Fundo azul, com uma chamada para um PlayStation 5 no centro. À esquerda, a frase “Ofertas de verdade, lojas seguras e os melhores preços da internet.” À direita, “Baixe o app do Promobit”.

Um ano difícil para a big tech

Foto em longa exposição de luzes numa rua, com tons em neon, violeta e verde.

O roteirista de 2021 caprichou: logo na largada, no dia 6 de janeiro, um bando de lunáticos, insuflados pelo próprio presidente dos Estados Unidos, invadiu o Capitólio numa tentativa explícita de golpe de estado. Não conseguiram, mas deixaram no caminho alguns mortos, centenas de feridos e o mundo atônito.

A tentativa fracassada, em grande parte organizada em grupos no Facebook, foi o primeiro de uma série de eventos envolvendo a big tech que marcaram o ano. Em muitos aspectos, 2021 foi uma continuidade do aumento da fervura, da pressão regulatória e do escrutínio público, que já vinha numa crescente, mas dá para dizer que, no fim das contas, tivemos avanços palpáveis e que o futuro é promissor como há muito não parecia ser.

Se o ataque ao Capitólio trouxe uma dor de cabeça enorme ao Facebook no quintal de casa, a nova política de privacidade do WhatsApp estendeu a enxaqueca para o resto do mundo. A pressão funcionou: a política, que seria obrigatória, até hoje é opcional — o meu WhatsApp continua mostrando aquela tela pedindo o aceite. Uma pequena vitória contra uma big tech.

Com exceção dos balanços financeiros trimestrais, que mostraram que a máquina de dinheiro continua operando em capacidade máxima, 2021 foi um ano de sucessivas derrotas para o Facebook. Em setembro, a empresa suspendeu o plano de criar uma versão exclusiva do Instagram para crianças. Era uma reação às primeiras reportagens do Wall Street Journal com base no que viria a revelar-se o maior vazamento de segredos internos de uma empresa de tecnologia, os Facebook Papers.

Os Facebook Papers foram a grande história de 2021. A torrente de documentos, pesquisas, e-mail e trocas de mensagens internas confirmou muitas suspeitas que se tinha sobre o Facebook. Nem o diversionismo da troca de nome — para Meta — em novembro arrefeceu o escândalo, embora, há que se reconhecer, a mudança emplacou a ideia (e por ora, só a ideia) de metaverso no imaginário popular, um ambiente virtual criado pelo Facebook para limpar sua reputação e, ao mesmo tempo, ampliar seu domínio sobre as nossas vidas.

Outra big tech exposta por documentos internos, esses revelados pela Justiça, foi a Alphabet, dona do Google. Soube-se, enfim, que o objetivo do AMP era consolidar o domínio do Google na publicidade online, por exemplo. Mais importante, os documentos expuseram diversas tramoias e esquemas suspeitos (para dizer o mínimo) que o Google emprega para minar a concorrência no setor de publicidade online.

Em outra frente, o Google foi coadjuvante: a guerra pelos 30% de comissão das lojas de aplicativos. Aqui o alvo principal é a Apple, que se viu arrastada para uma disputa judicial nos Estados Unidos pela Epic Games e emparedada em alguns países, como na Coreia do Sul. Até agora, a Apple tem conseguido evitar mudanças maiores no arranjo que lhe garante dezenas de bilhões de dólares por ano com o mínimo esforço e à custa de empresas que desenvolvem aplicativos para suas plataformas. Até quando, não se sabe.

A imagem de defensora irrestrita da Apple rachou. A ideia de inspecionar fotos nos iPhones dos seus clientes, anunciada em agosto, pegou mal demais e serviu de prova de que boas intenções, sozinhas, não justificam o injustificável. (A Apple buscava combater a troca de imagens de pornografia infantil com a proposta.) Afinal, nem sempre “o que aconteceu no iPhone, fica no iPhone”. A empresa recuou nessa questão, e também recuou em questões mais mundanas, como no que (supostamente) é melhor para os clientes.

Jeff Bezos e Jack Dorsey deixaram o comando do dia a dia de Amazon e Twitter para focarem em seus projetos de ricos excêntricos — o primeiro, viagens espaciais a turismo; o segundo, criptomoedas. Boa sorte (porém não muita) com isso.

Todos esses eventos foram muito importantes, ainda que distantes do grande público. Para a maioria, talvez o que marcou 2021 tenha sido a queda espetacular dos serviços do Facebook em 4 de outubro. No Brasil, em especial, aquelas seis horas em que o Facebook virtualmente deixou de existir serviram para nos darmos conta da dependência do WhatsApp e da necessidade de alternativas e de novos modos de lidar com aplicativos essenciais. Não por acaso o Telegram tem crescido tanto — foi o app destaque em número de usuários mensais de 2021, segundo a consultoria App Annie.

Ao longo do ano, vários países aplicaram multas à big tech, aumentando a pressão contra suas práticas abusivas. Até o Brasil, via Procon-SP, cobrou uns milhões de reais do Facebook. Pela primeira vez em muito tempo, órgãos antitruste se levantaram contra aquisições no setor: o Reino Unido obrigou o Facebook a se desfazer da Giphy e Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia questionaram a compra da Arm pela Nvidia.

No apagar das luzes, a União Europeia encaminhou o Digital Market Act (DMA), ambiciosa legislação que tem por objetivo regular a atuação das grandes empresas de tecnologia que atuam como gatekeepers. O potencial é enorme.

A pessoa do ano de 2021 eleita pela Time foi Elon Musk. “Visionário. Showman. Iconoclasta. Troll. Como Elon Musk está remodelando o nosso mundo — e além”, diz a chamada da revista. Que em 2022 sejamos melhores que isso.

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Foto do topo: Emre Karatas/Unsplash.

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1 comentário

  1. Acho que o que mais me chocou nisso tudo foi a Time eleger Elon Musk como personalidade do ano. (Talvez porque foi uma coisa inédita; o resto, já tinha lido ou visto falar.)

    Alguém comentou no Post Live que parece que estamos vivendo o 24º mês de 2020. Tou achando que vamos pra um 2020 parte 3. :(

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