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Banimento em massa de Trump suscita perguntas difíceis

Manifestantes fiéis a Donald Trump cercam o Capitólio, ao fundo na imagem, no dia 6 de janeiro de 2021.

Primeiro foi o Twitter, com um gancho de 12 horas à conta @realDonaldTrump. Nos dias seguintes, mais de uma dezena de plataformas digitais se juntaram ao banimento, temporário ou permanente, do presidente norte-americano Donald Trump. Motivadas por uma tentativa de golpe liderada por ele que culminou em uma invasão ao Capitólio, em Washington, e cinco mortes, as empresas do setor finalmente agiram. Antes tarde que mais tarde, mas como demoraram.

Trump passou quatro anos na presidência sustentando a mesma retórica agressiva e divisionista que, se por um lado lhe deu a vitória nas eleições de 2016, desta vez custou sua forte presença online. Por que não antes? Motivos nunca faltaram: ele apoiou supremacistas brancos, marginalizou minorias, defendeu violências gratuitas. Violou reiteradamente os termos de uso das redes sociais que usava para se projetar, governar e causar tumulto, online e na vida real — se é que essa divisão ainda faz sentido.

O Twitter, rede preferida de Trump, não se mexeu em todo esse tempo com a desculpa de que se tratava de uma pessoa pública e, como tal, seu discurso, muitas vezes em flagrante desacordo com os termos de uso da plataforma, deveria ser ouvido. É difícil não achar, porém, que tal leniência do Twitter e das demais redes também se explique por outros fatores mais complexos, como o peso da presidência no debate da regulação das big techs (a despeito das acusações de republicanos/conservadores de serem silenciados nesses ambientes) e o dinheiro que Trump injetava via compra de anúncios, em especial no Facebook, embolsado sem qualquer questionamento ou crise de consciência.

Em outras palavras, enquanto lhes foi vantajoso manter o presidente online, as big techs ignoraram as regras de boa convivência que elas mesmas formularam.

O caso do banimento completo de Trump é paradigmático e levanta perguntas difíceis. Outros líderes que mimetizam-no, como o nosso presidente, correm o risco de serem banidos no exercício dos seus mandatos? Quais os critérios para ensejar o banimento ou a suspensão de uma pessoa pública? Entes privados com sede nos Estados Unidos deveriam ter o poder de determinar quem tem palanque na internet?

Mesmo antes de nos fazermos essas perguntas, é preciso debater o banimento em si, que está longe de ser consenso. Na Europa, que hoje faz a maior oposição aos excessos das redes sociais norte-americanas, líderes como a alemã Angela Merkel classificaram a exclusão virtual de Trump como “problemática”.

Se algo restou provado nesses quase 20 anos do experimento com as enormes redes sociais comerciais, é que o modelo, posto como está, é fadado ao fracasso. Os incentivos, comuns a todas elas e difíceis de escapar dentro da lógica capitalista em que atuam, nos levam sempre aos mesmos resultados desastrosos.

As redes sociais vieram para ficar, mas não precisam ser como essas a que nos acostumamos. Se elas são importantes a ponto de ser sugerido que equivalem a serviços básicos, devem ser reguladas como tais, com a participação da sociedade, via regulação, legislação e outros mecanismos mais democráticos. Até porque, como já disse em outras ocasiões, uma solução satisfatória dificilmente virá de quem criou o problema.

Foto do topo: Tyler Merbler/Flickr.

Edição 21#1

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