Evernote, Castro e Simple Mobile Tools: o que está acontecendo com os aplicativos legais?

Carrossel com aplicativos da suíte Simple Mobile Tools.

Talvez seja coincidência, talvez os primeiros sinais de uma tendência negativa. Nos últimos dias, negócios baseados em aplicativos passaram por mudanças profundas que afetaram seus usuários de maneiras nocivas.

O primeiro caso foi o do Evernote, vendido à italiana Bending Spoons em novembro de 2022. Em julho deste ano, houve uma demissão em massa e o fechamento dos escritórios nos EUA e Chile.

Dias atrás, a Bending Spoons oficializou a limitação a 50 notas e 1 caderno no plano gratuito do Evernote. Na prática, é como se o plano gratuito não existisse mais.

A Bending Spoons também arruinou outro aplicativo, o Filmic. Após mudar o modelo de negócio para assinatura, demitiu toda a equipe, incluindo o ex-CEO e fundador.

As mudanças acontecem em um momento delicado. Quase concomitante à adoção do modelo por assinatura, a rival Blackmagic Design lançou o Camera, um aplicativo similar ao Filmic, porém gratuito. A Apple usou o Blackmagic Camera para gravar seu último evento.

***

Outro caso delicado é o do Castro, aplicativo de podcasts freemium para iOS, publicado pela Tiny.

A empresa publicou um comunicado em meio a rumores de que o Castro estaria com os dias contados, depois de um apagão que durou quatro dias e gente pedindo demissão.

No comunicado, a Tiny afirmou que tem uma “equipe enxuta” dedicada a manter o Castro funcionando e que está procurando “um novo lar” para o aplicativo.

Deve ser difícil competir com o Apple Podcasts, que vem pré-instalado em todo iPhone (e é bem bom, na real), com todos os streamings de música que pegaram o bonde dos podcasts, e apps independentes, como o Overcast. A quem ainda usa o Castro, porém, a notícia é bastante ruim.

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Por fim, o caso mais dramático: o do Simple Mobile Tools (SMT), uma suíte de pequenos aplicativos para Android focados, pró-privacidade e de código aberto. (Em 2020, escrevi uma matéria e entrevistei Tibor Kaputa, criador do SMT.)

Sem aviso prévio, o SMT foi vendido à ZipoApps. Em seu site, a empresa diz que “adquire os melhores aplicativos e os leva ao próximo nível”, o que só é verdade se “próximo nível” for um eufemismo para “cobrar assinaturas caras sem qualquer motivo”.

Os colaboradores estão irados com Tibor e questionam se a licença do SMT, a GPLv3, permite uma venda sem a anuência de todos que contribuíram com o código. Falou-se até em judicializar a demanda a fim de melar o negócio.

No GitHub, uma longa conversa está se desenrolando. Tibor meio que justificou a venda assim:

Certo, eu sei que é um passo muito controverso que chateia muitos usuários, [mas] infelizmente a qualidade de todo o ecossistema Android está caindo muito rapidamente e eu queria evitar a morte lenta [dos apps]. Muito obrigado pelo apoio que eu e os aplicativos recebemos ao longo dos anos, significa muito para mim :)

O mais maluco dessa história é que no final de agosto o blog do SMT estava publicando posts críticos a aplicativos que vendem os dados dos usuários. Há um ano, lançou um celular próprio (!) com os aplicativos pré-instalados.

A ZipoApps explica, em seu site, que vender um app “é fácil” e que “a maioria dos nossos negócios é fechada em 14 dias”.

Um dos colaboradores do projeto, Naveen Singh, criou um fork chamado Fossify e prometeu dar continuidade ao Simple Mobile Tools seguindo os princípios originais do projeto. Ótimo para quem está envolvido, mas isso não resolve a vida de quem, em breve, se deparará com popups pedindo assinaturas semanais de dois dígitos e passará a ser rastreado por empresas de publicidade em apps que, até então, eram exemplos de postura pró-privacidade.

Vez ou outra, tenho a sensação de que esses bastidores de aplicativos não centrais nas nossas vidas são quase uma curiosidade, quase um hobby meu e de umas poucas pessoas que se reúnem aqui e em outros espaços. Os últimos dias mostraram que não é bem assim… né?

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30 comentários

  1. Vi esses dias um reddit discutindo isso sobre o LumaFusion, de edição de vídeos para iOS, iPadOS e agora Android. O app não é necessariamente barato, é agora novos recursos têm sido liberados em compras adicionais, a parte. No reddit, usuários começam a questionar se o CapCut, a despeito de toda a questão de privacidade já não está oferecendo mais. De fato, recursos básicos que a LumaTouch estava prometendo há tempos, não apareceram até hoje. Sinto muita falta de animações suaves, função ainda inexistente.
    Também observo algo semelhante com os apps da Affinity. Tenho o Designer e o Photo. Já não foram tão legais ao exigirem uma compra nova da versão 1 para a 2 (tinha comprado a v1 pouco tempo antes). Os apps são sensacionais e não me fazem sentir saudades da Adobe no iPad. Mas recursos novos têm sido adicionados a conta-gotas.
    Claro que são equipes bem menores, com orçamentos incomparáveis a uma Adobe da vida. Mas leva ao questionamento de até que tempo esse modelo de negócio se sustenta.

  2. Para além da “ambição” e da “ganância”, há uma outra temática que julgo importante e que perpassa toda essa discussão: a das fontes de financiamento. Afinal, como manter um software, app ou serviço sem propagandas, modelo de assinatura ou doações? O mundo do software livre sofre bastante com isso: poucos doam e poucos desenvolvem; os softwares não avançam o suficiente, nem estão muitas vezes em pé de igualdade na competição com os pagos. No geral – e para além do contexto do software livre -, a inserção de propagandas num software, app ou serviço costuma gerar problemas de privacidade; cobrar dos usuários os afasta e restringe a utilização a alguns; e esperar por doações não é simples. É preciso discutir seriamente o financiamento do trabalho dos desenvolvedores e da infraestrutura da Web sem que se aceite abrir mão da ética.

  3. Assim como muitos, fiquei decepcionado hoje cedo ao ler a discussão no Github do projeto. Esse ano mesmo comprei o “Thank You” pra colaborar (custou módicos R$3,50!), mas agora broxei 100% e já tô vendo alternativas.

    Eu sei que existem os meios pra não depender de uma grande corp. para serviços simples/de uso cotidiano (notas, armazenamento, etc) mas ao custo de gastar em moedas estrangeiras e com muito atrito técnico. Isso não é pra todo mundo. Liberdade digital passa por liberdade financeira obrigatoriamente (sem entrar no mérito técnico).

    Também quero uma internet saudável (aonde for possível), mas entendo esses entraves de pequenos, mas ambiciosos, projetos FLOSS que ajudam muita gente.

    P.s.: Para mim, o objetivo de usar o SMT é rejeitar a ideia de muitas funções/integrações “inteligentes” para e/ou entre aplicativos. Afinal de contas, pq uma calculadora precisa se conectar à internet?

    P.p.s: o maior erro dessa história toda do SMT é a falta de transparência. Isso mata qualquer projeto FLOSS.

  4. Comprei todos os apps do Tibor, estou chateado no geral.

    Tenho um MIA1 executando /e/ OS e um Redmi note 10 pro para lazer e leitura, a primeira coisa que sempre fiz foi retirar até por ADB Shell os apps nativos da ROM ou executar PixelOS e instalar tudo do Tipor, até o File Explorer acho melhor que o Solid.

    Estava pensando nisso recentemente, Evernote abandonei faz tempo e pensava em pegar o vitálicio do UpNote que está R$97.00 mas daqui uns anos é vendido e volta tudo novamente.

    Outro episódio foi a série de jogos GO (hitman, Lara Corft e Deus Ex) eu tenho instalado mas vai ser retirado(até onde eu sei)

    Não confio na maioria dos “vitálicios” Android

  5. Cada vez mais tento depender de apps pras coisas. Tem muita coisa que dá pra fazer de forma local/old school. Tipo Evernote, larguei, até por dica daqui por .txts sincronizados na nuvem. Apps de podcasts podem ser substituidos por leitores de feeds, e por ai vai.

    1. Só uso podcast para as ótimas histórias Duolingo com AntenaPod do FDroid

  6. Que coisa… O SMP é muito bom, e eu quase comprei um Simple Phone, por curtir muito essa vibe mais low tech… Um Simple OS iria cair bem demais…

  7. Uma pena, usava alguns apps da suíte SMT. Tava até para comprar os que ainda não tinha. Sei que deve ser bem difícil manter uma boa quantidade de apps sendo apenas um único dev com, eventualmente, algumas contribuições de terceiros. Tem a questão financeira também, eu até entendo de certa forma o lado do Tibor. Manter uma suíte de apps com essa proposta exige bastante dedicação e vontade. Porém, não quero pagar para ver não :(

    Quais alternativas recomendam para player de música, calendário, notas e aquele lançador de aplicações que ele tinha?

    Obs: para quem não chegou a usar ou só usou as versões grátis (duas vezes por ano, no aniversário da data de lançamento e no natal, ele disponibilizava todos gratuitamente), os apps eram muito baratinhos. Você comprava todos com coisa de 35/40 contos. Uns tempos atrás, por exemplo, fui ver quanto tava o Niagara Pro (o launcher) e a versão pro tava quase 70 contos!

    1. O Niagara cobra pelo hype que se criou nada justifica aquele valor.
      Uso o Nova Launcher mesmo e faço mminhas personalizações, um que gostava era o Lunar Launcher (Dekkers) não é o atual o icone era um foguetinho, ai quando quero algo mais digamos Light Phone instalo o APK

        1. @Nildo até curto o Niagara, só não vale quase 70 contos. A ideia de usar ele com apenas uma mão é interessante. Eu curti isso. Dá para usar a versão free, ela é bastante capada. Acabei desistindo dele e usando outro launcher. Eu não curto muito aquele estilo padrão do android acho muito poluído.

        2. Sim! Se você entrar no F-Droid, provavelmente verá algum deles como sugestão na tela inicial.

  8. São coisas do capitalismo, principalmente quando se “depende” de uma comunidade que é, em essência, capitalista também. Não tem como dar certo no longo prazo (vide o Linux em si). Aliás, é interessante observar, pra quem se interessa, o que vai rolar de agora em diante, uma vez que o SMT é patrocinador gold do Mint.

    A ZippoApps com USD15 por semana é tipo a EA dos telefones.

    1. Oi Paulo, não entendi o ‘Não tem como dar certo no longo prazo (vide o Linux em si)’.

      O Linux é com certeza um dos projetos de software livre que mais deu e vem dando certo na história!

      1. O Linux dá certo em alguns contextos muito especificos (hobistas, principalmente), em outros (a maioria) ele precisou de alavancagem de grandes empresas. Nesse sentido que eu falei.

        1. Talvez pq vc está pensando no Linux em termos de distribuições Linux para computação pessoal. Aí realmente ainda tem muito chão para ser considerado “deu certo”.

          Mas para além desse contexto, e hoje um contexto muito maior que a computação pessoal, o Linux é o talvez o principal exemplo de software livre que deu certo. Quantos servidores no mundo rodam Linux? E celulares? Televisores? Carros? Na lista dos Top 500 computadores de alto desempenho?

          Enfim, desculpe estar parecendo chato, mas queria apenas destacar que o Linux é um projeto de muito sucesso em que pese na computação pessoal de fato ele não ter tido fôlego pa rivalizar com Windows e Mac.

  9. Por essas e outras que aos poucos estou migrando para apps/serviços de grandes empresas, pois a longo prazo, apenas elas conseguem sustentar o negócio.
    Saindo do Spotify (que tá demitindo geral) e indo para o Apple Music.
    Saindo do Pocket casts e indo para o Podcast da Apple.
    Saindo do Notion e decidindo entre Apple Notes do Google Keep.
    Saindo do Tutanota e indo para o Outlook.
    Saindo do Signal e voltando para o Whatsapp (que agora melhorou consideravelmente a segurança).

    Sei que mts aqui usam o Simplenote.
    Conselho: preparem logo para migrar as notas, pois um serviço/app que tem recebido UMA atualização por ano, nos últimos 2 anos, não tá mt longe de fechar.

    1. Essa questão das atualizações do Simplenote e o plano de 20 dólares pra custear o app me deixou ressabiado. Mas ainda não encontrei um substituto caso aconteça algo com o app. Não gostei do Standard Notes e o Apple Notes é inviável pra mim porque uso plataformas diferentes.

      1. Se quiser um desses apps de notas mais simples, tem o Note to Self (do mesmo criador do launcher Olauncher). É simples mas funciona bem.

      2. UpNotes está com o vitálicio por R$100 tão logo vire mensal

        1. @Nildo vc resumiu bem a minha dúvida até que eu tomasse a decisão de ir para os serviços das grandes empresas:
          O Upnote é ótimo, cheio de recursos simples, mas fundamentais (destaco o backup externo e a senha com biometria). Fora que ele é leve e multiplataforma.
          Mas o risco que vc apontou para o Upnote, não existe no MS Onenote, Apple notes ou Google Keep.
          Essas 3 grandes empresas não tem interesse em ter lucro do usuário doméstico nesses serviços (já no público empresarial existe o lucro).
          Para o usuário doméstico, o modelo de negócios é o mesmo do mercadinho de bairro: agregar.
          O mercadinho de bairro vende sal, fósforo e vela. Esses itens quase não tem lucro ou simplesmente nem tem. Zero. Mas eles agregam. O consumidor que vai lá comprá-los acaba comprando outros produtos ou por tabela conhece as prateleiras do mercadinho e isso vai traze-los de volta.
          Onenote, Apple notes e Google Keep são assim para o usuário doméstico: não vão gerar lucro, mas vão ajudar a manter o usuário no ecossistema das empresas. Se o usuário já está lá, a principio é mais fácil adquirir serviços de lá.

          Mas voltando ao Upnote: para quem não quer recorrer aos grandes, acredito que o Upnote é a melhor opção hoje, visto que ele ainda é novo e ainda tem um longo caminho até ser engolido por outros objetivos financeiros.
          Mas ele já tem o plano mensal, além do vitalício.

    2. Até a grande empresa decidir que o app/serviço que você usa não vale tanto a pena assim e resolver matar, ou cobrar assinatura, ou aumentar a assinatura que já cobra, etc. É o caminho que eles tomam quando percebem que não tem para onde seus usuários correrem.

      1. @JoaoM
        Mas isso é óbvio, afinal, toda empresa toma algum desses caminhos.
        Mas entenda que grandes empresas como Microsoft, Google ou Apple, conseguem absorver possíveis prejuízos.
        Essa é a diferença entre um serviço durar ou nao.

        1. É óbvio, mas é tão ruim quanto o fim dos aplicativos.
          Migrar para uma alternativa FOSS seria uma estratégia mais resiliente, visto que o SMT já tem forks, por exemplo

    3. Isso talvez resolva no âmbito individual, mas aí você fica à mercê das decisões dessas grandes empresas que, sabemos, não costumam ser em benefício dos usuários — ainda mais no mercado doméstico, em que um a mais, um a menos não faz tanta diferença.

      Olha que coincidência: hoje mais cedo estava lendo um post no blog do Tuta sobre o novo app do Outlook, baseado na versão web. Esse tipo de coisa dificilmente aconteceria em uma empresa pequena, sustentável e focada nos usuários.

      Tem coisas de que não dá para fugir da big tech, mas sempre que dá, eu tento fugir.

      1. O pessoal do tuta deu uma forçada de barra legal. Além do sensacionalismo, faltou eles falarem como contornar a situação sem precisar assinar o serviço deles.
        Indicar um problema de fácil solução e se colocar como a única alternativa salvadora é um marketing bem ruim.

        1. É um blog da empresa, óbvio que vão puxar a sardinha para o serviço deles.

          É citada a fonte, porém: o site alemão Heise. (A matéria, aliás, também foi publicada em inglês.)

          Dado que o comportamento descrito é o padrão do novo aplicativo do Outlook, a única solução é não usar o Outlook para gerenciar e-mails que não sejam da Microsoft.