A partir de 1º de janeiro de 2021, a Apple reduzirá pela metade — de 30% para 15% — a taxa cobrada na venda de apps e compras dentro de apps publicados na App Store àqueles que faturaram até US$ 1 milhão em 2020. O programa é “opt-in”, ou seja, quem for elegível precisará sinalizar interesse nele, e valerá também desenvolvedores recém-chegados à App Store.

É um evidente resultado da pressão que a Apple vem tomando de empresas como Spotify, MatchGroup (do Tinder), Epic (do Fortnite) e Basecamp, que reclamam da taxa de 30% cobrada pela Apple e de algumas políticas da App Store. A nova taxa reduzida ajuda na defesa da Apple e beneficia muitos desenvolvedores (provavelmente a maioria deles), e só a elas — às grandonas, que se posicionam mais firmemente, continua tudo igual. Tim Sweeney, fundador e CEO da Epic, disse que a Apple tenta, com essa estratégia, causar divisão entre os desenvolvedores. Em nota, o Spotify afirmou o óbvio: que a novidade não altera em nada as rusgas da empresa com a Apple e a App Store. Via Apple, Variety (em inglês).

A Comissão Europeia abriu um processo antitruste contra a Amazon nesta terça (10). São duas linhas de acusação. Em uma, o bloco acusa a Amazon de usar dados de vendas privados das lojas que vendem em seu marketplace para detectar campeões de vendas e criar versões próprias mais baratas. Na outra, alega que a Amazon favorece seus próprios produtos e os de parceiros que pagam a ela por soluções de logística.

Há quem argumente que essas atitudes da Amazon não diferem das de grandes redes de supermercados. Na justificativa do processo, a vice-presidente executiva da CE, Margrethe Vestager, disse que “devemos garantir que o papel duplo de plataformas com poder de mercado, como a Amazon, não distorça a competição”. Parece um caso mais controverso que outras investidas da União Europeia contra Big Techs norte-americanas. Via Comissão Europeia (em inglês), O Globo.

A Fiverr estreou no Brasil nesta terça (10). A plataforma conecta freelancers com empresas que necessitam dos seus trabalhos, que ela define como “Service as a Product (SaaP)”, ou um marketplace da força de trabalho. (Ou, e aqui uma definição minha/popular por aí, uma plataforma de bicos.) São 400 categorias de serviços em 8 verticais, como design gráfico, marketing digital e redação. Em troca da conexão, a Fiverr fica com 20% dos pagamentos. Agora com presença oficial no Brasil, a vantagem é que os pagamentos podem ser feitos e recebidos em reais e todo o site está localizado. Via Estadão.

O Spotify disparou um questionário a alguns usuários com perguntas de um possível plano pago exclusivo para podcasts. A empresa quer saber que recursos compeliriam alguém a assinar esse plano (programas exclusivos? Conteúdo extra? Remoção de anúncios?) e quanto essa pessoa estaria disposta a pagar (entre US$ 2,99 e 7,99). Em nota, o Spotify diz que conduz pesquisas do tipo o tempo todo e que elas não necessariamente sinalizam novidades no serviço.

A ideia de cobrar uma assinatura pelo acesso a podcasts não é exatamente nova. A Amazon já está fazendo algo do tipo com o Audible (US$ 7,95/mês) e, em 2019, uma startup fortemente financiada, a Luminary, surgiu com a proposta de vender acesso a podcasts premium (o lançamento foi um fiasco e pouco se ouviu dela desde então). A estratégia do Spotify, de primeiro obter a exclusividade de podcasts de alta qualidade e grandes audiências e criar o hábito nos usuários para depois cobrar, parece mais promissora, porém. Via The Verge (em inglês).

O criador solitário de apps para Android que desafia Google e Samsung

Todos os sistemas operacionais contemporâneos trazem uma seleção básica de aplicativos pré-instalados: navegador web, agenda de contatos, agenda de compromissos, calculadora etc. Goste deles ou não, muita gente os usa apenas porque já estão ali, disponíveis assim que o aparelho é ligado pela primeira vez.

O poder do padrão é forte e as empresas por trás desses aplicativos mundanos, gigantes como Apple, Google e Samsung, têm recursos de sobra para torná-los minimamente usáveis. Apesar disso, tem quem desenvolva e lance aplicativos alternativos, com recursos extras ou ideias mais avançadas que os padrões. Entre eles está um insuspeito jovem programador da Eslováquia que só queria uma calculadora que não se conectasse à internet.

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Alphabet (Google), Amazon, Apple e Facebook divulgaram nesta quinta (29) seus balanços fiscais referentes ao terceiro trimestre fiscal (quarto, no caso da Apple) de 2020. Todas tiveram crescimento expressivo:

  • Alphabet faturou US$ 46,17 bilhões (aumento de 14% em relação ao ano anterior), com US$ 11,25 bilhões de lucro.
  • Amazon faturou US$ 96,15 bilhões (+37%), com US$ 6,3 bilhões de lucro.
  • Apple faturou US$ 64,7 bilhões (+1,1%), com US$ 12,7 bilhões de lucro.
  • Facebook faturou US$ 21,47 bilhões (+22%), com US$ 7,85 bilhões de lucro.

Foram encontrados trechos de códigos no app da Netflix para Android que sugerem testes da empresa com conteúdos que podem ser consumidos apenas por áudio — pense em apresentações humorísticas ou contação de histórias, por exemplo. A Netflix já tem algumas obras que poderiam ser apenas ouvidas, sem muito prejuízo, mas o potencial está no que pode vir dessa novidade. Da mesma forma que o domínio do streaming alterou a maneira como se produz música, uma Netflix do áudio expandiria as possibilidades da plataforma.

Não é algo muito maluco, se pararmos para pensar. Vide o Spotify, que já partiu por esse caminho. E tem aquela declaração do Reed Hastings, CEO da Netflix, de que um dos maiores rivais da Netflix é Fortnite. O que está em jogo aqui é a nossa atenção; o conteúdo são as armas dessa guerra. Via Protocol (em inglês).

Como as multibilionárias empresas de tecnologia usam seu poder para influenciar jornalistas, blogueiros e youtubers

Em 2005, críticos culturais de revistas e jornais brasileiros receberam um iPod Shuffle da assessoria de imprensa da Maria Rita contendo as faixas do segundo álbum da cantora. A história acabou saindo em uma nota não assinada da revista Veja. Virou um escândalo. Luís Antônio Giron, da revista Época, sentiu-se na obrigação de se defender da acusação, implícita na revista concorrente, de que o mimo de R$ 5901 o teria corrompido e a seus colegas. O escândalo do mensalão no governo Lula havia estourado poucos meses antes, daí que o caso do iPod acabou batizado e conhecido no meio como o “mensalinho da Maria Rita”.

Em 2020, iPod é pouco perto das benesses que empresas de tecnologia multibilionárias oferecem a jornalistas, blogueiros e youtubers, gerando relações de poder que, em última análise, comprometem a confiança na cobertura que a imprensa faz dessas mesmas empresas.

Por quase dois meses, o Manual do Usuário conversou com 11 jornalistas (de veículos tradicionais e independentes) e youtubers, no Brasil e nos Estados Unidos, para entender como empresas como Samsung, Apple e Asus usam seu poderio econômico para tentar ganhar a boa vontade da imprensa.

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Um figurão de Hollywood e uma executiva da tecnologia se unem e levantam US$ 1,75 bilhão em investimentos para lançar uma plataforma paga de streaming de vídeos curtos de alta qualidade, para serem consumidos pelo celular e em trânsito, naqueles intervalos de 10, 15 minutos que muitos de nós (ainda) temos ao longo do dia. Essa era a premissa do Quibi, startup de mídia que nesta quarta (21), apenas seis meses depois de ser lançada, fechou as portas.

Estava fácil prever o fracasso do Quibi. A ideia em si já era questionável, afinal não é como se houvesse escassez de vídeos curtos, “de alta qualidade” ou não, mas que a que as pessoas assistiam. Mas não só por esse motivo, porque o momento é bastante receptivo ao streaming — estamos escalando a montanha do streaming audiovisual e o pico, embora já seja visível, ainda não chegou.

Tudo indicava que o Quibi estava fadado ao fracasso porque, mesmo de longe (não deu tempo de chegar ao Brasil), o que se via era uma sucessão de decisões ruins, para dizer o mínimo.

O Quibi foi lançado em abril, quando a pandemia virou realidade no mundo inteiro. O plano inicial, de só funcionar em celulares, poderia fazer algum sentido no mundo pré-pandêmico. Com uma fatia relevante do público-alvo presa em casa, manter esse limitador artificial soou… esquisito, contraintuitivo. Os apps para Apple TV, Roku e Fire TV Stick (em resumo, para TVs) só foram lançados nesta terça, na véspera do encerramento das operações. E havia o elefante na sala: o fato de que, apesar da grana torrada em conteúdo e de ter levado dois Emmy, a única produção do Quibi que chegou (mais ou menos) ao mainstream foi uma de humor involuntário (acho?), do tipo que de tão ruim fica boa.

Só consigo pensar no tempo e no dinheiro gasto nisso. É um caso emblemático de tudo que há de errado com a cultura de capital de risco do Vale do Silício. Parafraseando uma sacada popular nas redes sociais, a existência do Quibi foi tão curta quanto os vídeos que ele prometeu entregar. Via Quibi/Medium, Wall Street Journal (em inglês, paywall).

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos e 11 estados do país entraram com uma ação antitruste contra o Google nesta terça (20). Eles acusam a empresa de monopolizar os setores de buscadores e publicidade em buscadores, impedindo que outras empresas tenham chances de competir. É uma das maiores ofensivas da história norte-americana contra uma empresa do setor. O caso já é comparativo ao da Microsoft, nos anos 1990, e ao da AT&T, nos anos 1970. Entre outras coisas, a ação acusa o Google de ter se tornado o “porteiro” da internet mediante acordos vultuosos para se colocar como mecanismo de busca padrão em celulares, computadores e outros serviços, o que lhe confere +80% do mercado norte-americano. Via Folha e The Verge (em inglês).

Gráfico em barras da evolução dos planos pré e pós de telefonia móvel no Brasil, de 2005 a 2020.
Gráfico: Guilherme Felitti/Twitter.

O processo de inversão no gráfico de planos pré-pagos e pós-pagos/controle de telefonia móvel no Brasil, que vem se desenhando desde meados de 2015, teve um soluço na pandemia. Em abril, talvez por estarmos usando menos o celular ou para segurar os gastos ante a crise que se avizinhava (ou os dois), o Brasil perdeu 500 mil contas no pós e 170 mil no pré. Em junho, os planos pós voltaram a crescer. Os pré seguem encolhendo. Gráfico do @gfelitti/Twitter com dados da Anatel.

Na guerra fria entre restaurantes e iFood, o WhatsApp come pelas beiradas

Em 1955, o mineiro Juscelino Kubitschek foi eleito presidente do Brasil. Seu governo (1956–1961) foi marcado por um slogan, “cinquenta anos em cinco”, que acelerou a industrialização do país e tirou do papel Brasília, a nova capital federal encravada no Planalto Central.

O programa desenvolvimentista de JK tem sido lembrado nos últimos meses como alusão ao processo de digitalização, igualmente célere, a que muitos pequenos negócios tiveram que se submeter para não quebrarem no enfrentamento da pandemia de COVID-19. Quando o coronavírus transformou a proximidade física em uma ameaça à vida, a importância da internet para os negócios cresceu enormemente, antecipando um movimento que muitos acreditavam que seria gradual e ainda levaria alguns anos para se consolidar.

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O mundo pós-COVID-19: há pouco de novo no “novo normal”

por Guilherme Felitti

O escritor argentino Julio Cortázar publicou em 1969 o conto que melhor sintetiza a passagem de tempo na literatura mundial, segundo a minha opinião. Chama-se A auto-estrada do Sul e está num livro chamado Todos os fogos o fogo”. No conto, uma multidão de carros avança por uma estrada que liga o interior da França a Paris numa tarde de domingo até que todos são obrigados a parar em um congestionamento. Naquele anda e para conhecido por qualquer um que já tenha passado horas em um engarrafamento, os carros seguem por quilômetros até que param completamente.

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Celulares Nokia voltam ao Brasil: Os celulares da pandemia

A HMD Global escolheu um domingo para voltar a vender celulares Nokia no Brasil. O Nokia 2.3, modelo de entrada com preço sugerido de R$ 900, não é o melhor que os finlandeses têm a oferecer, mas é o primeiro passo de um retorno que já seria difícil de qualquer maneira, e que ficou ainda mais em meio a uma pandemia.

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A SoftBank colocou os unicórnios em coma e o coronavírus desligou os aparelhos

por Guilherme Felitti

No basquete, há uma expressão chamada “heat check”. A Luciana Gimenez vai explicar para você. (Seria ótimo se agora entrasse a Luciana real explicando, mas eu não tenho contatos na high society, então quem vai ter que explicar o que é sou eu.) Basicamente, o “heat check” é quando um jogador percebe que está num daqueles dias em que tudo dá certo e vai checando o quanto a mão está quente (por isso “checagem de calor”). Arremessar uma bola num aro distante não é fácil. Na linha de três pontos, é ainda pior. Mesmo com anos de treino e seguidas horas diárias repetindo o movimento dos braços e das mãos, os melhores arremessadores têm uma média próxima a 50% de acertos de bolas de três, ou seja, a cada dois arremessos, um entra. A média de todos os jogadores está quase em 30%.

Um dos atletas com mais momentos de “heat check” na NBA se chama Klay Thompson e ainda joga — quer dizer, ele sofreu uma lesão horrenda em 2019 e só deverá voltar às quadras no fim do ano. Um dos maiores “heat checks” do Klay aconteceu em 12 de maio de 2016, quando o time dele, o Golden State Warriors, jogava contra o Indiana Pacers na Califórnia. De qualquer lugar que ele arremessasse a bola caía. Em 29 minutos em quadra (vamos lembrar que jogo de basquete são 4 tempos de 12 minutos, num total, claro, de 48 minutos), Klay Thompson fez 60 pontos. Chegou um momento da noite em que a torcida sabia que a bola que saísse das mãos dele ia entrar. Era o clássico dia em que tudo dá certo. Por mais que você treine, ainda assim um dia ruim pode impactar sua habilidade de executar o que você vem treinando sua vida toda para.

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