Facebook/Meta usa pequenas empresas para lavar sua reputação
É difícil emplacar a tese de que uma empresa que faturou quase US$ 118 bilhões e lucrou quase US$ 40 bilhões no último ano fiscal esteja em crise, mas talvez seja o caso do Facebook/Meta.
É difícil emplacar a tese de que uma empresa que faturou quase US$ 118 bilhões e lucrou quase US$ 40 bilhões no último ano fiscal esteja em crise, mas talvez seja o caso do Facebook/Meta.
Pirataria costuma ser tratada na imprensa e em outros meios formais de um jeito meio maniqueísta e com muitas reservas. É importante superarmos esse… medo? Moralismo barato? para tratar do tema, porque a pirataria é importante e, para a indústria cultural, acaba servindo de termômetro para saber quando a parte “indústria” está sufocando a “cultural”.
O exemplo do streaming é um sintoma previsível e, ainda assim, interessante. Um estudo da Akamai constatou um aumento nas visitas a sites de pirataria em 2021. Foram 132 bilhões de visitas no ano, aumento de 16%, e a maior parte delas atrás de conteúdo audiovisual, ou seja, séries e filmes.
Não precisava de uma bola de cristal para antecipar que a fragmentação das plataformas de streaming levaria a um ressurgimento da pirataria.
Em outro contexto, a decisão da Nintendo de encerrar as lojas virtuais do Nintendo 3DS e do Wii U fará com que cerca de 1 mil jogos desapareçam do mercado. Restará à pirataria a missão de preservar tanta memória.
Apesar do clichê, a história por vezes se repete. Parte da produção cinematográfica da primeira metade do século XX, em especial de filmes mudos, foi perdida. (No Brasil também.) Na época, havia dificuldades técnicas e faltava visão para o valor da preservação desses materiais. Hoje, apenas a ganância de executivos justifica que tantos jogos tenham esse mesmo destino, mesmo que temporariamente — não é como se a Nintendo fosse incinerar todos esses jogos para abrir espaço em um servidor.
Por algum motivo que ainda me foge à compreensão, tenho passado mais tempo no feed do LinkedIn. Notei, entre outras coisas, uma profusão de notícias do tipo “Primeiro [insira qualquer coisa] a chegar no metaverso”.
Dizer que a história se repete talvez seja reducionista, mas o paralelo com o Second Life é explícito demais para resistir a esse chavão. Muito bem, agora que seu restaurante, prefeitura, podcast ou qualquer coisa está no metaverso, o que acontece? Qual a vantagem? Ninguém sabia na época do Second Life e, aparentemente, continuamos sem saber.
O Facebook fez um show do Foo Fighters no metaversono último domingo, dia de Super Bowl nos Estados Unidos. A julgar pelos relatos, foi um desastre muito parecido com o show do NX Zero no Second Life, 15 anos atrás.
O metaverso, nos moldes em que o Facebook o está vendendo (e todo mundo, ou aqueles mais deslumbrados, comprando), é uma canoa furada. A gente já viu esse filme, digo, esse jogo.
Um dos elementos que compõem o atual inferno astral (e financeiro) do Facebook/Meta, revelado no último bate-papo dos executivos da empresa com investidores, é ter perdido usuários pela primeira vez em 18 anos de história. Na contramão dessa boa notícia, em janeiro eu voltei a usar o Facebook. E antes disso, em dezembro, a ter um perfil no Instagram.
A nossa dificuldade de pensar em grande escala nos coloca em enrascadas vez ou outra. Confrontados por problemas gigantescos, como a emergência climática ou o abuso de poder desmedido das grandes empresas, nosso primeiro impulso é corrigir hábitos. “Fazer a nossa parte.”
Nada tira o mérito dessas atitudes, mas elas implicam carregar um fardo insustentável para o indivíduo. Não é por aí que esses grandes problemas, nascidos não das ações e escolhas individuais de bilhões de pessoas, mas de políticas públicas, campanhas milionárias de marketing, práticas desleais, força bruta e outros eventos de grande escala, serão resolvidos.
Essa reflexão ensejou este texto e uma leve mudança de curso na postura minha e do Manual do Usuário.
Em 2019, quando o Spotify entrou agressivamente no ramo dos podcasts, colocando em risco esse ecossistema, poucos anteciparam os problemas que a plataforma poderia enfrentar.
Estamos vendo um deles se desenrolar agora, com a crise desencadeada pela revolta de Neil Young contra o Joe Rogan Experience, podcast exclusivo do Spotify que tem espalhado desinformação antivacina em meio à pandemia de covid-19.
Este é um problema do Spotify, não do podcast.
Ao fechar contratos de exclusividade, ou seja, ao editorializar sua plataforma, o Spotify abriu um flanco para ataques do tipo. Note que Apple, Google, Automattic (Pocket Casts), Overcast, nenhuma outra empresa que oferece aplicativos de podcasts recebe esse tipo de crítica, mesmo com todas veiculando podcasts abjetos de gente muito pior que Joe Rogan.
Elas escapam por serem de fato aquilo que o Facebook, o Twitter e o YouTube alegam ser, ou seja, plataformas neutras.
Hospedar Joe Rogan com exclusividade trouxe uma série de benefícios ao Spotify — mais usuários, mais tempo gasto no app e mais “superfície” para vender anúncios. Só que trouxe também outro custo, além dos supostos US$ 100 milhões pagos pela exclusividade. É um de imagem, de relações públicas. Não é à toa que o comunicado de Daniel Ek assemelha-se tanto às falas usuais (e vazias) de Mark Zuckerberg, CEO do Facebook/Meta.
Dos mesmos especuladores que garantem que as crioptomoedas nos libertarão (do quê?) e que NFTs salvarão a arte (de quem?), vem aí a Web3, um novo ambiente digital que revolucionará a internet e o modo de fazer negócios em rede. Ou assim estão nos prometendo.
Em novembro de 2021, à luz do enorme escândalo envolvendo denúncias de assédio sexual e misoginia na Activision Blizzard, o presidente da área de games da Microsoft, Phil Spencer, disse à Bloomberg que a empresa estava “avaliando todos os aspectos da nossa parceria com a Activision Blizzard e fazendo ajustes proativos contínuos”.
Corta para janeiro de 2022, ou dois meses depois, para o que parece ser o ajuste definitivo: nesta terça (18), a Microsoft anunciou a compra da Activision Blizzard, ainda imersa em escândalos, por US$ 68,7 bilhões a serem pagos em dinheiro.
O 1Password anunciou nesta quarta (19) uma rodada de investimento série C de US$ 620 milhões, avaliando a empresa em US$ 6,8 bilhões. Parte da base de usuários, porém, está preocupada com o novo direcionamento da empresa, que até pouco tempo atrás nunca havia recebido investimento externo e, mesmo assim, sempre fora lucrativa. Via 1Password (em inglês).
Com os novos investimentos, o 1Password parece estar mudando o foco para clientes corporativos com o objetivo de tornar-se um unicórnio e/ou abrir capital em algum momento futuro. (Esta página do “futuro” do 1Password dá uma boa ideia.)
Duas decisões controversas nos últimos meses abalaram a reputação até então imaculada do 1Password, ao menos entre clientes individuais:
Note que o 1Password sempre foi um negócio lucrativo, mas a julgar pelo comunicado assinado pelo CEO Jeff Shiner, isso não é mais suficiente:
É verdade que parece peculiar para uma empresa consistentemente lucrativa aceitar financiamento externo. Mas, assim como da última vez [US$ 100 milhões em julho de 2021], estas parcerias nos permitem desenvolver e dimensionar soluções de segurança centradas no ser humano para todos.
O caminho que o 1Password pretende seguir lembra o do Dropbox, que nasceu como um aplicativo simples, rápido e eficiente para pessoas comuns sincronizarem arquivos entre múltiplos dispositivos, e hoje oferece uma série de serviços, com um aplicativo pesado e invasivo (também feito em Electron), com foco em clientes corporativos.
Os insatisfeitos com o novo rumo do 1Password têm migrado para soluções de código aberto — Bitwarden e KeePassXC.
A campanha #TwitterApoiaFakeNews, que já soma quase 90 mil menções no Twitter, mobilizou influenciadores da comunidade científica e envolveu o Ministério Público Federal (MPF), tem mérito, mas talvez precise de um “rebranding” para evitar efeitos colaterais indesejados no futuro.
Defensores de criptomoedas, NFTs e Web3 têm na descentralização e na não necessidade de confiança talvez os melhores argumentos para justificar a existência dessas aberrações. Ambas têm problemas intrínsecos, mas, não bastasse isso, a prática tem demonstrado que tais características não são absolutas e, portanto, falaciosas.
Um estudo publicado em outubro de 2021 por pesquisadores da Universidade de Londres e de Copenhague analisou quatro anos de transações de NFTs. Descobriu uma forte centralização nas negociações: 10% dos compradores e vendedores de NFTs responderam pelo mesmo volume de transações feito pelos outros 90%. Outra descoberta curiosa deu-se nos preços: o valor médio de 3/4 das transações de NFTs foi de US$ 15, e apenas 1% delas ultrapassou US$ 1.594. Via Hyperallergic (em inglês).
Já a ausência de confiança, que seria garantira pelo código/blockchain, é relativa. Na sexta (31), a OpenSea, um dos maiores marketplaces de criptoativos, congelou as negociações de 16 NFTs de desenhos de macacos avaliados em US$ 2,2 milhões do colecionador Todd Kramer, depois que ele comunicou (e pediu ajuda à OpenSea) pelo Twitter uma invasão e o roubo dos seus NFTs.
Todd foi vítima de um ataque de “phishing”: ele recebeu um e-mail fraudulento e clicou em um link que deu acesso ao atacante à sua “hot wallet”, um tipo de carteira de criptoativos conectada constantemente à internet.
Do ponto de vista do código/da blockchain, a transferência dos 16 NFTs foi feita com sucesso e de maneira legítima, mas a interferência da OpenSea torna os NFTs (mais) inúteis, já que agora eles não podem ser revendidos. Via Cointelegraph (em inglês).
Do arquivo do Manual:
Quando a Apple revelou o oxímetro presente no Apple Watch Série 6, em setembro de 2020, o fez de maneira elegante (ou precavida), sem mencionar em momento algum a pandemia de Covid-19. Um dos sintomas mais graves da doença é o comprometimento dos pulmões. A evolução do quadro é feita com o auxílio do oxímetro, um pequeno dispositivo preso ao dedo do paciente capaz de detectar o nível de oxigenação no sangue.
O roteirista de 2021 caprichou: logo na largada, no dia 6 de janeiro, um bando de lunáticos, insuflados pelo próprio presidente dos Estados Unidos, invadiu o Capitólio numa tentativa explícita de golpe de estado. Não conseguiram, mas deixaram no caminho alguns mortos, centenas de feridos e o mundo atônito.
O NordPass, gerenciador de senhas da NordVPN1, fez um levantamento das senhas mais comuns que as pessoas usam. Eles analisaram um banco de dados de 4 TB junto a pesquisadores independentes para descobrir que a senha mais popular é 123456.
Não é preciso ser um gênio para desconfiar de que 123456 não é uma boa senha.
Jack Dorsey estava lá quando tudo começou. Um dos quatro co-fundadores do Twitter, reza a lenda que a ideia embrionária do que viria a ser o Twitter saiu da sua cabeça. De qualquer modo, coube a ele a honra de publicar o primeiro post da rede social, 15 anos atrás. “just setting up my twttr”, ou “configurando meu twttr”, ainda usando a marca esquisita, sem vogais, dos primórdios do Twitter.
Nesta segunda (29), em outro post no Twitter, Jack anunciou seu afastamento do cargo de CEO, com efeito imediato, e sua saída do conselho administrativo da empresa que criou a partir de maio de 2022, quando seu mandato vence.