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O Sleeping Giants brasileiro chegou causando (bons) estragos

Logo do Sleeping Giants (um punho cerrado) nas cores da bandeira do Brasil.

Uma reportagem publicada pelo El País sobre o Sleeping Giants no último fim de semana rendeu. Mais gente passou a conhecer o trabalho capitaneado por Matt Rivitz — que entrevistei ano passado — e um deles foi além: transformou a admiração em ação e criou uma versão brasileira da iniciativa.

Rivitz criou o Sleeping Giants original, nos Estados Unidos, na esteira das eleições presidenciais de 2016. Ele reparou que muitos sites especializados em divulgar notícias falsas veiculavam anúncios publicitários de empresas renomadas ao lado das lorotas. Graças ao modelo de publicidade programática, que automatiza a veiculação de anúncios em sites e aplicativos, essas grandes empresas em geral não têm ideia de onde seus anúncios aparecem — e, às vezes, eles aparecem em sites de supremacistas brancos e conspiradores, entre outros pouco lisonjeiros. O trabalho de Rivitz, pois, é alertar as empresas na esperança de que, cientes do problema, elas cessem o financiamento aos sites.

É uma ideia simples, mas que ecoa muito porque atinge em cheio um dos principais motores das fábricas de boatos: a geração de receita. E é inspiradora também. Ao longo dos anos, além de centenas de milhares de seguidores, voluntários se apresentaram para ajudar a expandir a operação e a levá-la, de modo descentralizado, a outros países. Há pelo menos dez versões localizadas da iniciativa. Nesta semana, o Brasil ganhou a sua.

Conversei, por mensagens privadas no Twitter, com o criador do @slpng_giants_pt, a versão brasileira do Sleeping Giants. Por motivos óbvios ele não revelou sua identidade, limitando-se a dizer que faz faculdade de Direito e que seu trabalho de conclusão de curso diz respeito a notícias falsas.

“Procurei por muito tempo uma resposta a ‘fake news’ e todo o ódio disseminado atualmente”, explicou. “Em toda minha linha de pesquisa, eu nunca havia encontrado uma atuação real, em que eu pudesse me envolver e fazer diferença, até encontrar o artigo do El País sobre o Matt. Achei sensacional”. A criação do perfil brasileiro ocorreu quase que por impulso. Por ora, é um trabalho solo desse estudante desconhecido, mas ele diz estar “estudando vários projetos” e deu a entender que espera ampliar a equipe.

Tuíte do Banco do Brasil informando que retirou seus anúncios do site Jornal da Cidade Online.
Com apenas dois dias no ar, iniciativa começa a dar resultado. Imagem: Twitter/Reprodução.

Em 2017, outro perfil brasileiro inspirado pelo Sleeping Giants apareceu no Twitter. Ele se dizia ser do Rio de Janeiro, mas não prosperou: com menos de 1 mil seguidores, o @slpng_giants_br parou de ser atualizado naquele mesmo ano. “Logo após a leitura da matéria sobre o Sleeping Giants, procurei por algo no Brasil e fiquei triste em ver que as pessoas desistiram de continuar com o perfil”, disse o responsável pelo novo. “Ele foi criado em 2017 e poderia ter sido de grande importância durante o processo democrático de 2018, que foi inundado com ‘fake news’ e que está sendo investigado agora, na CPMI”.

Perguntado se teme represálias de milícias digitais, ele revela que já sofreu alguns ataques do Jornal da Cidade Online, publicação alvo das suas primeiras ações. Essa publicação, que é inexplicavelmente endossada pelo Google News e se financia com anúncios do Google AdSense, é fonte contumaz de notícias falsas e mantém laços com a viúva do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, como apontou reportagem do Aos Fatos.

A resposta do público à versão brasileira do Sleeping Giants tem sido expressiva. Além do endosso do perfil original, que saudou o novo membro da rede, em três dias o perfil brasileiro conquistou quase 100 mil seguidores. Mais que isso, a investida já tem resultados concretos em sua conta: Banco do Brasil, Dell, Domestika, History ChannelLoft, PicPay, Submarino e Telecine anunciaram, após serem questionadas pelo perfil, que bloquearam a veiculação de seus anúncios no Jornal da Cidade Online, e um dos políticos mais associados à produção em escala industrial de notícias falsas e apontado pela Polícia Federal como chefe do “gabinete do ódio” da Presidência, manifestou-se contra a iniciativa:

Tuíte de Carlos Bolsonaro: "Marketing do @BancodoBrasil pisoteia em mídia alternativa que traz verdades omitidas. Não falarei nada pois dirão que estou atrapalhando..... agora é você ligar os pontinhos mais uma vez e eu apanhar de novo, com muito orgulho! Obs: não conheço ninguém do @JornalDaCidadeO"
Imagem: Twitter/Reprodução.

“O que mais me indigna é a forma como as pessoas aceitam e realmente acreditam em certas ‘informações’ e ‘acusações’ e é exatamente com o propósito de expor esse setor de desinformação e alegações falsas que acredito na importância da criação desse [perfil no] Twitter por mim no nosso país”, justifica-se o criador anônimo do Sleeping Giants brasileiro.

Edição 20#17

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34 comentários

  1. Governos patrocinando blogs pra defendê-lo ou publicar matérias com elogios é mais velho que a pólvora. Vide os casos da tal “Dilma bolada” e do tal “mensalinho do Twitter”. Fora os milhões que o Temer cortou dos blogs e jornalistas financiado pelo PT.

    https://oglobo.globo.com/brasil/temer-suspende-patrocinio-de-11-milhoes-para-blogs-politicos-19533547

    Só acho temerário um perfil anônimo fazendo uma caça as bruxas com a ajuda da mídia tradicional, estabelecendo o que é ou não é fake news. Receio que blogs independentes possam ser o próximo alvo.

    1. É fácil estabelecer o que é falso ou não, basta averiguar. O mote principal do jornalismo é, exatamente, averiguar e repercutir os fatos. Ser imparcial não é ouvir os dois lados, por exemplo, e sim reportar a verdade.

      No caso do Sleeping Giants BR eles estão atacando um site notadamente conhecido pela disseminação de notícias falsas – integrante de uma rede de desinformação – que já condenado judicialmente e é citado na CPI das Fake News.

      Não existe uma caça às bruxas como você quer fazer parecer.

  2. Eu comecei a seguir e encontrei uma esperança muito grande para diminuir a propagação do Ódio e das Fake News.
    Realmente eu acredito é na Juventude.

  3. Finalmente uma esperança no combate às “fake news”!
    Há muito estávamos precisando…
    Por favor, continuem com esse trabalho tão importante!
    As pessoas “do” bem, agradecem!

  4. Ao meu ver perde totalmente a credibilidade na medida que esconde por detrás de uma desculpa tão infantil. O criador do original se deu a conhecer sem maiores receios. Se o objetivo é investigar origem de fake news de ambos os lados de forma imparcial não haveria o que temer. Então,…

    1. Claro que haveria o que temer. Se incomoda grupos poderosos, ainda que igualmente a dois grupos antagônicos (apenas seguindo a premissa que você sugeriu, pelo que entendi), claro que há riscos. O risco duplicaria, na verdade, pois ambos os grupos ameaçados teriam algo contra o ativista.

      1. Não necessariamente duplicaria apenas por haver um outro grupo, isso depende muito da maneira de agir de cada um . Mas basta ver os comentários para perceber que o ambos foram criados por simpatizantes da esquerda . O ódio destilado é perceptível . Consigo entender a simpatia das pessoas por regimes como o socialismo e o comunismo, pois a ilusão que eles incutem nas pessoas as faz crer em um mundo melhor baseado em um igualdade que nunca se concretizou em nenhuma parte do mundo . Mas querer que tudo dê errado apenas pq foi eleito alguém do outro lado é coisa de idiota . Pois se o barco afunda quem torce contra afunda junto .
        Abraço

        1. Dalton, ao atribuir à resposta a uma injustiça (um site que comprovadamente divulga notícias falsas) o mesmo peso você deturpa o debate. Independentemente de ser de direita ou de esquerda, o Jornal da Cidade Online, único alvo até agora do Sleeping Giants, presta um desserviço. Por ora, o SG tem o benefício da dúvida.

          Segundo, não existe o conceito de “torcida” para governo. Eu torço muito para que o atual governo dê errado porque seu sucesso significaria retrocessos que considero gravíssimos e, em alguns casos, irreversíveis. A oposição é um conceito inerente à democracia, e assim deve ser, porque de outra maneira o que nos sobra é autoritarismo. E, falando especificamente desse governo, já há exemplos de sobra das suas tendências autoritárias. Ele não é “o outro lado”, é uma anormalidade que, de alguma maneira, chegou ao poder. Sugiro que leia Como as democracias morrem, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Eles falam de Trump, mas todo o conceito se encaixa bem ao caso de Bolsonaro.

          A sua frase sobre comunismo e socialismo vale, sem tirar nem por, para o capitalismo. Nenhum modelo econômico foi bem sucedido até hoje. Se souber de alguma economia capitalista em que todos vivem bem e dignamente, me avise.

  5. Parabéns pelo necessário e importante trabalho no combate ao fascismo e fake news no Brasil.
    Tamo junto!
    👏👏🤜🤛🌹

          1. Hmmm, que estranho. O perfil original, no Twitter, não comentou sobre este outro no Instragram.

            Estou apurando se o do Instagram tem alguma ligação com o criador do perfil do Twitter.

  6. Excelente matéria, Ghedin, esse olhar atento a essas mudanças “recentes” causadas pela tecnologia e esse mundo mais maluco é um dos pontos que mais tem me interessado nas pautas do Manual, ultimamente.

    E um excelente trabalho e muito importante esse feito pelo perfil, talvez nossa única forma de lutar contra as fake news é esvaziar o financiamento dos criadores obscuros desse tipo de material e a exposição de marcas é uma ótima ação nesse sentido.

    Em um ponto relacionado, acho que temos que estar atentos a outras formas de financiamento desse tipo de veículo duvidoso. O próprio Jornal da Cidade tem uma campanha no Apoia.se que, hoje, arrecada quase 20 mil reais por mês. Acredito que isso possa ser levantado de alguma forma junto a própria equipe do Apoia.se.

  7. Ghedin,
    Muito obrigado pelo serviço que vem prestando! Desde que encontrei seus podcasts, blog e canal no telegram acompanho todo seu trabalho! Fico orgulhoso em saber que tem pessoas se esforçando tanto para produzir conteúdo bom, sem se vender valorizando a privacidade! Conheço somente outra pessoa que faz um trabalho similar, divulgando informações e ajuda sobre sistema Linux.

    Acompanhei esses dias também o crescimento do sleeping giant, pelas cores e nome, de início, me remeteu as manifestações de 2013 e algo voltado a extrema direita, fiquei tomado pela preocupação de ser novamente mais um movimento possível para manobra da população, porém fiquei surpreso ao ler sua matéria, me permitiu ficar um pouco mais tranquilo e até me incentivou a colaborar com a página.

    Por falar nisso, além de divulgar seu blog, quais outras formas posso colaborar com você? Se é que te interessa mais colaboradores, apoiadores ou enfim qualquer coisa do tipo.

    1. Obrigado por esse comentário, Nanuke!

      O site tem uma assinatura paga, que ajuda a manter as luzes acesas — dedico-me integralmente ao Manual do Usuário. Esta página tem os detalhes.

      Eventualmente publico conteúdo de colaboradores, mas devo te dizer que é meio raro. Exige alguma logística e preciso conhecer o portfólio do candidato de antemão. E como costumo pagar essas colaborações, ainda que valores abaixo dos praticados no mercado, não dá para comissionar muita coisa porque meu orçamento é minúsculo.

      Reforço a importância da divulgação. Por orçamento e também por princípio, não gasto com publicidade para divulgar o site. Confio nos canais orgânicos e, principalmente, no boca a boca dos leitores para chegar a mais gente que porventura se interesse pelos assuntos que acompanho.

    2. Vi algumas reportagens citando a extrema direita, mas vemos fake news de ambos os lado, direita e esquerda. Este movimento é importante, não pode ter viés. Como é julgado o que é fake ou não? Baseado na justiça? Se for baseado na justiça, quase toda a mídia brasileira já foi, em algum momento, condenada por fake news.

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