Bloco de notas #19

Montagem com Elon Musk ao lado de uma frase do pensador Ranely muito parecida com uma publicada pelo próprio Musk.

Olá,

Esta é a última newsletter e o último conteúdo do Manual do Usuárioem 2019. Como acontece todo ano, tirarei algumas semanas para descansar e planejar o ano que vem. Em 2020, teremos algumas novidades no modo de fazer o site, incluindo testes com um espaço de debates mais organizado que o post livre e mudanças na distribuição do conteúdo. Semana que vem, a capa do site será levemente repaginada para destacar tudo de bom que foi produzido ao longo do ano. No comecinho de janeiro, os assinantes receberão o relatório de dezembro. Ufa!

Continuarei por aqui, caso queira ou precise falar comigo — basta responder este e-mail. E o grupo dos assinantes seguirá ativo também — se ainda não é assinante, considere tornar-se.

Este ano, de retorno à independência e o primeiro em que me dediquei integralmente ao Manual, foi sensacional. Obrigado por me acompanhar e que 2020 seja ainda melhor. Até lá!

O jornal WhatsApp

Uma pesquisa feita pela Câmara dos Deputados e Senado constatou que o WhatsApp é a principal fonte de informações dos brasileiros — 79% disseram receber notícias pelo app. YouTube (49%, 3º lugar), Facebook (44%, 4º lugar) e Instagram (!) (30%, 6º lugar) também se destacam. Das ditas mídias tradicionais, a TV é a maior (50%, 2º lugar), seguida de sites de notícias (38%, 5º lugar) e rádio (22%, 7º lugar). [Agência Brasil, em português]

→ Sobrepondo os resultados da pesquisa à minha atuação no Manual, revela-se um cenário curioso e um pouco deprimente: estou em apenas dois dos sete principais meios de comunicação — site de notícias e Facebook, este segundo de maneira totalmente (e propositadamente) negligenciada. Tudo bem que em rádio e TV as barreiras de entrada são praticamente intransponíveis, mas as demais, via internet, não. Não estar nelas é uma escolha, por não compactuar com modelos de negócio ou condenar os efeitos que essas plataformas causam em nós. Por outro lado, uma espécie de princípio do jornalismo é ir aonde o povo está. Será que ele segue valendo mesmo quando o povo está em lugares tão inóspitos ou inadequados?

→ O Twitter, queridinho de todo jornalista que conheço, é fonte de apenas 7% dos entrevistados. Fica atrás até do jornal impresso, que ainda é lido por 8% dos brasileiros.

A precursora analógica da Netflix

Faz alguns anos que a Netflix passou a focar em produções próprias e exclusivas. Muita gente torce o nariz para essa guinada, mas com a entrada de novos players, incluindo os estúdios que antes forneciam material à Netflix, acabou sendo a única saída possível. Curiosamente, a estratégia não é nova. O primeiro episódio da série Filmes que marcam época conta a história do filme Dirty Dancing: Ritmo Quente, de Emile Ardolino. Após ser rejeitada por todos os grandes e pequenos estúdios da época, Eleanor Bergstein, roteirista e idealizadora do filme, conseguiu financiá-lo junto à Vestron, uma distribuidora de fitas VHS que estava em busca de novas fontes de receita, pois os estúdios, ao notarem o sucesso crescente de empresas como a Vestron, começaram a cortar os intermediários e a lançar as fitas no varejo eles mesmos. [Netflix, em português]

→ A diferença entre a Vestron dos anos 1980 e a Netflix é que a Vestron foi uma “one hit wonder”: após o mega-sucesso de Dirty Dancing, eles lançaram outros filmes, todos fiascos de crítica e bilheteria. Em 1992, a Vestron faliu. Já a Netflix, que pesem as críticas sobre as muitas coisas ruins que ela disponibiliza, tem conseguido segurar seus assinantes com séries e filmes de nicho e algumas obras aclamados pela crítica, como Roma(Alfonso Cuarón), O Irlandês (Martin Scorsese) e o ótimo História de um Casamento (Noah Baumbach), lançado essa semana.

Filmes que marcam época conta os bastidores de alguns filmes norte-americanos icônicos dos anos 1980–1990. A série é uma espécie de spin-off de Brinquedos que marcam época, que basicamente arruina infâncias ao mostrar que todos os desenhos animados a que assistíamos nos anos 1990 foram criados apenas para vender brinquedos. Ambas são exclusivas da Netflix.

Twitter descentralizado

Do nada, Jack Dorsey, CEO do Twitter, publicou um fio dizendo ter criado uma espécie de força-tarefa dentro da empresa para explorar a descentralização da rede social. Nas mensagens, Dorsey reconhece que o Twitter pisou na bola com desenvolvedores terceiros e que, com essa medida, vislumbra tornar o Twitter uma espécie de protocolo, similar aos que movem o e-mail (SMPT, IMAP, POP3). Mas também fala de blockchain, o que, a despeito das vantagens da tecnologia, nos últimos anos meio que virou sinônimo de enrolação e falta de foco. [@jack/Twitter, em inglês]

Uma interpretação mais cínica do anúncio seria a de que Dorsey quer apenas se livrar dos problemas crescentes com moderação de conteúdo abusivo. Acrescento que, vindo de uma empresa de capital aberto e com o histórico zoado do Twitter no relacionamento com terceiros, comprar de cara essa ideia de descentralização é pedir demais. [Wired, em inglês]

→ Caso tenha perdido, recentemente escrevi uma reportagem bem detalhada sobre o Mastodon, conhecido em muitos cantos como o “Twitter descentralizado”. A instância brasileira, Mastodonte, recentemente reabriu o cadastro de novos usuários. [Manual do Usuário, em português]

No Manual do Usuário

O que saiu no blog esta semana:

Apple vs. anúncios invadidos na web

O custo para segmentar anúncios a usuários do Safari despencou 60% nos últimos dois anos, desde que a Apple implementou a Prevenção de Rastreamento Inteligente, que usa aprendizado de máquina para dificultar o monitoramento dos usuários. Graças a ela, plataformas de publicidade programática estão com sérias dificuldades para criar perfis precisos dos usuários do Safari, o que os torna mais difíceis de serem segmentados, diminuindo o apelo desse público junto aos anunciantes — e, consequentemente, o preço para tentar alcançá-los. [The Information, em inglês]

→ Para quem não usa o Safari ou dispositivos Apple, o Firefox tem recursos similares tão bons quanto.

→ É uma boa complementar essas configurações pró-privacidade nativas dos navegadores com um bom bloqueador de anúncios. [Manual do Usuário, em português]

Celulares de “uma marca chinesa”

De acordo com a Associação Brasileira da Indústria Elétrica Eletrônica (Abinee), a venda de celulares irregulares no Brasil explodiu em 2019: o aumento foi de 500%, chegando a 4 milhões de unidades. “Tem uma marca chinesa que vende mais de 95% dos seus aparelhos de forma irregular no País”, disse Luis Claudio Carneiro, diretor de celulares da Abinee. Um doce para quem adivinhar qual é a tal “marca chinesa”. Ainda de acordo com a associação, a porta de entrada desses celulares é o bom e velho Paraguai. [Convergência Digital, em português]

→ Dos arquivos: as diferenças entre celulares irregulares, não homologados e piratas. [Manual do Usuário, em português]

Textão no vestibular

A prova de redação do último vestibular da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) trouxe uma inovação curiosa. Uma das opções entre os gêneros textuais era o “textão” de internet. O enunciado define o novo gênero como “aqueles que circulam na internet, para ser postado em seu perfil em uma rede social”. No Twitter, o perfil da UFSC explicou a decisão: o fato de ser um “formato bastante comum aos jovens que concorrem a uma vaga” pesou. Bela iniciativa! [@UFSC/Twitter, em português]

Uber implodindo montadoras no Brasil

Dos 600 mil motoristas trabalhando para a Uber no Brasil, dois terços (400 mil) não são donos dos veículos que dirigem. Esse cenário atípico tem pressionado as montadoras, que estão vendo suas margens serem corroídas no país, e animado as empresas de locação de veículos, que vêm batendo recordes sucessivos de lucratividade. As vendas para frotistas, que têm margens de lucro menores às montadoras, representavam 25% do total em 2012. Hoje, elas respondem por quase metade (46%) das vendas. [Reuters, em inglês]

As buscas de tecnologia mais populares no Google em 2019

Todo ano, o Google libera várias listas dos termos mais populares em seu buscador no Brasil. As de 2019 foram divulgadas e, considerando que o Google tem +95% do mercado de buscas no país, diria que elas pintam um retrato fiel do nosso comportamento em buscadores de internet. [Google, em português]

→ Uma grande preocupação minha ao fazer o Manual do Usuário é alinhar o editorial às demandas do leitor, este ser difuso que, em muitos casos, tem dúvidas e anseios diversos dos meus. Ver que quase todos os dez termos mais buscados na lista de tecnologia foram contemplados por matérias que publiquei foi uma grande satisfação, especialmente porque publico pouco, logo as chances de acertar são menores. Abaixo, a lista seguida pelas matérias correspondentes que publiquei ao longo do ano:

  1. iPhone 11 — Nada novo nos novos iPhones, iPhone 11 brasileiro fica mais barato, mas ainda é bem caro.
  2. Moto G7 — Moto G7 Play: o mais barato finalmente está bom o bastante.
  3. Amazon Prime — Um dia ruim para a Netflix.
  4. Faceapp — A (falta de) privacidade do FaceApp.
  5. Dollify — “O que são esses desenhos de olhos esbugalhados?” A curiosa história do Dollify.
  6. Xiaomi Mi 9 — O que a Anatel diz sobre os produtos da Xiaomi supostamente não homologados à venda no Brasil, Youtubers brasileiros recomendam celulares chineses irregulares e sem garantias legais ao consumidor.
  7. Moto G7 Plus.
  8. Galaxy S10 — Os melhores celulares deixaram de ser os mais caros.
  9. Moto G6 Plus.
  10. Moto G6 Plus.

Adeus, Wunderlist

O aplicativo de listas de tarefas Wunderlist, comprado e sentenciado ao esquecimento pela Microsoft em 2015, finalmente tem data para parar de funcionar: 6 de maio de 2020. [Microsoft, em inglês]

→ Aparentemente, o pedido do cofundador do Wunderlist para que a Microsoft vendesse o Wunderlist de volta a ele não surtiu efeito. [Manual do Usuário, em português]

Elon Musk ou Ranely?

Se a vida é um video game, os gráficos são ótimos, mas o enredo é confuso e o tutorial demora demais.

Desafio rápido: quem publicou a mensagem acima no Twitter, o empreendedor e lunático em tempo integral Elon Musk ou o grande pensador Ranlely via perfil satírico @policiasurpresa? Não que seja uma grande surpresa, mas a resposta certa é “os dois”. [@avelino_andrei/Twitter, em inglês e português]

Luta de classes digital

Leitura longa e inquietante: Privacidade é, na verdade, um problema de classes. [The New Republic, em inglês]

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Foto do topo: Heisenberg Media/Flickr.

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