Anúncio Black Friday na Insider: descontos exclusivos na máscara antiviral

Como as multibilionárias empresas de tecnologia usam seu poder para influenciar jornalistas, blogueiros e youtubers

Mão segurando um Galaxy S20 Ultra em um ambiente escuro, com uma luz sobre o aparelho.

Em 2005, críticos culturais de revistas e jornais brasileiros receberam um iPod Shuffle da assessoria de imprensa da Maria Rita contendo as faixas do segundo álbum da cantora. A história acabou saindo em uma nota não assinada da revista Veja. Virou um escândalo. Luís Antônio Giron, da revista Época, sentiu-se na obrigação de se defender da acusação, implícita na revista concorrente, de que o mimo de R$ 5901 o teria corrompido e a seus colegas. O escândalo do mensalão no governo Lula havia estourado poucos meses antes, daí que o caso do iPod acabou batizado e conhecido no meio como o “mensalinho da Maria Rita”.

Em 2020, iPod é pouco perto das benesses que empresas de tecnologia multibilionárias oferecem a jornalistas, blogueiros e youtubers, gerando relações de poder que, em última análise, comprometem a confiança na cobertura que a imprensa faz dessas mesmas empresas.

Por quase dois meses, o Manual do Usuário conversou com 11 jornalistas (de veículos tradicionais e independentes) e youtubers, no Brasil e nos Estados Unidos, para entender como empresas como Samsung, Apple e Asus usam seu poderio econômico para tentar ganhar a boa vontade da imprensa.

O pontapé inicial desta investigação foi uma lista, vazada por uma fonte que pediu para permanecer anônima, com 54 nomes de jornalistas (de TV, impresso e digital), blogueiros e youtubers, todos brasileiros, que, em agosto deste ano, receberam de presente da Samsung um Galaxy S20 Ultra (128 GB) cada. Esse aparelho é vendido no varejo pelo preço sugerido de R$ 8 mil.

Print da loja da Samsung, na página do Galaxy S20 Ultra.
No momento, apenas o modelo de 512 GB está disponível. Custa R$ 8,5 mil, mas se pagar à vista tem desconto de 15%. Imagem: Samsung/Reprodução.

Não se tratavam de unidades de review, que costumam ser emprestadas e recolhidas por empresas do setor, incluindo a própria Samsung, mas sim aparelhos novos, doados sem qualquer contrapartida explícita a uma lista que se altera ano a ano, desde pelo menos o Galaxy S7, de 2016. “A lista [de presenteados], até onde sei, é móvel”, diz um jornalista familiarizado com a situação. “Teve gente que já recebeu no passado e não recebe mais. Até o S10 vinha uma carta proibindo de vender. Esse ano, não veio”.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

Apoie o Manual do Usuário.
Você ajuda a manter o projeto no ar e ainda recebe recompensas exclusivas. Saiba mais »

Segundo a fonte que vazou a lista, apenas um dos 54 agraciados não aceitou e devolveu o presente. O Manual confirmou, de maneira independente, a legitimidade do documento com seis pessoas que estão na lista e que, de fato, receberam e ficaram com o celular.

Em valores de varejo, só esta ação teve um custo de mais de R$ 400 mil à Samsung. Além de celulares, a Samsung também doa fones de ouvido sem fios a jornalistas e youtubers em seus eventos de lançamento de produtos. Os Galaxy Buds, modelo doado este ano, custam R$ 1,3 mil nas lojas.

A linha Galaxy S costuma ser atualizada no primeiro semestre. Quando chega ao Brasil, a Samsung empresta aparelhos para os veículos testarem e escreverem análises. Esses, são pedidos de volta pela empresa e ficam rodando entre os veículos — jornais, revistas, sites, canais de YouTube —, sem dono. Meses depois, entre agosto e novembro, quando o Galaxy S do ano já não é novidade, mas ainda é o aparelho topo de linha da fabricante, os escolhidos da vez recebem uma unidade, nova, em suas casas.

O Manual do Usuário enviou algumas perguntas à Samsung, sobre esta ação e outras relatadas no decorrer desta reportagem. Recebeu, em resposta, o seguinte posicionamento: “A Samsung segue rígidos padrões de compliance em conformidade com a legislação dos países em que opera. Todas as ações da companhia são regidas por esse conjunto de diretrizes. A empresa reforça seu compromisso com a transparência em todas as esferas em que atua”.

Não é só a Samsung que abusa de mimos para ganhar a simpatia de quem tem por ofício cobrir os seus passos de maneira — em tese — crítica. É algo meio generalizado, com algumas exceções, e um dos maiores segredos não muito bem guardados da indústria.

Após receber a lista da Samsung, o Manual do Usuário conversou com oito jornalistas, blogueiros e youtubers, alguns presentes na lista, outros não, para entender os meandros do relacionamento entre empresas de tecnologia e a imprensa, uma relação desigual e da qual as empresas parecem se aproveitar a fim de garantir uma cobertura mais favorável.

É muito difícil determinar se esses esforços são recompensados. A mera dúvida, porém, já é um enorme sinal de alerta, reforçado pela continuidade das práticas e a falta de transparência das empresas e dos veículos na exposição das relações que mantêm.

Além disso, também falei com três jornalistas norte-americanos, que cobrem tecnologia em sites renomados nos Estados Unidos, a fim de entender se o que acontece aqui é exceção ou regra.

Por motivos óbvios, todos os entrevistados (com uma exceção) falaram sob anonimato. Para diminuir as chances de que suas identidades sejam descobertas, todos eles serão tratados no masculino ao longo do texto. O objetivo desta investigação não é expor nem constranger colegas ou veículos (estamos todos na mesma barca furada!), por isso ninguém está citado nominalmente no que se refere a práticas questionáveis.

Muito além da Samsung

“A Apple é um caso clássico”, explica o jornalista de um veículo especializado. A Apple é a maior rival da Samsung no segmento de eletrônicos de consumo, mas adota práticas e abordagens bem diferentes dela, inclusive no trato com a imprensa.

A Apple é bem mais fechada que outras empresas do setor. É mais difícil falar com eles, quiçá desenvolver uma relação e receber produtos para testes. Aqueles que têm trânsito recebem prontamente os últimos e caríssimos lançamentos da marca, todos a título de empréstimo, mas sem prazo estipulado para devolução. Na prática, isso é encarado pelas fontes como se fosse praticamente uma doação, já que os produtos podem ser usados por muito tempo e para fins pessoais.

Cinco jornalistas e youtubers destacaram o “modus operandi” da Apple. “A Apple fornece aparelhos para testar para pouquíssima gente”, relata o repórter de um grande jornal. “Eles fazem uma apresentação em um hotel e você sai de lá com o aparelho, mas eles não fazem menção de quando você tem que devolver”.

Regra geral, quando uma empresa empresta um produto para review, é estabelecido um período de testes e, ao fim dele, o produto é devolvido. Com a Apple, há um desinteresse manifesto em recebê-los de volta. “A Apple faz isso todo ano com o iPhone. Você não recebe para testar, recebe para testar e ficar. E é o modelo mais high-end [caro]”, explica o editor de um site independente.

Quando o jornalista ou youtuber toma a iniciativa de devolver o produto, se depara com dificuldades inesperadas, como explicou o editor de um site de tecnologia: “Já devolvi muita coisa à Apple, mas eu liguei pedindo para buscarem. É meio ‘e aí, podem vir [buscar]?’”. Para ele, “[é] super de interesse da Apple deixar o aparelho com o jornalista porque ele não tem dinheiro para comprá-lo — ou compra e não come. Imagina financiar um telefone de R$ 4, 5 mil só para poder escrever sobre Apple o ano todo?”

O Manual do Usuário solicitou à Apple um posicionamento sobre as denúncias, mas a empresa não respondeu o contato até a publicação desta matéria.

Em outubro de 2019, a inteligência artificial Alexa, da Amazon, aprendeu português do Brasil. Foi uma festa — literalmente. A gigante do varejo norte-americana já havia enviado um punhado de alto-falantes Echo (R$ 350 cada) a redações, sites independentes e youtubers, quando fechou a badalada casa noturna Blue Note, em São Paulo (SP), para celebrar a o lançamento com um show da Pabllo Vittar. “Era um evento super exclusivo, tinha vários jornalistas, muitos influenciadores, atores”, relatou um jornalista que esteve na festa. “As pessoas podiam levar dois Echo para casa, se quisessem”.

Embora seja uma empresa primariamente do varejo, a Amazon se aventura em produtos. No fundo, todos eles funcionam como terminais, ou vitrines, para que os consumidores comprem mais em sua loja ou, no mínimo, permaneçam dentro do seu ecossistema, consumindo e gerando dados que ajudam a refinar os algoritmos de recomendação da Amazon.

Além dos mimos, a Amazon tem outra arma poderosa para pautar a imprensa especializada: o seu programa de afiliados, que paga comissões generosas (até 15%) por links de indicação. O do Magazine Luiza paga até 12% (sem especificar em quais categorias) e o da B2W, até 8%.

Tabela com os percentuais de comissões que a Amazon paga em seu programa de afiliados.
Tabela de comissões da Amazon, por categoria de produto. Veja a original aqui. Imagem: Amazon/Reprodução.

É por isso que em ocasiões como o Prime Day, dia desses, e na Black Friday, são publicadas tantas “listas de compras” da Amazon em sites e canais de YouTube. Cada clique em um link delas antes do consumidor fechar uma compra na Amazon significa uns trocados extras na conta de quem a publicou. Em sites de grande circulação, com dezenas de milhares de visitas diárias, esses trocados viram um valor relevante no fim do dia.

Poderia ser uma mera estratégia de geração de receita, não fosse a influência da Amazon no editorial, começando, mas não se limitando, às famigeradas “listas de compras”. Um youtuber disse que “a Amazon está forçando um pouco mais a barra para quem envia seus produtos”, só que em vez de exigir um review ou pagar pela veiculação de uma campanha publicitária, a empresa aumenta a comissão das indicações dos veículos parceiros. “Daí não é um publieditorial, mas tem uma comissão maior”, prossegue. “Por isso que você vê tanto conteúdo de Alexa. Quem continua fazendo vídeo continua recebendo”.

O Manual do Usuário também pediu à Amazon um posicionamento, mas a empresa não o havia enviado até a publicação desta matéria.

Em agosto, Thássius Veloso, jornalista do Grupo Globo, disse no Twitter que “[t]em uma empresa de celulares que só manda aparelhos de teste se você topar comparar com os aparelhos X, Y e Z, e não pode comparar com os aparelhos A, B e C. Além disso, ela exige que sejam feitos tantos vídeos sobre os novos produtos”. Ele não revelou o nome da empresa porque, nas palavras do próprio, preferia “evitar um processinho”. A empresa a que ele aludiu é a Asus.

O Manual do Usuário obteve uma cópia do contrato de confidencialidade (NDA, na sigla em inglês) que os jornalistas e youtubers tiveram que assinar para receberem celulares da linha Zenfone.

Trecho do NDA da Asus com o que o jornalista pode e o que não pode fazer.
NDA da Asus. Clique aqui para baixar o PDF. Imagem: Manual do Usuário.

Documentos do tipo são praxe no meio, mas regra geral eles apenas impedem o jornalista/youtuber de publicar qualquer conteúdo referente ao produto antes de uma data. As especificações da Asus, que interferem diretamente no conteúdo, são raras e, como demonstram as respostas ao tuíte do Thássius, mal vistas. Recentemente, a Microsoft fez algo parecido nos Estados Unidos com o seu Surface Duo, impondo uma data para o “unboxing” (sem que se pudesse ligar o aparelho) e, depois, outra para a análise completa. Causou estranhamento lá também.

A exemplo da Apple, a Asus, segundo as fontes, não faz questão de pegar de volta os celulares que empresta. “A Asus fazia muito isso. Mandavam [celulares] até com nota fiscal de doação”, disse um repórter. Um youtuber afirma que “a Asus envia [produtos], explicita que é doação e não necessariamente pede uma resenha, embora fique implícito”.

A atuação da Asus junto à imprensa já foi objeto de uma crítica neste Manual do Usuário em 2017, quando a empresa levou jornalistas, youtubers e influenciadores a um cruzeiro para apresentar celulares novos. Um dos executivos da empresa disse, na ocasião, que em vez de gastar com publicidade na TV em uma campanha convencional, preferia levar aquelas pessoas, imprensa no meio, ao cruzeiro. Havia um clima de turismo no ar, reforçado pelo passe livre para bebidas e comidas a bordo e gente da Asus dizendo que, além das informações dos lançamentos, o outro objetivo ali era confraternizar e nos conhecermos melhor.

Depois que a matéria do Manual do Usuário foi publicada, o evento no cruzeiro, que era anual e estava na terceira edição, nunca mais aconteceu.

Um youtuber comentou que a Asus mantém uma planilha de jornalistas e youtubers que são monitorados e classificados de acordo com vários critérios, e que ela é usada para determinar quem recebe celulares e é convidado para eventos. Em uma live em seu canal pessoal de games, Marcel Campos, diretor global de marketing da Asus, confirmou a existência da planilha, disse haver um sistema de pontuação e citou alguns dos critérios, incluindo familiaridade com o histórico de produtos da empresa. Veja o trecho do vídeo:

O Manual do Usuário pediu um posicionamento à Asus, mas até a publicação desta reportagem a empresa não havia se manifestado.

Embora não seja possível afirmar que outras empresas façam monitoramentos similares, é bem provável que seja o caso. No meio, rola muita especulação de quem a empresa X convidará para o evento Y, e de quais veículos receberão um novo lançamento. Vale lembrar o clássico caso do Gizmodo norte-americano, que tomou um gelo e não foi mais convidado para eventos da Apple durante quatro anos depois que, em 2010, publicou informações do iPhone 4 meses antes do anúncio oficial, após comprar um protótipo que alguém encontrou, perdido, em um bar em Redwood City, na Califórnia.

Apple, Asus e Samsung foram as mais citadas pelas fontes ouvidas pelo Manual do Usuário, mas não as únicas.

“A LG dava coisas específicas, como malas Samsonite por três anos”, disse um editor. “Em março [de 2020], mandaram uma caixa Bluetooth que estava no mercado havia um ano e meio, e rendeu reviews”.

Recentemente, a LG elevou o jogo e distribuiu a jornalistas e youtubers sua TV OLED CX de 55 polegadas, um modelo premium vendido no varejo por R$ 8,4 mil. Pelo menos sete sites e canais de YouTube receberam unidades da TV, o que rendeu reviews, quase todos sem revelar a origem ou a destinação do aparelho. Todos foram muito elogiosos, com títulos e conclusões sugerindo que se trata da “melhor TV do Brasil”. Talvez seja, mas…

Print da loja virtual da LG, mostrando a TV OLED CX de 55 polegadas por R$ 8,4 mil.
Sem desconto à vista nem frete grátis na lojinha da LG. Imagem: LG/Reprodução.

A LG disse ao Manual do Usuário que não se manifestará sobre este assunto.

Um editor comenta um programa da Nvidia, chamado GeForce Elite Squad, em que a empresa monta PCs de ponta com a ajuda de parceiros (outras fabricantes de componentes) e os empresta por meses, até mais de um ano, a youtubers e jornalistas. O objetivo é “possibilitar o trabalho do jornalista de games”, diz, porque são poucos os profissionais e publicações em condições de despejar valores que chegam fácil aos cinco dígitos em um computador gamer apenas para testar jogos. Só uma placa de vídeo topo de linha da Nvidia pode custar, no varejo, mais de R$ 10 mil.

Atualização às 18h55: Após a publicação da matéria, a Nvidia entrou em contato e informou que “o GeForce Elite Squad empresta placas de vídeo GeForce, e não PCs de ponta”.

Não há explicações, nem nos sites que têm colaboradores participantes, nem no da Nvidia, do que é o GeForce Elite Squad. Alguns participantes informam em suas redes sociais pessoais, na “bio”, que integram o programa, mas param por aí. Em meados deste ano, não se sabe por qual motivo, alguns deles removeram o informe de seus perfis, embora continuem no programa.

Em nota enviada ao Manual do Usuário, a Nvidia diz que “é contra a cessão ou doação definitiva de produtos” e que “combatemos essa prática ao promover apenas empréstimo de nossos produtos”. Sobre o GeForce Elite Squad, a empresa explica que ele é “[c]omposto por jornalistas e criadores de conteúdo”, e que “é um programa voltado unicamente para promoção de testes e análises de jogos na plataforma PC. Aos integrantes são cedidas por empréstimo, com prazo determinado de devolução, placas de vídeo da NVIDIA, de forma que consigam rodar os games ao longo do ano nas melhores condições possíveis”. Disse, ainda, que “[o]s jornalistas são escolhidos pelos próprios editores dos sites e sempre recomendamos aos profissionais da imprensa informar sobre o empréstimo quando uma placa de vídeo GeForce for utilizada, mas a linha editorial e seu conteúdo é de responsabilidade total de cada veículo e não interferimos”.

A Huawei chegou ao Brasil com estardalhaço pouco antes de ser proibida de usar o Android do Google, o que a deixou em uma situação cambaleante e seu futuro no Ocidente, incerto. Mas deu tempo de distribuir alguns celulares topos de linha (~R$ 5 mil) e relógios caros (~R$ 1,5 mil) à imprensa. Em um dos casos, durante um evento no exterior, o celular dado a todos os presentes veio com um simpático bilhete oferecendo todo o suporte de que o agraciado viesse a precisar.

Foto de um cartão da Huawei, informando que o aparelho recebido pelo jornalista é somente para review, não pode ser vendido.
“O dispositivo que você recebeu é apenas para fins de reviews e não pode ser vendido”. Foto: Manual do Usuário.

A Huawei enviou os seguinte posicionamento a pedido do Manual do Usuário: “A Huawei possui uma política de empréstimos de produtos para teste a jornalistas, YouTubers e formadores de opinião, pois acredita que a experiência de produto seja o principal caminho para a formação de opiniões e análises sólidas, verdadeiras e independentes quanto à qualidade dos nossos produtos. A Huawei não pretende influenciar ou alterar a ideologia de veículos de comunicação por meio de doações de produtos”.

E as viagens

O jornalismo tem que ir aonde a notícia está, mas quando ela acontece em outro país e — convenhamos — não é lá grande coisa, como o lançamento de um celular, é difícil justificar o gasto. “A gente não está em um momento em que os jornais podem pagar por viagens”, reconhece um repórter. Para não correr o risco de ficar sem mídia, as empresas se apresentaram e passaram a pagar todas as despesas de viagem dos jornalistas. São as chamadas “press trips”.

As press trips não são exclusividade nem nasceram no jornalismo de tecnologia. A mistura de trabalho e lazer, mas com roupagem de trabalho, tem sua raiz nos cadernos de turismo dos jornais impressos, onde, no passado, esses convites eram encarados como premiações nas redações e sorteados entre todos os jornalistas. Em troca de passar uns dias em algum lugar paradisíaco, o ganhador escrevia uma matéria relatando a experiência.

Hoje, essas viagens também acontecem em outras editorias. Se um setor tem muito dinheiro, alguém vai inventar de organizar eventos em locais convenientemente aprazíveis.

As empresas de tecnologia, multinacionais que são, organizam eventos globais, daí a escolha — compreensível — por palcos fora do Brasil. Em uma press trip, elas pagam as passagens, a estadia, alimentação, transporte… é possível a um jornalista, e não é força de expressão, viajar sem ter um centavo no bolso2 . Com o tempo, essas press trips, que levam gente daqui a destinos cobiçados como Barcelona (para a MWC), Berlim (IFA), Las Vegas (CES), Nova York e São Francisco (eventos avulsos), viraram meio que moeda de troca.

Um editor conta que uma funcionária, durante o processo seletivo em um site rival também especializado em tecnologia, foi apresentada aos benefícios da empresa. Entre eles estava o de poder viajar, pois o veículo em questão não fazia cobertura crítica, era parceiro das empresas.

E isso não é raridade, ao menos no jornalismo de tecnologia. Os convites, que deveriam suscitar preocupação e reflexões profundas antes de serem aceitos ou não, são, na realidade, cobiçados por uma parcela relevante do setor. Eu já presenciei conversas com esse teor nas comitivas dos poucos eventos internacionais que cobri.

Para as empresas, as press trips são uma ferramenta para tentar controlar a narrativa. Elas montam cronogramas apertados, com vários compromissos em torno delas mesmas, para que o jornalista não consiga cobrir outras empresas em grandes eventos, como MWC e CES, onde a concorrência por atenção é brutal. Não chega a ser um esquema 100% eficiente, pois elas não podem obrigar o profissional a seguir à risca o cronograma, mas há uma pressão velada para que ele não saia muito da linha, afinal outros eventos ocorrerão no futuro e os convites para eles dependem da manutenção de uma relação “saudável”.

Um repórter conta um causo estarrecedor: em agosto de 2018, no lançamento de um produto da Samsung em Nova York, um jornalista ganhou um passeio pela cidade de presente da empresa por ter sido o que mais viajou a convite dela no último ano.

Foto de uma praia no entardecer, com palmeiras enormes em primeiro plano.
Onde lançaremos o nosso novo chip de celular? Em uma praia paradisíaca no Havaí, ora! Foto: Rodrigo Ghedin/Manual do Usuário.

Nem todos se deixam seduzir pelas viagens na faixa. “Eu não gosto de press trip, nem que paguem meu almoço”, diz o repórter de um grande jornal. Dada a pindaíba do setor editorial, porém, ele relata que já foi em press trips e que, para não ser o do contra, acabou aceitando refeições pagas pela empresa que o convidou.

Embora meio óbvio, vale ressaltar que press trips não são só lazer. No fim, é trabalho, e em alguns casos, principalmente nos grandes eventos “multimarcas”, como CES, MWC e IFA, trabalho pesado, do tipo que com frequência não se consegue fazer por completo mesmo exagerando nas horas extras. Jornalistas e blogueiros veteranos e/ou de grandes veículos têm algum poder de barganha e em muitos casos deixam claro, antes de decolarem do Brasil, que farão suas próprias agendas.

Nos eventos tranquilos, quando é exclusivo de uma empresa, por exemplo, costuma-se pegar mais leve nos compromissos e enche-se a agenda de passeios e refeições em restaurantes sofisticados. São estadias genuinamente prazeirosas, os funcionários de agências e das empresas costumam ser muito agradáveis, é bem legal mesmo. E, no limite, dá para alterar a data da passagem de volta e, por conta própria, trocando o hotel luxuoso pago pela empresa por um Airbnb pago do próprio bolso, estender a estadia no exterior e aproveitá-la como se fossem férias.

Qual o problema?

O jornalismo de tecnologia que cobre produtos tem um papel importante: o de ajudar o leitor/consumidor a tomar decisões melhores na hora de ir às compras. Espera-se, pois, isenção das análises, o que é diferente de imparcialidade. Por isenção, entende-se a opinião sincera da pessoa que fez a avaliação, influenciada apenas pela sua bagagem e fatores culturais, não por interferência do capital (não necessariamente em moeda) da fabricante do produto. Além disso, a cobertura vai muito além da análise de produtos. Escândalos de toda monta, casos de corrupção, práticas abusivas… não falta trabalho nem desafios para quem cobre o setor mais poderoso do planeta no momento.

Em um mundo ideal, e essa é uma opinião quase unânime entre as fontes que entrevistei, os próprios veículos comprariam os produtos analisados. “Num mundo ideal a gente nem receberia nada de marca, os veículos comprariam os produtos e faríamos os testes”, explica um repórter, reconhecendo em seguida que “isso é impraticável”. Sairia muito caro, dado o enorme volume de novos produtos que chegam ao mercado todos os dias, sem falar nas linhas de luxo, como TVs e computadores de dezenas de milhares de reais. “Em nenhum lugar onde eu trabalhei a empresa comprou um aparelho [para review]; nunca vi”, diz o jornalista de um site especializado.

A própria indústria reconhece essa limitação e, ao mesmo tempo, a necessidade de colocar jornalistas em contato com seus produtos para torná-los conhecidos do público. Embora esse cenário esteja passando por um abalo sísmico graças às redes sociais, que cortam intermediários na relação entre marcas e consumidores, acrescentam novos atores mais suscetíveis ao discurso das grandes empresas, e tiram da imprensa o papel de principal “porteiro” da informação que ela já teve um dia, jornalistas e blogueiros ainda contam com alguns trunfos, como a isenção e a credibilidade. Jamais ouviremos a Samsung ou a Apple dizerem que seus celulares são lentos ou que têm um custo-benefício ruim, por exemplo, mas um jornalista, em tese, tem essa discricionariedade.

Por isso a interferência das empresas é tão tóxica. A mera sugestão de que a independência da imprensa possa estar comprometida já joga uma sombra de desconfiança devastadora sobre todos nós. E em troca de um ganho relativamente pequeno, de curto prazo e insustentável. Já está acontecendo, ainda que longe dos olhos do público, como os muitos exemplos acima revelam.

Ainda que fosse possível a um veículo comprar todos os produtos que avalia, as empresas têm outros subterfúgios à mão. Diz um youtuber: “É possível comprar os aparelhos, mas [sem a relação com as empresas] você fica de fora de NDAs, informações adiantadas que são importantes para gerar audiência. E as fabricantes sabem disso, e fazem trocas para que ‘todo mundo fique bem’”.

Um youtuber enfatiza que rola uma pressão tácita das empresas. (Parece que na plataforma de vídeos do Google a coisa é mais escancarada.) “Tem empresas que claramente priorizam quem faz conteúdo para elas, mesmo que esse não seja patrocinado, nem combinado. É um acordo velado”, resume. Além disso, o outro youtuber comenta como, com essa estratégia, as empresas conseguem moldar a narrativa dos veículos: “O que incomoda é quando a empresa só tem para emprestar o que ela quer que seja feito de review.” Quando o Manual do Usuário publicava reviews3, foram muitas as minhas tentativas, quase todas frustradas, de emprestar celulares de entrada das grandes marcas, aqueles modelos mais baratos e, por consequência, piores.

“É uma estratégia do lado deles [empresas], e se você não estiver muito firme no seu propósito de tentar manter a autonomia, é fácil comprar discursos”, diz um jornalista. “Ainda mais para uma galera que já paga pau a essas empresas. Acho que rola esse abuso sim”.

A maioria dos entrevistados se sente desconfortável com esse tipo de assédio das empresas e, na medida do possível, rejeita as benesses. Mas há exceções. Para um youtuber, “‘ganhar’ as coisas é muito legal”, pois seria “um reconhecimento” das marcas. Ele diz que “ao menos aqui no Brasil, receber as coisas, estar na lista de uma empresa para isso é um status que poucos querem perder”, mas diz que “não é afeito a indicar [ao público] que ganhou uma coisa” porque, além de correr o risco de ter seu julgamento questionado pela audiência, os mimos “também indicam que você é rico, privilegiado, ganha tudo, e não é assim sempre”. Além de, claro, ficar em dívida com a empresa. Em outro momento da conversa, ele diz que “[a]o aceitar receber [produtos], você sabe que tem que ao menos dar algo em troca, seja o review ou um post”.

Essas relações não são expostas aos leitores. “Não sei, pelo menos dos colegas, um que revele em um review, ou dentro do veículo, que recebeu algo de presente”, confessa um jornalista da grande imprensa. “É mais comum isso estar no Instagram pessoal, nas contas de redes sociais pessoais”. Esse uso das redes sociais pessoais do jornalista tem sido explorado pelas empresas.

Para Lívia de Souza Vieira, jornalista, doutora pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), a transparência é primordial e os veículos deveriam, no mínimo, explicitar quando um produto é doado por uma empresa. Ela não vê problema no empréstimo com prazo definido para devolução, desde que sinalizado, mas no caso dos produtos doados, pensando na independência editorial, afirma que o melhor seria negar a doação e devolver os presentes.

A pesquisadora lembra de uma frase de Eugênio Bucci, professor e doutor pela USP, em que ele diz que em ética é fácil decidir entre o certo e o errado; o mais difícil é decidir entre o que é certo e o que é certo. “Não é necessariamente errado receber um presente, mas será que isso vai me afetar? Vai afetar a isenção, a independência? Vou ficar com o rabo preso com a empresa?”, questiona a pesquisadora. “São produtos caros e são empresas privadas, com muitos interesses. O jornalismo, historicamente, tem mais problemas em cobrir e fiscalizar as empresas privadas. A gente costuma fiscalizar muito o poder público, e as privadas já têm meio que uma blindagem. Quando acontecem coisas assim, só corrobora isso”.

Apenas recentemente alguns poucos veículos especializados passaram a veicular um “aviso de ética” nas análises de produto, informando ao leitor de onde ele veio e qual será o seu destino — se será devolvido à empresa ou se ficará com o jornalista/veículo. Presentes que não são objeto de reviews, como o Galaxy S20 Ultra recebido por +50 jornalistas, não são mencionados, porém. No caso das viagens, é bem comum, mesmo em blogs pequenos, que conste no rodapé das matérias que as despesas foram pagas pela empresa. Talvez seja uma prática herdada da mídia tradicional, que já tinha esse hábito muito antes de blogs e da internet se popularizarem.

Tais práticas de transparência dependem tanto dos profissionais quanto dos veículos onde trabalham. Por isso, convencioná-las em conjunto pode ser uma boa saída. “É uma questão que a própria empresa jornalística pode normatizar”, sugere Lívia, “criando diretrizes que digam que sempre que recebermos tais e tais presentes, o nosso procedimento é esse. Para dar transparência ao leitor, que é o que o jornalismo se dispõe fazer”.

É o que fazem as redações dos grandes jornais. Distribuir brindes à imprensa é algo tão comum que tem até nome: jabá. Em grandes redações, sempre tem algo chegando, ainda que no geral sejam produtos de baixo valor e não necessariamente relacionados à atividade principal da empresa que presenteia. Coisas como refeições, livros, materiais de escritório (cadernos, canetas etc) e outras miudezas. Para muitos colegas, é mais uma dor de cabeça do que algo genuinamente legal (ninguém escreve mais tanto em papel para justificar os quilos de bloquinhos recebidos).

Por ser uma prática generalizada e nem sempre o jabá ser inofensivo, grandes publicações a preveem em seus códigos de ética. Na imprensa tradicional, o jabá caro é tratado como algo indesejável e a ser evitado. O manual de redação da Folha de S.Paulo diz:

A Folha desestimula seus jornalistas de aceitar presentes. Exceções são admitidas, desde que o valor não ultrapasse 25% do salário mínimo nacional. Objetos mais caros, enviados ao jornal ou à casa do profissional, devem ser encaminhados à Secretaria de Redação para devolução, com carta-padrão de agradecimento e a justificativa da recusa.

Sem citar valores, mas seguindo a mesma linha, os princípios editoriais das Organizações Globo orientam:

Os veículos das Organizações Globo estabelecerão normas, em seus manuais de redação, sobre como devem proceder seus jornalistas diante de convites e presentes. A regra geral é que nada de valor deve ser aceito.

O mesmo no Estadão:

É vedado aos Empregados aceitar ou permitir que um membro da sua família aceite benefícios pessoais em conseqüência da sua posição no Grupo. Entretanto, um Empregado poderá aceitar eventuais refeições de negócios que possam ser retribuídas ou presentes ocasionais de valor simbólico, exceto dinheiro.

Nos últimos anos, a ascensão de um novo profissional que parece jornalista, mas não é, complicou o meio-campo. Nas entrevistas com os jornalistas, a mistura — aos olhos do público e de alguns profissionais — entre influenciadores digitais e jornalistas foi apontada mais de uma vez como uma possível fonte de todo esse problema. “[Com] A chegada do influenciador, virou um vale tudo. Porque é um ‘eu tenho, você não tem’, ‘a marca X me deu’, ‘olha como eu sou bom’. Tem gente que recebe para teste e finge que ganhou. E aí misturou tudo: influenciador, jornalista, youtuber, blogueiro”, desabafa o jornalista de um site independente.

Para outro, de um grande jornal, “[a] mistura de influenciador e jornalista é muito grave, e em uma área que é importante. O consumidor vai ler na mídia especializada se ele compra o celular X ou celular Y. Não é um trabalho menor, cobrir produto, então precisa ter responsabilidade. Quando você começa a confundir jornalista com influenciador, tem um problema bem grave”.

“Atualmente, se as pessoas descobrirem que a Apple dá notebook de R$ 20 mil [a jornalistas], elas não vão se impressionar com isso, devido à cultura de influenciador. Acho que teve essa mudança cultural. Não soa mais tão esquisito, então temos uma coisa já corroída; não irreversível, mas tem a normalização desse tipo de prática”, teme um jornalista especializado, referindo-se à cultura dos “recebidos”, presentes que marcas enviam a influenciadores na esperança de que eles os exibam a seu público, muitas vezes maior que a audiência de jornais e sites especializados.

“Essas empresas estão muito de olho nos influenciadores porque eles parecem ser mais espontâneos”, diz Lívia. “A gente sabe que não é assim, mas a ideia que está por trás é essa, de que esses influenciadores têm uma aproximação, um poder de convencimento por parecerem mais naturais”.

O jornalista de um grande jornal classifica esse fenômeno de confusão profissional como o “surgimento de uma geração blogueirinha”. Para esses, a relação com as empresas é um pouco diferente da que existe entre os grandes veículos. “As empresas não podem ignorar uma Folha ou o G1, o que dá mais liberdade a esses veículos para criticá-las”, explica. “Com blogueiros, não tem isso. Se ele pega muito pesado, não é mais convidado, perde a pauta… existe uma relação de poder muito maior, só que também existem muitos blogs grandes falando com muita gente. Acaba que na relação de poder, o equilíbrio mudou. As empresas têm mais domínio sobre quem escreve no Brasil.”

Desse caldo, desponta outra palavra importante, citada por alguns entrevistados: precarização. “A situação é precária, mas não sei até que ponto as pessoas entenderiam isso. Há um dilema que não sei como a gente resolve”, lamenta um jornalista. “Somos muito precarizados e dependemos de empresas, e não deveria ser assim”, diz outro.

Quando se mistura salários baixos e empregos precarizados à manipulação das empresas, com pitadas generosas da cultura mercantilista dos influenciadores, surge o jornalista influenciador que, no fim do processo, acaba fazendo bico de vendedor de usados na internet. “Hoje a galera recebe telefone de presente, posta nas redes sociais, ‘tagueia’ a marca para agradecer, e depois de uns meses quem fica com o telefone faz uma lojinha para vender os aparelhos. Olha o nível de precarização. Não sei se internamente as empresas discutem isso de maneira séria”, reclama o editor de um site especializado.

A revenda de produtos recebidos por jornalistas e youtubers foi citada mais de uma vez, e é uma prática, ainda que não generalizada, comum, sabida no meio e, em grande medida, normalizada. Diz um jornalista de site especializado: “Eu recebo [produtos como doação] e, se não uso, repasso para família, amigos. Não vendo, [mas] tem gente que vende. E aí é complicado, porque cria-se a expectativa de uma grana extra”. Outro, de um grande jornal: “É uma prática que acontece. As pessoas recebem produtos e vendem, sem ninguém saber. A pessoa recebe tanta coisa, três, quatro celulares num semestre de lançamentos, e não precisa de tudo isso. Acaba vendendo alguns aparelhos”.

“A gente sabe, e as empresas com certeza sabem também, que o jornalismo vive um momento de crise financeira”, lembra Lívia Vieira. Além da ânsia pela notícia, questões mais mundanas, como o balanço contábil no vermelho, podem acabar empurrando veículos e profissionais a cederem ao assédio das empresas. “O que essas empresas querem é vender, ter lucro, e toda a estratégia de marketing tem esse objetivo. Uma redação e um jornalista não podem ser ingênuos em relação a isso”, argumenta. Para ela, a decisão de participar ou não desse jogo com as empresas perpassa questões editoriais e éticas, é de suma importância e precisa ser informada aos leitores.

“Em 22 anos de profissão, sempre condenei o jabá — modo de comprar a opinião da crítica”, definiu Luís Antônio Giron ao defender-se no caso do mensalinho da Maria Rita, 15 anos atrás. Segundo, o álbum da cantora que recheava o malfadado iPod, foi um sucesso de crítica, mas isso não importava tanto naquele momento em que a própria crítica era a notícia, e nem que Giron tivesse devolvido o aparelho da Apple a quem o enviara.

Fico pensando no que Giron, que recentemente passou pelo triste constrangimento de ser demitido via WhatsApp, diria do estado atual da cobertura de tecnologia de consumo na imprensa brasileira. E penso também, há muito tempo, no que será do futuro dessa área de cobertura do jornalismo, cada vez mais espremida e na mão das grandes empresas. Embora o poder das empresas seja quase irresistível, a imprensa tem lá sua parcela de culpa na situação atual. A perspectiva de virarmos todos assessores precarizados e amedrontados delas, pagos com bugigangas caras em vez de dinheiro, é, para dizer o mínimo, preocupante.

Como é lá fora?

Homem branco, loiro e de barba, com a mão direita nos óculos escuros, em seu rosto.
Casey Newton. Foto: @crumbler/Instagram.

Seria ingenuidade ou vira-latismo acreditar que esse tipo de coisa acontece só no Brasil, mas para ter certeza conversei com três jornalistas norte-americanos, que trabalham ou já trabalharam em alguns dos maiores sites de tecnologia dos Estados Unidos, para entender a realidade de lá.

Dois pediram para permanecerem anônimos; o terceiro é Casey Newton, que até mês passado era o editor no Vale do Silício do The Verge e, agora, edita uma newsletter própria, a Platformer.

“Nós devolvemos os produtos depois do período de testes e não aceitamos presentes”, diz Casey, referindo-se à sua nova publicação e ao The Verge, um dos maiores sites de tecnologia do mundo. Ambos têm “políticas éticas” que preveem casos como os expostos acima. Na do The Verge, por exemplo, a primeira diretriz é: “Não aceitamos objetos de valor de empresas ou das agências de relações públicas, ponto final”.

Outro editor diz que não é padrão que jornalistas aceitem produtos de marcas como presentes, e que as publicações costumam devolver os produtos emprestados após o período de testes. Algumas mantêm certos produtos por mais tempo a fim de fazerem avaliações de longo prazo — “às vezes vale a pena ver se um produto não ‘morre’ depois de apenas alguns meses”. No caso dos presentes, diz que “é universalmente mal visto”, e que se viesse a público que um jornalista solicitou ou recebeu doações de empresas, “sua credibilidade seria danificada de modo irreparável”.

O terceiro editor diz que “a grande maioria dos produtos de testes é devolvida imediatamente após a publicação do review” e cita, também, a exceção aos empréstimos de longo prazo para análises estendidas, fazendo a ressalva de que “muitas empresas não pedem seus produtos de volta”, o que o deixa desconfortável, e que nesses casos os produtos são usados estritamente para testes, ou seja, não viram o celular ou computador pessoal de quem estiver responsável pela análise. Quanto aos presentes, “nunca aceitamos dispositivos como presentes. Independentemente da empresa querer ele de volta ou não, todo produto é devolvido”.

Esse editor comenta que, ao longo dos anos, os blogs se profissionalizaram, inclusive em questões éticas, e ou trouxeram mais jornalistas de formação, ou investiram em treinamento para os blogueiros. Tudo isso os aproximou dos padrões da imprensa tradicional. O mesmo estaria acontecendo no YouTube, que ele define como sendo um “Velho Oeste”, mas que gradualmente está se profissionalizando. Nesse processo, resistir ao assédio das empresas é um dos grandes desafios: “O fato de que muitas não pedem os dispositivos de volta sugerem que elas esperam que os jornalistas fiquem com eles”.

No caso de festas e press trips, “é uma área cinzenta”, comenta o primeiro editor anônimo. “Acho que elas são encaradas como ferramentas de manipulação [das empresas] e qualquer um que reporte algo que soube nelas de uma maneira positiva ou acrítica é tratado com ceticismo”. Por outro lado, às vezes essa é a única maneira de se obter informações do que a empresa está fazendo. “Publicações e jornalistas extremamente corretos tentam pagar suas próprias despesas nessas viagens e eventos, mas não é algo sempre praticável”.

Casey concorda. “Acho que [as press trips] são ruins”. Ele acredita que as publicações deveriam arcar com os custos, ou “a cobertura fica manchada pela percepção de que a imprensa está dando mídia positiva em troca de viagens gratuitas”.

O outro editor anônimo diz que, nos sites onde trabalhou, a política era de nunca aceitar press trips, ou se sim, a própria publicação bancar as despesas com passagens e hospedagem. Ele reconhece, porém, que isso tem mudado nos últimos anos.

“A economia de tocar um site ficou muito mais difícil. Em algumas indústrias, como a automotiva e a fotográfica, os eventos de lançamento podem acontecer em qualquer lugar do mundo”. Para ele, não  há resposta certa ou errada padrão, mas sim uma análise caso a caso. “Ficamos presos nessa situação em que eventos acontecem, sei lá, no Havaí ou em Dubai, e as nossas opções são não cobri-lo e deixar que nossos concorrentes menos éticos vençam uma, ou aceitar a viagem [paga] e ir até esses locais. Sinto que as viagens do tipo estão mais comuns, talvez como uma maneira de atrair youtubers e influenciadores que falem do seu produto. Para nós, que só queremos fazer nosso trabalho, tudo isso dificulta muito”.

É unânime, também, a opinião de que as empresas de tecnologia exercem um poder exagerado sobre a imprensa. “As agências de relações públicas são muito boas em distorcer percepções — é o trabalho delas!”, diz Casey. “Por isso, é sempre bom manter uma distância profissional saudável. Não precisa ser hostil, mas você com certeza deve rejeitar presentes ou dinheiro delas para viajar”.

O segundo editor anônimo diz que “as assessorias de grandes empresas têm muito poder sobre os jornalistas”. A pressão também rola lá, e as personagens são as mesmas daqui: “Existem talvez duas ou três publicações de tecnologia de consumo nos Estados Unidos que têm audiências grandes o bastante que lhes permitam tomar o risco de ser muito negativo em relação à Apple, por exemplo”. Ele lembra que, nas publicações onde trabalhou, algumas com audiência na casa das dezenas de milhões de leitores, rolou de “Apple e Amazon não nos convidarem para um evento ou não nos incluir em um review embargado [com NDA] depois de uma cobertura negativa ou de um desentendimento relacionado à nossa cobertura”.

O outro editor complementa: “No geral, as empresas de tecnologia têm muito dinheiro para manipular a imprensa desta maneira, e isso influencia algumas pessoas menos escrupulosas, mas, pelo menos dentro do setor, fica óbvio o quanto elas estão comprometidas. Acredito que seja menos óbvio para os leitores”.

O teor desta reportagem que você leu — quem recebeu presente de quem, quais foram os primeiros veículos a receberem unidades de testes, quem pega celular e não devolve e/ou vende, quais marcas estão levando a imprensa para eventos no exterior — é assunto obrigatório em qualquer reunião de jornalistas/blogueiros de tecnologia desde sempre. Até onde sei, esta reportagem é a primeira vez que o assunto é trazido a público.

“Esta é uma das razões pelas quais as publicações da Gawker Media eram boas”, diz, nostálgico, o editor anônimo norte-americano. A Gawker Media foi dizimada por um processo movido pelo ex-lutador de vale-tudo Terry Gene Bollea, vulgo Hulk Hogan, e financiado por Peter Thiel, co-fundador da Palantir, investidor e conselheiro do Facebook e sugador de sangue de gente jovem (um cara legal, percebe-se), depois que o blog Gawker publicou uma sex-tape vazada de Bollea. O espólio da empresa passou para outros donos e, hoje, suas publicações apenas lembram vagamente a ousadia e a ferocidade com que reportavam nos tempos áureos.

“A Gawker frequentemente chamava a atenção de gente da imprensa por se envolverem em práticas do tipo. Eu queria que houvesse mais desse tipo de jornalismo!” Eu também!

O que as empresas dizem

O Manual do Usuário entrou em contato com as assessorias de Amazon, Apple, Asus, Huawei, LG, Nvidia e Samsung, com perguntas e um pedido de posicionamento a respeito das práticas denunciadas acima. Até a publicação desta reportagem, Nvidia, Huawei e Samsung responderam “on the record”. O texto será atualizado caso novas respostas cheguem.

Eu não sou santo e, estando há mais de uma década nesta indústria vital, também tenho meus pecados. Além do fatídico cruzeiro com tudo pago da Asus, já viajei várias vezes a São Paulo e a Curitiba (antes de morar aqui) a convite de outras empresas, algumas delas pelo Manual. Por outros veículos, na condição de repórter (só seguia ordens) ou de editor (tomava decisões), fui a quatro press trips internacionais pagas por empresas. Orgulho-me do trabalho que fiz nelas e guardo boas lembranças dos países que visitei e das pessoas que me levaram/acompanharam.

Quanto aos mimos, em regra fico somente com aqueles de pequeno valor, do tipo que a logística de devolução sairia mais cara que os próprios produtos — bloquinhos, bolsas, garrafas, livros. Alguns um pouco mais caros, até ~R$ 300, recebo para sortear entre os leitores/apoiadores do site (como este Chromecast). Desses, o único que recebi e uso pessoalmente é uma bateria externa da Samsung, que ganhei em um evento em 2017, na época vendida no varejo por ~R$ 120.

Dos celulares, já fiquei com dois da Asus, que foram sorteados entre os leitores do Manual do Usuário (aqui e aqui), e com um da Quantum, quando estava em transição para a Gazeta do Povo. Ficou na gaveta por alguns meses e, no fim, doei a uma parente que estava precisando. Os três casos ocorreram entre 2015 e início de 2017.

No geral, a política do Manual (e a minha, pessoalmente) é de rejeitar tanto quanto possível qualquer tipo de ajuda financeira e presentes de empresas.

Foto do topo: Kārlis Dambrāns/Flickr.

  1. Em valores corrigidos, cerca de R$ 1,5 mil.
  2. Comprovei esta teoria, sem querer, na minha primeira press trip. Em 2012, fui e voltei do Equador literalmente sem dinheiro. Não sabia que tinha que fazer o “aviso de viagem” à operadora do cartão de crédito. Deu tudo certo e só fiquei devendo umas cervejas a colegas latino-americanos, que gentilmente me cobriram numa saída fora da agenda oficial no último dia.
  3. Até meados de 2016.

Edição 20#39

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

25 comentários

  1. Excelente e interessante matéria , seria interessante e ético se os grandes canais de YT que com certeza recebem gadgets grátis anunciassem este fato antes de um review ou hands on , inspiraria confiança nos reviews .Particularmente fujo de qualquer review dos grandes canais , são normalmente tendenciosos .

  2. Ótimo texto Ghedin! Já venho um pouco cansado de certos “reviews” que vemos no youtube. Tudo muito repetitivo e padronizado. Meio que tenho meus sites/youtubers de “confiança”, que normalmente deixam as coisas mais claras. No caso do Youtube, tenho optado principalmente por reviews de gringos, por sentir que eles são menos caça cliques que a grande maioria dos brasileiros.

  3. Excelente matéria, daquelas que chega dão orgulho de acompanhar a publicação. Acho que é um problema que não deixará de existir, o máximo que podemos esperar dos veículos que acompanhamos para remediar a situação é a maior transparência possível, como foi o caso aqui.

    Apenas para complementar, ainda tem o caso de que os produtos enviados aos jornalistas/influenciadores costumam ser escolhidos a dedo para garantir que eles desempenharão o melhor possível (talvez melhor até que o padrão vendido e vai ver por isso eles dizem que a performance pode variar em relação ao produto final). Não acho que faça lá muita diferença no mercado de telefones, mas no de componentes de computador faz e não sou eu falando, aprendi com Steve do Gamers Nexus (um dos melhores testadores que acompanho).

  4. Muito legal a matéria e interessante notar que isso acontece em praticamente todos os mercados (fitness, moda, maquiagem, esportes, games, etc).

    Já ouvi minha esposa reclamando de um produto que comprou por indicação de uma “influencer”. Eu mesmo já segui uma indicação de um “especialista” em corrida de rua e no fim o tênis em questão era bem longe do que ele dizia no review.

    Depois de experiências como essas, aqui em casa já diminuímos muito o consumo desse tipo de review e buscamos outras maneiras de entender sobre um produto.

    Penso se, no longo prazo, esse modelo se sustenta por conta da parcialidade que fica evidente.

  5. Muito bom o texto. A pandemia já tinha começado a mexer nisso comigo, mas seu texto foi definitivo. Eu mesmo ia a muitos eventos de TI (trabalho na área) mais pelo boca-livre e pelos brindes do que pelos produtos em si. Foram muitos almoços e jantares em restaurantes chiques. Claro, nada como ganhar alguns milhares de reais em produtos, mas a sistemática não deixa de ser a mesma.Agora já repenso minha participação em qualquer evento cujo o tema apresentado não seja a parte mais importante. Continue o grande trabalho do MdU.

  6. Um baita dossiê essa matéria. Parabéns ao Ghedin pela gama de detalhes e aspectos abrangidos, nada mais que o padrão habitual do MdU. Me chamou a atenção em especial essa resposta da Samsung:

    “A Samsung segue rígidos padrões de compliance em conformidade com a legislação dos países em que opera. Todas as ações da companhia são regidas por esse conjunto de diretrizes. A empresa reforça seu compromisso com a transparência em todas as esferas em que atua”

    Tendo trabalhado numa determinada empresa que estava diariamente sob o escrutínio do público, e que se defendia muito mal, vi diversas vezes esse estilo de redação para cumprir a mesma função que a Samsung objetivou: responder algo sem realmente responder. É revolvante.

    Me chamou a atenção negativamente também o nível de invasão das diretivas determinadas pela Asus ao ceder aparelhos para review (é review SIM). A função de matérias como essa é colocar empresas que se acham donas da própria reputação em perspectiva. Quanto ao que ocorre internamente, pode até ser. Mas da feita que vai pra loja, você está a mercê dos clientes e da forma que os trata, seja no momento da venda, seja na forma que controla a divulgação e análise dos seus produtos. Lamentável.

    Parabéns de novo, porque não deve ter sido fácil! E acho que nem será mais tranquilo, a partir de agora. Hehehehe

  7. Ótima matéria, tocando em um ponto delicado de qualquer um que se propõe a transmitir quaisquer informações: credibilidade. Tão difícil de se conquistar e tão fácil de se perder. Ter esse vislumbre do que ocorre internamente é importante para que nós, usuários, não compremos pelo valor de face toda e qualquer opinião. Talvez fosse interessante abordar um outro segmento, de forma complementar, que são os vídeos monetizados do YouTube de recebidos, que vão de maquiagem a brinquedos (tenho duas filhas que por opção nossa – pai e mãe – não tem acesso ao YouTube, nem a versão kids) muitas vezes ferindo leis e indo de encontro com as políticas do CONAR.

  8. Engraçado, eu não cobraria tanta ética de youtubers, influenciadores e até blogueiros, mas fiquei extremamente incomodada com a participação de jornalistas nessa sujeira. Reportagem boa para colocar cada profissional no seu devido lugar, nem que seja só na minha cabeça.

    1. Influenciadores realmente estão em outra esfera; não pensei neles (nem entrevistei nenhum) nesta reportagem. E, embora youtubers se confundam muito com influenciadores, existem alguns poucos que escapam e tentam fazer um trabalho sério.

      Gostei muito do que uma das fontes norte-americanas disse, de que esses novos perfis profissionais, quando entram e se estabelecem, aos poucos vão se profissionalizando e, nesse processo, subindo o nível. Começou com blogueiros, hoje está acontecendo com os youtubers. E, ainda que sejam poucos os que fazem essa transição, acredito que ela possa funcionar. Tenho o dever de acreditar nisso porque, não que me ache um super profissional, mas porque eu mesmo trilhei esse caminho — perdido de tudo com um blog amador nos anos 2000, escrevendo nas horas vagas só porque “achava legal”.

  9. Rodrigo, passei um bom tempo digerindo o texto. Aliás, parabéns pela cobertura. É denso, mas super completo. Como jornalista de formação e RP de atuação, trago alguns pontos, dos dois lados da moeda:

    Quando repórter, na época bem jovem, não nego: viajei pra fora, fui a musicais, shows, cinema, ganhei press kits incríveis e me esbaldei no jabá. Mas em compensação, só fiz reportagens do que eu realmente achei que era bom ou que valia pro público do veículo para o qual eu escrevia – salvo exceções de quando eram coberturas, e como você mesmo disse, era do(a) editor(a) para baixo. Mesmo assim, fiz o possível para construir minhas agendas e sem vergonha nenhuma, digo que as desculpas mais esfarrapadas rolavam para fugir: “preciso comprar uma mala”, “preciso terminar as matérias do quarto” ou “marquei um passeio na cidade com um(a) amigo(a)”. Há caminhos de fugir da pressão. Dos jantares, passeios e as agendas com mil executivos. Se o veículo é cortado por não cumprir a agenda, que pena pra companhia, um clipping a menos e uma chance de visibilidade. Uma coisa é não acompanhar a agenda de entrevistas e do lançamento. A outra é de jantares e passeios mirabolantes que ninguém é obrigado(a).

    Do lado de RP, vivenciei por anos o mundo dos reviews e por sorte, posso dizer com orgulho que trabalhei com empresas éticas, no qual eu pessoalmente estava envolvida em programas de reviews e seedings. Fazia questão de manter planilhas de empréstimo e de controle e cobrar devoluções. Em alguns casos sim, havia não só as oportunidades de doação PÓS REVIEW, mas em muitos, até mesmo os influenciadores e veículos menores se ofereciam para fazer o review em troca do aparelho, como permuta. Falta dar esse detalhe.

    Ao meu ver, o review espontâneo é SEMPRE mais vantajoso, pois permite que mais veículos falem sobre no esquema de rodízio e você seja democrático (sem contar que o estoque dura mais pra marca). Mas existem sim preferências mais estratégicas de quem vai fazer primeiro ou dar uma análise com embargo e, faz parte do jogo. É assim em relações públicas, no mercado financeiro, ou qualquer outra área. Preferências por afinidade editorial, por audiência do veículo ou puramente, números. O que você está certíssimo e não deveria acontecer é empresas colocarem veículos ou jornalistas / influenciadores na geladeira ou ainda, não permitirem comparações ou menções negativas. Isso, ainda bem, tive a sorte de nunca experienciar e sempre que um cliente pensou em fazer isso, ouviu os conselhos do meu time antes de fazer besteira.

    Outro ponto muito importante: muitos assessores são obrigados a seguir práticas que não concordam. Como por exemplo, limar nomes e fazer a tal pressão psicológica. Acho que não precisamos mencionar nomes, mas a pressão vem em cascada. Do time global para o local. Do chefe local para a interface e da interface pro atendimento na agência. Já ouvi relatos de colegas que discutiram com clientes dizendo que não concordavam com o pedido e no dia seguinte, a empresa pediu que a agência tirasse a pessoa da conta. Por que digo isso? Porque em um trecho você fala que os profissionais de RP fazem pressão e veja bem, muitas vezes, somos apenas uma engrenagem do processo.

    Ao meu ver, se hoje, eu sugiro para meu cliente enviar um press kit ou um produto para testar ou receber como presente, não é porque quero que ele se sinta obrigado a escrever. Mas porque vejo que é um local potencial para se conectar com a audiência do produto / serviço e que pode, provavelmente, fazer uma análise que vai contribuir na jornada de compra. Com o mundo pós COVID inclusive, os reviews têm papel essencial, já que muitas pessoas vão repensar a ida ao físico pra testar algo. Além disso, vale adicionar que com o LGPD, o bom profissional de RP vai ligar e ver se a pessoa aceita receber antes, principalmente em casa. Tem quem não aceite. E precisa respeitar, dado que endereço, é dado sensível.

    De qualquer forma, vejo que seu texto é necessário e em tempos que as empresas estão acabando com o dpto. de RP e virando a terra de ninguém (aka Tesla), cabe a nós, todos envolvidos no mercado, a começar a repensar em o que deve ser mudado, mantido, ou apenas, debatido. Gostaria muito ainda que viesse a tona outras práticas e para outros mercados: automotivo, luxo, turismo… Tem tanta área e tanta prática que precisa ser abolida ou transformada, que acho que é só a ponta do iceberg.

    1. Oi Stephanie! Fiquei contente com seu comentário aqui, e um bem completo. Obrigado!

      Decidi focar a reportagem na atuação das empresas porque elas têm muito poder e os maiores interesses. Acho, porém, que a imprensa e relacionados (blogueiros, youtubers) também têm sua parcela de culpa; em casos extremos, a maior parcela, até. Na raiz disso tudo, está a opacidade dessas relações. Se as empresas estivessem realmente preocupadas, elas poderiam fazer mais. (Isso dentro das que agem de maneira minimamente correta, não as que enviam celulares ou TVs de milhares de reais de presente.)

      Quanto à crítica aos profissionais de RP, são, de fato, engrenagens, mas engrenagens das empresas. Concordo que os assessores que lidam na ponta com a imprensa estão longe de serem o grande problema. É a sina de todo funcionário (já estive nesse papel, sei como pode ser frustrante). Espero que você e os colegas de RP não levem para o lado pessoal.

      Há muitas maneiras de trabalhar produtos de um jeito ético e transparente, mas ninguém faz assim. O jornalismo de tecnologia foi escanteado nos últimos anos, perdeu espaço na imprensa tradicional, e isso gerou buracos que foram sendo ocupados por profissionais mais ingênuos ou corruptíveis. As empresas claramente se aproveitam disso. Se nem nos Estados Unidos, onde a coisa parece um pouco melhor, as empresas dão trégua, aqui, então…

      Meu objetivo, com o texto, é justamente esse: suscitar o debate para que a gente rediscuta práticas e hábitos a fim de melhorarmos. E torço para que ele seja só a ponta do iceberg. Como disse a colega norte-americana (e você!), precisamos de mais “meta jornalismo”.

  10. que leitura boa! geralmente enjoo de leituras longas (exceto livros), mas essa me prendeu demais. parabéns MdU!

  11. Acho que nunca virei um jornalista de tecnologia ou segui a fundo nestas coisas porque primeiro sou muito boca aberta e segundo ao mesmo tempo acho que meus dilemas éticos (e minha vivência) acabaria aceitando os mimos.

    Acho que já devo ter contado esta história alguma vez, mas talvez valha repeteco aqui.

    Quanto começou o Twitter (e o Gizmodo Brasil – eu estava bem ativo nos comentários lá na época), a Phillps convidou algumas @ para conhecer a nova linha de TV deles (via frase “ei, você tá afim? se inscreva via DM). Acabei indo, junto com um membro do Gizmodo BR na época. Só que sinceramente não sabia depois como contribuir depois da visita! (acabei ficando até o final do filme que tava passando como demonstração!). Acho que foi a única vez na vida que agi como “influencer”.

    Ah, e se tu que tá lendo este comentário é ou foi da Phillps BR em SP, agradeço novamente por permitir minha visita e peço desculpas por ter enrolado no estacionamento para consertar a placa da minha moto, que tinha caído…

    1. Adendo:

      Não é por mal, e se eu estiver errado, não precisa me puxar a orelha por e-mail.

      Mas tem horas que acho que este texto aqui dá para ir além. Pois vejo jornalista “dando carteirada” ou virando RP apesar de se dizer jornalista. E não falo de tech, mas sim em um todo.

      Uma historinha: na cidade onde resido, ajudei um jornal local a lidar com o site deles. Isso ainda na época do HTML e usando Front Page, acho que eu tinha uns 16-18 anos. O jornal local era “oposição” e “esquerda”, e, posso estar falando besteira por não conhecer muito a fundo, mas ao menos ele soava isento até certo ponto. O jornal foi vendido uns 10-15 anos depois para um aliado da oposição local. Tal aliado tinha seus problemas, e com isso o jornal da cidade que era oposição virou um puxa-saco claro do novo dono (era possível ver sempre a cara do novo dono nas primeiras páginas).

      Por outro lado, existe outro jornal na cidade, mais tradicional, que sempre foi “independente”, mas no fundo sempre tinha as verbas publicitárias das lideranças da cidade (tais lideranças formadas pelas famílias de longa data residentes na mesma, e/ou de empresários com força econômica gigante [e as vezes política] na cidade de 300 mil habitantes). O jornal era gratuito até meados de 2005, quando resolveu começar a cobrar R$ 1,00 a edição. Apesar de se dizer “isento” e “independente”, soltava as matérias conforme sentia-se seguro em publicar, e atacava mais políticos na qual a liderança que investia em publicidade não gostava.

      E os exemplos que cito são de jornais locais. Até uns 10 anos atrás, eles tinha força de divulgação, mas obviamente a população já sabia como funcionava o financiamento dos mesmos – via políticos e lideranças locais.

      Amplifique isso para a “grande imprensa”, a que hoje detém parte da atenção seja pelas mídias de grande audiência, seja pela TV Aberta.

      Posso estar falando besteira, mas esta história sobre influência do jornalismo vai muito longe, e a questão sobre os mimos de jornalismo de tech é o recorte de um todo que a galera não vê no fundo, ou ao menos desconfia do que pode ocorrer.

      Não a toa muito da reclamação da “crise do jornalismo” – galera não confia mais no jornalismo não só por causa dos ataques sofridos, mas também porque o próprio jornalismo não expurgou seus males.

      Eu poderia falar de jornalistas que foram parar na política – e bem, cansamos de ver ultimamente jornalistas lidando com política e mostrando parte de seu caráter.

      Enfim, desculpe qualquer besteira falada.

      1. Sempre existiram interesses na atuação da imprensa. O fato de muitas emissoras, rádios e jornais serem propriedades de políticos não é coincidência. Mas aí você expande muito o assunto, hahaha.. fiz apenas um pequeno recorte de algo urgente, mas que não estava sendo discutido, dentro da área de cobertura do Manual.

      2. Dois exemplos claros disso são o jornalismo da Folha de São Paulo e do Estado de São Paulo (Estadão).

        Só se lembrar da coluna da Vera Magalhães sobre o segundo turno de 2018 quando ela disse que era “Uma escolha difícil” entre Bolsonaro e Haddad. Por mais que você não goste do PT, da esquerda ou do Haddad, não era uma escolha dificil.

        Agora o Boulos não declarou o saldo de uma conta corrente no valor de R$579. A manchete da Folha foi “Confrontado, Boulos corrige patrimônio após omitir conta bancária em declaração de bens”, note que eram R$579.

        Por outro lado, o Felipe Sabará (que era do NOVO), não declarou o patrimônio total dele na campanha e teve que corrigir também. Nesse caso a manchete da Folha foi “Felipe Sabará, do NOVO, retifica declaração de bens e passa de R$15 mil para R$5 milhões”.

        A imprensa no Brasil reclama mas é, via de regra, terrível.

        1. Só uma retificação, Paulo: o famigerado “Uma escolha muito difícil” do Estadão foi um editorial, não uma coluna da Vera Magalhães. Tivesse sido uma coluna, tranquilo, é da cabeça do colunista e isso não representa necessariamente o posicionamento do veículo. Mas editorial é dureza, porque é a instituição jornal emitindo opinião. E quando emite uma opinião bosta como aquela, ou como quando a Gazeta do Povo defende a homofobia abertamente em um editorial seu, queima muito o nome do jornal.

          1. Acho que o Paulo e muitos outros botam nas costas da Vera o fato do editorial pois foi opção dela se manter no Estadão após tais palavras proferidas pelo editorial. Noto que existe muito esta cobrança de posição de quem é de ideário socialista em relação a quem trabalha em jornais.

            Sempre me lembrando da frase do Felitti para mim no twitter: “Já ouviu falar em boleto?”

          2. @ Ligeiro

            Não que seja o caso da Vera (que, a julgar pelo que escreve, não é “socialista” e dá toda a pinta de que, no segundo turno, estava alinhada à posição do Estadão), mas se todo mundo que discorda do empregador se demitisse, ninguém mais trabalharia.

          3. Não a toa fui parar na terapia depois de pedir duas demissões, @Ghedin

          4. @Ghedin
            Pior ainda. Eu não me lembrava se era uma coluna ou editorial.

            @Ligeiro
            A Vera tá bem longe de sequer ser de esquerda. Ela é abertamente liberal. Não “alt-right” como a JP ou o SBT, mas abertamente liberal. Assim como o Marcelo Tas. Já viu algum Roda Viva com ela de âncora? Ou mesmo os tweets em que ela chama do Boulos de bandido e diz que nunca irá chamá-lo para o Roda Viva?

            Se fosse o caso de pagar boletos, a vida é assim. Mas ela é completamente alinhada à linha editorial do Estado e agora da TVE do Dória.

            Aliás, Marcelo Tas no lugar do Antônio Abujamra no Provocações da TVE é um soco no estomago da civilização.

        2. Qdo colocaram o Tas no Provocações (q virou outra coisa com o mesmo nome do programa do Abu eu não entendi e depois qdo vi fiquei com nojo). Não sei se é ingenuidade minha, mas ele não era assim… Pó menos não na época do programa Vitrine (tb na TV Cultura) , q assistia na juventude e gostava.
          Ele como comentarista do Jornal da Cultura tb me deixava muito irritado. Mas aquele birra dele com o TIB (com o lance da vaza_jato) pra mim foi a gota d’água.

          A Vera, por outro lado, poderia ocupar um espaço na imprensa q se abriu depois de muitos jornalistas homens escolheram o lado nazista da história para se alinhar… Mas ela preferiu uma posição fraca e acabrunhada mesmo tendo o Roda Viva nas mãos. Curiosamente a entrevista do Moro sem ninguém do time do TIB (de novo a vaza jato) marcou a carreira dela pra sempre.

          1. Tenho a suspeita que depois do CQC, o Tas meio que ligou o phoda-shi e resolveu virar um cínico total – vale fazer dinheiro e fama, e mais nada. Para quem viveu a época dos anos 80 e 90 como uma referência em arte e visual voltada a educação e entretenimento, a guinada foi um choque para muitos. O professor Tibúrcio poderia ter sido eterno…

            Ou talvez ele sempre soube que para ter relevância, tem que saber como jogar.

            @Pilotti, o problema da Vera é que aparentemente ela não é tão bem alinhada ao Estadão quanto parece. Se fosse, acho que nem estaria no Roda Viva.

          2. Eu acho que era ingenuidade nossa na época que ele fazia aqueles programas na Cultura. Se bem que o Ernesto Varela era bom.

            @Ligeiro

            Quem disse que a Vera era alinhada à ideologia do Estadão foi o Ghedin, não eu.

            Aliás, mais duas ótimas demonstrações de como a FSP não parece mais respeito saíram hoje:
            1) https://imgur.com/JLzDxdX
            2) https://imgur.com/9889reC

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!