O mundo pós-COVID-19: há pouco de novo no “novo normal”

Foto frontal de duas fileiras de carros, faróis ligados, no crepúsculo.

O escritor argentino Julio Cortázar publicou em 1969 o conto que melhor sintetiza a passagem de tempo na literatura mundial, segundo a minha opinião. Chama-se A auto-estrada do Sul e está num livro chamado Todos os fogos o fogo”. No conto, uma multidão de carros avança por uma estrada que liga o interior da França a Paris numa tarde de domingo até que todos são obrigados a parar em um congestionamento. Naquele anda e para conhecido por qualquer um que já tenha passado horas em um engarrafamento, os carros seguem por quilômetros até que param completamente.

Livros recomendados pelo Manual do Usuárioo

As preocupações que cada um dos ocupantes dos carros descritos no conto tem envolve o curto prazo:

As duas freirinhas do 2HP gostariam de chegar a Milly-La-Fôret antes das oito horas, pois levavam uma cesta de legumes para a cozinheira. O casal do Peugeot 203 se preocupava, sobretudo, em não perder os jogos televisionados das nove e meia; a moça do Dauphine dissera ao engenheiro que para ela pouco importava chegar mais tarde a Paris, mas reclamava por princípio, porque achava absurdo o fato de que se submeterem milhares de pessoas a um regime de caravana de camelos.

Com horas e horas totalmente parados e a noite de domingo de aproximando, os motoristas perceberam que o que quer que tenha acontecido logo adiante era grave o suficiente para interromper totalmente a estrada durante horas e horas. Eles teriam que passar a madrugada ali e, se o trânsito não avançasse, dormir em seus carros.

O conto todo, como é um padrão do Cortázar, é muito bem escrito e introduz uns personagens bem interessantes sobre os quais eu não vou me aprofundar para não estragar a sua leitura — eu te aconselho a ler. É muito bonito, além de ser curto. O ponto é que o engarrafamento não durou horas. Durou meses. Durante esses meses, os ocupantes dos carros abandonaram as preocupação de curto prazo, como a cesta de legumes e os jogos televisionados, e criaram uma comunidade que tinha suas próprias preocupações. Houve a eleição de líderes, disputas de poder entre grupos de carros, casais que se formaram e alguns dos mais velhos morreram nesse arranjo. Enquanto a vida com a qual todos os motoristas estavam acostumados parou, outro tipo de vida seguiu num formato que ninguém antevia. Nesse processo, os ocupantes tiveram contato com uma gama de emoções. Primeiro a apreensão natural frente ao desconhecido, depois certo alívio por ver algumas situações familiares se repetirem, até um certo ânimo de estar à frente do novo, de ter uma chance de recomeçar; o tédio, a tristeza, a melancolia, até que a fila de emoções chegasse aos planos que todos faziam quando aquele engarrafamento terminasse.

Você não precisa ter sido o aluno mais brilhante da sua sala no colegial para entender do que a gente está falando aqui. Enquanto a vida com a qual todos nós estávamos acostumados parou, outro tipo de vida que ninguém antevia emergiu e a fila de sentimentos segue uma toada parecida — na quarentena, em alguns dias bate a tristeza, em outros, a esperança. Para alguns, sobrecarregados do trabalho que a maioria renega por medo da doença, não há nem espaço direito para as emoções. Agora estamos todos presos no engarrafamento, nos adaptando a essa nova vida e, frente a dias alegres e tristes, tentando prever e planejando o que será a realidade quando alguma solução definitiva for encontrada para o SARS-Cov-2. Convencionou-se chamar esse momento pós-COVID-19, que a gente ainda não consegue ver com clareza, de “novo normal”. Mas o que é o tal do “novo normal”, o que tem de novo nele e, principalmente, os planos que a gente está fazendo agora serão de alguma valia?

Não tem jeito melhor de aferir a realidade que olhar para dados. É isso o que a gente vai fazer nesse episódio do Tecnocracia, para tentar entender o que é o “novo normal” para, lá no fim, voltar ao conto do Cortazar e como termina esse engarrafamento gigantesco.

O primeiro passo para o entendimento é pintar o cenário no qual o “novo normal” vai se desenrolar. O SARS-Cov-2 não vai desaparecer completamente a partir do momento em que governantes resolverem relaxar suas políticas de confinamento. É algo que a gente já conseguiu ver na Coreia do Sul e na cidade chinesa de Whuan — enquanto achávamos que ambas as regiões estavam entrando no “novo normal”, o vírus reapareceu e começou, de novo, a entupir os hospitais. Uma informação entre centenas que ainda não sabemos é se alguém que já teve COVID-19 se torna imune ao vírus e pode sair por aí abraçando e lambendo a boca dos outros com a certeza de que não voltará a ficar doente, e se sim, por quanto tempo a imunidade dura. A teoria da “imunidade do rebanho” se apóia nessa premissa, ainda não verificada na prática. Imagine que você acelere a infecção de um povoado para torná-los todos “imunes”, só para depois descobrir que o Sars-Cov-2 funciona mais como uma gripe (que você pega uma vez por ano e tem alto índice de mutação) do que como a catapora (pegou uma vez, passou).

“Até que uma vacina ou outra medida protetiva apareça, não existe nenhum cenário, concordam os epidemiologistas, nos quais é seguro para que muitas pessoas de repente saíam da quarentena. Se a população voltar com força à sua rotina, tudo parecerá quieto por talvez três semanas. Aí as salas de emergência estarão cheias de novo”. Esse é um trecho escrito pelo Donald McNeil, jornalista especializado em pandemias do The New York Times, em que ele ouviu dezenas de especialistas para entender quais serão os próximos passos. McNeil é o mesmo sujeito que no começo de fevereiro já tinha soado a sirene sobre a quarentena. Baseado na experiência dele cobrindo pandemias e nas dezenas de fontes que ouve, ele sabe o que está falando.

Algo que o texto do McNeil esclarece é que a estimativa de uma vacina pronta em 18 meses é um delírio otimista. O processo de fabricação de uma vacina, dos primeiros testes à produção em massa, dura, em média, cerca de quatro anos, não apenas pela velocidade lenta do processo científico — nos seus testes com animais e humanos —, mas também porque a capacidade fabril de vacinas no mundo todo é na ordem das centenas de milhões. Claro que estamos usando como dados para a estimativa um cenário pré-COVID-19, em que o mundo não foi obrigado a se trancar em casa. A concentração de recursos e esforços pode ajudar a acelerar o processo. Em entrevista para o Ezra Klein, Bill Gates disse acreditar que, até 2022, o mundo já terá vacinado três bilhões de pessoas1.

Mesmo na estimativa mais otimista, serão dois anos em que viveremos aberturas e fechamentos. “No seu texto do Medium muito popular publicado em 19 de março chamado ‘Coronavirus: o martelo e a dança’, Tomas Pueyo previu corretamente o lockdown nacional, que ele chamou de martelo, e disse que se seguiria uma nova fase, chamada por ele de dança, em que partes essenciais da economia podem reabrir, incluindo algumas escolas e algumas fábricas com equipes enxutas. Todo modelo epidemiológico prevê algo parecido com a dança.

Gráfico do modelo de martelo e dança.
Martel (“hammer”) e dança. Gráfico: Tomas Pueyo.

Cada um assume que o vírus voltará com força toda vez que muitos hospedeiros saírem do lockdown, o que forçará um novo lockdown. Então o ciclo se repete. Nos modelos, as curvas com o aumento e diminuição das mortes lembram a fileira de dentes de um tubarão. Surtos são inevitáveis, os modelos predizem, ainda que estádios, igrejas, teatros, bares e restaurantes permaneçam fechados, todos os viajantes de fora sejam colocados em quarentena por 14 dias e viagens domésticas sejam altamente restringidas para prevenir que áreas de alta intensidade reinfectem áreas de baixa intensidade”.

Não há cenário sério em que voltemos às ruas sem restrições até que uma vacina seja descoberta — a não ser que nos deparemos com um altamente improvável deus ex machina, como o vírus não resistir à mariola. É nesse cenário que o nosso engarrafamento vai se suceder. E é assim que tem que ser. Qualquer imbecil que defenda que é preciso voltar à rotina em nome da economia, não entende patavinas de economia. Imagine abrir a concessionária ao lado da sua casa amanhã. Quantos carros serão vendidos? A economia não vai ser retomada quando o governo disser. Há uma profunda crise de confiança no consumidor. Quem, em sã consciência, vai entrar num crediário agora para trocar o carro? Quem melhor sintetizou isso foi o Henrique Meirelles: “existe um equívoco de que o isolamento social, a quarentena, está causando a crise econômica. É ao contrário. A crise é causada pela pandemia. Parece óbvio, mas no discurso de muitos, inclusive em esferas de poder, estão agindo em direção contrária. O setor mais afetado pela crise foi serviços domésticos, que não foi objeto de nenhuma restrição. No entanto, foi o mais afetado pela preocupação das pessoas. O que afeta a economia é a pandemia, não as medidas para combatê-la”.

(Esse cenário todo que eu descrevi é baseado na ciência e, naturalmente, só vai ser seguido por governos preocupados com a epidemia e interessados em encontrar formas de diminuir seus impactos na sociedade. Bom lembrar que não é o caso do miliciano que ocupa o Palácio do Planalto e que produz crises políticas durante a pior pandemia do último século.)

Passado abril, o mês em que saem os resultados financeiros do primeiro trimestre, a gente já começa a ver as mudanças na sociedade. O mercado reflete as mudanças da sociedade e, mais que isso, as expectativas. Antes, vista-se com seu cobertor de otimismo.

Primeiro, uma pincelada geral. Com a pandemia, a produção industrial brasileira caiu 9,1%. Foi o pior março desde 2002, segundo a Pesquisa Industrial Mensal (PIM) do IBGE. O desemprego deve terminar 2020 num patamar recorde de 17,8% da população economicamente ativa — pré-COVID-19, estava em 11,6%. Maior setor da economia, o de serviços caiu 7% em março, maior queda da década, segundo o IBGE. A projeção mais otimista indica retração de cerca de 4% do PIB. Com PIB em queda e desemprego galopante, a taxa de informalidade, que já estava no seu ápice, deve explodir. Onde essas pessoas vão ganhar dinheiro? Vendendo máscara, comida, fazendo entrega e espremendo os R$ 600 pagos pelo Governo (bom lembrar que o Executivo queria dar R$ 200, mas o Legislativo aprovou R$ 600) para que durem o máximo possível. Num cenário como esse, em que a inadimplência com certeza vai aumentar, os bancos já preveem um custo maior do crédito para manter suas margens. No primeiro trimestre, por exemplo, a receita de serviços do Santander caiu porque houve menos transações. O lucro, porém, foi de R$ 3,8 bilhões, 10% maior que no mesmo período de 2019.

Muita gente cita a greve dos caminhoneiros para dizer que, tal qual em 2018, a retomada vai ser rápida. Assim que os caminhoneiros conseguiram o que exigiam do governo, a crise passou porque os caminhões voltaram às estradas. Foi o que o mercado chama de “recuperação em V”. Imagine um gráfico e imagine que a linha do gráfico cai a um patamar baixo. Quando a razão daquela queda se revolve, a linha retoma ao patamar original, o que imprime no gráfico um enorme V.

Com a crise da pandemia, não será assim. O Brasil vai sangrar muito ainda até chegar ao fim do poço e a recuperação será lenta, gradual.

Peguemos como exemplo um dos setores mais tradicionais da economia brasileira, um pilar no qual todos governantes se apoiaram com medidas de desoneração quando a economia engasgava: o automotivo. Em abril, a produção automotiva no Brasil caiu 99,4% na comparação com março. Foram produzidos só 1.870 veículos, o menor número desde 1957, quando a Anfavea, que representa o setor, começou a medir a indústria brasileira já que a indústria brasileira estava nascendo. A queda nas vendas foi de 76%, segundo a Fenabrave. O problema aqui é o efeito cascata de um setor que se confunde com o capitalismo brasileiro: há milhares de concessionárias, oficinas, revendas e afins que vão sofrer junto. Estima-se que, em 15 dias sem operar, cerca de 30% das concessionárias vão quebrar.

As montadoras estão enfrentando um cenário parecido com as aéreas: quedas de receita na casa das dezenas altas. Globalmente, o lucro da GM caiu 86%. O presidente da Fiat na América Latina prevê queda de 70% no segundo trimestre, 40% no terceiro e 20% no quarto. Hoje, a montadora fatura quase zero, o que resulta em problema de caixa — você não tem dinheiro para pagar as contas que vão vencer na semana que vem. Ainda que a queda na receita de viagens tenha sido de só 5% no primeiro trimestre, a Uber vai demitir mais de 6 mil pessoas, um quarto da mão de obra global. O problema é o modelo de negócios — prejuízo de US$ 2,9 bilhões tem pouco a ver com o coronavírus. É inevitável, como já falamos em um outro Tecnocracia, que os preços aumentem.

Para as aéreas é ainda pior: Azul e Gol cortaram centenas de voos nacionais e quase todos os internacionais, já que a demanda caiu cerca de 90%. Ambas sofreram algumas das piores quedas da B3, ainda que os atuais valores de mercado estejam subestimados. Ainda precisamos de aviões para deslocamento e, em algum momento, a rede de voos deve começar a se recuperar. Quando? Ninguém sabe ainda. A dúvida é se, num mercado de margens tão minúsculas como o da aviação comercial, elas serão capazes de sobreviver. A Avianca, segunda maior aérea da América Latina, não conseguiu e quebrou — bom notar que ela já vinha numa crise pré-COVID-19. Em momentos assim, o resgate vem sempre do governo. Aliás, é uma máxima da economia: se tem crise global, os governos vão investir dinheiro público em companhias aéreas.

Está claro que qualquer negócio que dependa de deslocamento físico vai muito mal, com duas exceções: carros de luxo e delivery. As vendas da Porsche no Brasil mais que dobraram nos primeiros quatro meses do ano. A casa grande e senzala continua sendo a lógica fundadora do Brasil, é impressionante.

Quem tem operações de delivery, seja independente ou seja integrado ao seu negócio principal, tem um caminho de crescimento adiante. O número de encomendas transportadas pela Loggi cresceu 94% em abril, sendo que a imensa maioria leva medicamentos, refeições e compras de supermercados. A partir de abril, as empresas de logística passaram a viver uma “Black Friday constante”: o volume diário na quarentena se assemelha ao das promoções da última semana de novembro no varejo brasileiro.

Antes desse crescimento enorme, houve um padrão semelhante aos tsunamis. Não sei se você sabe, logo antes do tsunami chegar à praia, o mar recua e deixa exposto uma grande parte do solo oceânico. Existem alguns vídeos do tsunami que atingiu o Sudeste Asiático em 2004 com as pessoas maravilhadas indo desbravar esse pedaço de terra, o que torna as cenas seguintes ainda mais horrorosas. Na segunda quinzena de março, o volume de entregas por delivery recuou até 30%. A partir do fim do mês, cresceu muito. Observou-se também outro padrão: “no início da quarentena, os itens mais comprados eram TVs, notebooks e acessórios para garantir o trabalho remoto e o entretenimento da família. Depois, as entregas ficaram concentradas em produtos perecíveis e remédios controlados”, reportagem do jornal Valor Econômico sobre a JadLog, outra empresa de logística cujos negócios aumentaram bem com a quarentena.

A onda da logística é surfada também pelo varejo, principalmente o varejo de alimentos e remédios. No fim de 2018, o Grupo Pão de Açúcar comprou uma startup curitibana chamada James Delivery e a relançou, reformulada, três meses depois. (Um pequeno parêntese: GMV é o valor transacionado pela plataforma. Pense no Mercado Livre: a grana que você paga por um produto vai para o Mercado Livre, que repassa ao vendedor.) Durante a quarentena, o GMV do James aumentou mais de 3.000%, enquanto o tíquete médio da compra mais que triplicou e o número de pedidos cresceu mais de nove vezes. Só tem números enormes assim por que tem uma multidão comprando online. O número de pedidos no Pão de Açúcar online cresceu 150% na última quinzena de março e no Carrefour, o e-commerce alimentar triplicou. “O número de pedidos em nosso e-commerce alimentar cresceu significativamente, atingindo recorde de 4.269 pedidos em um único dia. Como base de comparação, nos primeiros 14 dias de março a média de pedidos diária foi de 1.674”. Claro, ambos partem de uma base que não é gigantesca, mas os números não deixam de surpreender. Na Via Varejo (dona das bandeiras Casas Bahia e Ponto Frio), as vendas pelo WhatsApp representaram 20% da receita total no período. Na Droga Raia, a venda de remédios sem prescrição (álcool em gel e antitérmicos) aumentou 46,4% — ou seja, galera estocando — e as vendas online triplicaram. Quem não tinha site se fodeu: as Lojas Cem mudou o C pelo S no nome e não tem receita nenhum por ter fechado todas as lojas. O ano passado já tinha sido de lucro em queda e caixa secando. Temos aí uma provável vítima no varejo.

Print das pipocas do Cinemark vendidas no iFood.
Imagem: iFood/Reprodução.

Entre as empresas que ganham dinheiro com diversão, nota-se uma divisão que deixaria Moisés impressionado. De um lado, quem depende de tráfego físico e está com receita quase zero. Por exemplo: os cinemas, desesperados para faturar o mínimo de fluxo de caixa. O Cinemark passou a vender pipoca pelo iFood. Não ria: se você estivesse à frente da operação da rede de cinemas, faria o mesmo. A Universal lançou Trolls World Tour direto para on-demand com sucesso (receita de ~US$ 100 milhões), o que fez pelo menos uma rede de cinema boicotar os filmes do estúdio. É muita burrice. A receita do mercado de livros no Brasil, que já era pequena, caiu praticamente pela metade, segundo estudo da Nielsen encomendado pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL). Se o brasileiro já não comprava livro com a economia em recuperação, agora é que não vai comprar mesmo. Editoras como a Companhia das Letras adiaram quase todos seus lançamentos, inclusives de livros que já estão prontinhos. Não existe boas notícias para o mercado editorial brasileiro.

Lucro da Disney caiu 91% — sem parques abertos e com todas as produções de TV e cinema paradas, não chega a ser uma surpresa. A empresa do Walt não só tem uma divisão de TV a cabo que continua sendo muito lucrativa como surfou bem a onda do streaming na quarentena com o Disney+. Até o fim de 2024, a empresa esperava acumular, no mínimo, 60 milhões de clientes. Em maio, o número chegou a 54 milhões. Vai ter Star Wars até a oitava geração do Han Solo — se não for tão merda quanto esse mais recente, por mim tudo bem.

Já que o papo é streaming, passemos à parte eufórica da festa: a Netflix esperava ganhar pouco mais de 7 milhões de novos clientes no primeiro trimestre. Veio o dobro, quase 16 milhões. O número de assinantes premium do Spotify cresceu 31% em um ano. E o Uol finalmente entrou no setor com o Uol Play, uma notícia que só é chocante se você não havia se perguntado por que o portal, com seu hábito de produzir clones de serviços populares, demorou tanto. Taí o UOLKut, o ComVc e o PagSeguro que não me deixam mentir. Verdade seja dita, o Uol se reinventou quando imitou o PayPal com o PagSeguro. É uma das grandes histórias da internet brasileira da última década, tem episódio do Tecnocracia sobre isso.

O lucro da Nintendo subiu 33,5% embalado pelo sucesso do Switch, que voltou a esgotar em lojas por duas causas, fora a quarentena: 1) dois novos jogos do Pokémon; e 2) Animal Crossing: New Horizon, esse jogo esquisitíssimo na sua fofura. Fortnite, da Epic Games, alcançou 350 milhões de jogadores registrados e se juntou a um grupo seleto de games que se encaminham a uma comunidade de meio bilhão de pessoas: Minecraft e alguns desses jogos gratuitos para celular. Tudo indica que Fortnite tem fôlego para se transformar no videogame mais popular da história — você, purista, pode tirar as calças e pisar em cima de raiva. Em só um ano, o jogo ganhou 100 milhões de jogadores.

Se sua diversão é levantar peso, dar braçadas na piscina2 ou beber uma cerveja vendo um show, mais más notícias: redes de academia estão tentando se adaptar a essa rotina de malhar em casa olhando para o celular ou para a TV enquanto o cachorro te olha com um misto de curiosidade e desprezo3. A Gympass lançou uma plataforma que permite que as academias inscritas produzam e transmitam aulas pela internet. Para yoga e funcional pode até funcionar. E jogar tênis ou nadar? Faz o quê? É o que tem, já que nem Gympass nem Smart Fit planejam uma volta física ainda. A Nike passou a veicular treinos no YouTube.

A volta das competições esportivas é um mistério. O UFC voltou, mas um dos lutadores teve que ser tirado às pressas do card por ter testado positivo para COVID-19. A Bundesliga voltou e, dias após o começo dos treinos, o Dynamo Dresden, da segunda divisão, foi colocado inteiro em quarentena quando três jogadores testaram positivo. Para lidar com a doença, os times alemães não entrarão juntos em campo, não poderão se cumprimentar ao fim do jogo e nem comemorar gols se abraçando. A marcação homem a homem e a aglomeração na área durante o escanteio estão liberadas.

Na educação, o Google invadiu escolas públicas no Brasil com o Classroom e o Zoom invadiu as escolas privadas. Pais insatisfeitos com as mensalidades nas alturas estão indo à Justiça para pagar menos pelas aulas remotas. A probabilidade de retomada física do ano letivo no Brasil diminui conforme a curva de mortos aumenta. Em Nova York, já é oficial: aula presencial só em 2021. A Udemy teve um aumento de 425% em cursos iniciados. Cada país estuda o que tem interesse. Na Itália, Espanha e Reino Unido, o maior interesse é em aprender instrumentos. No Canadá e na França, trading na bolsa. No Brasil, marketing no Instagram (meu deus do céu, mete uma bala na minha cabeça). Aliás, o Brasil é o que teve o menor aumento entre os 11 maiores mercados da Udemy. É totalmente entendível: com a raiva de ter que aguentar diariamente um presidente desses, não há foco na aula que sobreviva.

Em tecnologia, as notícias ou são boas ou excelentes. No Brasil, boas: a receita de banda larga doméstica da Claro cresceu 11,2% no primeiro trimestre, o lucro da Telefônica foi de R$ 1,1 bilhão, queda de 14% por causa de gastos únicos (a margem EBITDA, que mostra a saúde do negócio, cresceu) e o lucro da TIM cresceu 35%.

Para as Big Tech, só excelentes: o Google entregou um primeiro trimestre monstro, com aumento de 13% na receita e lucro crescendo. O YouTube cresceu 33%. O do Facebook foi ótimo não só pelo lucro de US$ 4,9 bilhões, mas pelas ótimas perspectivas: a receita publicitária em abril parece ter se estabilizado. As mais afetadas: turismo e carros. As que mais cresceram: games, entretenimento e e-commerce. A Amazon só cresce: desde 1º de janeiro, a empresa criou e preencheu 175 mil novas vagas de trabalho no mundo — três vezes o número total de funcionários da Petrobrás (57.983), a maior empresa de capital aberto do Brasil, para você ter ideia. A concentração das cinco maiores empresas da S&P (Microsoft, Apple, Facebook, Google e Amazon) chegou a 20%, maior índice em 40 anos. O planeta é da Big Tech, a gente só vive nele.

Gráfico mostrando o histórico de concentração de mercado das cinco maiores empresas do S&P.
Gráfico: Goldman Sachs.

É verdade que porrada do mercado publicitário se traduzirá em ganhos menores. É o que já falamos aqui: para Big Tech, isso significa encher a piscininha com 10 garrafas de champagne, não 12. Quem vai sofrer mesmo é quem trabalha com publicidade e não tem as margens gordas e o cofre cheio da Big Tech, como as agências, que já estavam num momento ruim. Ainda há benesses: Google e Facebook pegaram carona no frenesi do Zoom e lançaram serviços idênticos, o Meet gratuito para todos e o Messenger Room, respectivamente. É abuso de poder em letras garrafais, exatamente o que o Facebook fez no Instagram para desossar o Snapchat. Quando aparece um rival que atrai atenção e bilhões de dólares, os gigantes vão lá e esmagam. Sem qualquer punição, elas farão isso eternamente. Enquanto 28 milhões de norte-americanos e um número estimado semelhante de brasileiros vão perder os empregos, o patrimônio dos bilionários do mundo (liderados pelos fundadores de, acertou!, Microsoft, Amazon, Facebook, Google, Oracle…) cresceu US$ 308 bilhões. O share que as 17 pessoas mais ricas do mundo têm atingiu 1,3% de TODO O DINHEIRO DO MUNDO, segundo a Forbes. Em 1982, era “só” 0,2%. Cresceu seis vezes. Enquanto isso, Facebook e YouTube descobrem magicamente, depois de anos enrolando e pagando advogados e assessores para alegar que “não pode interferir na liberdade de expressão”, onde traçar a linha da desinformação. Finalmente vídeos com mentiras são classificados como mentirosos. A desplataformização dessa corja que espalha mentiras sobre Bill Gates e a OMS é o caminho.

É esse o “novo normal”. Voltemos ao Cortazar. Com semanas de congestionamento, o povo começa a se acostumar e, principalmente, a fazer planos. “O engenheiro, que acabara por entregar-se a uma indiferença quase agradável, sobressaltou-se, por um momento, com a tímida revelação da moça do Dauphine, mas depois compreendeu que não podia fazer nada para evitá-lo, a ideia de ter um filho dela acabou por parecer-lhe tão natural quanto a distribuição noturna dos mantimentos ou as viagens furtivas até a beira da auto-estrada”. A situação nova se torna tolerável, até com momentinhos agradáveis. Você pode tentar transplantar isso para a nossa realidade, mas a realidade do Cortazar não faz jus à profundidade, às camadas da nossa realidade.

Em 2020, a gente malha em frente ao iPad, discute produtos de limpeza no WhatsApp, posta no Instagram quando faz meditação, canta para a TV durante a live no YouTube, vê mais uma nova série na Netflix, recebe as compras, os lanches, as marmitas por um batalhão de motociclistas, ciclistas e motoristas anônimos, participa de calls infinitas no trabalho acomodado dentro de casa, faz terapia e happy hour por Skype acomodado na poltrona. No fim do dia, com a cabeça do travesseiro, todos admitimos os desafios, saudosos dos cafés, das aulas de ginástica, das baladas, dos restaurantes, mas cientes também de que a situação, ainda que triste, tornou-se tolerável, até com momentinhos agradáveis.

Esse só é o “novo normal” de um grupelho muito pequeno, da classe média para cima. Da classe média para baixo, é o velho normal de sempre, com a agravante do risco de ser contaminado pelo coronavírus. Empregados informais que têm apenas um mês de salário guardado para se sustentar, segundo pesquisa da Plano CDE, empregadas domésticas demitidas depois de anos sem qualquer direito trabalhando nas casas, brasileiros pobres aglomerados em filas intermináveis na porta de agências da Caixa no Brasil inteiro em busca dos R$ 600 dados pelo Governo, sem o privilégio de poder fazer isolamento e continuar trabalhando. É emblemático que a primeira vítima do coronavírus no Brasil tenha sido a empregada doméstica Cleonice, infectada no Leblon pela patroa que voltou da itália com o vírus.

Foto aérea da fila em torno de uma agência da Caixa dobrando a esquina.
Fila em uma agência da Caixa na Avenida Paulista, em São Paulo (SP), em um sábado do início de maio. Foto: Roberto Parizotti/FotosPublicas.

Dados compilados pela Folha mostram que a queda no deslocamento nas regiões ricas foi sete vezes maior que nas regiões pobres de São Paulo. Quarentena no Brasil é coisa de rico. Como bem definiu Leandro Karnal para o Estadão: “Classes média e alta enfrentam tédio, classes baixas enfrentam fome”.

Gilberto Freyre sempre teve razão. O Brasil sempre foi baseado na dicotomia entre casa grande e senzala. Hoje, quem sustenta, alimenta e esconde para os olhos da casa grande essa desigualdade é a tecnologia. Mais que isso: a tecnologia introduz essa perversa desigualdade que vivemos no Brasil em uma escala global. A mesma tecnologia que continua crescendo como um cavalo enquanto centenas de milhões de pessoas pelo mundo vão perder seus empregos. A mesma tecnologia que faz começarem a cogitar se Jeff Bezos será o primeiro trilionário da história. Bilionários não fazem sentido. O que dirá de um trilionário? A tecnologia alimenta a desigualdade e também a esconde: é possível não ter nenhum contato com as mazelas da sociedade, em nome da comodidade. Você já foi ao mercado em tempos de pandemia? Eu vou e eu vou te contar como é: quem veste camiseta de app de entrega de mercadoria é esmagadoramente pardo ou negro, mais que os 53,9% que os pardos e negros representam na população brasileira, segundo o IBGE.

Você, que trabalha com tecnologia, pode se convencer que tudo é vantajoso. “Ah, Guilherme, os apps de entrega/compras de mercado dão oportunidade para quem não teria outra fonte de renda e as lives arrecadaram milhões de cestas básicas”. Verdade. Nenhum dos argumentos, porém, ataca o problema principal, a desigualdade. Não se faz uma nação com empregos de baixíssima qualificação, como escolher e entregar banana para a dondoca. Nem com caridade, como as doações para as lives.

O “novo normal” não tem nada de muito novo. Quem pertence ao topo da pirâmide se protege da galopante desigualdade social. Quem ocupa o resto da pirâmide tenta sobreviver. No fim do conto do Cortazar, o congestionamento termina de repente e os carros começam a andar com velocidade em direção a Paris. No meio da marcha, os ocupantes entendem que os planos feitos durante o engarrafamento evaporaram assim que o nó foi desfeito. A ideia de ter filhos, construir um futuro, deixa de fazer sentido na hora em que eles percebem que podem voltar à vida antiga que tinham. É o que deverá acontecer com a sociedade assim que uma vacina para o Sars-cov-2 for sintetizada. Voltaremos à nossa marcha da insensatez. “Eu não acredito por meio segundo nas declarações que ‘nada será como antes’. Nós não acordaremos após o lockdown em um novo mundo. Será o mesmo, só um pouco pior”. Quem falou isso foi o escritor francês Michel Houellebecq — alguns dos seus livros mais famosos, como Submissão, se passam em cenários pós-apocalípticos. Eu concordo com cada letra.

Se você espera uma iluminação espiritual da sociedade pela pandemia, esqueça. Mas, se você quer ser otimista, então existe a chance de a crise da COVID-19 nos tornar melhores ao descortinar de maneira ainda mais violenta a brutal desigualdade brasileira, que inviabiliza que dezenas de milhões não tenham uma poupança para sobreviver a dois meses sem trabalho ao mesmo tempo que Porsches esgotam durante uma pandemia. De mostrar explicitamente a multidão anônima e pobre cujos serviços as classes médias e ricas consomem diariamente sem se dar conta. De escancarar como a tecnologia nos ajuda a ignorar essa realidade nos dando tantas distrações que se torna praticamente impossível sair da própria bolha, da própria câmara de eco, do próprio feed. De como a gente desenvolveu essa Síndrome de Estocolmo tecnológica.

Foto do topo: Life of Pix/Pexels.


  1. E vamos deixar claro que o Bill Gates é o único sujeito de tecnologia cuja opinião sobre coronavírus vai ser levada a sério, já que ele tem falando sobre o assunto há quase uma década.
  2. Ah, que saudades da minha natação…
  3. Só o meu que faz isso?

Edição 20#17

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24 comentários

  1. Spike Lee definiu bem, em uma ironia bíblica, que o mundo será dividido em AC/DC ( Antes do Coronavírus/ Depois do Coronavírus). Parabéns pelo conteúdo do episódio ( a amarração com o A Autoestrada do Sul foi sensacional, tive de encomendar uma das reuniões de contos de Cortázar pela Amazon). Ouvi enquanto estava preparando o almoço e confesso: fiquei mal. Muito mal. As previsões são estarrecedoras. A nossa desigualdade, ressaltada de maneira necessária, mostra que a Covid-19 veio escancarar os maiores problemas na nossa cara. O debate sobre desigualdade nesse país estava esquecido há tempos e se quisermos reverter essas previsões, na escala, nacional precisamos honrar os mais de 23 mil mortos até hoje. Precisamos nos recuperar politicamente, inicialmente extraindo esse pária do poder, para, aí sim, começar a agir no âmbito da economia, do trabalho, das pessoas e da sanidade coletiva. No âmbito global, além de nos livrarmos de Trump, é mais do que necessário outras perspectivas de um mundo para além desse poder feudal das Big Techs. O mundo é deles, mas como ainda vivemos nele, nada nos impede de reconquistar. Utopia em tempos distópicos não é luxo, é necessidade.

  2. Mias um Tecnocracia excelente, nem tenho muito o que dizer. Enfim, é um tanto angustiante que a crise que vai se abater provavelmente vai encher os bolsos das Big Techs, deixar alguns bilionários mais ricos e promover uma devassa sobre nossa privacidade. O futuro próximo vai ser duro

  3. Eu fiz uma colagem de vários trechos do seu texto Guilherme, com o intuito de compartilhar com os grupos de família, principalmente os que tem mais primos (mais novos). Espero que não se importe hehehehe

    Não se preocupe, cito a fonte original e faço até propaganda, meu pai (programador COBOL aposentado) já virou seu ouvinte por minha culpa.

    1. Claro que não me importo, Pilotti. Aliás, seu pai ainda ganharia um bom dinheiro nos bancos, essas amantes de COBOL em pleno 2020.

      Abs,

    1. Fabio,
      deixa eu entender a razão do seu comentário: você acha que o palavrão prejudica o argumento ou está ofendido por eu não compartilhar da sua crença política?

      1. Acho que politizar nao leva a nada no cenário que vivemos. Siga na linha de trazer argumentos e pesquisas como sempre fez… Independente do meu lado político, acho que o grande ponto que faz ouvi-lo há tempos é que até então esse tipo de viés não estava tão latente.

        1. O Tecnocracia sempre foi profundamente político, Fabio. Não tem como destrinchar os impactos negativos da tecnologia e apresentar possíveis alternativas, como defender a regulamentação, sem abordar política – e note que eu falo “político” sem, necessariamente, me ligar de maneira burra a uma ideologia ou corrente.

          Rejeito completamente esse pensamento burro do “shut up and dribble”, ainda mais com um presidente que demonstra desprezo pela democracia, pela Constituição, pela ciência, pelo estado de direito, pela isonomia dos poderes, pela vida dos brasileiros… O Tecnocracia já o citou como miliciano do Palácio do Planalto e vai continuar sem constrangimento.

          Você poderia argumentar que o palavrão tira o foco do argumento. Aí concordaríamos em alguma coisa.

          1. Já entendi seu ponto.
            Só acho que existe formas e formas de comunicar uma mensagem.
            Voce já decidiu a sua.
            Abraços

        2. Apenas para reforçar: tudo é político. Eximir-se de opinar sobre política é uma decisão política. No caso do Tecnocracia — e, por extensão, do Manual do Usuário —, política é um tema tão central à nossa linha editorial quanto tecnologia. E isso não é exclusividade daqui, vale para qualquer publicação editorial; a diferença é que não disfarçamos nem agimos em auto-engano.

          Se quiser ler alguma coisa de tecnologia apolítica, sugiro abrir outro manual do usuário — o do seu micro-ondas, por exemplo.

          1. Pelo jeito aqui tbm tem gabinete do ódio. Poderiam simplesmente ter dito “ok grato pelo comentário”. Mas não… Mostra muito o Brasil que vivemos que não se aceita opiniões contrarias… Uma pena

          2. “Pelo jeito aqui tbm tem gabinete do ódio. Poderiam simplesmente ter dito “ok grato pelo comentário”. Mas não… Mostra muito o Brasil que vivemos que não se aceita opiniões contrarias… Uma pena”

            Fabio, você está sendo intolerante. A gente discute discordâncias aqui com argumentos (já tivemos debates em outros comentários), mas você os abandonou completamente para fazer essas ilações e “poderiam simplesmente…”.

        3. Me pergunto se fosse a favor do seu posicionamento político, você teria essa mesma argumentação.

          Não existe isso de deixar de associar hoje em dia política com tecnologia, vide que a tecnologia está ditando o rumo do mundo, tanto para o lado positivo, quanto para o lado negativo.

    2. Concordo. Não que isso comprometa o texto (ótimo, aliás!). Só acho essas pontuações políticas desnecessárias. Acrescentam em nada…

      1. Você espera que o Tecnocracia não traga a discussão política para o centro do debate porque se, exatamente, é a tecnologia que está se mesclando com a política cada vez mais.

        Essa semana mesmo o Zuckerbergh disse que a UE deveria “tomar as rédeas” de uma uniformização do acesso aos dados das pessoas para evitar que a China faça isso. Porque ele defende isso? Exatamente porque o poder de barganhar que ele tem na UE, junto com as “big techs” é muito maior do que ele teria na China. Se a China ditar as regras de regramento pós-COVID ele vai ter ainda mais problemas do que ele já tem hoje.

        O Facebook interferiu diretamente nas eleições dos EUA e do Brasil, via Facebook e Whatsapp, na disseminação de notícias falsas. O Google envia dinheiro para sites extremistas e mentirosos via Adsense (só procurar pela matéria do Sleeping Giants aqui mesmo).

        Tudo isso é tecnologia com política. A eleição do atual presidente do Brasil passa pelas redes sociais e pelo uso de tecnologia para engajamento, arrecadação e disseminação de notícias falsas.

        Querer tratar atualmente de tecnologia sem tocar na questão política é ser raso e ingênuo, acreditando que é possível escolher um telefone ou um serviço de email sem que isso tenha implicações políticas futuras.

  4. Existe um aspecto importante, que o texto não explora, que é o “novo normal” que se desenha no mercado de trabalho. Por incrível que possa parecer, as empresas estão gostando do home office. E isso pode ter efeitos ruins na qualidade de vida de todo mundo – e aprofundar desigualdades.

    Postos de trabalho em escritório significam custo. Tem muito empresário com escritório fechado e equipes trabalhando remotamente, que agora está ponderando que tipo de escritório ele deve ter após a crise; tem empresa que já mudou pro online. Já existem as Crossover da vida que justamente vivem de vender horas trabalhadas de profissionais em trabalho remoto.

    Esse “novo normal” não deve ser revogado se e quando alguma vacina vier. Eu particularmente vejo um futuro próximo onde muitas vagas serão destinadas a home office, e caberá ao candidato provar que tem lugar apropriado, que tem conexão apropriada, que não possuem filhos que irão entrar na transmissão. Mas e a saúde do trabalhador?

    Escritórios devem possuir metragem mínima por funcionário, devem ter temperatura e iluminação adequadas, devem ter ergonomia adequada. O home office não requer nada disso.
    O home office não requer ar condicionado funcionando o dia inteiro. Empresas respondem por isso, e precisam dar conta de lesões por esforço repetitivo, por exemplo. Se você vai pegar um café na empresa e a máquina vira no seu braço, e te queima, isso é acidente de trabalho. Idem se você se ferir no banheiro da empresa, se uma luminária cai na sua cabeça, se você torcer o pé por conta do carpete solto. No home office isso não existe.

    Em home office a discussão sobre horas em itinerário inexiste, a necessidade de investimento em mobiliário adequado, em facilities, em limpeza, em infraestrutura em geral diminui muito. Eu prevejo escritórios onde os gestores se reunirão semanalmente, onde clientes serão recebidos eventualmente, e onde os funcionários irão para a festa de fim de ano – se ela não for feita pelo Zoom.

    Em outros aspectos, como fiscalizar o home office? Como categorizar aquele funcionário que não aparece ali, que só recebe demandas e as entrega por email, por acesso remoto, por sistema? Esse funcionário terá que tipo de relação com os outros funcionários? Esse funcionário será sindicalizado? Quais serão os benefícios dele? Quais serão os direitos?

    Como que os Conselhos, por exemplo, saberão que o profissional entregando aquele trabalho está habilitado? Não vou entrar no mérito da validade da existência dos conselhos, mas eles existem. Hoje uma visita a um escritório contábil é suficiente para saber se quem está trabalhando tem o devido registro. Como será isso no futuro?

    Esse é um ponto que tem me preocupado bastante, e que era uma direção que a tecnologia possibilitava, mas que a pandemia colocou de forma mais rápida no centro da realidade – e sob uma premissa irresistível. Eu tive que escrever um ebook sobre isso pra um assignment de um curso de mkt digital, e fiquei tentando achar perguntas para essas respostas.

    1. Já existe regras para o teletrabalho, eu não sei quais são, mas provavelmente elas elucidam várias das suas questões – que foram muito pertinentes.

      Mas eu acho que “novo normal” vai ser um PJ/MEI que trabalhe de casa batendo cartão mas sem nada de sustentação social (CLT) que o ampare.

      1. Obrigado pelo reply, Paulo. Me refiro ao teletrabalho mesmo. A forma com que o teletrabalho foi disciplinado na CLT é um descalabro. Essa modalidade não prevê, por exemplo, controle de horas trabalhadas, então é uma precarização em dobro.

        Eu acredito que o mercado em massa irá passar batido pelo teletrabalho via CLT e abraçar a contratação como PJ/MEI como você muito bem pontua.

        Ambas as modalidades ainda não tem respostas à questão da saúde no trabalho. Isso pra mim é um ponto muito preocupante.

        1. Eu realmente não sabia disso. É absurdo que não tenha nada sobre as horas trabalhadas. Isso é o básico. Eu trabalho como tradutor autônomo, então eu não bato ponto nenhum e trabalho pra várias agências, mas qualquer agência que venha a me cobrar horários online vai ter que ter um modo de controlar isso, senão não tem como. Quando menos percebermos estaremos trabalhando 18h por dia só porque é de casa.

          Eu sei que algumas empresas de telemarketing tem alguns sistemas que controlam o tempo online dos atendentes deles que trabalham de casa e isso inclui um massivo e invasivo controle de cada passo da pessoa dentro da sua própria casa como tempo com o mouse parado, tempo em que a pessoa não é detectada na frente do PC etc.

    2. Excelentes questionamentos. Eu mesmo gastei uma grana (não foi muito) para ter o básico de ergonomia no meu espaço de trabalho em casa: comprei apoio para pés, apoio para punho do teclado e do mouse. Todos esses itens eu tinha no escritório do empregador. Agora estou num drama para a questão da cadeira, pois as boas são bizarramente caras e a minha claramente não está funcionando para dias inteiros de trabalho.
      Eu acredito que o país caminhou no sentido equivocado de reforma tributária, desde a criação do MEI, como o episódio falou. Fora que a PJtização é uma consequência da não cobrança de Imposto de Renda sobre dividendos. Isso era quase um consenso na última eleição.

      1. Estou na mesma situação. Investi em acessórios, mas parei na cadeira. As boas, como você disse, são muito caras. Sem condições. A do trabalho, do empregador, é ótima. Sinto muita falta.

      2. Também investi em acessórios, como um monitor maior e a empresa deixou levar os periféricos para casa. Só me arrependi de não ter levado a cadeira (também deixavam), ainda considero buscar algum dia.

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