Várias caricaturas feitas com o Dollify.

“O que são esses desenhos de olhos esbugalhados?” A curiosa história do Dollify


15/7/19 às 11h02

“Ajudem o tio aqui: os fakes já passaram por várias modas nesses meus 10 anos de Twitter. Agora são esses desenhos de olhos esbugalhados. O que é isso?” A pergunta foi feita pelo Leandro Demori, editor-executivo do The Intercept Brasil. Os desenhos não são exclusividade de robôs e contas falsas no Twitter. Nas últimas semanas, redes sociais e aplicativos de mensagens foram tomados por uma legião dessas caricaturas bem peculiares. De onde elas vieram?

As caricaturas de traços delicados e que destacam os olhos, mas de uma maneira divergente da dos tradicionais desenhos japoneses — também caracterizados pelos olhões —, são feitas com um aplicativo chamado Dollify. Ele foi criado pelo artista digital costa-riquenho David Álvarez, conhecido na internet como Dave XP. Por e-mail, o Manual do Usuário bateu um papo com Dave para saber como o app surgiu.

Uma suspeita minha foi confirmada pelo criador do Dollify: o Brasil lidera a lista dos países que mais baixaram o aplicativo. Foram dois milhões de instalações por aqui, o que corresponde a 16,6% do total de 12 milhões de downloads feitos desde o seu lançamento, há pouco mais de seis meses, em dezembro de 2018.


As principais notícias de tecnologia e indicações de leituras no seu e-mail. Assine a newsletter (é grátis!):


Dave nasceu e mora na Costa Rica. Ele chegou a estudar animação durante dois anos na Universidade Veritas, na capital do país, San José, mas largou o curso para trabalhar com o objeto do seu estudo. Passou, então, nove anos animando comerciais e séries de TV quando sentiu a necessidade de buscar novos desafios. “Só queria fazer algo meu usando a força do Instagram”, relembra.

O Dollify, pois, nasceu como um projeto na rede social de fotos do Facebook. Um ano antes do app ser lançado, Dave se propôs publicar um desenho por dia em seu perfil no Instagram. “Queria ver se, fazendo isso, eu poderia aumentar o número de seguidores e, enfim, ganhar a vida a partir disso”, disse. Alguns meses mais tarde, a estratégia funcionou e a sua base de seguidores passou a crescer rapidamente. Não sem méritos; veja só que desenhos bonitinhos:

Caricatura feita com o Dollify.
Caricatura feita com o Dollilfy destacada por Dave. Imagem: @dave.xp/Instagram.
Caricatura da Rey, de Star Wars.
Rey, personagem de Star Wars interpretada por Daisy Ridley, em caricatura feita por Dave. Imagem: @dave.xp/Instagram.
Homem-Aranha em versão Dollify.
No falecimento de Stan Lee, Dave desenhou este Homem-Aranha em homenagem ao quadrinista. Imagem: @dave.xp/Instagram.

“Chegou um momento em que eu estava recebendo 50 mensagens por dia de pessoas querendo que eu as desenhasse — eu só conseguia desenhar duas por dia —, então achei que um app seria a melhor maneira de todo mundo ter seu próprio retrato neste estilo”, disse Dave. Achou certo, aparentemente.

Para a primeira versão, Dave se uniu com a Sunna Entretenimento, uma empresa costa-riquenha que forneceu dois programadores para fazer a parte técnica do Dollify. Dave era o único artista e designer na primeira versão do app.

Curiosamente, essa primeira versão não tinha modelos masculinos. “Nunca planejei incluir [modelos] masculinos no app porque meu público no Instagram é quase todo feminino”, disse, “mas apenas alguns dias após o lançamento do app, recebi toneladas de mensagens de pessoas querendo os masculinos também”. Para atender a nova e inesperada demanda, um artista da Sunna se juntou ao time e ele contou com a ajuda de alguns freelancers para elementos como penteados, óculos e colares. A inclusão de homens no app consumiu mais seis meses de trabalho e chegou ao app recentemente, no início de julho.

Ascensão meteórica

Disponível para Android e iOS, o Dollify lembra muito outros aplicativos de criação de avatares, dos mais remotos (Buddy Poke do Orkut, lembra?), passando por fenômenos efêmeros como o bizarro MomentCam até versões modernas de fabricantes de celulares, como os Animojis da Apple e os (pavorosos) ARmojis da Samsung. Parece que de tempos em tempos um desses se alastra feito fogo na palha pela internet brasileira, embora os dois últimos citados não tenham desfrutado dessa popularidade, provavelmente por estarem disponíveis apenas em celulares muito caros.

David Álvarez falando em frente a um computador.
Dave XP em um dos seus vídeos no YouTube. Imagem: YouTube/Reprodução.

O Dollify, por outro lado, é democrático: funciona em qualquer dispositivo iOS com a versão 11 ou posterior e nos Android 4.1 ou mais recentes. E é um aplicativo freemium, ou seja, gratuito, mas com opções extras desbloqueáveis mediante pagamento único de R$ 25 (iOS) ou R$ 27 (Android), nenhuma essencial ao seu funcionamento básico. Ao pagar, o usuário ganha:

  • Acesso a todos os itens premium, como roupas, penteados, óculos e outros itens extras.
  • Remoção da marca d’água do Dollify na imagem final.
  • Salvamento de “Dolls” ilimitados (a versão gratuita tem uma limitação de cinco salvamentos).

A clareza do modelo de negócio se repete na política de privacidade, enxuta e direta, que aliada ao comportamento corretíssimo do aplicativo merece um destaque positivo. Lê-se nela:

Nosso app Dollify não coleta nenhum dado pessoal. Qualquer solicitação de acesso aos recurso de Câmera ou Galeria em seu dispositivo é para o objetivo do usuário de usar suas próprias imagens como plano de fundo para seus avatares e para salvar os resultados das imagens em seus respectivos dispositivos.

Não coletamos nenhuma dessas informações nem usamos nossos servidores para tal. Qualquer informação gerada pelo acesso aos recursos de Câmera e Galeria é armazenada em cada dispositivo do usuário.

Políticas de privacidade curtas costumam significar modelos de negócio transparentes e respeitosos. Era assim a primeira do Google, de 1999, por exemplo. Bons tempos…

Perfis falsos e o futuro

Não poderia deixar de perguntar ao Dave o que ele acha de perfis falsos e robôs brasileiros estarem adotando imagens feitas com o Dollify nas redes sociais. Emanando a maior tranquilidade possível em uma conversa por texto, ele disse que está ciente de maus usos do seu app, mas que isso acontece com qualquer um que alcança a escala atual do Dollify. “Então, apenas não me preocupe muito com isso; não podemos controlar o livre arbítrio das pessoas”, justifica.

Após dois anos trabalhando ininterruptamente no Dollify e, em paralelo, publicando no Instagram e produzindo alguns vídeos de bastidores interessantes no YouTube, Dave finalmente vê o trabalho dar grande retorno enquanto desfruta de um merecido descanso. Isso não significa, porém, que o Dollify seja um projeto encerrado. “A próxima atualização será na maior parte focada em recursos de maquiagem”, antecipa.

Fora isso, novos apps também estão no horizonte do artista. “Estou desenvolvendo os próximos dois aplicativos e feliz que o sucesso do Dollify me dê a oportunidade de criar mais apps que, espero, as pessoas irão gostar”, conta. Ele não dá mais detalhes sobre os vindouros apps, mas a julgar pela sua produção mais recente nas redes sociais, talvez pixel art? Ou este estilo de traço de desenhos infantis? Qualquer que seja a temática, a única certeza é de que será um negócio de altíssima qualidade.

Ah, e claro que fiz um Dollify meu. Veja como fiquei:

Rodrigo Ghedin em versão Dollify.
Eu em versão Dollify.

Colabore
Assine o Manual

Privacidade online é possível e este blog prova: aqui, você não é monitorado. A cobertura de tecnologia mais crítica do Brasil precisa do seu apoio.

Assine
a partir de R$ 9/mês