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Um país dependente do WhatsApp

Visão de cima de duas mãos masculinas mexendo em um celular com uma conversa do WhatsApp (ilegível) aberta.

Alguém inclinado a teorias da conspiração poderia dizer que a queda catastrófica dos serviços do Facebook nesta segunda-feira (3), que deixou o próprio Facebook, Instagram e WhatsApp fora do ar e os funcionários da empresa do lado de fora dos escritórios, foi puro diversionismo. Na véspera, Frances Haugen, ex-gerente de produtos do Facebook que se rebelou e está revelando segredos internos da empresa, veio a público na TV norte-americana e abriu (ou agravou) mais uma crise no Facebook.

Não é o caso, ou assim acredito. E nem é pelos milhões de dólares em receita que o Facebook deixou de ganhar ou pelo teor das revelações de Frances, que são de fato graves e devem ter consequências sérias.

Para o nosso teórico da conspiração, o apagão do Facebook teria sido uma manobra interna, proposital, para desviar a atenção do público da artilharia pesada de Frances. Na noite de segunda, quando o acesso estava voltando ao normal, Mark Zuckerberg, cofundador e CEO do Facebook, desculpou-se pelo fiasco e disse que “sabe o quanto vocês confiam em nossos serviços para se conectarem com as pessoas”, mensagem repetida também nos comunicados à imprensa. “O Facebook é tão ruim assim?”, argumentaria nosso hipotético conspirador, “Veja como o mundo seria sem ele, então”.

O problema com esse raciocínio é que o evento escancarou, também, a urgência com que o Facebook precisa ser regulado, e de tal forma que não agrade o próprio Facebook. É aqui que a teoria desmorona.

Na segunda, a indisponibilidade do Facebook, em especial a do WhatsApp, abriu o Jornal Nacional da TV Globo, o noticiário televisivo mais importante do país, e foi manchete em todos os sites jornalísticos. Em um país com o governo errático que o Brasil tem e uma produção industrial de escândalos dos mais diversos, a preferência quase unânime de editores de veículos distintos em destacar o WhatsApp reflete o papel estrutural que esse aplicativo tem hoje nas vidas de todos nós.

Foram os impactos da falta do WhatsApp que deram o tom da cobertura noticiosa. O G1, por exemplo, explicou como a pane no app afetou 175 mil restaurantes. Não se trata apenas do recebimento de pedidos: negociações com fornecedores e comunicação interna passam pelo app do Facebook. E mesmo na hora de vender, a flexibilidade do WhatsApp não é fácil de ser replicada — o telefone, “plano B” neste cenário, em muitos casos não deu conta da demanda.

Restaurantes não são exceção. Grandes empresas, profissionais liberais, consultórios médicos e até órgãos governamentais adotam o WhatsApp como ferramenta de comunicação. É o terror dos departamentos de tecnologia: uma tecnologia alheia, não homologada nem auditada, que sequer é adequada à função, mas que ainda assim é usada indiscriminadamente pelos colegas apenas porque… bem, todo mundo a usa para tudo, por que não para isso também?

Pesquisas apontam que o WhatsApp está presente em até 99% dos celulares conectados à internet no Brasil. Nada é impossível, mas pode-se dizer que é no mínimo muito difícil fechar essa caixa de Pandora a curto ou médio prazo. E, convenhamos, ainda que outro aplicativo, como o Telegram — que ganhou 70 milhões de novos usuários só na segunda —, tomasse o trono do WhatsApp, o problema continuaria. Seria trocar seis por meia dúzia.

Há muitas maneiras de regular as grandes empresas de tecnologia, e cada uma delas carrega promessas e incertezas. Para essa “WhatsApp-dependência”, uma muito promissora é a da interoperabilidade obrigatória. Hoje, todos esses aplicativos de mensagens populares são redes fechadas: para falar com alguém no WhatsApp, é preciso estar no WhatsApp, por exemplo. (A exceção é o Messenger do Facebook, que conversa com o Instagram; ambos os aplicativos são do Facebook, porém.) Não precisa ser assim.

Se aplicativos de mensagens trabalhassem com formatos abertos e interoperáveis, abriria-se uma enorme janela de oportunidades e de aumento da concorrência. Pense no e-mail: você pode usar o Gmail ou o Hotmail, e a maioria de fato usa um desses dois serviços, mas nada impede que alguém opte serviços de empresas menores ou mesmo crie seu próprio servidor de e-mail e consiga conversar com todo mundo. E quando um provedor de e-mail cai, o restante da rede continua funcionando, porque tal resiliência é uma característica de redes, coisa que o WhatsApp (ou o Telegram, ou o Signal) não é.

Li muitos “engenheiros de obra pronta” argumentarem nas redes sociais que gerir negócios exclusivamente pelo WhatsApp é um risco porque, “veja só, quando o WhatsApp sai do ar, sua empresa sai do ar”. Esse é o menor dos problemas. Quantas vezes o WhatsApp sai do ar em um ano? Se entrarmos no debate pautados pela (in)disponibilidade, o Facebook — e as demais big tech — ganharão de lavada. Eles têm dinheiro e cérebros brilhantes para montar infraestruturas espetaculares. Falhas como a que derrubou o Facebook são raríssimas em empresas do porte do Facebook.

A questão é mais profunda: é tornar um aplicativo proprietário — o WhatsApp, no caso —, mantido por uma empresa com histórico péssimo, repleto de decisões hostis, indiferença a problemas graves e práticas desleais, a espinha dorsal da comunicação de um país inteiro. Podemos fazer melhor. Devemos.

Não é difícil, ao menos tecnicamente. O próprio Facebook já nadou por essas águas. Nos primórdios, o Facebook Messenger funcionava em cima do protocolo XMPP — aberto, extensível e com a maioria, se não todos, os recursos que apps de mensagens modernos oferecem. O Gtalk, app pioneiro de mensagens do Google, outra big tech com sua cota de controvérsias, também era baseado no XMPP. Não gosta do XMPP? Existem outros protocolos similares, como o Matrix.

Em sua sanha monopolista, o Facebook abandonou o XMPP em algum momento do passado em prol de um protocolo fechado, que só ele entende e pode usar. Uma regulação bem feita poderia começar por aí: liberando os dados, as conversas e os contatos das pessoas para elas usarem onde e com o app que quiserem. Hoje, seus dados, conversas e contatos são reféns do WhatsApp, reféns do Facebook.

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Foto do topo: Asterfolio/Unsplash.

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11 comentários

  1. Excelente provocação. Existe alguma alternativa que já funcione nesses padrões abertos? Entendi que não é o caso do Telegram e imagino que também não seria o caso do Signal, confere? O que estaríamos abrindo mão para adotar um aplicativo com interoperabilidade? A criptografia de ponta a ponta ainda seria possível?
    Um abraço

  2. “Podemos fazer melhor. Devemos.”
    Então faz.

    “Uma regulação bem feita poderia começar por aí…”
    Ah esqueci. Vocês não querem resolver problemas. Querem criar problemas pra quem, de fato, resolve problemas. Querem regulamentar, querem impedir as big techs de fazer o que elas fazem. Ou seja, como bons esquerdistas, não querem resolver problemas, querem leis. Afinal, o estado é muito eficiente naquilo que faz.

    1. Olá André! Uma pena esses ataques gratuitos. Regular mercados definitivamente não é coisa de “esquerdista”.

      Existe uma ampla tradição do liberalismo econômico que defende a regulação dos mercados, especialmente na presença de falhas de mercado. Padrões mínimos de qualidade e segurança, por exemplo, são casos bastante emblemáticos.

      Como um colega comentou, em telecomunicações seria razoável que o telefone da Vivo só ligasse para Vivo? Ou no sistema bancário, que o Itaú só fizesse transferências bancárias para clientes do próprio Itaú? Como surgiria o Nubank num cenário desses?

      Sem regulação as empresas com maior poder de mercado conseguem esmagar a concorrência antes que ela sequer comece.
      A regulação pode sim fazer com que o mercado funcione de forma mais saudável e estimule a competição em um ambiente de igualdade de condições.

  3. É bem triste e bizarro ver o quanto de empresas/pessoas dependem de uma única ferramenta de comunicação.

    O pessoal realmente resumiu a internet aos serviços do Facebook.

    1. Poderia ser! Aliás, já existe um padrão que substitui o SMS/MMS com o acréscimo de recursos comuns e esperados hoje, como suporte a grupos e arquivos multimídia. Chama-se RCS. Problema: não tem o apoio da Apple.

      1. Exato. Se a Apple embarcasse, teríamos um protocolo avançado compatível nativamente com os dois OSs de smartphones, além do fato de que Mensagens (Apple) possui cliente desktop e Android Messages (Android) possui cliente web.

        Não resolveria todos os problemas, mas penso que seria um bom avanço.

        1. Mas, como todo monopólio, ainda que a Apple entrasse no RCS, ainda é difícil enxergar a ruína do WhatsApp no Brasil. Sei que o IE tinha praticamente todo o mercado de navegadores e morreu. Mas é que o brasileiro é o Zap parecem indissociáveis. Infelizmente.

          1. Não é só no Brasil não que temos dependência do WhatsApp. Mas uma hora essas coisas mudam. Não que eu seja defensor do Telegram (pra mim é troca de seis por meia dúzia), mas muita gente tem aderido…

  4. “Se aplicativos de mensagens trabalhassem com formatos abertos e interoperáveis, abriria-se uma enorme janela de oportunidades e de aumento da concorrência” – exatamente! Serviços de mensagem precisam ser capazes de trocar mensagens entre si. Nossa situação atual é como imaginar telefones da Vivo que só ligam para Vivo, telefones da Tim só ligam para Tim, etc. Temos que pensar que esses serviços constituem uma infraestrutura pública de comunicação

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