Ações individuais frente a problemas globais: uma abordagem mais afetuosa

Foto em close, em ângulo isométrico, do logo do Instagram na tela de um celular.

A nossa dificuldade de pensar em grande escala nos coloca em enrascadas vez ou outra. Confrontados por problemas gigantescos, como a emergência climática ou o abuso de poder desmedido das grandes empresas, nosso primeiro impulso é corrigir hábitos. “Fazer a nossa parte.”

Nada tira o mérito dessas atitudes, mas elas implicam carregar um fardo insustentável para o indivíduo. Não é por aí que esses grandes problemas, nascidos não das ações e escolhas individuais de bilhões de pessoas, mas de políticas públicas, campanhas milionárias de marketing, práticas desleais, força bruta e outros eventos de grande escala, serão resolvidos.

Essa reflexão ensejou este texto e uma leve mudança de curso na postura minha e do Manual do Usuário.

Já dividi com você algumas atitudes que muitos consideram radicais: não fazer negócio com empresas de setores destrutivos, como bancões e Big Tech; excluir perfis em redes sociais do Facebook/Meta; mudar fluxos de trabalho funcionais apenas para adotar soluções de código aberto ou de fornecedores minimamente mais éticos.

Embora eu tenha conseguido bancá-las e tenha ficado em alguma medida satisfeito com elas, nenhuma dessas mudanças saiu de graça. Quando abdiquei das redes sociais do Facebook, por exemplo, ganhei tempo livre e certa paz de espírito, mas perdi um tipo de contato cotidiano, criado e estabelecido por essas mesmas redes, com pessoas queridas, para quem os argumentos que motivaram meu distanciamento são desconhecidos ou irrelevantes. No fim, isolei-me.

Em dezembro, fiz um novo perfil no Instagram. Fazia três anos que havia excluído o anterior, o original. O custo desse protesto ficou alto, sentia falta de saber as pequenas bobagens e os grandes acontecimentos dos meus amigos e familiares. Refiz o perfil, com um gosto amargo, mas refiz.

É possível mitigar os efeitos nocivos e invasivos da empresa Facebook/Meta e do produto Instagram, e faço uso deles. Corrigir a condução desleal da empresa Facebook/Meta e as armadilhas de engajamento do produto Instagram? Isso só com competição acirrada, regulação ou processos. Ou tudo isso e mais um pouco junto. É briga de gente grande.

Protestos do tipo, em que se corta da carne, só são possíveis a privilegiados que podem abrir mão da coisa (meu caso) ou desesperados que não têm mais nada a perder. A maioria das pessoas está no meio. É pedir muito, por exemplo, a alguém dono de comércio fechar o perfil no Instagram quando esse perfil é um canal de vendas ou de relacionamento com clientes. E mesmo a quem o Instagram é apenas um meio de manter contato com amigos e descobrir empreendimentos no bairro seria, também, pedir muito para que excluísse o perfil como forma de protesto.

Em outros contextos, eu me vejo nesse miolo sem escolhas. A Uber, outra empresa horrível, virou de cabeça para baixo o sistema de transporte das grandes cidades e me permitiu abrir mão do carro próprio. Antes dividia as corridas entre caronas pagas e ônibus, e tinha um genuíno desejo de aumentar o uso do transporte público nos meus deslocamentos. Esse plano foi por água abaixo na medida em que o coronavírus se espalhava pelo mundo.

Hoje, tento equilibrar o carma com as gorjetas que, promete a Uber, vão direto aos motoristas. É um paliativo. Novamente: apenas uma regulação bem feita equilibrará as forças que fazem a Uber e outras empresas do tipo funcionarem de maneira melhor a todos os envolvidos.

Este “mea culpa” não é uma admissão de derrota. Longe disso. É um afago, uma mensagem de afeto àqueles que, como eu, não conseguem abstrair os absurdos deste mundo tão injusto; que se indignam e querem fazer alguma coisa, qualquer coisa para tornar o mundo menos injusto. Somos humanos, somos falíveis, contraditórios, temos nossas urgências, outras prioridades. Saídas individuais ajudam, sim — no mínimo a dormirmos menos ansiosos, menos culpados por uma culpa que, como tento expor aqui, nem é nossa. Não precisa apagar seu perfil no Spotify, mas se puder e quiser, ótimo! Lembremos, por exemplo, que em 2017 a campanha #DeleteUber abalou a Uber.

Mas se não der para largar o Spotify, deixar o Facebook ou a Uber ou usar Linux em vez do macOS, está tudo bem também. Não é sequer producente estressar-se com — repito-me — grandes questões em que a agência individual não é o melhor caminho para resoluções. O que não se pode, jamais, é abrir mão da consciência de que tem muita coisa errada e de que é preciso estar sempre alerta, sempre ativos, cobrando as mudanças necessárias de quem tem o poder de promovê-las.

Foto do topo: dole777/Unsplash.

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18 comentários

  1. Conheci o Manual em 2020. De lá pra cá tenho observado a discussão sobre essas ações individuais, e vejo que mesmo de maneira desigual, há argumentos bons para os dois lados, usar ou não usar as redes, os serviços, enfim.
    Em algum momento escrevi um comentário, e li que meu ponto de vista seria um comportamento derrotista.
    Talvez eu não tenha me expressado claramente na época, talvez meu comportamento não seja derrotista.
    Desde que conheci o Manual, não foram poucas as vezes em que avaliei as possibilidades de fazer certos movimentos, migrar pra alguns serviços alternativos, buscar o open source, e quem sabe abrir mão de Instagram, que além do Twitter, que uso apenas pra buscar informação imediata, é a minha rede social de maior atividade.
    Coloquei na balança o uso do Instagram. Conclui que seria um tiro no pé sair dali. Apesar de eu usar pouco e ter o desejo de usar ainda menos, é ali que encontro boas fotos daquela cabana na serra pra passar o final de semana, ou do restaurante novo que abriu na cidade, sem contar os amigos.
    Tem Airbnb e iFood que fazem o mesmo por mim, mas aí seria correr atrás do rabo, ou fugir dele.
    Há uns dois meses, fiz uma limpa no meu Google Fotos. Não sei porque, o meu tem 17Gb, ao invés dos 15Gb gratuitos de contas novas, e recebi um e-mail de que esse espaço tava no fim. Revisei todas as fotos e vídeos, prints, memes, foto de ex, tudo. Voltei pra 9Gb. Porém, em pouco tempo melhorei a qualidade das imagens, e nessa semana o espaço apertou de novo.
    Apesar de ter o iCloud+ com 200GB disponível, optei por assinar o Google One, e resolver pra sempre o problema das imagens. Sem estresse, sem uma caralhada de ajustes, configurações e tempo perdidos.
    Calculei que se nos últimos 10 anos eu acumulei pouco mais de 15Gb entre fotos e vídeos, os outros 85Gb que agora sobram devem dar conta quase todos os próximos anos que eu gostaria de ainda viver.
    Conclusão: esses serviços vão continuar, querendo a gente ou não. Pode ser que sejam substituídos por outros, mas os prós e contras vão seguir existindo. Cabe a nós usar com cuidado, de forma saudável, e empregar a energia em viver a realidade sem se debater muito.

  2. Bem, é isso.

    Executar uma mudança brusca, às vezes radical, soluciona um problema mas causa outro no lado oposto. Imagine extinguir todo um setor da economia para reduzir drasticamente um dano ecológico. Parece bom, mas deixaria milhões de pessoas sem emprego, famílias sem sustento. Logo, é inviável.

    Portanto, o melhor a se fazer na vida é encontrar um ponto de equilíbrio. É complicado e lento, mas é uma atitude mais saudável que qualquer movimento extremo.

  3. Ações individuais importam, e muito. Porém, sem dúvida, pagamos um preço por nossas escolhas e por isso cada um escolhe o que pode/consegue pagar, sem culpa. Sigo sem Facebook e Insta, mas Whats dei o braço a torcer e entrei só pra poder me comunicar com gente, gente que não sabe mais usar NENHUM outro meio de comunicação. Nesse sentido o Manual sempre fez a coisa certa: tem blog, tem canal no Telegram, tem newsletter por e-mail. Ou seja, se COMUNICA eficientemente e é dono do seu conteúdo – o contrário de quem só divulga seu conteúdo pelas redes sociais (e são a maioria). Voltar para as redes não vai prejudicar essa consciência, certo? Seguimos juntos nesse desafio! Abraços!

  4. Vim agradecer só por essa paragrafo que sintetizou um pouco dessa revolta/raiva com as redes sociais.

    “Este “mea culpa” não é uma admissão de derrota. Longe disso. É um afago, uma mensagem de afeto àqueles que, como eu, não conseguem abstrair os absurdos deste mundo tão injusto; que se indignam e querem fazer alguma coisa, qualquer coisa para tornar o mundo menos injusto. Somos humanos, somos falíveis, contraditórios, temos nossas urgências, outras prioridades. Saídas individuais ajudam, sim — no mínimo a dormirmos menos ansiosos, menos culpados por uma culpa que, como tento expor aqui, nem é nossa. Não precisa apagar seu perfil no Spotify, mas se puder e quiser, ótimo! Lembremos, por exemplo, que em 2017 a campanha #DeleteUber abalou a Uber.”

    Obrigado!

  5. Infelizmente o último canto legal da internet começa a se arreganhar para o corporativo. Fico imaginando oq vem depois, artigos com paywall, venda do site para algum conglomerado?

    Desnecessário, é aquele relacionamento abusivo “ele me dá tapa na cara mas me ama” aham

    1. Pelo visto o Ghedin só vai agradar se entrar no modo full Stallman hahaha

      Daqui a pouco vão implicar por ele tomar banho.

    2. Pô, o Ghedin só abriu um perfil no Insta pra ver os familiares, e usa Uber porque o transporte público não atende ele perfeitamente bem e estamos numa pandemia, quem nunca?

    3. Tou tentando entender estes comentários “anônimos”, mas dependendo do que comento é pedir para ter o comentário apagado e receber uma reclamação no e-mail.

      De qualquer forma, outra coisa que tento entender também é este comportamento tipo “empresário é mau”.

      Err… bem, existe uma verdade nisso. Mas se a gente generaliza negativamente, o resultado é restringir totalmente nosso poder de escolha a poucas e raras opções, ou até inexistentes. Nem empresa pequena é 100% “correta”. Mas aí é uma discussão que nem sei chegar direito nela.

      Entendo aqui também que o texto fala sobre justamente ser aberto em relação a adotar o uso de um produto de uma empresa prejudicial. Neste capitalismo selvagem que vivemos, é difícil depender de outras opções fora os ofertados e popularizados – lembrando da história no Post Livre passado sobre a popularização do Leite Moça graças a um trabalho de marketing. Isso é um exemplo de como no final as empresas e os “cabeças” do capitalismo “fazem a cabeça” e com isso dificultam a não-opção por certos itens.

      A adoção de uma cultura de uso de softwares open-source por exemplo teria que vir originalmente com programas de educação e um marketing bem agressivo – que não vamos negar, infelizmente é uma forma de mudança cultural que é bem utilizada para atos negativos, mas pode ser usado pelo “bem” também.

      Só lembrar do “Computador Para Todos”, que era uma iniciativa de oferecer computadores baratos com Linux. Diferente de outros países, onde em escolas públicas se ofertam cursos de informática e programação desde anos mais primários, no Brasil esta oferta é mais escassa. O governo federal tenta um projeto de adoção de open-source, mas no final esbarra com o “jeitinho brasileiro” e a oferta de instalação de Windows sem licença, que obviamente acaba sempre favorecendo o mercado.

  6. Com aquela polêmica das novas políticas de privacidade do WhatsApp, no início do ano passado, passei a utilizar mais o Telegram, mas com o tempo voltei a utilizar mais o WhatsApp (por ser mais prático).
    Porém, continuo utilizando o Telegram para receber novidades de sites/blogs que sigo por meio dos canais oficiais.

    Felizmente não me faz tanta falta o Facebook, Instagram e Twitter, ao ponto d’eu ter que criar novamente uma conta.

  7. A discussão sobre os poderes e limites do boicote é muito comum dentro das organizações políticas anticapitalistas, acho que seu texto muito ao encontro do que é tema de debates dentro delas.

    Há tempos tomei a decisão de evitar Facebook, Instagram, Uber, WhatsApp, Twitter, Google, etc, mas a minha cobrança comigo mesmo foi menor por já ter participado dessas discussões sobre boicote.

    Mas tem um ponto que você não trouxe no texto mas que acho pertinente de se pensar: não participar dessas redes sociais me fez usar menos o celular, focar meu tempo em outras coisas e, principalmente, ficar menos ansioso com consequências de alguma postagem ou mesmo por ver coisas pequenas que me estressavam e que não teria contato em nenhum outro lugar. Então acho que é importante isso estar na balança também, além do mal pro mundo, essas redes podem fazer mal pra si mesmo.

  8. “que não se pode, jamais, é abrir mão da consciência de que tem muita coisa errada e de que é preciso estar sempre alerta, sempre ativos, cobrando as mudanças necessárias de quem tem o poder de promovê-las.”

    Discordo cara, na frente dos problemas descritos que nos deixam individualmente desesperados e isolados, a solução é coletiva e anticapitalista. A saída é ação organizada. Abraço

    1. Trabalho de base né mano. Mas eu não acho que o seu argumento e o do Ghedin sejam contrários. Que um exclua o outro. Na verdade eu acho que você complementou aqui.

  9. é isso mesmo as empresas tem setores inteiros para lidar com o lobby, nós como povo temos de fazer o mesmo.

  10. É sempre interessante pesar os pontos positivos e negativos de cada escolha. Eu não tenho motivos atualmente para voltar a usar Instagram ou Facebook, mas, se um dia houver, eu crio a conta, uso pelo tempo necessário e em seguida excluo novamente. Não gosto de ter contas abertas sem usar.

    Eu acabei criando uma conta no Instagram com um nome de usuário aleatório só para poder visualizar alguma informação pontual quando eu preciso, o que ocorre com certa frequência.

    Outra coisa é que depois que comecei a testar novos aplicativos como forma de fugir dos grandes, encontrei alguns muito bons que me fizeram esquecer completamento dos que eu utilizava antes. Eu nunca os teria conhecido se não houvesse esse impulso inicial de buscar alternativas.

    Sobre se sentir isolado, eu acabei não tendo essa sensação depois de excluir os perfis. O que aconteceu foi que passei a conversar mais com um número menor de pessoas, o que melhorou o meu relacionamento com elas. Eu acho bom não saber o que os outros estão fazendo, porque isso gera assuntos para novas conversas. Eu gosto de saber da própria pessoa o que ela está fazendo, não muito de ver num perfil de rede social.

    Eu já tive vontade de excluir o WhatsApp, mas ainda é essencial pra mim. Por enquanto, vou continuar usando. Se em algum momento não for mais necessário, eu paro de usar.

  11. Eu aproveito esses movimentos para conhecer novos serviços concorrentes que muitas vezes não faço por inércia.
    Agora que cancelei o Spotify estou conhecendo o Apple Music e gostando muito.
    Tenho de volta aquele sentimento de ter o controle da minha biblioteca, como era antes do streaming.

    1. Em complemento: deixei Facebook e Instagram.
      Hoje não fazem nenhuma falta na minha vida.

  12. Esse post veio num ótimo momento, estou me questionando essas coisas há um certo tempo. Deletei tudo que tinha do Facebook há uns 2 anos, mas recentemente criei conta no WhatsApp de novo pra poder ajudar minha noiva com coisas do nosso casamento que está sendo planejado, e que estava tudo nas mãos dela. Limito todo o acesso dele, garantindo apenas o mínimo necessário para que funcione. É…. útil, visto a quantidade de estabelecimentos comerciais que só atendem por lá hoje em dia.

    Estava chegando numa conclusão bem parecida antes de ler o texto. Nessas situações tão massivas, se privar individualmente de serviços assim acabam só prejudicando a si mesmo ou a quem está próximo. Ainda dá pra fazer sua parte pra conscientizar os demais dos males trazidos pelos serviços, porém. Cada um deve poder escolher se quer usar ou não, mas as escolhas devem ser bem informadas.

    1. Isso! Para mim, o grande problema não é o WhatsApp existir, mas ele ter se tornado quase “obrigatório”. Para muita gente, não existe a opção de não usá-lo.

      Um aspecto que deixei de fora do texto, mas que é de suma importância e está ao alcance de todos, é que muitas dessas soluções não são exclusivas. Usando de um exemplo: eu tenho o WhatsApp instalado e uso ele, mas sempre que possível, tento conversar com as pessoas pelo Signal, que é uma opção que prefiro e acho mais salutar. Vale o mesmo para redes sociais, Uber e muitas outras soluções de tecnologia.