O criador solitário de apps para Android que desafia Google e Samsung

Montagem com vários prints de apps do Simple Mobile Tools.

Todos os sistemas operacionais contemporâneos trazem uma seleção básica de aplicativos pré-instalados: navegador web, agenda de contatos, agenda de compromissos, calculadora etc. Goste deles ou não, muita gente os usa apenas porque já estão ali, disponíveis assim que o aparelho é ligado pela primeira vez.

O poder do padrão é forte e as empresas por trás desses aplicativos mundanos, gigantes como Apple, Google e Samsung, têm recursos de sobra para torná-los minimamente usáveis. Apesar disso, tem quem desenvolva e lance aplicativos alternativos, com recursos extras ou ideias mais avançadas que os padrões. Entre eles está um insuspeito jovem programador da Eslováquia que só queria uma calculadora que não se conectasse à internet.

Tibor Kaputa tem 31 anos e é autodidata. Na adolescência, vivida no pequeno vilarejo de Jasov, onde moram pouco mais de três mil pessoas, ele aprendeu a programar para expandir o jogo que lhe ocupava boa parte do tempo, World of Warcraft. Nos anos seguintes, aprendeu também outras linguagens de programação, aventurou-se com desenvolvimento web e, quando os celulares despontaram no horizonte, em 2010, foi conquistado pelo Android — primeiro em um emulador, depois, em 2012, com um aparelho. Em 2016, Tibor lançou os primeiros apps da coleção Simple Mobile Tools (SMT).

Como tantos outros pequenos projetos, o de Tibor nasceu de uma necessidade pessoal. “Havia bons apps de galeria de fotos, de calendário e um gerenciador de arquivos, mas todos eles eram desenvolvidos por pessoas diferentes”, disse em entrevista por e-mail ao Manual do Usuário. “Eles tinham experiências de usuário distintas, e interfaces e modos de funcionamento diferentes. E, com frequência, mostravam anúncios, que detesto”.

Foto de rosto de um homem branco, cabelo curto e com camisa xadrez, em um fundo branco.Hoje, 22 apps compõem a coleção Simple Mobile Tools. Todos eles fazem jus ao nome — são básicos/simples, pois —, têm interfaces e modelos de interação consistentes, notas acima de 4 (de 0 a 5) na Play Store e uma curiosa característica comum: não se conectam à internet. Não é por acaso. Para Tibor (na foto à direita), em apps como os seus a conexão com a rede simplesmente não faz sentido a não ser para exibir anúncios ou piorar a experiência de uso: “Não sou um desses caras que evitam a conexão [do app] à internet a todo custo, só não entendo por que uma calculadora precisaria dela”.

O desenvolvedor eslovaco diz que às vezes sente falta de ter algum tipo de feedback automatizado, que só seria possível caso seus apps pedissem acesso à internet no celular dos usuários. Por outro lado, “esta é uma das coisas que realmente os diferencia dos demais apps”, gaba-se. E há alguns efeitos colaterais positivos, como simplificar a parte legal do negócio — políticas de privacidade, adequação a legislações locais e tudo mais. “Não armazeno nada de ninguém”, completa.

Apps simples para Android

Os apps da coleção Simple Mobile Tools não tentam reinventar a roda. Na realidade, eles miram em rodas elegantemente simples, que fazem o que têm que fazer e nada mais, da maneira mais convencional e previsível. Parece bobagem, mas há um público relevante interessado nisso. Até agosto, ou seja, em pouco mais de quatro anos, os apps de Tibor haviam acumulado mais de 20 milhões de downloads.

Ao bater o olho nas imagens dos apps, a sensação de que eles pertencem ao sistema onde rodam é inescapável. São apps feitos para Android e que, seguindo a filosofia da simplicidade, aderem e respeitam as convenções do sistema. Há espaço para debater se essas convenções são boas, mas isso foge do espaço de decisão de Tibor.

Entre os destaques, há um app de galeria de fotos (o mais popular de todos), gerenciador de arquivos, agenda de compromissos, agenda de contatos e um app de anotações. Todos, novamente, básicos. Um dos apps, chamado Simple Thank You, permite que os usuários façam doações financeiras.

Ícones dos oito primeiros apps de Tibor contra um fundo alaranjado.
Imagem: Simple Mobile Tools/Divulgação.

Todos os apps têm o código aberto. “Testemunhei o poder do código aberto no início da minha carreira como programador, e desde então me tornei fã”, diz Tibor. “Prefiro usar software de código aberto onde quer que ele faça sentido”. Essa opção tem um impacto direto em seu trabalho. No suporte e pedidos por novos recursos dos usuários, o modelo aberto ajuda: “Mantenho os pedidos e relatórios de falhas no GitHub, para que as pessoas possam consultar facilmente o que já foi reportado”. Algumas traduções foram feitas por voluntários, ainda que outras tenham sido pagas. “Há muita ajuda que chega de pessoas reportando falhas ou, eventualmente, corrigindo alguma coisa também. É disso que o código aberto se trata”.

Fora essas ajudas eventuais, Tibor trabalha sozinho em 22 aplicativos. Faz tudo: marketing, design, desenvolvimento e suporte aos usuários. Ele já tentou trabalhar com freelancers em atividades pontuais, como marketing, mas diz nunca funcionou muito bem. Agora, cogita contratar um ajudante que programe, mas não só: “Ele(a) terá que entender o conceito por trás dos apps, não necessariamente enchê-los com as últimas tecnologias”.

Nos dois primeiros anos do Simple Mobile Tools, Tibor tinha um emprego de período integral e trabalhava em seus apps para Android à noite e nos fins de semana. Isso mudou quando passou a cobrar pelos seis apps mais populares.

Vivendo dos apps

A ideia de cobrar pelos apps veio do clone de um de seus apps. Sendo eles de código aberto, qualquer pessoa pode baixar o código-fonte, modificá-lo, compilá-lo e distribui-lo com outro nome por aí. Alguém fez isso com o Simple File Manager (gerenciador de arquivos) e, na hora de publicá-lo na Play Store, colocou um preço nele.

“Quando vi que milhares de pessoas estavam dispostas a pagar por um app falso, disse a mim mesmo que deveria dar uma chance também [à cobrança pelos apps]”, conta Tibor. “Mesmo antes de ver o app falso, eu recebia muitos e-mails de pessoas dizendo que os apps são tão bons que gostariam de pagar. Aí eu meio que disse ‘Ok, então paguem’. E elas pagaram”.

Foi a grande virada. Tibor deixou seu emprego formal para se dedicar exclusivamente ao Simple Mobile Tools e hoje consegue se manter assim. Atualmente, seis dos apps são pagos; como o Google não deixa que um app gratuito passe a ser cobrado, ele publicou esses seis como se fossem novos, sinalizando-os com o sufixo “Pro”, e manteve os antigos, com menos recursos e recebendo apenas atualizações para corrigir falhas graves e melhorar as traduções.

A estrutura enxuta e o estilo de vida do desenvolvedor facilitam as coisas. “Não me vejo forçado a ter um faturamento X ou terei que demitir alguém”, exemplifica. “Minhas despesas são bem baixas, o que me dá margem para experimentar e falhar. Existe muita gente trabalhando em apps rivais, então eles são forçados a gerar receita. Eles estão sob pressão; eu, não. Isso com frequência os leva a tomarem decisões ruins, como excesso de anúncios, venda de dados dos usuários e coisas do tipo. Pode até dar um impulso no faturamento, mas não é uma estratégia que funciona no longo prazo”.

Tibor reconhece que essa é a realidade dos seus concorrentes menores, mas não a de Google e Samsung. Questionado se se sente pressionado por concorrer com duas gigantes do setor, ele diz que, pelo contrário, gosta dessa competição. O fato de as coisas estarem funcionando parece validar seu comentário.

Prints de divulgação dos apps de galeria de fotos, agenda de contatos e anotações.
Galeria de fotos, agenda de contatos e app de anotações. Imagens: Simple Mobile Tools/Divulgação.

A boa fama dos seus apps colocou Tibor em contato com a /e/ Foundation, iniciativa criada por Gaël Duval, que fez fama com o Mandrake Linux no final dos anos 1990. A /e/ tenta criar um sistema operacional móvel “deGoogled”, ou seja, livre de apps do Google. A parceria não vingou, porém. “Eles queriam que eu adicionasse muitos recursos extras de segurança em alguns apps, o que acho que não valeria a pena”, explica. “Não existe mercado para pessoas tão preocupadas com privacidade. Prefiro seguir à minha maneira, que é [oferecer] segurança o bastante e perfeitamente boa para 95% das pessoas”. Fora isso, algumas ROMs (versões alternativas do Android) incluem os apps do Simple Mobile Tools em suas instalações, mas nenhuma muito popular.

Não há novos apps planejados para o futuro próximo, embora Tibor não descarte criar um “Simple Keyboard” em algum momento, ou seja, um teclado simples para Android que não envie à internet todas as palavras digitadas, como a maioria faz. No momento, Tibor está reescrevendo o Simple Music Player. “Não gostava do jeito que ele funcionava, então isso está exigindo bastante trabalho”, diz. Em paralelo, ele planeja reformular alguns aspectos da interface de usuário, que é comum a todos os apps. “Não é nada catastrófico, mas o visual básico nunca foi atualizado desde o início. Quero adicionar um design ‘Material’ melhor, talvez algumas animações bacanas”.

Sob diversos aspectos, a trajetória de Tibor Kaputa é inspiradora. “Se você quiser construir um negócio”, aconselha, “precisa ter um bom relacionamento com seus usuários e dormir bem, não se estressar com trapaças para cima deles a troco de dinheiro”. Tibor cobra o mínimo que o Google permite em cada país pelos seus principais apps1 em um pagamento único (sem assinatura) e, duas vezes por ano, no Natal e no aniversário do Simple Mobile Tools (4 de junho), os oferece gratuitamente.

Com transparência e uma proposta valor clara, Tibor consegue oferecer uma alternativa válida à das gigantes bilionárias do setor. “Não tenho uma meta final que me deixaria satisfeito a ponto de abandonar o projeto. Quero continuar crescendo”, explica. “Eles [os apps] não têm anúncios e eu não coleto dados que poderiam ser vendidos. Ter apps pagos torna o meu negócio transparente; não há nada obscuro acontecendo aqui”.

  1. No Brasil, R$ 1,99.

Edição 20#41

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9 comentários

  1. Uso a um tempo, o Simple Gallery fez mais sucesso ainda quando o Quikpic foi vendido para a duvidosa Chitah Mobile ou alguma chinesa equivalente e todo mundo ficou de segunda com o Google Fotos que estava chegando.
    Comprei todos por gostar dessa filosofia eu já usei a rom /e/ e também Lineage Os com Micro G (que vcs poderiam falar também) e realmente ter a privacidade nos moldes dessas roms é um trabalho árduo que não vale a pena e nem terá a privacidade.

    E sim está na hora dele atualizar o design está ficando meio datado.
    Apesar que eu deixo as cores em preto “amoled” então nem me incomodo.
    O gerenciador de arquivos Simple File já me ajudou muito com downloads grandes compactados diferente do Solid Explorer que quase sempre falha.
    Boa matéria poderia ter trocado mais ideia

  2. Queria que a Alcatel visse isso. Há alguns anos atrás, eu era feliz com meu Alcatel Idol 3 até a maldita resolver por anúncios em seus apps nativos, até no launcher! Fiquei tão bravo na época… Até troquei de celular.

  3. Eu uso o app de galeria dele. O meu celular é Android One e veio apenas com o Google Photos para armazenamento de imagens. Instalei pq não queria todas imagens upadas pro GFotos.
    É um app bem completo, mesmo sendo uma versão grátis.

    E parabéns Ghedin por trazer mais uma excelente reportagem.

  4. Instalei a câmera dele estou bastante satisfeito até o momento. Sempre tive problemas com os aplicativos de câmera no Android porque eles são muito lentos em aparelho mais antigos/modestos. O meu Moto G7 sempre ficou lento pra abrir e tirar fotos com qualquer outro aplicativo da Play Store, esse foi o primeiro que eu consigo abrir e tirar uma foto em segundos.

  5. Durante um tempo testei custom rom sem utilizar o GAPPS (Google Apps) e os aplicativos Simple foram de muito bom uso. Espero que o projeto mencionado no texto, sobre um sistema operacional sem Google possa ir pra frente.

    1. eu já vi alguns métodos e até tem como viver sem, mas é complicado pq tem que ficar emulando o play service e a play store, fora que os apps pagos são impossíveis de adquirir

      1. O grande problema que eu passei foi relacionado a softwares que precisam de GPS, como o Uber. O serviço, no Android, parece ser atrelado ao serviço Google. Então tem que ficar usando softwares que simulam o play services, mas nem todos funcionam. Eu abandonei pelo grande trabalho que tinha e minha rotina simplesmente não se encaixava. Acabei voltando com o GAPPS mas evito de usar softwares Google.

        1. idem!

          o trabalho para ficar muito longe do google não é como sair do gmail e ir para o fastmail que tudo fica funcionando normalmente, é uma corrida de gato e rato, hora funciona e está ok, hora não funciona e tem que ficar se debruçando na internet procurando alternativas

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