Montagem do logo do YouTube com as estrelas da bandeira da China e, ao fundo, bandeira do Brasil estilizada.

Youtubers brasileiros recomendam celulares chineses irregulares e sem garantias legais ao consumidor


19/3/19 às 10h24

Nunca tivemos tantos produtos à disposição no mercado, a maioria deles ao alcance de alguns cliques via internet. A farta disponibilidade desnorteia qualquer um, por isso publicações especializadas como blogs e canais de YouTube com análises/reviews despontaram graças à promessa de auxiliar o consumidor na tomada de decisões. Mas quem recorre ao YouTube brasileiro para se informar sobre modelos e preços de celulares pode acabar com uma tremenda dor de cabeça. Recomendações de aparelhos chineses não homologados no Brasil e vendidos por lojas sem presença oficial aqui dominam alguns dos canais de tecnologia mais populares do serviço, representando um risco que é raramente informado ao consumidor.

Qualquer um que acompanhe ou que já se dispôs a buscar informações sobre celulares no YouTube deve ter notado o grande volume de aparelhos de marcas como Xiaomi, Honor, Elephone, Cubot e outras com nomes complicados sendo vendidos por lojas chinesas como Gearbest e Banggood. Esses aparelhos não são encontrados no varejo formal brasileiro.

Os celulares chineses irregulares no país são recomendados pelos youtubers por dois motivos. Primeiro, porque têm um ótimo custo/benefício. Graças a modelos de negócio que não tentam auferir lucro na venda direta, às vantagens geográficas na cadeia de produção e à não incidência de impostos, marcas chinesas conseguem praticar preços impossíveis para as concorrentes que atuam formalizadas no Brasil. Alguns modelos chineses chegam a ser vendidos por até 1/3 do preço dos equivalentes ocidentais.

O outro motivo, tão importante quanto, é que os youtubers ganham comissões das lojas chinesas quando um espectador compra produtos nelas clicando nos links deixados nas descrições dos vídeos. Esse incentivo também é adotado por varejistas brasileiros, mas as comissões dos chineses são mais generosas — em alguns casos, até quatro vezes maiores.

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Para piorar o cenário ao consumidor, os youtubers não deixam claro que as recomendações são comissionadas, dando a entender que são desinteressadas. O Manual do Usuário analisou os vídeos mais recentes de oito dos canais de tecnologia mais populares do Brasil que trabalham com e indicam aparelhos vendidos por lojas chinesas. Em nenhum deles os youtubers fazem essa ressalva.

Além disso, a importação direta via Correios de aparelhos celulares é proibida no Brasil, de acordo com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). O problema se estende a varejistas brasileiros que oferecem marketplaces, ou seja, que funcionam de vitrine para lojistas menores venderem seus produtos. Nesses locais não é difícil encontrar aparelhos não homologados pela Anatel sendo vendidos por lojas pequenas. A homologação é obrigatória para a comercialização em território nacional de dispositivos que emitam ondas eletromagnéticas e consiste em uma bateria de testes de conformidade e segurança definidos pela Anatel. Links da Amazon, que também possui um programa de comissões, apareceram em alguns vídeos analisados pelo Manual do Usuário.

Por fim, o consumidor pode acabar no prejuízo. Como as fabricantes e as lojas chinesas não têm representação no Brasil, o Código de Defesa do Consumidor (CDC) não vale para essas transações. Em outras palavras, a relação de consumo não tem amparo legal em caso de problemas de qualquer natureza. E problemas acontecem. Como os produtos vêm de longe e o frete é barato ou gratuito, os prazos de entrega costumam ser dilatados (frequentemente, de meses); o acesso à garantia é difícil e tem regras próprias e piores que as brasileiras; e mesmo que a loja ou a fabricante aceite fazer a troca ou o reembolso de um produto defeituoso, o consumidor precisa arcar com os custos da devolução e estar disposto a passar meses sem o seu produto — algo grave em se tratando de um bem tão indispensável como o celular.

A abordagem (e as comissões) das lojas

Print de uma oferta de celular da Xiaomi na Gearbest.
Gearbest é uma das lojas de celulares chineses mais populares entre os youtubers brasileiros. Imagem: Gearbest/Reprodução.

A loja chinesa mais popular entre os youtubers brasileiros é a Gearbest. A empresa aparece na plataforma de comissões da Awin, uma espécie de agregadora que intermedia as relações entre publicações/influenciadores e diversas lojas e aplicativos, e também oferece um programa de comissões direto, sem intermediários, em seu próprio site.

Segundo o descritivo da Gearbest na Awin, as comissões por venda podem chegar a 10% do valor do produto. No programa próprio, a publicidade da empresa diz que as comissões chegam a 12%. Lojas nacionais que trabalham com o mesmo esquema de comissões costumam pagar, na categoria de celulares, em média apenas 3%.

A Gearbest também aborda direta e ativamente influenciadores, convidando-os a ingressarem no programa. E não influenciadores também, como é o caso do Manual do Usuário — aparentemente, basta ter uma pequena audiência e falar de assuntos relacionados aos produtos vendidos na loja para entrar no radar dela. Entre maio de 2015 e julho de 2018, o Manual foi abordado cinco vezes por diferentes representantes da Gearbest. Nas mensagens, eles apresentam a loja e dizem que alguém de lá encontrou o blog, “gostou realmente” dele e que têm interesse em firmar parceria para postar ofertas e promoções.

Print de um e-mail da Gearbest, de 2017, convidando o blog para o programa de comissões.
E-mail da Gearbest convidando o Manual do Usuário para participar do seu programa de comissões.

A Gearbest ainda oferece um “Pro Program”, em que envia gratuitamente produtos a influenciadores para que eles testem e publiquem conteúdo sobre. O envio de novos produtos depende do “desempenho prévio”, ou seja, do potencial de direcionar vendas. No site do programa se lê:

Quais gadgets legais eu posso ter DE GRAÇA?

Tudo depende da sua área de especialização. Vamos analisar sua solicitação de produto e seu desempenho prévio. Se houver uma boa combinação, enviaremos o produto para você DE GRAÇA. Alternativamente, você pode comprar o item com um grande desconto primeiro. Depois que o review for publicado e tiver um bom desempenho, ficaremos felizes em reembolsar o valor total. Desde que estejamos os dois contentes com o programa, enviaremos um e-mail com notícias sobre nossos produtos mais recentes na área escolhida para ver se você gostaria de recebê-lo para análise.

Dos oito canais de YouTube analisados pelo Manual do Usuário, apenas um disse explicitamente ter recebido o celular analisado gratuitamente da Gearbest. Não é possível afirmar se os demais dos vídeos analisados foram recebidos a título gratuito ou comprados pelos youtubers.

A Banggood é outra loja chinesa, com sede em Hong Kong, recorrente nas descrições dos vídeos de youtubers brasileiros. Ela também oferece um programa de comissões que paga até 12% do valor dos produtos a quem os indica, mas diferentemente do “Pro Program” da Gearbest, o “Review Club” da Banggood troca pontos por produtos:

Você recebe 10 pontos por postar uma foto, 10 pontos por escrever um review e 40 pontos por postar um vídeo do produto.

Na análise dos vídeos (abaixo), também apareceram lojas obscuras brasileiras. Nessas, o maior atrativo é o tempo de entrega, mais rápido porque os produtos (em tese) estão no Brasil, e a garantia de que não haverá a incidência de impostos que, na importação, podem ser cobrados pela Receita Federal durante a triagem dos produtos no Centro de Tratamento Internacional dos Correios, em Curitiba (PR), por onde chegam encomendas pequenas do tipo vindas do exterior. Essas vantagens são alardeadas pelos youtubers que, em muitos momentos, parecem mais promotores de vendas do que especialistas analisando criticamente um produto.

Print de vídeo do YouTube exibindo cupom de loja irregular brasileira oferecido por um youtuber.
Youtuber oferece cupom de desconto em loja brasileira que vende o celular Mi Mix 3, da Xiaomi. Foto: YouTube/Reprodução.

Essas lojas brasileiras obscuras também estão em alguns marketplaces, pegando emprestado o prestígio de nomes renomados do varejo nacional para venderem produtos irregulares. É por isso que esses celulares aparecem nas vitrines virtuais de lojas grandes e sérias, como a da Amazon — a única das grandes com atuação no Brasil que tem links nas descrições dos vídeos analisados pelo Manual do Usuário. Curiosamente, a Amazon destaca a marca “Xiaomi”, que até a semana passada não tinha presença oficial no Brasil, na página inicial da sua seção de celulares.

Print da página de venda do Xiaomi Mi 8 Lite no site da Amazon Brasil.
Celular da Xiaomi, não homologado no Brasil, à venda no marketplace da Amazon. Imagem: Amazon/Reprodução.

A pedido do Manual do Usuário, a Amazon do Brasil enviou o seguinte posicionamento a respeito da veiculação desses produtos irregulares em seu marketplace:

As vendas desses dispositivos na Amazon.com.br são feitas pelo sistema de marketplace. Para questões mais específicas, sugerimos contatar diretamente o(s) vendedor(es) do produto.

O Manual do Usuário veicula, nas redes sociais (Telegram e Twitter) e em alguns posts como os das mochilas, links de produtos vendidos na Amazon e nas lojas da B2W com códigos que geram comissão. Os termos desses links são avisados sempre que possível (exemplo). E, obviamente, o Manual jamais indica produtos irregulares ou que representem qualquer risco às garantias legais do leitor enquanto consumidor. Essa é uma das frentes de financiamento do blog, juntamente com projetos feitos em parceira com empresas (ainda fora de funcionamento) e a campanha de financiamento coletivo no Catarse.

“Este eu recomendo!”

O incentivo para vender celulares pelos links comissionados mina a credibilidade dos youtubers. Nenhum aparelho foi classificado como “ruim” nos vídeos analisados. Mesmo modelos de entrada e com características comumente associadas à baixa qualidade, como acabamento todo em plástico e tela com pouco brilho, foram suficientes para que os youtubers desaconselhassem a compra desses aparelhos. Foi o caso do desconhecido Cubot P20 — que não tem relação alguma com o P20 Pro, da Huawei —, analisado e endossado com um link para a Gearbest pelo canal Be!Tech.

Print de vídeo do YouTube em que o youtuber recomenda celulares chineses sem qualquer critério.
Mesmo com características típicas de produtos de baixa qualidade, o Cubot P20 foi endossado entusiasticamente pelo youtuber. Foto: YouTube/Reprodução.

O Manual do Usuário analisou oito dos canais de tecnologia brasileiros mais populares do momento. Somados, eles falam com quase seis milhões de seguidores. Os canais e vídeos analisados foram os seguintes:

  • Dudu Rocha (1,22 milhão de seguidores), vídeo "😯 CADÊ A CÂMERA DELE❓ Xiaomi mi Mix 3 - Review! SÓ TELA e CÂMERA SLIDE! (análise)".
  • Be!Tech (1,12 milhão), vídeo "SERIA ELE a VERSÃO SUPER BARATA do HUAWEI P20!? CUBOT P20!".
  • TukEmperial (1,04 milhão), vídeo "Custa 400 Reais! Parece um iPhone tem tela AMOLED e 128GB parece mentira isso!".
  • EscolhaSegura (866 mil), vídeo "XIAOMI MI 8 LITE vale a pena? | Analise / Review Completo".
  • Geek Antenado (576 mil), vídeo "DESSA VEZ A ELEPHONE ACERTOU EM CHEIO! Elephone A5 - Unboxing e Impressões".
  • brasiliGEEKS (413 mil), vídeo "MI MIX 3 | ANÁLISE / REVIEW | LINDO, PODEROSO E COM TELA SEM BORDAS!".
  • K Tech (334 mil), vídeo "XIAOMI MI 9 ! O maior SUCESSO da XIAOMI - PORTUGUÊS BRASIL".
  • Tech Nerd (266 mil), vídeo "o CELULAR mais ABSURDO da XIAOMI! 😱 Mi Mix 3 (Unboxing)".

A escolha dos canais foi pautada pelo tamanho da audiência e pela presença, nos últimos meses, de vídeos com análises de celulares chineses não homologados pela Anatel e que continham links de comissão de lojas chinesas nas descrições. Dentro do grupo, o vídeo mais recente desse tipo em cada canal foi assistido na íntegra a fim de verificar se:

  1. Há links comissionados na descrição;
  2. Há citações no vídeo aos links da descrição;
  3. É informado que esses links geram comissões ao canal; e
  4. É informada a origem do produto — se ele foi comprado, cedido temporariamente ou doado pela loja.

Em dois vídeos (TukEmperial e Geek Antenado), os apresentadores falam em taxas de importação, o imposto que, se um produto for parado pela Receita Federal no desembaraço ao chegar ao Brasil, é cobrado do importador. Não é possível afirmar, porém, que eles foram comprados ou recebidos a título gratuito. Nos outros seis vídeos, não há menção, sequer indireta, à origem dos aparelhos analisados.

Em outros dois vídeos (Be!Tech e Dudu Rocha), os apresentadores não citam a presença de links de compra na descrição.

Em nenhum vídeo é informado que as compras feitas pelos links da descrição geram comissões aos canais.

Embora não seja possível afirmar categoricamente que os canais recebam comissões, as URLs (endereços dos sites) dos links de lojas nas descrições dão fortes indicativos de que sim devido à presença de parâmetros, complementos que ajudam a loja a identificar a origem dos acessos a partir dos links compartilhados por esses canais. Os da Gearbest, por exemplo, costumam ter o parâmetro ?lkid=XXXXX, onde XXXXX é um número identificador único do youtuber. É dessa forma que a loja consegue atribuir a venda a ele e recompensá-lo com a comissão prometida.

O gráfico abaixo resume as descobertas da análise. No que diz respeito aos links, foram analisados apenas os referentes ao aparelho objeto do vídeo — alguns canais colocam, além desses, listas enormes com links de outros produtos recomendados que levam o espectador às lojas chinesas:

Dois gráficos mostrando a divisão de lojas e marcas citadas pelos youtubers analisados em seus vídeos de celulares chineses mais recentes.
Quais marcas os youtubers brasileiros analisam e para quais lojas mandam os espectadores. Gráficos: Manual do Usuário.

O Manual do Usuário perguntou a todos os youtubers dos canais analisados se eles trabalham com programas de comissões das lojas chinesas que indicam. Essas e outras perguntas estão no final da matéria.

O vídeo do canal TukEmperial indica o celular de uma marca chamada HomeCare que é, basicamente, uma cópia de modelos antigos do iPhone com preço de venda, na loja chinesa, de cerca de R$ 400. Aqui se entra em um terreno perigoso: o dos celulares potencialmente piratas.

Print de vídeo do YouTube em que o youtuber analisa e indica um celular da HomeCare que é cópia do iPhone.
Aparelho da marca HomeCare tem indícios de pirataria, a começar pelo visual: uma cópia quase perfeita do iPhone, da Apple. Foto: YouTube/Reprodução.

Um celular pirata é um que não conta com um IMEI válido, o identificador único que todo celular legalizado possui. A Anatel, em parceria com as operadoras, está em processo de cancelamento de todos os celulares piratas ativos no Brasil. Não é possível averiguar se os da marca HomeCare se enquadram nessa categoria; de qualquer forma, a obscuridade da marca e o fato de o modelo analisado ser uma cópia bastante fiel de um produto de outra empresa estabelecida, a Apple, são características comuns a celulares piratas. Ou seja, é mais um risco a que o youtuber expõe o espectador.

Os riscos ao consumidor

Ao comprar de uma loja de fora do Brasil e/ou de uma fabricante que não tem representação formal no país, o consumidor abdica das garantias previstas no Código de Defesa do Consumidor, como o direito de arrependimento da compra em até sete dias a partir do recebimento e proteções em caso de vício (defeito). É isso o que diz Diogo Moyses, líder do programa de Telecomunicações e Direitos Digitais do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec): “Qualquer reclamação vai ficar prejudicada e você não terá a empresa legalmente constituída aqui para que o consumidor acione os mecanismos legais — e eventualmente judiciais — em caso de um descumprimento de oferta”.

Moyses esclarece que o consumidor pode comprar um celular em outro país que já esteja homologado no Brasil pela Anatel e trazê-lo para ser usado aqui, como um iPhone, um Moto G ou um Galaxy S, por exemplo. Ainda assim, essa importação só pode ser feita pessoalmente, ou seja, quando o consumidor viaja ao exterior. De acordo com a Anatel, a importação por meio dos Correios de produtos de alguns telecomunicações, entre eles o celular, é proibida. Em nota enviada ao Manual do Usuário, a agência informa:

Também é relevante lembrar que a importação de produtos de telecomunicações por consumidores por meio dos Correios é proibida no Brasil. Dessa forma, o consumidor pode trazer um equipamento em mãos ao voltar de viagens internacionais, mas não pode encomendar tais produtos do exterior por correspondência. As importações regulares de equipamentos de telecomunicações seguem legislação específica.

Em novembro de 2018, uma nota de conteúdo similar divulgada no site da agência causou alvoroço ao sugerir que importadores poderiam iniciar o processo de homologação de produtos importados para uso próprio mediante uma taxa de R$ 200 paga à Anatel.

A Anatel esclarece, entretanto, que essa possibilidade está restrita a algumas categorias de produtos, como drones, mouses sem fio, teclados sem fio, fones de ouvido sem fio e relógios inteligentes. Entre os que não estão sujeitos à homologação individual, justamente por terem a importação via Correios proibida, estão os telefones celulares.

Ainda segundo a Anatel, aparelhos não homologados detectados na fiscalização e que “não apresentam condições de regularização” são devolvidos à origem. Na prática, porém, o que costuma acontecer é a Receita Federal cobrar um imposto na ordem de 60% do valor total do produto, condicionando a retirada dele em uma agência dos Correios ao pagamento dele. Em face a essa incongruência, o Manual do Usuário questionou por que celulares importados via Correios, incluindo muitos não homologados pela Anatel, chegam às mãos dos consumidores brasileiros que optam pela importação via lojas chinesas. Até a data da publicação desta matéria, a agência não havia respondido. O texto será atualizado caso a resposta chegue.

Às 10h55, a Anatel enviou resposta ao pedido do Manual do Usuário. A agência diz que “todo o equipamento não homologado não pode ingressar em território nacional, especialmente os de categoria I, como o celular, que são de uso do consumidor final. Os que conseguem burlar a aduana por algum falha administrativa, estarão em situação irregular”.

Existe uma grande possibilidade, dado o nível de qualidade nos processos de fabricação de marcas globais como Xiaomi e Huawei, de que celulares importados não apresentem defeito e passem sem serem importunados pela Receita Federal na triagem realizada nos Correios em Curitiba. Mas mesmo reduzidos, os riscos existem: o de receber um aparelho defeituoso, diferente do pedido ou mesmo quebrado. E também o de ser taxado, o que eleva o custo total do produto em 60%, eliminando uma das maiores vantagens propagadas pelos youtubers, que é o baixo preço dos celulares chineses.

No Reclame Aqui, plataforma que reúne reclamações de consumidores e as conecta às lojas e fabricantes, a nota da Gearbest é 6,4 (de 0 a 10) nos últimos seis meses. A da Banggood, 6,7. Em ambas a principal reclamação é por atrasos na entrega, seguida pela de produtos não recebidos. A título comparativo, algumas lojas nacionais têm notas consideravelmente mais altas: 8,0 para o Submarino; 8,2 para o Magazine Luiza; e 8,4 para a Americanas.com.

Em redes sociais e grupos de entusiastas e consumidores em aplicativos como o Telegram, não é difícil encontrar histórias de consumidores lesados pela importação desses celulares.

A analista de sistemas Lorrene Carolline Nunes Vieira, de Jacareí (SP), comprou um celular Xiaomi Mi Max Prime em julho de 2016 na Gearbest. Pagou US$ 304 e esperou dois meses para receber o produto em sua casa, não sem antes pagar mais R$ 204 à Receita Federal para liberá-lo nos Correios — ela foi taxada. Mesmo com o prejuízo, Lorrene afirma que voltaria a importar da China: “Mesmo com a demora e o imposto a ser pago, ainda é mais barato que comprar um produto similar no Brasil”. Atualmente ela usa um Moto G6 Play comprado no Brasil.

O caso do autônomo Rodrigo Cana, de São Paulo (SP), foi mais grave. Cerca de 40 dias após ter recebido seu Mi A1, da Xiaomi, o celular parou de funcionar. Sequer ligava. “Entrei em contato com a loja [Gearbest] e eles falaram que não tinha mais garantia”, conta. No caso, a garantia prometida pela loja era de apenas 30 dias. “Depois de muito tentar, eles propuseram que eu mandasse o aparelho de volta para me ressarcirem, mas o envio ficava muito caro, mais de R$ 200. Não compensava; havia pagado R$ 700 no aparelho e ainda ia demorar um bom tempo [para voltar à China]. No fim, ressarciram R$ 150 e vendi o aparelho aqui para a retirada de peças”.

Hoje, Cana usa um Moto Z2 Play e não diz que arriscaria outra compra do tipo: “Acho que dei azar; conheço muita gente que deu certo. Mas eu não tenho mais coragem de comprar [de lojas chinesas]. Fiquei com um pé atrás”.

A recomendação dos órgãos de defesa do consumidor é para não arriscar. “O Idec não recomenda fazer esse tipo de compra [importar celular da China] porque o barato sai caro”, orienta Moyses. O caso de Cana ilustra bem isso: fosse no Brasil, ele teria não 30, mas no mínimo 90 dias para reclamar de defeitos de fabricação, e se a loja propusesse qualquer coisa diferente do conserto ou troca, teria ainda o caminho da Justiça para ter sua demanda resolvida. “Se o consumidor quer ter seus direitos respeitados, ele deve prioritariamente comprar de uma empresa registada e com atuação nacional”, finaliza Moyses.

Situação das marcas chinesas no Brasil

Mate 20 Pro, da Huawei, tem a melhor câmera do mercado segundo o site especializado DxOMark. Foto: Kārlis Dambrāns/Flickr.

Celulares de marcas como Xiaomi e Huawei, que têm ações negociadas em bolsas, presença global e volumes de venda enormes, são de boa qualidade. Obviamente, como todo produto manufaturado há sempre o risco de defeito de fabricação, mas no geral ele não difere do de marcas com presença maior no Ocidente e no Brasil.

As marcas chinesas de celulares começaram a se destacar há poucos anos por uma combinação que desafia a matemática: produtos de alta qualidade por preços muito baixos. O Pocophone F1, por exemplo, uma submarca da Xiaomi, tem características similares às do Galaxy S9, que no Brasil custava R$ 4.299 na época do seu lançamento, por um preço final de cerca de R$ 1.100. Como isso é possível?

Renato Meireles, analista de mercado em Mobile Phones & Devices da consultoria IDC Brasil, explica que isso, em parte, se deve ao modelo de negócio dessas empresas. “As empresas gigantes não vivem só de smartphones; elas têm uma gama de produtos muito grande. Através de outras categorias, conseguem subsidiar smartphones, chegando a preços mais acessíveis”. A Xiaomi também vende patinetes elétricos, TVs, drones, notebooks e até óculos especiais, e é notória por vender celulares a preço de custo. Atualmente, é a quinta empresa que mais vende celulares no mundo. Além do subsídio de outras categorias de produtos, o sistema operacional da marca para celulares, chamado “MIUI”, exibe publicidade aos usuários como forma de gerar receita no pós-venda. Chamada muitas vezes de “Apple da China”, por essa estratégia baseada em publicidade alguns analistas já afirmam que a empresa, na verdade, lembra mais o Facebook. Publicações como o Financial Times são bastante céticas em relação à capacidade de geração de lucro a longo prazo da Xiaomi, receio compartilhado pelo mercado — as ações da empresa são negociadas a preços 43% menores que o pico, atingido logo após a sua abertura de capital.

Já a Huawei é a maior empresa de equipamentos de telecomunicações do mundo, do tipo que as operadoras usam para espalhar suas redes 4G. Sua divisão de celulares tem se destacado pelas câmeras de ponta, fruto de uma parceria com a lendária marca alemã de câmeras Leica, e aparelhos que ditam tendências e que, ao contrário da Xiaomi, têm preços similares aos dos topos de linha de marcas mais tradicionais, como Apple e Samsung — ou seja, com margem de lucro. Em 2018, a Huawei superou a Apple como segunda maior fabricante de celulares do mundo e ambiciona destronar a atual líder, a sul-coreana Samsung. Além da Ásia, a Huawei lidera diversos mercados na Europa. Em comum com a Xiaomi, ambas não atuam no mercado norte-americano e têm a antipatia da administração de Donald Trump, em especial a Huawei, que trava uma guerra para se provar digna de confiança no fornecimento de infraestrutura para o 5G.

A Huawei enviou um posicionamento às 19h do dia 20 de março sobre o assunto tratado nesta reportagem. Segue na íntegra: “A Huawei está comprometida em construir um mundo melhor e conectado oferecendo soluções inteligentes por meio de um portfólio competitivo de dispositivos móveis. Com a chegada oficial da marca em maio, no Brasil, a garantia será oferecida àqueles dispositivos que forem homologados pela Anatel e comercializados no país.”

Além disso, prossegue Meireles, as fábricas que desenvolvem os componentes dos celulares estão na China e algumas dessas gigantes, como a Huawei, conseguem fabricar boa parte dos componentes usados em seus próprios celulares. “Isso impacta no preço final. Elas [as marcas chinesas] conseguem reduzir a margem de um produto premium a uma faixa de preço mais acessível”, diz.

Com produtos bons e preços menores que os da concorrência, é compreensível o fascínio de consumidores e youtubers pelos celulares chineses. A possibilidade da não incidência de impostos deixa a oferta ainda mais tentadora, mesmo com todos os riscos e irregularidades já apresentados. Isso pode gerar uma dúvida genuína: por que essas marcas, vendo todo o interesse e boa receptividade que elas geram aqui, não atuam no Brasil?

Elas já tentaram. Em 2015, a Xiaomi desembarcou no Brasil com muita fanfarra. Porém, devido a uma estratégia desastrosa, não adaptada ao mercado local, a incursão por aqui durou menos de um ano. O Manual do Usuário noticiou, com exclusividade, a saída da Xiaomi do mercado brasileiro em maio de 2016.

Neste mês de março, a Xiaomi retornou ao Brasil graças a uma parceria com a fabricante local DL, com sede no interior de Minas Gerais. Os primeiros produtos, devidamente homologados pela Anatel e com garantia de um ano da fabricante, são o Pocophone F1 e o Redmi Note 6 Pro, com preços de R$ 2.999 e R$ 1.999, respectivamente, muito superiores aos cobrados por lojas chinesas — R$ 1.131 e R$ 726 na Gearbest, em consulta feita no dia 17 de março. Mesmo com a incidência do imposto, de cerca de 60% do valor dos produtos, ele ainda custariam praticamente metade do que custam no mercado formal brasileiro — R$ 1.809 e R$ 1.161.

Foto de divulgação do Redmi Note 6 Pro nas quatro cores disponíveis.
Redmi Note 6 Pro, um dos celulares da Xiaomi que lançados no Brasil. Foto: Xiaomi/Divulgação.

A Huawei anunciou em 2018 e reforçou a promessa com uma data mais específica, em entrevista ao Estadão, que voltará a vender seus celulares no Brasil. Já no próximo mês de maio, segundo a executiva entrevistada. (A empresa já atua no Brasil há décadas no segmento de telecomunicações — B2B, sem relação com celulares.) É outra empresa que já tentou o mercado local, por volta de 2014, sem sucesso. Desta vez, porém, ela deve chegar com seus modelos mais caros, que lá fora rivalizam com os melhores da Samsung e Apple.

Marcas menos conhecidas, algumas referendadas nos vídeos dos youtubers analisados como Cubot e HomeCare, não têm previsão de expansão para o Brasil.

Meireles revela que, em pesquisas da IDC feitas junto a consumidores brasileiros do tipo “recall de branding”, ou seja, para detectar quais as marcas mais populares no país, as chinesas amargam resultados sofríveis. Em uma pesquisa do tipo recente, elas foram lembradas por apenas 1% dos 1.200 entrevistados — somadas. Isso denota uma cobertura exagerada dos youtubers brasileiros. E para as marcas da terra de Xi Jinping que estão chegando agora ao Brasil, significa que elas terão muito trabalho para fazer frente à Samsung e à Motorola na mente dos brasileiros.

O que dizem os youtubers

A presença maciça de vídeos com análises favoráveis de aparelhos chineses nos canais de tecnologia mais populares do Brasil, somada à influência do algoritmo do YouTube, que tende a recomendar vídeos similares aos já vistos pelo espectador, criam o cenário perfeito para que os consumidores tomem decisões perigosas sem estarem cientes de todos os riscos — já que os youtubers não costumam falar e, quando sim, o fazem com pouca ênfase e de maneira incompleta.

O Manual do Usuário entrou em contato com os oito youtubers que tiveram seus vídeos analisados durante a apuração desta reportagem. A cada um deles, enviou as perguntas abaixo:

  1. Você tem ciência de que recomenda a seus espectadores produtos irregulares que não poderiam ser comprados no Brasil ou encomendados via Correios de lojas do exterior?
  2. Os links de lojas que constam nas descrições dos seus vídeos são do tipo afiliados, que revertem comissões a você caso algum espectador faça compras por eles?
  3. Em caso positivo, você informa aos espectadores que essas compras geram comissão paga pelas próprias lojas a você?
  4. Você informa aos espectadores a origem dos produtos analisados em seu canal no YouTube (se foram pagos por você mesmo, cedidos a título de empréstimo ou doados)?
  5. As lojas parceiras dão alguma orientação na maneira como as análises devem ser feitas?
  6. Caso exista alguma parceria vigente com lojas que te comissionam, elas já reclamaram de alguma análise publicada por você?
  7. Você já teve algum problema com espectadores que fizeram compras em lojas indicadas pelo seu canal no YouTube e que resultaram em imprevistos tais como atraso na entrega, produto defeituoso ou taxação pela Receita Federal?
  8. Se sim para a pergunta anterior, como procedeu junto ao espectador lesado? Existe um protocolo para responder a esse tipo de reclamação?

Até a publicação desta matéria, nenhum havia retornado o contato com as respostas. Caso isso aconteça, o texto será atualizado.

O Manual do Usuário também pediu uma entrevista com representantes do YouTube Brasil para tratar do tema. A assessoria do YouTube negou a entrevista. Em vez disso, enviou o seguinte posicionamento:

Todo e qualquer conteúdo no YouTube deve seguir nossas Diretrizes da Comunidade. Oferecemos ferramentas para que o usuário denuncie conteúdos que acredite violar alguma de nossas políticas. Quando não há violação clara às políticas de uso, a análise final sobre a necessidade de remoção de conteúdo cabe ao Poder Judiciário, nos termos do Marco Civil da Internet.

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