A virtude dos livros de colorir para adultos é nos dar tempo para pensar

Livro Jardim Secreto e alguns lápis de cor.

Há algumas semanas acompanhamos, estupefatos, a ascensão dos livros de colorir para adultos. Com a justificativa do combate ao estresse e valendo-se de gravuras super detalhadas para separá-los de desenhos que podemos imprimir de graça em qualquer site infantil, esses livros são um fenômeno editorial. Só no Brasil mais de 100 mil cópias já foram vendidas.

Na matéria do Dicas de Mulher sobre o tema, a psicóloga Letícia de Oliveira explicou:

“Gostei muito dessa nova tendência e vejo muitos benefícios nessa atividade, tais como: o treino da concentração e da criatividade, por mexermos com o nosso lado lúdico; o combate ao estresse; a diminuição da ansiedade e o aumento da tolerância à frustração.”

Em entrevista ao site A Crítica, a professora de inglês Lorena Pimentel disse:

“Quando estou colorindo, não penso nos problemas do dia a dia. Uso toda a minha concentração nos desenhos, que são muito detalhados e requerem a minha atenção total”

A atividade de colorir um livro tão detalhado é laboriosa e, ao mesmo tempo, desempenhada no “modo automático.” No máximo se exige a escolha de cores, mas mesmo isso, dada a temática dos desenhos (um jardim, uma floresta), limita o espectro das possíveis a quem se importa com tais detalhes. E, claro, tem que não ligue muito para a fidelidade dos seus jardins e use quaisquer cores. Nada de errado com ambas as abordagens. Na real, não importa.

O que me chama a atenção é como as justificativas para se gastar R$ 30 com desenhos para colorir expõem um problema contemporâneo ao qual estamos todos sujeitos e, não de hoje, é fruto de preocupação e estudos sérios. Livros de colorir fazem sucesso não por remeterem à infância, nem pelo desafio, muito menos para aflorar talentos adormecidos. Eles estão liderando os rankings de livrarias porque nos permitem desconectar, nos permitem mergulhar em nossos pensamentos. Permitem-nos ficar sem fazer nada.

Parece bobo, mas o ócio é muito importante. Ao mesmo tempo, é algo que estamos perdendo, ou melhor, trocando por ações pretensamente ociosas, que se disfarçam como tais. Essas ações estimulam e, por isso, são tentadoras. A principal delas? Rolar o feed do Facebook, Twitter, Tumblr ou qualquer outro app do tipo. Essa ação virou o estado padrão de quem “não está fazendo nada.” Só que ficar sem fazer nada mesmo é outra coisa. Vegetar no Facebook dá trabalho e é potencialmente danoso.

Foto de Johanna Basford.
Foto: Johanna Basford/Facebook.

Johanna Basford, autora do livro de maior sucesso do gênero, Jardim Secreto, diz que sua obra é um “detox digital”:

“Acredito que nesse mundo digital uma atividade analógica livre de telas e Wi-Fi é um alívio para muitos de nós. É a chance de desplugar e se deliciar em uma atividade sem a distração de uma conversa de Twitter, atualizações de status ou novos e-mails chegando. Acho que um livro de colorir oferece um detox digital para essa geração cansada de ver tudo por telas.”

É uma análise certeira e uma sacada genial para o momento em que nós, seres humanos, nos encontramos, cheios de distrações e, por elas, solidificando certa resistência a ficarmos sós.

Assim, a Fabi está nada mais do que corretíssima em sua provocação no Twitter:

Seja lavando louça, seja colorindo um livro, todo respiro do tipo na nossa rotina é bem-vindo. São períodos para pensar melhor na vida, nos problemas, ou fugir deles. Duas coisas diametralmente opostas e igualmente sufocadas pela estimulação exacerbada e a atenção contínua que telas com rolagem infinita nos demandam.

Torço para que mais tendências como a desses livros para colorir apareçam. Ou melhor, se reinventem — afinal, esse papo de detalhes e a restrição “para adultos” é só uma nova roupagem, uma livre da culpa que fazer coisas de criança parece impor a gente grande. Como aqueles mesmos feeds viciantes do Facebook e outras redes sociais nos provam dia após dia, estamos precisando desesperadamente de mais tempo para refletir.

Capa do livro Jardim Secreto.

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Foto do topo: danischwanke.

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14 comentários

  1. Cara, curti a provocação mas achei o texto muito inconclusivo. Não dá para sacar se o seu ponto exato com os livros. Você acha ruim a gente precisar de muletas para o falso ócio, é isso? Ou você acha legal o fenômeno?

    De qualquer forma, o que me incomoda é esse comportamento em ondas. Do nada, parece que a única forma de desestressar é comprando esse livro específico. Da mesma forma, que você só vai ser feliz se puder viajar.

    1. Acho positivo, Kaluan Bernardo. (No último parágrafo digo que “torço para que mais tendências como a desses livros para colorir apareçam.”) A celeridade das nossas rotinas e o preenchimento de todos os espaços antes vagos em nossas agendas estão provados; o “não ter tempo” é o padrão, e não de hoje — o Facebook só consolida as ideias de sociedade de controle de Deleuze. Se essa é a nossa realidade, não adianta lamentar ou bater de frente com as distrações. O melhor é encontrar maneiras inovadoras de contornar tais problemas. O livro de colorir é uma delas.

      Sobre o comportamento em ondas, eu tenho lembranças disso rolando desde antes da Internet (entreguei a idade, haha!). Quando era criança, aqui no interior do Paraná, muita coisa acontecia em “ondas”: uma hora todos os moleques do bairro estavam soltando pipa, depois todo mundo aparecia com ioiô, dali algum tempo a moda era bilboquê (que só agora aprendi que não é “biblioquê”), video game, futebol na rua, vôlei… Hoje essas coisas são maiores e mais generalizantes porque estamos menos distantes dos outros e mais expostos a tendências, graças à Internet.

      1. Apesar de que ainda fico pensando se não deveríamos buscar o verdadeiro ócio, o “não fazer nada” na medida do possível. Ele é importante demais para “pensar melhor”.

      2. Essa história de onda me fez lembrar os famosos “jardins zen”, que foram uma febre há algum tempo nas empresas, e no fundo tinham uma função parecida com a dos livros: alívio de stress, ou desconexão momentânea da realidade.

  2. Cada dia que passa eu fico mais chocado com nossa sociedade.
    Uma sociedade doente, onde o trabalho/profissional vem antes da pessoa, onde as obrigações criadas por não sei quem, se perpetuam e são introjetadas imediatamente no modo de pensar de todos.
    Aí chega ao ponto em que você, genericamente falando, tem que trabalhar para ter dinheiro para comprar um livro para aliviar o estresse gerado pelo trabalho.

    Estamos num círculo vicioso extremamente maléfico, tanto para as pessoas, quanto para a natureza.

    E sobre o ‘livro de colorir < lavar louça', o livro de colorir é tipo um iPhone. Cria um poder simbólico, uma construção do que você deve ser, quer ser, ou sei lá o que.

    Acho que meu plano de comprar uma chácara e viver do que eu planto vai ter que entrar em ação. Mas primeiro eu tenho que trabalhar… ops, pera!

  3. Já vi um monte de teorias do porque DESTE (sim, se for o A Floresta Secreta não serve e as tia ainda negativa sem dó na Amazon) livro está fazendo tanto rebouliço. As melhores são:

    1. A do Instagram que diz mais ou menos que agora toda pessoa feia vai ter algo bonito e em comum pra mostrar;
    2. O ilusório entendimento do termo “Livro Antiestresse” como uma categoria de catalogação aceita oficialmente;
    3. Evolução natural dos leitores do “Destrua Este Diário”, assim como aconteceu com Crepúsculo >>> 50 Tons de Cinza.

    P.S.: estou negociando com uma editora o primeiro livro anti-barriga do Brasil pra ler em pé enquanto pula corda e ingere laxante. Volto aqui nos coments quando tiver atualizações. Bjos!!!!

  4. Isso me lembra que meu passatempo quando adolescente era desenhar… Horas e horas a fio desenhando Gundams.
    Hoje substitui por serviços domésticos (infelizmente).

  5. Isso me lembra que meu passatempo quando adolescente era desenhar… Horas e horas a fio desenhando Gundams.
    Hoje substitui por serviços domésticos (infelizmente).

  6. Lavar louça (ou arrumar a casa) não é fugir da rotina, pelo contrário, é mais uma rotina e estafante. Se fosse prazeroso ou uma fuga para muitos, não existiria pessoas pagando para outras fazerem =p (não resisti a fazer esta provocação).

    O Livro de Colorir nada mais é que uma forma de hobby também. Uma “rotina” para sair da rotina, por assim dizer. Acho que hoje as pessoas meio que pensam “o que vou fazer de hobby hoje”? Sair para andar a pé, de bicicleta, conhecer um museu, ficar em casa jogando, conversando, lendo algo, fazendo alguma arte (como um livro de colorir, um desenho aleatório)…

    Eu quando me dá na telha (e tenho dinheiro sobrando), pego um ônibus e vou sair por aí meio sem rumo. Tinha uma época que eu fazia isso com mais afinco (e conheci lugares em São Paulo muito antes de ganharem uma projeção maior, como a região rural de Marsilac). Quanto eu tinha uma moto, mesma coisa: pegava e andava sem um rumo exato (hoje estou sem).

    Em casa, jogo algum jogo no pc comentando na internet =p , ou fico assistindo a TV. São formas de hobby. Já pensei em desenhar, mas minha paciência com isso é curta.

    Precisamos nos desconectar, mas o temor de muitos é ficar de forma insegura, não é só o medo de estar offline, desconectado. Mas sim também de enfrentar o mundo, “este que sempre se volta contra nós”. Ficar na rua, jogar conversa fora e temer perder o dinheiro, o celular ou a vida. Andar de carro ou de moto e temer um acidente, seja por erro nosso ou alheio.

    Mais fácil e cômodo ficar dentro de casa pintando um livro.

    1. As motivações e o interesse em lavar louça e colorir um livro são diferentes, Vagner, concordo. Mas o ponto não é o que vem antes, o que te leva a realizar essas ações, mas sim o efeito que geram, o que vem depois, que é a desconexão. Forçada ou voluntária, ambas funcionam. (Outra: queda de energia, ou quando o sinal da operadora morre, e por aí vai.)

      Curiosidade: dia desses, antes mesmo de pensar nesta pauta, alguém me perguntou como ter uma relação mais saudável com a Internet a fim de evitar “aquela coisa de ficar na frente do computador por inércia.” Entre as minhas sugestões, coloquei “lavar louça.” Eu também resisto um pouco a lavar a minha, mas quando vou à pia e faço o que tenho que fazer, vejo ali um gap na rotina que consigo apreciar.

      (A pergunta: http://ask.fm/ghedin/answer/128157803792 )

      1. Em um resumo, o “rolar e clicar página” é o novo “zapear o controle remoto”.

        Não acho que forçar uma desconexão gere a saída do ócio ou faça a pessoa não querer voltar depois. Claro, isso é individual. Até porque para alguns, o “lavar a louça”, “arrumar a casa”, “fazer uma obrigação de manutenção individual” faz a pessoa no final fazer a rotina de ficar off-line, mas depois a pessoa, por achar a tarefa de manutenção chata, vai lá e volta à rotina do “rolar e clicar página” ou “zapear o controle remoto”.

        “Ah, já lavei a louça, vou lá voltar ao Candy Crush / Angry Birds / Jogo do Momento / Comentar na Internet / Assistir um site de streaming”. Ou até lava a louça escutando um Spotify, assistindo algum vídeo no Youtube e por aí vai. A pessoa não se desconecta, mesmo lavando uma louça.

        (Mais uma provocação: pergunte a uma dona de casa ou empregada doméstica se lavar a louça (ou qualquer outra tarefa de manutenção) é uma tarefa bacana? – ela vai querer se desconectar da tarefa de limpeza =p Não é todo mundo que tem lava louças =3 )

        Pintar um livro de colorir não requer um esforço, uma paciência e principalmente, gasto de energia. É apenas passar um lápis com a cor baseada na escolha lógica da pintura. Não precisa nem pensar muito, a não ser que a pessoa queira brincar um pouco de arte e fazer algo fora do comum.

        E um “pintar um livro de colorir” é também igual a jogar paciência, jogar algum jogo de lógica simples (resta-um, por exemplo), enfim…

        Acho que no final, o que discutimos é a relevância do que fazemos na vida. Queremos nos sentir útil, mas…

        1. Ah sim, há um viés na minha reflexão, o de quem passa muito tempo na frente de telas — e escreve para um público que também está nessa situação. Imagino que uma pelada no fim de semana não seja, para um jogador profissional, a mesma diversão que é para quem só joga ali, naquele momento, sem compromisso algum.

          E quando eu falo “desconexão”, é mais no sentido de redes sociais, jogos casuais, enfim, ficar à toa com coisas possíveis com a web e smartphones. Não incluo Netflix, ou Spotify, nessa categoria; são atividades (ver um filme, ouvir música) que fazíamos antes da Internet e o que muda, com esses apps, é só o back-end.

          1. Sim sim, meu viés é quase próximo. Passo o dia (não todo) na frente de computadores (consertando), não de telas (só). :) Teve uma época que passava tempo na frente de telas tentando trabalhar com design para web, mas foi a muito tempo (eu tinha uns 19 anos). Me lembro que na época, fazia do trabalho um prazer. E aguentei isso por um ano. Depois, vi que meu prazer estava em consertar computadores (design para mim tinha uma irritação – atender os desejos de chefes e clientes. Minha paciência se esgotara fácil com isso). Trabalho com prazer, e por incrível que pareça, as vezes me “desconecto” quando estou montando e desmontando um computador. :)

            Bom lembrar da questão do esporte como “lazer” do esportista. O cara joga uma “pelada”, mas seu sentimento por este jogo não é o sentimento similar ao de competição em campo. Vale para um ciclista (se bem que noto em ciclistas que os passeios de fim de semana podem virar um treino para provas de longas), para um jogador de volei, etc… Bem, esporte é mais manutenção do corpo, e provavelmente quem pratica esporte por profissão, o faz com certo prazer também. Senão não seria esportista :)

      2. Eu tendo a pensar que os livros de colorir ou qualquer outra atividade dessas são eficientes na medida em que tiram a pessoa da realidade, fazendo com que ela até mesmo esqueça o espaço/tempo, como se tivesse feito uma viagem para um mundo sem preocupações. No meu caso, quando isso acontece, o sentimento de renovação é tremendo. Talvez isso é o que definem como “higiene mental”.

  7. Lavar louça (ou arrumar a casa) não é fugir da rotina, pelo contrário, é mais uma rotina e estafante. Se fosse prazeroso ou uma fuga para muitos, não existiria pessoas pagando para outras fazerem =p (não resisti a fazer esta provocação).

    O Livro de Colorir nada mais é que uma forma de hobby também. Uma “rotina” para sair da rotina, por assim dizer. Acho que hoje as pessoas meio que pensam “o que vou fazer de hobby hoje”? Sair para andar a pé, de bicicleta, conhecer um museu, ficar em casa jogando, conversando, lendo algo, fazendo alguma arte (como um livro de colorir, um desenho aleatório)…

    Eu quando me dá na telha (e tenho dinheiro sobrando), pego um ônibus e vou sair por aí meio sem rumo. Tinha uma época que eu fazia isso com mais afinco (e conheci lugares em São Paulo muito antes de ganharem uma projeção maior, como a região rural de Marsilac). Quanto eu tinha uma moto, mesma coisa: pegava e andava sem um rumo exato (hoje estou sem).

    Em casa, jogo algum jogo no pc comentando na internet =p , ou fico assistindo a TV. São formas de hobby. Já pensei em desenhar, mas minha paciência com isso é curta.

    Precisamos nos desconectar, mas o temor de muitos é ficar de forma insegura, não é só o medo de estar offline, desconectado. Mas sim também de enfrentar o mundo, “este que sempre se volta contra nós”. Ficar na rua, jogar conversa fora e temer perder o dinheiro, o celular ou a vida. Andar de carro ou de moto e temer um acidente, seja por erro nosso ou alheio.

    Mais fácil e cômodo ficar dentro de casa pintando um livro.

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