Na China, as pessoas usam códigos QR e apps bem diferentes dos daqui

Senhor chinês mexendo no celular.
Foto: Michael Coghlan/Flickr.

Quando fiz meu cartão de visitas cometi o erro de incluir um código QR enorme nele. Na época, com um Nokia N82 no bolso, era um conceito do futuro: sempre via sobrancelhas subindo, surpresas, quando apontava a câmera do celular para aqueles quadradinhos e, em seguida, meu site abria no navegador. Hoje é difícil impressionar alguém com o mesmo truque — porque, convenhamos, é mais fácil digitar o endereço do site do que procurar e baixar um maldito app que leia códigos QR.

Mas ainda resta uma esperança de que o ocidente siga os passos da China, encontre uma utilidade para o código QR, ele deixe de ser motivo de chacota e passe a ser encarado com respeito — e, por tabela, salve o investimento que fiz naqueles mil cartões. Lá, desde 2011, quando o WeChat incorporou o reconhecimento dessa etiqueta virtual e popularizou o uso dela, código QR virou coisa séria.

Essa é apenas uma das peculiaridades de um país de dimensões continentais e mais de um bilhão de pessoas que, por uma série de fatores, desenvolveu sua tecnologia de consumo apartado do resto do mundo.

O Partido Comunista impede que gigantes norte-americanas, como Google e Facebook, finquem bandeiras na China. Embora controverso, esse protecionismo abriu espaço para que que soluções caseiras florescessem. E mesmo que alguns serviços online tenham tido inspirações bem diretas, como no caso do Weibo, o “Twitter da China”, o desenvolvimento deles em um ambiente livre da competição norte-americana levou esse e outros “clones” a fins diferentes de qualquer coisa vista hoje nos EUA ou aqui, no Brasil.

Agora, com as empresas chinesas de software abrindo capital nas Bolsas desse lado do mundo e fazendo IPO recordistas (o do Alibaba, de US$ 25 bilhões, é atualmente o maior do mundo), as atenções se voltam ao país. Mas como é usar um smartphones lá?

Androids diferentes, iPhone tardio

Os smartphones da Xiaomi.

É diferente, no mínimo. Para início de conversa, o Android que eles usam não tem muito a ver com o nosso. Como a presença do Google é mínima, as fabricantes locais pegam o sistema AOSP (leia-se: sem os serviços Google), dão um tapa no visual, incorporam suas próprias soluções e instalam essas ROMs em seus smartphones. A mais próxima do ocidente é a MIUI, da Xiaomi, que analisamos com mais atenção aqui. É um cenário tão bizarro a nós que a página oficial da empresa ensina os usuários a mexer com ROMs personalizadas.

A falta do Google implica, também, na ausência do Google Play. Sem a principal e maior loja, as locais se multiplicam. São, no mínimo, seis disputando a atenção do usuário. E não só: alguns apps fazem uma espécie de “propaganda cruzada”, exibindo links para downloads de outros grandes apps, facilitando a vida do usuário. A multiplicidade de ofertas e o proficiência dos chineses ao lidarem com várias lojas de apps abre espaço para malwares — é o preço que se paga, certo?

O iPhone também é vendido e relativamente popular, embora seja um produto recente à maioria dos chineses. A China Mobile, maior operadora do país com 700 milhões (!) de clientes, só começou a vender o smartphone da Apple no começo de 2014.

Relatos móveis do outro lado do mundo

Essas e (muitas) outras informações li num post escrito por Dan Grover. Alguns meses atrás ele largou tudo no Vale do Silício, na California, e mudou-se para Guangzhou, China. Hoje, Grover é gerente de produtos do WeChat e aproveitou um tempo livre para compartilhar conosco, ocidentais, os hábitos dos chineses no uso de smartphones.

Na China, código QR é levado a sério.

O artigo é fascinante e se o seu inglês estiver minimamente afiado, recomendo a leitura do original. Enquanto conhecia um pouco mais daquela realidade quase alternativa, foram vários os momentos em que fiquei bastante surpreso. Por exemplo, o lance dos códigos QR. Eles usam para muitas coisas, desde o básico acesso a uma URL (como o meu cartão) até operações avançadas, como autenticação em sessões únicas, dispensando assim a digitação de uma senha.

Questões que por aqui são tratadas com estardalhaço, como a utilização da localização do usuário, são triviais por lá. Se você já deu uma olhada no WeChat, por exemplo, deve ter reparado numa opção “Pessoas por perto” que permite encontrar desconhecidos que estão fisicamente perto de você para conversar. É o comportamento esperado em apps como o Tinder, mas imagine a tempestade (em copo d’água?) que rolaria se o Facebook incorporasse algo parecido? O uso da localização é difundido e serve para muitas finalidades, inclusive bombardear os chineses com anúncios, claro.

Os códigos QR, o encontro de desconhecidos e outras funções são replicadas em muitos apps. A China segue uma tendência diametralmente oposta à do ocidente: se por aqui a moda é desmontar apps em outros menores e mais específicos, por lá todo app agrega mais e mais funções. Chamar o WeChat de “app de bate-papo”, ou o Baidu Maps de “app de mapas” é um tanto reducionista. É comum que algumas funções não relacionadas entre si fiquem agregadas em uma aba “Descoberta”, como as dessas imagens:

Exemplos de funções agregadas em vários apps chineses.

O WeChat, como explica Grover, tem funções que vão muito além da conversa: conferência por vídeo, meio de pagamento, um negócio parecido com o Evernote para salvar anotações, identificação de músicas (como o Shazam) e, seguindo a Lei de Zawinski, que diz que todo software tenta se expandir até conseguir ler e-mails, um cliente de… e-mails.

Comprar, aliás, é outra função cujo desenvolvimento traçou caminhos bem diversos dos desse lado do mundo. Antes, era preciso preencher longos formulários em cada app, específicos para cada um dos mais de 30 bancos de lá. Na medida em que os apps cresceram, foram incorporando e facilitando esse processo. Ferramentas como Alipay e Tencent, os PayPal e PagSeguro chineses, são usadas e populares, mas, como escreveu Grover, por lá “todo app tem uma carteira”, ou seja, não é preciso baixar apps específicos de Alipay ou Tencent para usufruir dos serviços; eles vêm embutidos nos principais apps.

E o visual, claro, tem muitas curiosidades interessantes. Coisas como aplicação de temas, mascotes engraçadinhos e escudos de proteção para identificar processos “seguros” são onipresentes. Badges (as bolinhas que no iOS indicam mensagens/itens não vistos), porém sem identificação, são um elemento de interface largamente popular, raramente (nunca?) visto em apps ocidentais. Widgets esquisitos e telas de abertura (splash screens) também fazem sucesso.

Alguns mascotes de apps chineses.

Talvez a situação mais inesperada seja a forma com que os apps lidam com a relação entre pessoas físicas e empresas nas redes sociais. A interface preferida é a de mensagens por texto, mas há regras especiais para “contas oficiais”. No Moments, espécie de feed de notícias do WeChat, é notável o tratamento que contas de não-pessoas tem. O ambiente é livre desses posts de uma forma meio difícil de imaginar replicada no Facebook ou Twitter, ambos cada vez mais dependentes de conteúdo comercial para seguirem em alta. Seria bom copiarmos pelo menos isso dos apps chineses.

Reforçando o convite à leitura, o post completo está aqui.

Acompanhe

Newsletter (toda sexta, grátis):

  • Mastodon
  • Telegram
  • Twitter
  • Feed RSS

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

14 comentários

  1. Passei o mês passado na Ásia, nos metrôs onde o uso de smartphones é assombroso, não pude deixar de notar as splashscreens e os joguinhos hiper coloridos, o uso de QR codes dentro dos supermercados, lojas e catracas é comum.

  2. Lembrei de outro fato:
    Será que deve ser por causa desse motivo (o comportamento dos chineses no mundo mobile é bem diferente do nosso) que o Baidu e outros serviços chineses são mal vistos por aqui?
    Como é citado no texto, os chineses não se importam muito com anúncios ou splash screens com anúncios :S

  3. Ah Ghedin, acabei esquecendo de deixar este comentário:
    Muito obrigado pela dica da extensão Kill News Feed, tem me ajudado bastante :)

  4. Acho muito foda essa área tecnologica que a China vem criando durante os anos. Eu mesmo possuo um Xiaomi Mi3 e é um ótimo aparelho, digo o mesmo sobre o MIUI (acho beeem melhor que o AOSP inclusive). Torço pra que outras empresas da China comecem a dar certo aqui desse lado do planeta, mais concorrência sempre é bom.

  5. Sempre achei o Google Goggles um app indispensável desde que comecei a usar Android, então sempre usei QR codes, mas a Google bem que podia incluir as funcionalidades do Goggles no app de busca nativo do Android.

  6. Ótimo artigo Ghedin!
    Gostei desse conceito de juntar diversos recursos em um app só, fica meio confuso, mas parece ser bem produtivo :)

  7. Já disse isso aqui antes (ou em outros blogs que o Ghedin escreveu) mas continuo achando QR codes extremamente úteis e utilizo com muita frequência. Na minha opinião é a melhor forma de se transmitir um Link de um meio físico pro digital. Ou até de um digital pro outro.
    Como uso WP e ele tem um leitor nativo desde a primeira versão, pra mim é uma mão na roda. Entendo que pras outras plataformas tem esse inconveniente de ter que procurar um app pra uma coisa tão básica, mas acho que vale o esforço.

    1. Acho que o Ghedin quis dizer que nossos buscadores (lê-se Google) estão tão avançados que é mais rápido e prático fazer uma busca do que o atual processo de apontar para o QR code e esperar se direcionado.

      Também vejo coisa similar com outras tecnologias. O Pocket tem uma versão premium que salva qualquer artigo em seu banco de dados permanentemente e ainda faz pesquisas internas no conteúdo ao contrário da versão free que só pesquisa o título e aquela breve introdução. Mesmo assim, e mesmo pagando, sempre vou no Google jogo 3 palavrinhas e chego no artigo que quero. Idem com o Evernote.

      1. Um shopping aqui usa para você armazenar o local em que está estacionado o carro.
        Um amigo meu usava para desligar o despertador do celular, deixando o papel na sala, fazendo com que ele se levantasse.
        O que eu uso bastante é quando alguém posta um App, dai uso o QRCode para instalar o aplicativo no meu celular. Isto pode ser bastante útil para evitar fraude.

        1. O local que está armazenado o carro em um QR Code?

          Vem no bilhete da pessoa aquele quadrado? A pessoa faz como para ler? Tem que ir em uma máquina e passar? A pessoa tem que pegar o celular, baixar o aplicativo e passar?

          Não seria mais fácil e barato vir escrito no bilhete: “Fila B, Posição 5”??

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!