Como Richard Stallman usa o computador

Richard Stallman, criador do Emacs, do projeto GNU e da Free Software Foundation, é um sujeito único. Sobram histórias das suas excentricidades, a maioria relacionada a uma fobia crônica a tudo que não seja livre. Nesta bela tarde de maio de 2015, o próprio publicou em seu site um relato detalhado sobre como usa o computador.

É notável como, de diversas formas, ele faz curvas para evitar software proprietário. E não é apenas uma questão “Windows vs. Linux;” até partes mais obscuras que movem um computador, como o programa de inicialização (a “BIOS”), e entretenimento barato, como a Netflix, não escapam da sua obsessão pela liberdade.

Separei e traduzi alguns dos trechos mais curiosos: (mais…)

Como tira print do celular? (Ou: como a língua é influenciada pela tecnologia e vice-versa)

As nascentes da tecnologia de consumo nas últimas décadas têm estado longe do Brasil. Ora nos EUA, ora no Japão, eventualmente na Europa, as obsessões de boa parte da nossa população com chips e bits e telas não vêm daqui e, por serem coisas novas e de alcance global, costumam ter nomes em inglês. E a forma como esses afetam o nosso português é fascinante.

Esse lampejo me veio semana passada, quando joguei “screenshot” e “tirar print” no Google Trends, uma ferramenta do Google que retorna a popularidade de termos consultados em seu buscador ao longo do tempo, e que permite filtrar as consultas por país. Veja como o segundo ultrapassa o primeiro, na consulta restrita ao Brasil, mais ou menos na época em que os smartphones começaram a engrenar no país: (mais…)

Como parar de mexer no celular como se você fosse um viciado

por Max Ogles

Em 6 de dezembro de 2013, uma turista taiwanesa andava pelo pier St. Kilda em Melbourne, Austrália. O pier oferece uma bela vista do oceano, então presumi que muitos turistas sacavam seus smartphones para tirarem fotos. Como esperado, essa turista estava segurando o seu também, mas ela não estava registrando memórias preciosas — ela estava olhando o feed do Facebook. Ela andava pelo pier olhando fixamente a tela do seu celular, e foi essa distração que a derrubou. BOOM! Mulher ao mar!

Infelizmente para essa pobre turista, ela não sabia nadar. A boa notícia é que ela conseguiu boiar por uns 20 minutos até que alguém chamou as autoridades e um barco apareceu para salvá-la. Os registros oficiais do evento dizem que, depois de quase meia hora na água, a mulher ainda segurava o celular quando a ajuda chegou. Embora esses mesmos registros não mencionem, eu gosto de imaginar que os salva-vidas chegaram e gritaram a ela: “Estamos aqui para te salvar” e ela respondeu “Ah, mas com certeza vou postar isso no Instagram!” (mais…)

A virtude dos livros de colorir para adultos é nos dar tempo para pensar

Há algumas semanas acompanhamos, estupefatos, a ascensão dos livros de colorir para adultos. Com a justificativa do combate ao estresse e valendo-se de gravuras super detalhadas para separá-los de desenhos que podemos imprimir de graça em qualquer site infantil, esses livros são um fenômeno editorial. Só no Brasil mais de 100 mil cópias já foram vendidas.

Na matéria do Dicas de Mulher sobre o tema, a psicóloga Letícia de Oliveira explicou:

“Gostei muito dessa nova tendência e vejo muitos benefícios nessa atividade, tais como: o treino da concentração e da criatividade, por mexermos com o nosso lado lúdico; o combate ao estresse; a diminuição da ansiedade e o aumento da tolerância à frustração.”

Em entrevista ao site A Crítica, a professora de inglês Lorena Pimentel disse:

“Quando estou colorindo, não penso nos problemas do dia a dia. Uso toda a minha concentração nos desenhos, que são muito detalhados e requerem a minha atenção total”

A atividade de colorir um livro tão detalhado é laboriosa e, ao mesmo tempo, desempenhada no “modo automático.” No máximo se exige a escolha de cores, mas mesmo isso, dada a temática dos desenhos (um jardim, uma floresta), limita o espectro das possíveis a quem se importa com tais detalhes. E, claro, tem que não ligue muito para a fidelidade dos seus jardins e use quaisquer cores. Nada de errado com ambas as abordagens. Na real, não importa. (mais…)

Quem manifesta o amor com impressões digitais?

por Joanne McNeil

Designers parecem acreditar que no futuro nos apaixonaremos por robôs e que devemos compartilhar nossas frequências cardíacas, impressões digitais e outros dados biométricos enquanto humanos ainda têm chance. Por que outro motivo eles continuam criando apps bizarros para mandar dados corporais inexplicáveis? Seguindo a tendência recente de apps para Android e iOS que encorajam casais a compartilharem suas digitais, agora os designers do Apple Watch querem que usemos as batidas do coração de quem amamos em nossos pulsos.

As tecnologias mais frustrantes e mal resolvidas empurram para cima da gente rituais e costumes em vez de permitir que os usuários brinquem por conta própria e experimentem. Em nenhum outro lugar isso é mais evidente que na escória das lojas de apps móveis, com apps como “Love Finger Scan” ou “Fingerprint LOVE.” O app Couple tem até um negócio chamado ThumbKiss™ para quem tem fetiche por cristas epidérmicas. (mais…)

Uma breve história de como ouvimos música

por Alexander Lerch

A música é onipresente em nosso cotidiano e é difícil imaginar que nem sempre foi assim. Raramente paramos para pensar em como os ouvintes usufruíam da música no passado e como a inovação tecnológica moldou nossas expectativas e hábitos de audição. No século XIX, ouvir música (tocada profissionalmente) exigia que o ouvinte visitasse um espaço dedicado, como uma igreja ou uma sala de concertos, num horário específico.

Obviamente, o caráter de evento implicava que o ouvinte não tinha influência alguma no programa e nos artistas que se apresentavam, nos horários do concerto ou seu local. Mais que isso, não havia alternativa para compartilhar a experiência de ouvir música com uma plateia, nem a opção de ouvir repetidamente a execução de uma mesma canção. Embora ainda hoje apreciemos shows, concertos, a maior parte da nossa experiência enquanto ouvintes não tem relação com apresentações ao vivo. (mais…)

Para Lee Kuan Yew, fundador e premiê de Singapura, ar condicionado foi a invenção mais importante do último milênio

Faleceu ontem (23) Lee Kuan Yew, fundador e ex-primeiro-ministro de Singapura, cargo que ocupou por três décadas (!) após a independência do país, em 1959. Alguns consideram-no o único líder que levou uma nação do terceiro ao primeiro mundo no intervalo de uma geração. Singapura é, hoje, o 9º país do mundo no IDH e tem renda per capita elevada, de cerca de US$ 60 mil.

Uma curiosidade sobre Lee é a sua relação com o ar condicionado. Singapura está localizada na faixa dos trópicos e tem clima equatorial, sem estações distintas, quente e bastante úmido. Essas características não são as mais confortáveis para se trabalhar, por isso o ar condicionado teve e continua a ter um papel importante por lá. (mais…)

Por que o Facebook está cheio de opiniões absurdas e discussões hostis?

No início da semana, voltando a Maringá após passar o carnaval na casa dos meus pais, assustei-me ao ver postos de combustíveis com filas enormes por todo o caminho. A cena se repetia aqui também, dentro da cidade. A paralisação dos caminhoneiros ameaçava acabar com o fornecimento de combustível, o que fez o povo correr para as bombas a fim de encher o tanque.

Isso está acontecendo em vários lugares no Brasil, mas no caso de Maringá é uma corrida inútil. Como alguns lembraram em redes sociais durante o dia e, em tempo, a imprensa também comentou, a cidade não corre risco iminente porque é um polo de distribuição do produto e, portanto, recebe-o por via férrea. E, até onde se sabe, caminhões não dividem espaço com trens e os ferroviários não estão em greve.

Enquanto alguns, ao saberem disso, riram de si mesmos e lamentaram o tempo perdido nas filas, outros não se abalaram e mantiveram o discurso apocalíptico de que o fim (do combustível) está próximo. Por que, mesmo com uma evidência tão clara, esse segundo grupo não mudou de opinião? (mais…)

Com um HD externo cheio velharias, eu voltei ao passado

A Internet só ganhou o mundo, ou a maior parte da população mundial, com o barateamento da conexão e a popularização do smartphone. Esses dois eventos são relativamente recentes, o que significa que muita gente não estava aqui quando as conexões eram mais lentas, redes sociais não existiam e nuvem ainda era apenas um fenômeno meteorológico. É um dos que passaram por essa fase tenebrosa? Então faço-lhe um questionamento: quais arquivos daquela época você ainda tem aí, guardados e acessíveis hoje?

Vivemos tempos estranhos em vários sentidos. A relação que temos com o digital, embora não pareça à primeira vista, é um desses. Se não acredita em mim, ouça Vint Cerf, um dos criadores da Internet. Ele recomendou a impressão das nossas fotos para não ficarmos à mercê de uma “Idade das Trevas Digital” motivada pela perda de arquivos decorrente da obsolescência de hardware e software. (mais…)

A obra final de Salvador Dalí

por Aline Valek

Nota do editor: A Aline é redatora, escreve em seu blog e no Escritório Feminista, da Carta Capital, e todos os sábados dispara a newsletter Bobagens Imperdíveis. O texto abaixo veio na edição #47 e achei tão sensacional que pedi a ela permissão para republicá-lo aqui, no Manual do Usuário. Para receber mais textos e reflexões legais como essa, assine a newsletter dela.

Esteve em cartaz em São Paulo, entre os dias 19 de outubro e 11 de janeiro de 2015 no Instituto Tomie Ohtake, uma exposição do Salvador Dalí (o artista com bigode esquisito da foto acima).

Como fica perto da minha casa (consigo ver da janela do meu escritório a estranha figura do prédio do instituto, uma torre listrada de roxo e azul que se destaca no horizonte feito construção alienígena que deve ter caído ali por acidente e ninguém se preocupou em remover porque muito ocupado em construir outros prédios), resolvi ir na tal exposição ver o que eu poderia aprender sobre esse que é um dos principais representantes do surrealismo. (mais…)

Na China, as pessoas usam códigos QR e apps bem diferentes dos daqui

Senhor chinês mexendo no celular.
Foto: Michael Coghlan/Flickr.

Quando fiz meu cartão de visitas cometi o erro de incluir um código QR enorme nele. Na época, com um Nokia N82 no bolso, era um conceito do futuro: sempre via sobrancelhas subindo, surpresas, quando apontava a câmera do celular para aqueles quadradinhos e, em seguida, meu site abria no navegador. Hoje é difícil impressionar alguém com o mesmo truque — porque, convenhamos, é mais fácil digitar o endereço do site do que procurar e baixar um maldito app que leia códigos QR.

Mas ainda resta uma esperança de que o ocidente siga os passos da China, encontre uma utilidade para o código QR, ele deixe de ser motivo de chacota e passe a ser encarado com respeito — e, por tabela, salve o investimento que fiz naqueles mil cartões. Lá, desde 2011, quando o WeChat incorporou o reconhecimento dessa etiqueta virtual e popularizou o uso dela, código QR virou coisa séria.

Essa é apenas uma das peculiaridades de um país de dimensões continentais e mais de um bilhão de pessoas que, por uma série de fatores, desenvolveu sua tecnologia de consumo apartado do resto do mundo.

O Partido Comunista impede que gigantes norte-americanas, como Google e Facebook, finquem bandeiras na China. Embora controverso, esse protecionismo abriu espaço para que que soluções caseiras florescessem. E mesmo que alguns serviços online tenham tido inspirações bem diretas, como no caso do Weibo, o “Twitter da China”, o desenvolvimento deles em um ambiente livre da competição norte-americana levou esse e outros “clones” a fins diferentes de qualquer coisa vista hoje nos EUA ou aqui, no Brasil.

Agora, com as empresas chinesas de software abrindo capital nas Bolsas desse lado do mundo e fazendo IPO recordistas (o do Alibaba, de US$ 25 bilhões, é atualmente o maior do mundo), as atenções se voltam ao país. Mas como é usar um smartphones lá?

Androids diferentes, iPhone tardio

Os smartphones da Xiaomi.

É diferente, no mínimo. Para início de conversa, o Android que eles usam não tem muito a ver com o nosso. Como a presença do Google é mínima, as fabricantes locais pegam o sistema AOSP (leia-se: sem os serviços Google), dão um tapa no visual, incorporam suas próprias soluções e instalam essas ROMs em seus smartphones. A mais próxima do ocidente é a MIUI, da Xiaomi, que analisamos com mais atenção aqui. É um cenário tão bizarro a nós que a página oficial da empresa ensina os usuários a mexer com ROMs personalizadas.

A falta do Google implica, também, na ausência do Google Play. Sem a principal e maior loja, as locais se multiplicam. São, no mínimo, seis disputando a atenção do usuário. E não só: alguns apps fazem uma espécie de “propaganda cruzada”, exibindo links para downloads de outros grandes apps, facilitando a vida do usuário. A multiplicidade de ofertas e o proficiência dos chineses ao lidarem com várias lojas de apps abre espaço para malwares — é o preço que se paga, certo?

O iPhone também é vendido e relativamente popular, embora seja um produto recente à maioria dos chineses. A China Mobile, maior operadora do país com 700 milhões (!) de clientes, só começou a vender o smartphone da Apple no começo de 2014.

Relatos móveis do outro lado do mundo

Essas e (muitas) outras informações li num post escrito por Dan Grover. Alguns meses atrás ele largou tudo no Vale do Silício, na California, e mudou-se para Guangzhou, China. Hoje, Grover é gerente de produtos do WeChat e aproveitou um tempo livre para compartilhar conosco, ocidentais, os hábitos dos chineses no uso de smartphones.

Na China, código QR é levado a sério.

O artigo é fascinante e se o seu inglês estiver minimamente afiado, recomendo a leitura do original. Enquanto conhecia um pouco mais daquela realidade quase alternativa, foram vários os momentos em que fiquei bastante surpreso. Por exemplo, o lance dos códigos QR. Eles usam para muitas coisas, desde o básico acesso a uma URL (como o meu cartão) até operações avançadas, como autenticação em sessões únicas, dispensando assim a digitação de uma senha.

Questões que por aqui são tratadas com estardalhaço, como a utilização da localização do usuário, são triviais por lá. Se você já deu uma olhada no WeChat, por exemplo, deve ter reparado numa opção “Pessoas por perto” que permite encontrar desconhecidos que estão fisicamente perto de você para conversar. É o comportamento esperado em apps como o Tinder, mas imagine a tempestade (em copo d’água?) que rolaria se o Facebook incorporasse algo parecido? O uso da localização é difundido e serve para muitas finalidades, inclusive bombardear os chineses com anúncios, claro.

Os códigos QR, o encontro de desconhecidos e outras funções são replicadas em muitos apps. A China segue uma tendência diametralmente oposta à do ocidente: se por aqui a moda é desmontar apps em outros menores e mais específicos, por lá todo app agrega mais e mais funções. Chamar o WeChat de “app de bate-papo”, ou o Baidu Maps de “app de mapas” é um tanto reducionista. É comum que algumas funções não relacionadas entre si fiquem agregadas em uma aba “Descoberta”, como as dessas imagens:

Exemplos de funções agregadas em vários apps chineses.

O WeChat, como explica Grover, tem funções que vão muito além da conversa: conferência por vídeo, meio de pagamento, um negócio parecido com o Evernote para salvar anotações, identificação de músicas (como o Shazam) e, seguindo a Lei de Zawinski, que diz que todo software tenta se expandir até conseguir ler e-mails, um cliente de… e-mails.

Comprar, aliás, é outra função cujo desenvolvimento traçou caminhos bem diversos dos desse lado do mundo. Antes, era preciso preencher longos formulários em cada app, específicos para cada um dos mais de 30 bancos de lá. Na medida em que os apps cresceram, foram incorporando e facilitando esse processo. Ferramentas como Alipay e Tencent, os PayPal e PagSeguro chineses, são usadas e populares, mas, como escreveu Grover, por lá “todo app tem uma carteira”, ou seja, não é preciso baixar apps específicos de Alipay ou Tencent para usufruir dos serviços; eles vêm embutidos nos principais apps.

E o visual, claro, tem muitas curiosidades interessantes. Coisas como aplicação de temas, mascotes engraçadinhos e escudos de proteção para identificar processos “seguros” são onipresentes. Badges (as bolinhas que no iOS indicam mensagens/itens não vistos), porém sem identificação, são um elemento de interface largamente popular, raramente (nunca?) visto em apps ocidentais. Widgets esquisitos e telas de abertura (splash screens) também fazem sucesso.

Alguns mascotes de apps chineses.

Talvez a situação mais inesperada seja a forma com que os apps lidam com a relação entre pessoas físicas e empresas nas redes sociais. A interface preferida é a de mensagens por texto, mas há regras especiais para “contas oficiais”. No Moments, espécie de feed de notícias do WeChat, é notável o tratamento que contas de não-pessoas tem. O ambiente é livre desses posts de uma forma meio difícil de imaginar replicada no Facebook ou Twitter, ambos cada vez mais dependentes de conteúdo comercial para seguirem em alta. Seria bom copiarmos pelo menos isso dos apps chineses.

Reforçando o convite à leitura, o post completo está aqui.

No AdoteUmCara, a iniciativa é sempre delas

Em 2012 Paris ganhou uma loja pop-up diferente — para dizer o mínimo. Em vez de produtos industrializados ou mesmo orgânicos, homens em embalagens gigantes estavam expostos na vitrine. Um deles foi parar dentro de um carrinho de mercado! Ao olhar para a fachada lia-se AdopteUnMec.com, endereço de uma rede social de encontros. (mais…)

Qual o smartphone e o tablet mais popular do Brasil na web? Moto G e iPad 2

Um estudo recém-publicado pela ScientiaMobile apontou o Moto G como o smartphone mais popular do Brasil, seguido pelo Lumia 520 e, em terceiro lugar, o iPhone 4S. Entre os tablets, as cinco primeiras posições são ocupadas por modelos do iPad. Algo errado?

O questionamento é válido porque, a julgar pelos números de vendas de tablets no país, é pouco provável que a Apple esteja tão no topo assim. Juntas, segundo levantamento da Folha, DL, Lenoxx e Samsung, que fabricam tablets quase que exclusivamente com Android, detêm 55% das vendas no mercado nacional.

A ascensão do iPad no relatório da ScientiaMobile e algumas outras estranhezas (a maioria relacionada à Apple) decorrem da metologia usada. As conclusões se baseiam em uma amostra de 2,5 bilhões requisições a sites, coletadas e analisadas pelo WURFL.io, uma solução para detecção de dispositivos e adequação de conteúdo às peculiaridades de cada formato. (mais…)

Cuddlr, o Tinder para trocar um chamego com estranhos — sem sacanagem

https://vimeo.com/104043430

Não é do meu feitio fazer julgamentos ao comportamento alheio, mas o Cuddlr, que até onde pesquisei não é uma brincadeira, merece uma análise sócio-antropológica mais aprofundada.

Trata-se de um app para receber um… “chamego” de estranhos. Ao abri-lo, surge um menu à la carte de outros usuários nas redondezas. O escolhido recebe uma notificação e, se for com a sua cara, aceita o pedido de carinho. Então vocês se encontram em algum lugar, como num parque tal qual o vídeo sugere (afinal, por que não conhecer um estranho creepy num parque?), e vocês fazem o que tem que ser feito, ali ou num local mais íntimo, podendo rolar até uma soneca de conchinha. Depois, cada um diz se a interação foi legal ou não, e isso fica registrado no perfil para que outros usuários vejam como você é um bom ombro amigo, tem um abraço gostoso.

É como um Tinder segmentado. Segundo o fundador do Cuddlr, Charlie Williams, não é sobre sexo e o Cuddlr é legal mesmo para quem já está num relacionamento estável. À Salon, ele disse:

Um carinho de mora mais que um abraço, mas é mais curto que um encontro, então você não precisa ficar sentado tomando alguma coisa se você decide que alguém não é para você: é possível terminar um carinho educadamente a qualquer momento. Pessoas desinsteressadas em encontros, seja por já estarem em uma relação ou por não quererem uma, gostarão da experimentar uma conexão com alguém sem a pressão de se arrumarem, encontrar alguma coisa para fazer, trocarem números ou mesmo se verem outra vez.

A entrevista toda vale a pena. Quando perguntado sobre como surgiu essa ideia, e essa certamente seria a primeira pergunta que eu faria, ele disse:

A ideia do app veio do nosso designer, Jeff Kulak. No começo falamos dela como uma piada…

Charlie, não leve a mal, mas vocês deveriam ter parado aí.

…, o nome sendo uma brincadeira com a tropa de apps com “-r” no final.

Boa, Charlie, estou rindo muito.

Mas então nós dois rapidamente concluímos que há uma necessidade disso, que usaríamos de verdade esse app se ele existisse, e que  era tecnicamente viável para nós torná-lo realidade.

Eu concordo que falta um pouco de calor humano nas relações mediadas por telas, mas o Cuddlr me parece o remédio errado para essa mazela. A dinâmica é muito similar à das relações online, e como diferencial apenas coloca um pedacinho de contato corporal na fórmula. É um paliativo que talvez reconforte, mas soa como apenas isso, um paliativo. E um bem estranho.

O Cuddlr é gratuito e está disponível apenas para iPhone.

Qual é a da obsessão com os grupos do WhatsApp?

Ultimamente tenho observado o comportamento de amigos e conhecidos no WhatsApp e, desse processo, uma dúvida emergiu: por que essa obsessão com grupos do WhatsApp?

Não é algo restrito aos meus círculos de amizades. Uma pesquisa no Google revela tutoriais e indicações de grupos. Em qualquer grupo no Facebook, não demora muito até alguém propôr a criação de um grupo do WhatsApp, tipo um grupo do grupo. No Twitter, uma pesquisa por “grupos whatsapp” revela as situações mais malucas, como o grupo de DJs que vão às apresentações uns dos outros para se apoiarem (?), e aquelas triviais, como os já tradicionais grupos familiares.

https://twitter.com/FatosDoTwiteiro/status/501505227099734017

https://twitter.com/surtossurreais/status/500828071369670657

https://twitter.com/grossa/status/500452823130447872

A prova irrefutável da penetração dos grupos do WhatsApp na nossa cultura vem do Google Trends, que mede a popularidade de termos consultados no maior buscador do mundo. É notável a supremacia dos grupos do WhatsApp:

Grupos WhatsApp, Grupos Facebook e Comunidades Orkut no Google Trends.

Os grupos do WhatsApp atropelaram os do Facebook quando esses começavam a se estabelecer. Eles estão em um patamar que nem mesmo as comunidades do Orkut, que tinham a favor a falta de concorrência e contra a quantidade menor de usuários, conseguiram alcançar. Tenho a suspeita de que rapidez e o acesso mais difundido a smartphones, dos quais o WhatsApp virou item básico no Brasil, explicam a preferência por ele e a sua recente subida meteórica no gráfico acima.

Da minha experiência, há casos onde a reunião rápida entre algumas contatos faz sentido: em trabalhos acadêmicos, eventos ou para combinar saídas, às vezes é mais fácil fazer tudo por ali. Isso rola bastante, mas parece que só conta uma parte da história. A outra é que o WhatsApp virou uma espécie de fim em si mesmo, um ponto de encontro onde as pessoas estão sempre disponíveis e dispostas a compartilhar.

Isso leva o WhatsApp a extrapolar a sua função nuclear, o bate-papo em tempo real, e se transformar em uma espécie de rede social. As fotos da festa, que já foram maciçamente compartilhadas por e-mail, depois Orkut e Facebook, hoje são trocadas pelo WhatsApp. Vídeos, então… grupos de zoeira são um mini-YouTube, e ainda temos os de pornografia. Casos recentes e de grande repercussão de revenge porn tinham em comum o WhatsApp como canal de disseminação.

https://twitter.com/larissagaldi/status/472470251947716608

Na Ásia, concorrentes como o WeChat abraçaram essa “missão” maior. Eles não oferecem apenas bate-papo; lá, os chineses compram coisas, agendam compromissos, compartilham fotos em perfis e realizam uma série de outras ações através de apps que, originalmente, serviam apenas para conversar. Nesse sentido o WhatsApp é extremamente conservador e, ainda assim, as pessoas não desgrudam dele. Há, portanto, um potencial enorme para o Facebook desenvolvê-lo e aprimorá-lo, ainda que isso o coloque em disputa direta com o seu produto principal. Canibalizar o Facebook ou manter o WhatsApp simples, sob o risco de perder terreno para concorrentes mais completos e se dar por vencido em mercados emergentes, como os asiáticos?

Questões empresariais à parte, o que mais me fascina continua sendo a motivação para criar e continuar em grupos do WhatsApp. Quando surge o assunto grupos do WhatsApp não é difícil alguém citar a função silenciar grupos, ou soltar alguma reclamação sobre um deles ou todos. Mas é raro alguém bancar a crítica e sair dos grupos. O medo de perder alguma coisa fala mais alto, só não mais do que a nossa incapacidade de ficarmos sozinhos.

Talvez, apenas talvez, a vontade de estar neles seja apenas uma forma mais fácil, sem fricção de suprir a cota de pertencimento e contato de que todos precisamos.

https://twitter.com/_aSol/status/503445273847533568