Ser otimista ao ver o ChatGPT exige criatividade

por Jacqueline Lafloufa

Tem sido um trabalho inglório ser otimista hoje em dia. Depois de dois anos no papel de pessoa que “pensa positivo” ou “vê algo bom” como co-apresentadora do podcast Guia Prático ao lado do Rodrigo Ghedin e em trocas frequentes com o Guilherme Felitti, tenho ficado cada vez mais sem argumentos, sem defesa.

Também pudera: junto com o avanço na carreira, veio também menos deslumbramento com o cenário de tecnologia. Se no passado olhava maravilhada para algumas novidades (um computador de bolso que vai mudar nossas vidas pra melhor, celebrava na época dos áureos lançamentos de Steve Jobs), hoje as novidades vêm um pouco mais agridoces.

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Meu trabalho em risco

Alguns séculos depois, sinto hoje o que artesãos e pequenos produtores ingleses devem ter sentido quando viram chegar as primeiras máquinas e serem inauguradas as primeiras fábricas durante a Revolução Industrial.

Tecnologia recente, as inteligências artificiais (IA) gerativas representam uma ameaça a trabalhos intelectuais que, até pouco tempo atrás — coisa de cinco anos — pareciam garantidos frente à automação avassaladora do trabalho.

Não mais. IAs como o ChatGPT, as do tipo LLM (de “large language model”), são capazes de gerar textos originais coerentes a partir de “prompts” (enunciados) curtos escritos por humanos.

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O serviço de streaming da Netflix completou 16 anos nesta segunda (16). (A empresa é mais antiga e começou com o aluguel de DVDs pelos Correios.)

Coincidência ou não, a Netflix atualizou seu aplicativo para iOS, trazendo novos efeitos visuais bem bacanas. (Veja um vídeo.)

Ok, legal, mas não é para ficar vendo pôster que alguém assina a Netflix — em tese, ao menos. Na Forbes, Paul Tassi argumenta que a Netflix criou um “ciclo de cancelamento auto-sustentável” a partir das várias séries canceladas do nada e sem conclusão, como os casos recentes de 1899 e The midnight club.

Paul explica:

A ideia é que já que você sabe que a Netflix cancela várias séries depois de uma ou duas temporadas, encerrando elas com pontas soltas ou deixando suas histórias abertas/sem final, quase não vale a pena investir tempo em uma série antes dela ter acabado e você tenha certeza de que ela tem um final coerente e um arco fechado.

Por isso, você evita assistir a novas séries, mesmo aquelas que lhe interessam, pois tem medo de que a Netflix as cancele. Um tanto de gente faz isso e, surpresa, a audiência [de novas séries] é baixa! E aí ela acaba sendo cancelada. O ciclo é fechado, e reforçado, porque agora há mais um exemplo, fazendo com que ainda mais pessoas tenham cautela da próxima vez. E agora chegamos a um cenário em que, a menos que uma série seja uma espécie de febre por acaso (Wandinha) ou uma super franquia estabelecida (Stranger Things), a chance de haver uma segunda ou terceira temporada não é nem meio a meio, mas sim algo como 10–20% na melhor das hipóteses.

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Via Forbes (em inglês).

Às redes sociais, a culpa que lhes cabe

Logo após os eventos de 8 de janeiro em Brasília, a imprensa correu para noticiar que os terroristas haviam se organizado por redes sociais e aplicativos de mensagens.

Milhões de brasileiros, bilhões de pessoas usam redes sociais e aplicativos de mensagens todos os dias para se comunicar, trabalhar, cuidar das suas vidas e, também, cometer crimes.

Dito isso, estranho seria se os terroristas não tivessem se organizado no digital. Fariam como? Por cartas? Telefone? Sinais de fumaça?

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Privacidade é ok

por Tim Bray

Nota do editor: Vez ou outra alguém sugere criar exceções à criptografia de ponta a ponta de aplicativos como Signal e WhatsApp a fim de combater a criminalidade. É uma ideia bem ruim. O texto abaixo é a resposta de Tim Bray a mais um desses pedidos inócuos. Mesmo parte de um debate norte-americano, achei-a bem embasada e válida no nosso contexto, por isso a trouxe para cá.

Detesto escrever um artigo apenas para dizer que Alguém Está Errado na Internet, mas o de Reid Blackman, “Signal e o perigo da privacidade a todo custo” (em inglês, no New York Times), não está apenas errado: ele é, também, perigosamente enganoso. Ainda não vi uma explicação breve do porquê, então aqui vai uma.

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Mark Zuckerberg nunca fez nada original e eu posso provar

Jovem, bilionário, CEO e controlador de uma multinacional dona de aplicativos e redes sociais usados por bilhões de pessoas todos os dias. Estou falando, é claro, de Mark Zuckerberg.

Quem lê esse currículo e conhece a história de Zuck talvez imagine uma versão moderna, digital, dos grandes inventores do passado. Um cérebro criativo, inovador, uma lenda viva entre nós. O Einstein desta geração, o Nicolau Copérnico do século XXI que viu antes de todo mundo que nossas vidas girariam em torno de telas conectadas.

Só que não é o caso. Lamento dizer, mas Zuck é um bom empresário e excelente copiador. E só isso. De visionário, não tem nada.

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Chegou a hora de sair do Twitter

Dava para prever que o Twitter de Elon Musk se tornaria um ambiente insalubre, mas surpreendeu a velocidade com que aquilo se deteriorou. Isso, somado às ideias desprezíveis, por vezes criminosas do novo dono, nos leva ao único desfecho possível: chegou a hora de pular do barco, de sair do Twitter.

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Criptografia de ponta a ponta no iCloud vem aí — e é algo grande

Em agosto de 2021, a Apple anunciou um plano em que passaria a analisar fotos marcadas para serem enviadas ao iCloud em busca de imagens ilegais, de abusos sexuais contra crianças, nos dispositivos (iPhones, iPads e Macs) dos usuários.

A notícia caiu como uma bomba nos círculos que debatem a privacidade digital. Embora tivesse fim nobre, a iniciativa foi duramente criticada: naquela situação, o fim talvez justificasse a bisbilhotagem das fotos dos usuários, mas e quando esse fim fosse… menos nobre? E se um governo autoritário exigisse que a Apple identificasse manifestantes?

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Faz tempo que aplicativos de mensagens deixaram de ser versões melhoradas do SMS. Eles evoluíram: hoje são, também, utilitários e a base de comunidades, e as empresas que os desenvolvem têm apoiado essas transformações.

Recursos como as comunidades do WhatsApp e os tópicos do Telegram reconhecem o uso dos aplicativos de mensagens para comunidades. São versões limitadas de aplicativos mais modernos que têm isso no DNA, como Slack e Discord, ainda que simplificadas para não assustar quem não tem familiaridade com o formato.

Se vai colar, é outra história. Por um lado, comunidades/tópicos prometem ajudar na organização de grupos que por vezes se tornam caóticos, mas ao mesmo tempo jogam contra a simplicidade que permitiu a esses aplicativos se tornarem onipresentes.

O Telegram lançou nesta terça (6) uma expansão dos tópicos, agora disponíveis para grupos com pelo menos 100 membros (antes, o piso era 200). A explicação no anúncio oficial é confusa; talvez na prática seja mais simples. Devo ativar isso no grupo de assinantes do Manual. (Apoie o site para participar.)

Quanto ao WhatsApp, o recurso de comunidades, que já foi liberado lá fora, só será lançado no Brasil em 2023. Culpa das eleições, ou do mau uso do WhatsApp em eleições passadas. Via Telegram.

A matéria da Folha de S.Paulo falando mal do @Choquei/Twitter é, fora evidenciar uma dor de cotovelo do jornal, um caso prático das regras que regem a indústria de conteúdo, assunto que abordei na última coluna da newsletter.

As inteligências artificiais que produzem conteúdo aceleram um movimento que já acontece há algum tempo e que tem as redes sociais como origem e propulsoras.

Nas redes, características que se pensam importantes (e que são) em outros contextos, como qualidade, confiança e responsabilidade, beiram o inútil. O que importa é a circulação e, já de cara, o Choquei larga na frente no mínimo por dois motivos:

  • É um perfil de fofocas comentando guerras e política institucional, algo inusitado e reforçado pelos “🚨 GRAVE” e outros artifícios quase caricatos, a fim de viralizar;
  • Aproveita-se do trabalho alheio (a parte chata/difícil: apuração, checagem) para focar no conteúdo em si, o que lhe confere uma agilidade que jornal (sério) algum conseguiria rivalizar.

Fora isso, a Folha poderia ter escolhido outro exemplo que não um erro próprio de apuração (!) para bater no Choquei. Na dinâmica das redes sociais, uma “correção adicionada ao texto do jornal dias depois”, citada como sinal de virtude e superioridade do jornal, talvez tenha o mesmo efeito que apagar o post sem explicações (a atitude tomada pelo Choquei). Via Folha de S.Paulo.

A revolução das máquinas de conteúdo

Há uma revolução acontecendo na internet e você não percebeu. Tudo bem, a intenção é essa. Inteligências artificiais (IAs) capazes de produzir texto legível e coerente, imagens incríveis e até vídeos estão entre nós e já criam muito do conteúdo que aparece nas nossas andanças pela web e em redes sociais.

Estamos vivendo a revolução das máquinas — de conteúdo.

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Elon Musk deu um ultimato aos funcionários que sobraram no Twitter: comprometa-se com jornadas extenuantes de trabalho ou caiam fora. Mais gente que o esperado optou por cair fora.

O Twitter está na UTI e seus sistemas podem quebrar a qualquer momento, em grande parte porque falta gente para manter as coisas funcionando.

Musk é tão tóxico que, por comparação, conseguiu a proeza de fazer Mark Zuckerberg/Meta e a Amazon ganharem confete por demitirem dezenas de milhares de pessoas de forma ~humanizada — leia-se com o mínimo de dignidade. (Foram 11 mil demissões na Meta e 10 mil na Amazon.) Via The Verge (2) (em inglês).

Vez ou outra temos a sensação de que a história humana está condenada ao mesmo roteiro repetido eternamente, apenas com personagens e contextos um pouco diferentes.

Há alguns anos, o Substack despontou como destino principal para escritores de fim de semana e gente que quer levar a sério o radical ato de escrever textões na internet. Não por acaso: é uma ferramenta fácil de usar, bem apresentável e em constante evolução. Mais importante, é totalmente gratuito a menos que você cobre pelas sua newsletter, e não há qualquer pressão para que ela seja cobrada.

Não surpreende, pois, que uma centralização no Substack esteja em curso. Além de ver cada vez mais newsletters com endereços terminados em substack.com, fui chamado à atenção para o fenômeno por este texto do Erik Hoel (no Substack!). Nele, Hoel exalta algumas características descentralizadas do Substack, seus efeitos de rede e o potencial de crescimento (“growth”) que desencadeia em newsletters de todos os tamanhos.

Não é algo muito diferente do que aconteceu no Facebook, Twitter, Instagram, do que acontece em paralelo no TikTok. Produza seu conteúdo ali, em uma plataforma de terceiros cheia de facilidades e gratuita, em troca da atenção das pessoas.

Isso funciona bem até o dia em que a plataforma passa a querer capitalizar, a realizar sua promessa (de lucro). Aí o alcance do Facebook/Instagram desaba e, caso você queira se comunicar com as pessoas que seguiram/curtiram sua página em algum momento do passado, precisa tirar o escorpião do bolso.

O Substack ainda está na fase de crescimento e tem uma aura descolada, anti-redes sociais. No fundo, é uma startup clássica, com +US$ 80 milhões levantados em quatro rodadas de investimento feita por firmas como a16z, Y Combinator e Quiet Capital — as de sempre.

Por tudo que o Substack faz de bom (e é bastante coisa), o saldo de concentrarmos a escrita ativa na web e no e-mail em uma startup só tende ao negativo. Porque é questão de tempo (ainda que seja bastante tempo) para que o arrocho dos escritores comece. Quando isso acontecer, é bom que o próximo Substack esteja pronto. Essas viradas costumam ser abruptas e destrutivas.

A “dificuldade” em usar o Mastodon não é por acaso

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O êxodo do Twitter, arruinado por Elon Musk, seria mais intenso se a principal alternativa surgida nesse período turbulento, o Mastodon, fosse mais simples. Não que seja uma ciência complexa, mas o atrito para usar a rede do momento, em especial o cadastro, tem desanimado alguns.

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30 anos de ThinkPad

A entrada na Wikipédia não especifica o dia, a Lenovo comemorou em 5 de outubro, mas acho que ainda é válido comentar os 30 anos do ThinkPad, uma das marcas de computadores mais longevas disponíveis no mercado.

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