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No AdoteUmCara, a iniciativa é sempre delas

Fachada da loja do AdopteUnMec, em Paris.

Em 2012 Paris ganhou uma loja pop-up diferente — para dizer o mínimo. Em vez de produtos industrializados ou mesmo orgânicos, homens em embalagens gigantes estavam expostos na vitrine. Um deles foi parar dentro de um carrinho de mercado! Ao olhar para a fachada lia-se AdopteUnMec.com, endereço de uma rede social de encontros.

A loja não era, afinal, uma loja de verdade, mas sim uma ação de marketing do referido site. Lançado em 2008 pelos amigos Manuel Conejo e Florent Steiner, ele tem por objetivo promover encontros, e para se diferenciar do mar de redes sociais e apps com a mesma promessa (Tinder, OkCupid), aposta numa metáfora comercial: lá, quem manda é o cliente. Ou melhor, a cliente.

A ideia do site surgiu em uma festa, quando os dois fundadores repararam em um grupo de mulheres que cochichavam, envergonhadas, sobre um site de encontros do tipo. Outra coisa que lhes chamou a atenção foi o fato de uma delas receber inúmeras mensagens indesejadas dos usuários homens. Havia ali uma oportunidade, uma forma de fazer melhor.

O empoderamento da mulher nesse cenário é, talvez, o traço mais forte do serviço, mas não é o único. A inusitada ação de marketing com a loja pop-up realizada na França ressalta outra característica que Clara Bizien, gerente internacional de marketing do AdopteUnMec, citou mais de uma vez em conversa com o Manual do Usuário: o bom humor. Tudo (apresentação, mecânicas, terminologias) faz referência a uma loja de fato e a identidade visual lembra um boudoir, espécie de cômodo privado para mulheres de antigamente, com decoração inconfundível. Detalhes como esses, que poderiam soar esquisitos ou até ofensivos em outro contexto, acabam aliviados pelo tom bem humorado das interações.

O AdoteUmCara, a versão brasileira do AdopteUnMec, foi lançado no final de 2013 e correndo por fora, sem investimentos em marketing, já tem uma presença expressiva aqui. Segundo Clara e Adrien Santos Juliao, gerente internacional júnior de marketing, já somos 200 mil cadastrados no serviço, número que coloca o Brasil como o terceiro maior dos nove países em que o AdoteUmCara atua oficialmente. (A título de curiosidade, a líder França tem oito milhões de cadastrados, o que equivale a 12,3% da população do país.)

Mais curioso que o total de usuários brasileiros é a divisão de gêneros, metade homens, metade mulheres. Clara disse que “isso não é fácil, porque geralmente [sites do tipo] tem mais caras do que mulheres”. A divisão igualitária se explica pela dinâmica do AdoteUmCara, que impede o assédio indiscriminado por parte dos homens ao mesmo tempo em que dá muito controle às mulheres nos primeiros contatos. Para a psicóloga e mestre em psicologia clínica pela PUC-SP Ligia Baruch Figueiredo, a paridade numérica entre os gêneros é um fator crucial para a manutenção da premissa: “Se tem poucos homens, o poder de escolha da mulher é diminuído — elas acabam escolhidas.”

Elas tomam a iniciativa

App para iOS do AdoteUmCara.

O AdoteUmCara funciona assim: os homens só podem conversar com as mulheres quando elas permitem. Se um cara encontra uma mulher que o interessa, sua única chance é jogar um “charme”, uma espécie de cutucada que dispara uma notificação à mulher em questão. Elas podem colocar os homens no “carrinho” (conceder permissão para conversar) ou até mesmo “reservá-los” por 24 horas — se ele aceita ser reservado, fica impedido de mandar charmes para outras mulheres dentro desse período.

O serviço mantém 20 pessoas monitorando e respondendo denúncias de uso indevido com o intuito de dar mais segurança às mulheres e propiciar um ambiente favorável à iniciativa delas. O ambiente, ou a comunidade, como diz a dupla de marketing do AdoteUmCara, é outra característica que parece bastante querida lá dentro. Clara disse ter reparado que na América Latina somos mais reticentes que os europeus em levar ao balcão de um bar ou a uma cafeteria no “mundo real” um papo começado na Internet, e que por isso o AdoteUmCara se destaca. Não é como se ele fosse à prova de engenharia social ou de gente mal intencionada, mas no que pode, os responsáveis tentam tornar a situação mais segura e controlada a fim de evitar surpresas desagradáveis e até perigosas.

Os perfis são bastante travados no que tange à personalização, mas bem humorados. A localização do AdoteUmCara, feita em Paris com a ajuda de brasileiros, é competente. Os termos são bem empregados e seguem a linha do bom humor, sem esquisitices geradas por um Google Tradutor da vida. As imagens de divulgação, que agrupam homens em “coleções” como se fossem artigos de moda, também foram adaptados corretamente — só assim para lançar um “Saldão de Quindins”, por exemplo.

Peça promocional do site AdoteUmCara.
Foto: AdoteUmCara.

Tanto o site quanto os aplicativos (iPhone e Android) são simples, mas contam com mecanismos de busca avançados — um tradicional e bastante detalhado, e outro baseado em hashtags geradas automaticamente a partir do preenchimento do perfil. Essa facilidade em encontrar pessoas a partir de características específicas é, para o AdoteUmCara, outro diferencial relevante.

Na parte dos negócios, o AdoteUmCara se sustenta através da versão francesa. Lá, homens pagam para poder mandar charmes e interagir com as mulheres. A empresa nunca recebeu investimentos externos e embora tenha se aventurado no acirrado (e lucrativo) mercado norte-americano em 2010, não atua mais lá. A versão brasileira é totalmente gratuita e deve continuar assim por algum tempo, mas os investimentos locais não devem cessar. Além de apostar em marketing e trazer novos recursos, existe o desejo de abrir um escritório no Brasil no início de 2015. No momento eles estão em busca de profissionais para tocarem essa empreitada.

Objetificação?

É difícil, em 2014, falar sobre sexualidade ignorando as questões de gênero e uma possível objetificação das relações. Nesse sentido o AdoteUmCara não é tão aberto, já que foca no contato entre homens e mulheres; relações homoafetivas não têm espaço no momento. Segundo Adrien, uma versão que contempla esse público hoje excluído já está em desenvolvimento.

No agora, mesmo com essa abordagem mais conservadora, quando o link do site cai em fóruns e outros ambientes dominados por homens, como neste de jogos, a reação mais comum é a de incredulidade. Para Clara, porém, essa impressão cai por terra assim que o usuário, mesmo o mais desconfiado, se propõe a entender o sistema e repara que é tudo na base da brincadeira.

Ligia, a psicóloga com quem conversei, vê o site de maneira positiva. Para ela, sites de relacionamento com o intuito declarado de unir pessoas num sentido romântico e/ou sexual são inevitáveis, um reflexo da nossa época e algo encarado por muitos como mais um caminho, e um bastante favorável a populações marginalizadas nesse aspecto — por exemplo, mulheres divorciadas, saídas de longos casamentos. Sobre a questão da eventual objetificação, ela também não vê o AdoteUmCara por esse viés, ou como se fosse um problema:

“A questão da objetificação é algo que os estudiosos da modernidade falam das relações de modo geral. Quando a gente trabalha com os sites de namoro, muito a partir das ideias de amor líquido de Bauman, essa é uma das críticas: que esse tipo de site é como se fosse um supermercado de gente pelo número de pessoas expostas a partir de perfis com dados que você pode escolher. Então essa questão da objetificação não é algo específico do site [AdoteUmCara], mas algo que faz parte da sociedade contemporânea, que por sua vez cria produtos de acordo com ela própria. É uma questão mais ampla.

O que esse site tem de diferente em relação aos outros é que ele escancara isso que nos outros está implícito — e o faz de uma forma engraçada. Parece que quem o formulou tinha contato com esses conceitos contemporâneos, de como as relações estão mais racionalizadas e as escolhas, baseadas mais em princípios de vantagens e lógica do que na ideia romântica em si.”

Pela quantidade de usuários conquistados aqui e nos outros mercados onde atua, e histórias bastante felizes como as três que chegaram por e-mail de brasileiros relatando terem se casado a partir de encontros propiciados pelo AdoteUmCara, há um filão interessado nessa abordagem descontraída de um assunto tão antigo e, muitas vezes, encarado como tabu.

Foto do topo: Out and About in Paris.

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7 comentários

  1. Bom, não sei se essa estratégia está correta do ponto de vista ético ou não (cansado da velha discussão sobre objetificação das pessoas), mas parece que está agradando pelo tamanho do público alcançado.
    Se você não gosta de ser exposto como um produto na vitrine (o que ocorre mesmo que não saibamos – no facebook, instagram principalmente), simplesmente não faça seu cadastro. Há diversos serviços de encontros com vários mecanismos de aproximação.

    1. Considerando que os homens normalmente não tem o menor problema em serem tratados como objetos, tem tudo para dar certo.

      Bom, já criei um perfil por lá e vou ver se funciona essa história das mulheres tomarem a iniciativa…

  2. Achei interessante a ideia desse serviço.
    Esse poder que as mulheres tem de escolher quem pode entrar em contato realmente é um baita diferencial pro serviço, que provavelmente ajuda a manter essa divisão de gêneros.

    Sobre a objetificação: não acho que esse serviço seja um problema nesse quesito. Homens participam dele somente se quiserem e ainda tem certo poder para chamar atenção das mulheres… Ao contrário de um Lulu da vida, onde a gente “participa” mesmo sem autorização e não podemos fazer nada a respeito…

  3. Ok. Tudo bem. Legal.

    Mas imagino qual seria a reação da mídia se as mulheres fossem os produtos.

    Mas como vivemos numa sociedade machista até que a proposta do AdoteUmCara se torna mais sensata.

    1. Aqui entraríamos em uma questão delicada, e uma em que não sou muito familiarizado, nem tenho tanta propriedade a falar. Mas um erro comum, básico até, é equiparar dois desiguais, ou seja, desconsiderar suas desigualdades (no Direito, é o princípio da isonomia).

      Você mesmo apontou que a nossa sociedade é machista, por isso um hipotético site que invertesse papéis soaria rude e de extremo mau gosto. É aí que está o pulo do gato e o que exime o AdoteUmCara :-)

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