De qualquer maneira, vamos tentar?

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1 comentário

  1. infelizmente esse blog não possui a tecnologia de postar gifs como comentários porque gostaria de colocar aquele do cara escrevendo num livro em chamas porque você CANETOU bonito, Ghedin. no mundo hoje ou a gente tá junto com esse discurso tech bro ou a gente pega ranço. deve ter uns abençoado iluminado que conseguem ficsr neutros, mas eu mais vejo ser convencido por essa patawuada ou o ranço, mas é importante a gente não jogar o bebê fora junto com a água suja, né? esses caras estão em qualquer lugar, vão ser em outros lugares os gaming bros, os guitar bros, os book bros. na tecnologia eles são mais evidentes porque é onde está mais dinheiro e mais alcance, poder e influência no mundo, mas infelizmente essa gente tá em todo lugar e a gente não vai jogar os books, os games e as guitars (haha) fora por causa deles, né. como que a gente faz esses caras perceberem a própria chatice e desimportância? fica aí o chamado pra gente descobrir como