Fundo azul, com uma chamada para um PlayStation 5 no centro. À esquerda, a frase “Ofertas de verdade, lojas seguras e os melhores preços da internet.” À direita, “Baixe o app do Promobit”.

Da inevitabilidade do metaverso

Mark Zuckerberg com a mão levantada, em uma espécie de chalé com paredes de vidro, mostrando um rio e árvores do lado de fora. Na janela, foco da atenção dele, está uma representação cartunesca do próprio Zuckerberg, como se estivesse fisicamente no mesmo ambiente.

Dia desses a Samsung anunciou um novo tipo de memória, a LPDDR5X. Ela traz vantagens como consumir 20% menos energia sendo 30% mais rápida que o modelo anterior, e deverá ser usada em celulares e outros dispositivos conectados. Embora seja um negócio legal, é enfadonho. O tipo de coisa que jamais seria destaque no Manual, não fosse por um detalhe: de algum modo, a Samsung enfiou o termo “metaverso” no comunicado à imprensa da memória LPDDR5X.

Menos de um mês atrás, você provavelmente nunca tinha ouvido falar desse termo — de verdade, se o Google Trends for indicativo de alguma coisa. Agora, já deve estar cansada de tanto ouvi-lo. Peço um pouco de paciência para aguentar mais este texto. Que, não, não é uma tentativa de explicar o que é metaverso. A essa altura nem seus proponentes, como Facebook e Microsoft, sabem defini-lo com exatidão.

Quero refletir o porquê dessa avalanche de promessas e anúncios em torno do metaverso. Não foi só a Samsung. Nike e GameStop, dois exemplos igualmente peculiares, também embarcaram no bonde do metaverso. Empresas que já tinham alguma característica que vagamente lembra o conceito decididamente vago apresentado pelo Facebook, como Nvidia, Epic Games (de Fortnite), Roblox e Niantic (de Pokémon Go), já estão sentados na janelinha do bonde. A Microsoft prometeu (ameaçou?) que no futuro trabalharemos nesse tal de metaverso.

Há dois caminhos para entender a obsessão do mercado com o metaverso. O primeiro deles compra pelo valor de face a promessa de Mark Zuckerberg: que até o final da década, migraremos a maioria das experiências sociais, das mais modorrentas como ficar rolando o feed do Instagram àquelas empolgantes em que a tecnologia ainda não rivaliza, como ir a um show musical, para um ambiente virtual, para o metaverso.

Se essa visão estiver correta, fica evidente o motivo de todas essas empresas estarem se antecipando ao metaverso. Trata-se de uma nova corrida do ouro. A última desse tipo foi a do celular moderno, do smartphone, no final dos anos 2000. Executivos da Microsoft e da BlackBerry, para ficar nos exemplos óbvios, riram do iPhone. Nem Microsoft, nem BlackBerry têm qualquer participação relevante no atual mercado bilionário de celulares.

Participar do metaverso, portanto, passa a ser uma necessidade. No caso do Facebook, uma necessidade existencial. O Facebook quer dominar o metaverso. O maior ponto fraco do Facebook, hoje, é ser um parasita que depende de hospedeiros controlados por duas das suas principais rivais, Apple e Google. Os apps do Facebook só rodam no Android (Google) e no iOS (Apple). Mark Zuckerberg não quer correr o risco de, na próxima geração de plataformas globais, ver seus apps fora de uma delas só porque tinha uma galera usando eles por qualquer bobagem, tipo traficar seres humanos.

A grande questão — ou o segundo caminho — é que ninguém garante que o metaverso será, como profetizou Zuckerberg, “a próxima plataforma”, o substituto do celular, “uma internet corpórea onde você sente a experiência em vez de apenas olhar para ela”. O Facebook (ou a Meta) pode e vai investir montanhas de dinheiro para colar essa ideia e, ainda assim, não é certeza que ela se concretizará.

Faz no mínimo uns 40 anos que tecnocratas prometem que o ano da realidade virtual chegou. Pode ser que uma hora ele chegue, mas pode ser, também, que mergulhar num universo artificial seja algo tão hostil à humanidade que essa ideia jamais se concretize. O metaverso não é só realidade virtual, mas tem nessa tecnologia um componente fundamental. Em outras palavras, as chances de dar errado são tão boas quanto as de dar certo. Talvez até maiores.

Não é como se a história não tivesse exemplos de enormes fracassos por empresas com poderes e dinheiro quase infinitos. Em 2011, o Google fez um movimento digno do que o Facebook está fazendo agora com o metaverso: reorientou toda a empresa para uma rede social, o Google+, despejou toneladas de dólares naquilo e… não deu certo. Lembra das TVs 3D? Eu quase me esqueci delas, tamanha a relevância contemporânea da tecnologia que, em algum momento dos últimos 15 anos, a indústria apresentou como a evolução natural da TV, como uma inevitabilidade. Só que nós a evitamos. Era ruim demais. Não há dinheiro e marketing no mundo que compense um produto ruim, desconfortável e inútil.

Em escala menor, esses eventos são ainda mais comuns. Durante duas semanas no começo de 2021 só se falou em Clubhouse. Não se culpe se não lembrar de imediato que diabo é isso.

Ainda ouviremos falar muito de metaverso, nesse tom zuckerberguiano de que é algo determinado, coloque seu capacete de realidade virtual e prepare-se para ver anúncios imersivos em 3D. Não caia nessa.

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Foto do topo: Facebook/Divulgação.

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3 comentários

  1. até o final da década, migraremos a maioria das experiências sociais, das mais modorrentas como ficar rolando o feed do Instagram àquelas empolgantes em que a tecnologia ainda não rivaliza, como ir a um show musical, para um ambiente virtual, para o metaverso.

    Espero realmente que isso nunca, nunca aconteça.

  2. Isso me lembra de um tecnocracia, onde o Guilherme comentava do segway. Ou podemos pensar mesmo no second life, que muitas empresas achavam que seria algo super popular, mas não vingou, e tenho a impressão que será o mesmo caso aqui. É mais um grito se desespero do facebook do que qualquer outra coisa.

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