A obra final de Salvador Dalí

Retrato clássico de Salvador Dalí.

Nota do editor: A Aline é redatora, escreve em seu blog e no Escritório Feminista, da Carta Capital, e todos os sábados dispara a newsletter Bobagens Imperdíveis. O texto abaixo veio na edição #47 e achei tão sensacional que pedi a ela permissão para republicá-lo aqui, no Manual do Usuário. Para receber mais textos e reflexões legais como essa, assine a newsletter dela.

Esteve em cartaz em São Paulo, entre os dias 19 de outubro e 11 de janeiro de 2015 no Instituto Tomie Ohtake, uma exposição do Salvador Dalí (o artista com bigode esquisito da foto acima).

Como fica perto da minha casa (consigo ver da janela do meu escritório a estranha figura do prédio do instituto, uma torre listrada de roxo e azul que se destaca no horizonte feito construção alienígena que deve ter caído ali por acidente e ninguém se preocupou em remover porque muito ocupado em construir outros prédios), resolvi ir na tal exposição ver o que eu poderia aprender sobre esse que é um dos principais representantes do surrealismo.

Já esperava por uma fila, como se pode esperar de qualquer programa mais ou menos popular nesta gloriosa cidade de meu deus, onde as pessoas vão sempre para os mesmos lugares nas mesmas horas e nos mesmos dias: litoral no feriado, trabalho no meio da semana, estação de trem nos horários de pico, exposições no fim de semana, etc. Uma linda sincronia, essa do povo de São Paulo.

A fila estava lá, não tão grande, é verdade, mas estava; minhas expectativas foram cumpridas quanto a isso, mas fui desavisada de que encontraria ali a obra final de Salvador Dalí, uma verdadeira masterpiece do surrealismo.

(Cabe antes umas breves pinceladas sobre o surrealismo e sobre o artista, mais como efeito de suspense do que qualquer outra coisa.)

O movimento surrealista é o movimento das asas da imaginação em pleno vôo pelas terras da loucura e caracterizou-se por trazer em suas obras (seja nas artes plásticas, literatura ou cinema) o poder do inconsciente, o sonho, o abandono à lógica — ou, como escrito no Manifesto Surrealista, o horror às atitudes realistas, que seriam hostis a todo impulso intelectual; o rebaixamento da lógica como algo que serve para resolver problemas secundários; e até mesmo a crítica à nossa mania de tentar classificar tudo, de reduzir o desconhecido ao conhecido.

Ou ainda, na minha leiga definição, surrealista é aquela pintura doida que a gente não entende, apenas sente.

Salvador Dalí foi um mestre em pirações visuais, mas importante lembrar que, antes de ser um surrealista, Dalí foi um excêntrico. Era até muito criticado por chamar mais atenção do que suas obras, com seus looks pomposos e uma arrogância quase caricatural. Uma vez ele escreveu: “toda manhã quando acordo, experimento um prazer supremo: este que é ser Salvador Dalí. E então me pergunto, maravilhado, que tipo de coisa prodigiosa ele fará hoje, esse tal Salvador Dalí”.

Foi expulso da Academia de Artes de Madri depois de declarar que ninguém ali era bom o suficiente para lhe dar aulas (risos), mas não foi a última treta na qual se meteu. Confiscaram a carteirinha dele de surrealista e o expulsaram do movimento por apoiar o ditador Francisco Franco durante a guerra civil espanhola.

(O que acho um motivo no mínimo justo de expulsar alguém de um movimento.)

É também digna de nota sua versatilidade, por ter criado para o cinema com o diretor Luis Buñuel (com Um Cão Andaluz) e pelas suas contribuições para a Disney (com o curta animado Destino) e a Hitchcock. Mas como nem só de glamour vivem os artistas, Dalí fazia uns freelas aqui e ali, como desenhar a marca do pirulito Chupa Chups.

Impressionante, né? Bem, nada disso eu vi na exposição. Não que a exposição estivesse pobre de informações ou incompleta; eu é que não consegui ver nada com aquele tanto de gente amontoada na frente dos quadros.

A fila do lado de fora continuava do lado de dentro (e por essa eu não esperava), especialmente porque na entrada de uma das salas de exposição as pessoas paravam para tirar foto na frente da cara do Salvador Dalí plotada na parede. Ok, eu pensei, passando daqui vai fluir de boa.

Ledo engano.

Se eu quisesse ver um quadro mais de perto, precisava seguir na fila, mais lenta que avenida engarrafada às seis da tarde, formada de pessoas com celulares e câmeras a postos para tirar uma bela fotografia quando chegasse a sua vez.

(Alguns nem esperavam; do lado de fora da fila estendiam os braços para erguer a câmera, como quem tira foto em show de música, e buscavam num clique a captura de um quadro que só conseguiriam ver de perto pelo visor do celular.)

Salvador Dalí pela tela do smartphone.
Foto: seldomseengirl/Flickr.

Timidamente, eu buscava espaço na frente dos quadros menos disputados, tentando aproveitar um pouco daquela experiência ainda que eu não estivesse tirando fotos — e esta aparentemente era a única maneira correta de aproveitar aquela exposição.

Foi quando eu percebi. Quase por acaso, me dei conta de que eu estava diante da obra final de Salvador Dalí — enquanto tentava me posicionar em um ponto onde eu não atrapalhasse a circulação de tantos fotógrafos e documentaristas.

É com alguma pobreza de palavras que vou tentar descrever esta obra final:

Sua última criação, ainda que póstuma e involuntária, foi uma exposição artística onde a arte só servisse como pano de fundo para fotos tiradas por celulares e pequenas câmeras — e as pessoas passassem horas paradas numa fila esperando sua vez de clicar uma imagem que poderia ser encontrada facilmente na internet.

Sim, uma obra viva que transcendeu o tempo e o suporte estático da arte visual (a pintura, o desenho), para despir de toda lógica a própria realidade na qual a arte estava contida. Ficou confuso? É porque é surrealismo.

Havia também o caráter onírico que caracterizou o movimento, se tantas pessoas achando normal aquela loucura pareciam até personagens de um sonho. Eu estava mesmo vivendo aquilo ou estava sonhando? Foi com tal força que fui impactada por esta obra que até fiquei na dúvida.

Eu estava anestesiada pelo que o Manifesto Surrealista definiu como o maravilhoso: o maravilhoso é sempre belo, qualquer maravilhoso é belo, inclusive o maravilhoso selfie (outrora conhecido como autorretrato) que um casal sorridente tirava na frente de um painel com várias fotos do artista.

(Não tome como uma crítica ou tentativa por minha parte de me sentir superior: “esses bárbaros que não apreciam a arte como deveria!!”. É indubitável que essas pessoas gostam de arte, com certeza mais do que eu, se tão empolgadas a ponto de querer registrar tudo em foto. Eu só estava ali a passeio; aquelas pessoas, elas sim pareciam levar o negócio a sério.)

Não é possível explicar por que as pessoas preferiam gastar mais tempo registrando as imagens com o celular, sendo que é possível encontrar as mesmas imagens com muito melhor resolução em uma busca rápida no Google, sem precisar sair de casa e enfrentar filas.

E o que exatamente vão fazer com essas fotos? Mostrar para a família? Consultá-las? Postar nas redes sociais para provar que visitaram aquela exposição? Preencher a memória do celular ou da câmera com mega bytes de lixo virtual que nunca mais será usado, que é pra isso mesmo que se gasta algumas centenas de reais a mais num aparelho com mais capacidade de armazenamento?

Não há lógica nenhuma nisso, e foi com algum constrangimento que fiquei parada tentando entender — o mesmo constrangimento que arrebata a alma humana quando diante de uma obra muito mais complexa que sua própria compreensão.

Saí dali tocada, sinal de que a obra alcançou seu objetivo. Fiquei apenas pensando que talvez todos aqueles grandes fotógrafos que passaram pela exposição estivessem alheios ao fato de que eram parte de uma das mais intrigantes obras surrealistas de Dalí.

Não, provavelmente não se deram conta, se tão concentrados em fotografar para conseguir alguns likes às custas do trabalho de um certo pintor catalão.

Se isso não é surreal, eu não sei o que é.

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6 comentários

  1. Fui na nessa exposição, fiquei fascinado pelas obras, agora não foi fácil tentar aproveitar a exposição já que 90% das pessoas que lá estava, só queriam tirar uma foto para botar no face, não sei o que esse tipo gente tem na cabeça, chega a ser ridículo ver as pessoas se amontoando para fazer fotos só para mostrarem que foram em tal lugar.

  2. Obrigada!!! Achei que apenas eu achava BIZARRO você ir em lugares estar em contato com coisas e momentos únicos e no fim ver tudo por uma mini tela, compartilhando no facebook e não com quem está ALI com você. Me sentia um peixe fora d’água, depois desse post ainda me sinto, mas um pouco mais sensata e compreendida.

  3. Lá no alto do “Monte do viciado” mais um comentarista (obviamente viciado em escalar letras desde a época em que estas eram visíveis apenas à noite como pontos verdes brilhantes) alcança a última letra amontoada. Aprecia a vista Dali de cima. Ele vê a paisagem (de frequentes mudanças) estabilizando em algumas imagens de pessoas de olhos vazios usando antolhos de smartphones… Ele descreve tal imagem numa pedra e desaparece.

  4. Exposições são o ápice desse fenômeno tão criticado de ficar registrando tudo que se faz, afinal tem uma aprovação social irrestrita (ninguém fala “que merda ir na exposição do Salvador Dali”) e obras de arte são propícios para fotos.

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