Facebook reconhece que interfere em processos eleitorais. O que fazer agora?

Trump, de costas, aperta a mão de Mark Zuckerberg no Salão Oval da Casa Branca.

Em 2016, Mark Zuckerberg desdenhou da sugestão de que o Facebook teria contribuído com a surpreendente eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Esta seria “uma ideia muito doida”, afirmou em uma entrevista dois dias depois da votação. Por convicção ou pressão, em 2020 a postura do CEO e da empresa que ele comanda é diametralmente oposta.

O Facebook e outras redes sociais populares passaram os últimos anos se preparando para este novembro. No meio do caminho, viram os problemas se multiplicarem, com mais maluquices sendo gestadas em seus domínios, como os QAnon, e o espalhamento das táticas desleais a plataformas até então insuspeitas, como o WhatsApp no Brasil, em 2018. De fora, fica a impressão de que estão enxugando gelo.

Se pairam dúvidas sobre como, exatamente, essas redes contribuem para a desinformação e quais recursos entre os muitos que elas oferecem são os mais efetivos na fabricação de resultados, há, por outro lado, quase um consenso de que elas interferem, sim, nas festas da democracia.

Há alguns dias, Nick Clegg, vice-presidente de assuntos globais e comunicação do Facebook, postou uma mensagem no sistema interno da empresa: “Nós transformamos a maneira como abordamos as eleições desde a presidencial, quatro anos atrás. Graças aos esforços feitos até aqui, muito numerosos para mencioná-los um por um, o Facebook é uma empresa muito diferente hoje”. Pode ser, mas não significa que seja uma melhor ou que os muitos esforços tenham sido suficientes. A mensagem foi obtida pelo Buzzfeed News.

Dias antes de os eleitores norte-americanos irem às urnas, o Instagram desativou a aba “recentes” das hashtags nos Estados Unidos. Segundo o Facebook, para “dificultar que pessoas se deparem com desinformação”.

Na rede social Facebook, sem alarde a empresa desativou a recomendação de grupos de cunho político em algum momento da últimas semanas — questionada, uma porta-voz não especificou a data. Há estudos que apontam que os grupos, que desde 2017 se tornaram os locais onde o Facebook ainda pulsa (inclusive no Brasil), são catalisadores da radicalização na plataforma. Se essas recomendações algorítmicas são perigosas durante as eleições, por que não seriam fora delas?

Os dois recibões acima explicitam uma verdade inconveniente que, até onde puderem, os CEOs dessas empresas negarão: a de que elas têm um poder desmedido ou, no mínimo, desconfiam que tenham. E que, a bem da verdade, os incentivos errados do mercado — aumento da base de usuários, engajamento elevado, crescimento exponencial — atam as suas mãos e os impedem, mesmo que quisessem, de implementar propostas que, ainda que não sejam garantidas, poderiam contribuir para tornar mais saudável o debate público na internet.

Como fazem pouco, em vários lugares — nos Estados Unidos, no Brasil e na União Europeia — aumenta a pressão pública por regulação dessas empresas. A revisão da Seção 230 da Lei de Decência nas Comunicações, nos Estados Unidos, e o polêmico projeto de lei das “fake news”, no Brasil, indicam que a paciência se esgotou. E embora algum tipo de regulação se faça necessária, a imprevisibilidade do que poderá sair daí também preocupa.

Foto do topo: @realDonaldTrump/Twitter.

Edição 20#41

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