Horizonte em alto-mar.

Smartphones e o futuro do jornalismo de tecnologia em alto-mar


28/3/17 às 9h30

Em alto-mar, a bordo do MSC Preziosa, a Asus reuniu imprensa e influenciadores digitais por um fim de semana para anunciar e promover seus produtos do primeiro semestre para o mercado brasileiro. Foram três smartphones, um em cada dia do cruzeiro. E foi um evento bastante… peculiar. Mais do que os promissores celulares, o que realmente chamou a atenção foram as circunstâncias. O que é o Asus Onboard? O que fomos fazer lá, afinal?

Esta foi a terceira edição do Onboard. Em 2015, a Asus apresentou alguns notebooks ainda não disponíveis no Brasil. Ano passado, foi a vez do Zenfone Zoom, smartphone com zoom óptico e status (e preço) de topo de linha, mas que desapontou no uso. Para 2017, a Asus apresentou uma atualização desse, o Zenfone 3 Zoom; um novo aparelho de entrada, o Zenfone Live; e o Zenfone AR, que junta em um dispositivo as capacidades de realidade aumentada e virtual através dos programas Tango e Daydream, do Google.

Um cruzeiro muito louco

A caminho do porto de Santos, Marcel Campos, gerente de marketing da Asus para a América Latina e mentor do Onboard, calhou de estar no mesmo ônibus (foram três para comportar todos os convidados) que eu e a Emily pegamos. Entre avisos e lembretes do navio, ele fez uma brincadeira de perguntas e respostas valendo alguns Zenfone 3 Zoom, produto que seria anunciado algumas horas mais tarde. Uma delas foi a seguinte: “qual o objetivo principal do Asus Onboard?” A resposta certa era interagir, fazer amizades. (Depois dessa, todo mundo ganhou smartphone; o jogo era só fachada.)

Por essa e várias outras, é difícil classificar o Onboard como um evento para a imprensa. Em vários sentidos, ele extrapola o que nos importa. As informações em primeira mão, as apresentações e as conversas com executivos e engenheiros ocuparam um espaço reduzido da agenda. Tudo isso poderia ter sido condensado em uma tarde no escritório ou em algum local de eventos em São Paulo mesmo, em vez de três dias em um cruzeiro, sem muito prejuízo fora perdermos algumas belas paisagens litorâneas e mimos dentro do navio.

Além disso, de jornalistas e produtores de conteúdo de tecnologia (grande parte deles, com canais de reviews no YouTube), éramos poucos. Entre quase 150 convidados, boa parte era dos ditos influenciadores digitais: instagrammers e youtubers que dançam, fazem graça, contam piadas ou falam de suas vidas e que têm o smartphone e a tecnologia como auxiliares, não objetos de interesse. Eles não têm qualquer compromisso em levar informação a interessados, em apurar, em questionar. Eles estão ali para fazer acontecer, para alavancar a marca Asus, conseguir curtidas, gerar “awareness”, tornar conhecido o produto Zenfone 3 Zoom e a hashtag promocional.

É uma atividade completamente diferente da que se espera de jornalistas. É marketing, na real. Alguns influenciadores foram pagos para estarem ali; nós, tirando o gasto com as despesas (que é de praxe e ok; seria estranho ter que pagar para conseguir notícia), não. Colocar todos no (literalmente) mesmo barco gerou alguns desconfortos e vários momentos em que nos entreolhávamos, jornalistas, sem saber muito bem o que estava acontecendo.

O evento em si ajuda a confundir porque ele é várias coisas simultaneamente: apresentação à imprensa, sim, mas ao mesmo tempo é também ação de marketing e confraternização de amigos e parceiros. E mesmo alguns colegas que cobrem tecnologia, empolgados com os atrativos do cruzeiro e as diversas atividades lúdicas da Asus, contribuem para turvar a linha que separa o jornalismo do marketing ou do entretenimento ao seu deixarem levar por tais chamarizes.

Estratégia que funciona, mas não para jornalistas

Esta edição do Onboard foi uma aposta ainda maior na estratégia de espalhar a palavra da Asus através de mídias sociais, algo iniciado na campanha de lançamento do Zenfone 2 há quase dois anos. Questionado sobre o assunto na sessão de perguntas e respostas, Marcel respondeu que prefere investir nesse tipo de divulgação do que comprar espaço na TV aberta, já que o investimento é equivalente. “Prefiro trazer vocês ao navio”, disse, seguido por uma ovação de boa parte dos presentes.

Para a Asus, é uma boa porque funciona. Em pouquíssimo tempo, a empresa saiu do zero em smartphones no Brasil para ter por objetivo brigar com Motorola e LG pela vice-liderança do mercado local. Aqui, “Asus” virou sinônimo de smartphones com bom desempenho e custo-benefício. Isso é grande, especialmente considerando a adoção de uma estratégia pouco ortodoxa e a concorrência repleta de nomes mais tradicionais e com orçamentos de marketing mais generosos.

Essa parte, de como a Asus atua no país, nos interessa, é notícia. Participar disso diretamente, não. Em alguns momentos, durante o cruzeiro, encarando o horizonte azul com azul do céu e mar na varanda da cabine, me peguei um pouco perplexo e bastante pensativo sobre o que estava acontecendo.

A atenção da Asus e da agência que a assessora com veículos pequenos, como é o caso do Manual do Usuário, é exemplar. Nossas dúvidas sempre são sanadas, a assessoria é prestativa, o Marcel é bastante acessível e muito honesto em suas falas e tudo isso nos ajuda a cobrir melhor a empresa e, consequentemente, a entregar um trabalho melhor a você, leitor.

Mas até que ponto estreitar ainda mais esse relacionamento é saudável? Quando que as dezenas de smartphones distribuídos a rodo sem pedido de retorno, que a comemoração de jornalistas em redes sociais ao serem convidado para eventos como esse, que as entrevistas repletas de camaradagem e sem questionamentos nem nada do tipo; quando exatamente que todas essas regalias e estranhezas passam a prejudicar o compromisso da imprensa com quem realmente importa, com o leitor?

Tivemos gincanas de caça ao tesouro antes do início das apresentações: um punhado de jornalistas, blogueiros e youtubers de tecnologia correndo atrás de um dinheirinho da Asus escondido entre as poltronas do anfiteatro. Mais tarde, as tradicionais perguntas da imprensa foram recompensadas por esse mesmo dinheirinho, como se fosse um quadro do programa do Silvio Santos. Dinheirinho esse que servia para comprar produtos da Asus — era um dinheirinho que valia dinheiro de verdade, pois. Talvez ali tenha sido a hora de parar por um momento e rever algumas coisas. Foi para mim.

Jornalistas em busca de dinheirinho da Asus.

Reitero: a Asus não está errada em sua estratégia. Prova disso é que ela está funcionando. Ao contrário de outras asiáticas, a Asus acertou aqui e continua numa crescente. O erro, acredito, está mais na imprensa, que se deslumbra e se deixa seduzir por tão pouco, e confunde facilidade de acesso com obrigação de falar bem.

Não é fácil. Com anunciantes minguando e modelos de negócio alternativos ainda não provados, resistir aos atrativos do marketing e das relações públicas das empresas se torna mais difícil. O próprio mercado editorial, no nível gerencial, tem feito concessões nas últimas décadas para continuar com o nariz fora d’água. Mas, mesmo assim, talvez um pouco de decoro nos faça bem. Ou isso, ou viraremos todos influenciadores digitais pautados pelo marketing, que pisam em ovos para não desagradar a empresa/anunciante e são incapazes de distinguir o que é ação promocional de notícia.

E aí, mesmo com o instagrammer bonitinho postando foto de iPhone enquanto é pago para subir hashtag do smartphone da Asus (e levando puxão de orelha em público por isso), nós não temos a mínima chance. Afinal, você conhece algum jornalista ~digital influencer? Nem eu.

Rodrigo Ghedin ficou três dias em alto-mar sem se molhar (fora no chuveiro da cabine) a convite da Asus.

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