Diversos aparelhos de ar condicionado num prédio de Hong Kong.

Para Lee Kuan Yew, fundador e premiê de Singapura, ar condicionado foi a invenção mais importante do último milênio


24/3/15 às 9h39

Faleceu ontem (23) Lee Kuan Yew, fundador e ex-primeiro-ministro de Singapura, cargo que ocupou por três décadas (!) após a independência do país, em 1959. Alguns consideram-no o único líder que levou uma nação do terceiro ao primeiro mundo no intervalo de uma geração. Singapura é, hoje, o 9º país do mundo no IDH e tem renda per capita elevada, de cerca de US$ 60 mil.

Uma curiosidade sobre Lee é a sua relação com o ar condicionado. Singapura está localizada na faixa dos trópicos e tem clima equatorial, sem estações distintas, quente e bastante úmido. Essas características não são as mais confortáveis para se trabalhar, por isso o ar condicionado teve e continua a ter um papel importante por lá.

Em entrevista à NPQ publicada em 2009, o repórter Nathan Gardels perguntou a Lee o que, além da tolerância multicultural, uma marca de Singapura, teria permitido ao país prosperar. Sua resposta?

Ar condicionado. O ar condicionado foi a invenção mais importante para nós, talvez uma das invenções definidoras da história. Ele mudou a natureza da civilização ao permitir o desenvolvimento nos trópicos.

Sem o ar condicionado você só consegue trabalhar nas primeiras horas do dia ou no crepúsculo. A primeira coisa que fiz ao tornar-me primeiro-ministro foi instalar ar condicionado nos prédios onde os serviços civis funcionavam. Isso foi decisivo para a eficiência pública.

No mesmo ano o Wall Street Journal perguntou a diversos líderes e pessoas importantes do século XX qual teria sido a invenção mais importante do milênio. Eletricidade? Internet? Motor a combustão? Prensa tipográfica? Para Lee, nada disso: foi o ar condicionado.

Essa anedota nos diz duas coisas. Primeiro, como a tecnologia muda condições naturalmente adversas e as elimina, nivelando o “campo de batalha.” Outra, que nem sempre os melhores upgrades em produtividade estão no que comumente classificamos como tecnologia, essa de consumo constituída por chips e telas brilhantes. Às vezes um clima mais agradável, uma cadeira mais ergonômica ou mesmo uma iluminação melhor trazem mais benefícios do que um computador novo e super rápido.

Lee Kuan Yew tinha 91 anos. A Economist tem um bom obituário dele; a Folha, outro. No The Awl, um outro lado do líder, o das limitações dos direitos civis e políticos da população.

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6 comentários

  1. vlw, @ghedin:disqus, tava pesquisando sobre ele para embasar uma pesquisa, e foi interessante ver como ele percebia o mundo.

    uma coisa interessante é que ele, apesar do grande avanço nacional, sacrificou deliberadamente um pouco da liberdade de expressão. desse modo, fica um alerta para nós, que queremos derrotar a corrupção (tal como ele fez) e poder protestar à vontade nas ruas e xingar muito no twitter…

    como conciliar esse anseio da população com esse traço marcante de nossa cultura? :/

    abs,

  2. A invenção do ar condicionado e seu impacto na sociedade também é tema do ótimo livro How We Got to Now (ainda sem tradução no Brasil), do Steven B. Johnson.

    O livro conta como invenções de coisas aparentemente simples (como ar condicionado, lâmpada, óculos) impactaram a sociedade e influenciaram a história humana. É uma ótima leitura para quem gosta de tecnologia e de entender a influência profunda dela na sociedade.

    Fica a dica.

  3. Aqui em Hellbeirão Preto, só ar condicionado salva haha. Ele tá certo, trabalhar, concentrar ou, pior ainda, fazer algo manual, no calor, é desumano.