Dois Apple Watch com corações na tela.

Quem manifesta o amor com impressões digitais?


31/3/15 às 9h16

Designers parecem acreditar que no futuro nos apaixonaremos por robôs e que devemos compartilhar nossas frequências cardíacas, impressões digitais e outros dados biométricos enquanto humanos ainda têm chance. Por que outro motivo eles continuam criando apps bizarros para mandar dados corporais inexplicáveis? Seguindo a tendência recente de apps para Android e iOS que encorajam casais a compartilharem suas digitais, agora os designers do Apple Watch querem que usemos as batidas do coração de quem amamos em nossos pulsos.

As tecnologias mais frustrantes e mal resolvidas empurram para cima da gente rituais e costumes em vez de permitir que os usuários brinquem por conta própria e experimentem. Em nenhum outro lugar isso é mais evidente que na escória das lojas de apps móveis, com apps como “Love Finger Scan” ou “Fingerprint LOVE.” O app Couple tem até um negócio chamado ThumbKiss™ para quem tem fetiche por cristas epidérmicas.

Print do Thumbkiss, do app Couple, em ação.

Talvez apps do tipo “Jogo do Amor nas Fileiras Policiais” estejam próximos de virar realidade. Desde o século XIX, impressões digitais têm sido coletadas a fim de identificar criminosos. Em 1980 o FBI criou o Sistema Integrado e Automatizado de Identificação de Impressões Digitais (IAFIS, na sigla original) — um banco de dados bastante retratado, embora quase sempre de maneiras irreais, em dramas policiais da TV. Hoje é a modalidade biométrica mais comum, e uma particularmente insegura já que pode ser clonada com uma simples série de fotografias.

Da mesma forma que impressões digitais são coletadas para verificar uma pessoa, elas podem simbolizar a nossa individualidade, mas a associação ao crime e à justiça permanece. Não existe, na história pré-digital, tradições como colocar a marca do dedão de alguém em um medalhão, ou outros gestos sentimentais do tipo. Alguns de nós talvez nos lembremos de tarefinhas artísticas do jardim de infância, como enfiar a mão numa lata de tinta e “imprimi-la” no papel, mas isso também não é nada romântico. Apps para sexting que envolvem impressões digitais nos pedem para ignorar a história e o contexto, e seguir a interação social esquisitona roteirizada pelos seus desenvolvedores.

“Primeiro ele me enviou seu itinerário de viagem. Eu mandei de volta minha impressão digital. Depois, ele levou nosso relacionamento ao próximo nível ao enviar, por e-mail, sua contagem de calorias daquele mês. Agora que estamos firmes, tenho a frequência cardíaca dele comigo o tempo todo.”

Da mesma forma, apps que compartilham a frequência cardíaca são tentativas de remover barreiras de espaços que, talvez, seria melhor se continuassem privados. Já existe o Re:Beat, lançado no Dia dos Namorados de 2013 e que conecta-se a um travesseiro chamado Pillow Talk, que o desenvolvedor diz permitir às pessoas “sentirem uma conexão com seus parceiros sem ter que se engajar ativamente com eles.”

Agora o Apple Watch nos dará uma maneira mais fácil de compartilhar esse dado com que amamos. Como explica na página promocional do novo produto, a empresa acredita estar criando uma “nova forma de conectar-se.” É um gesto descomplicado, sugerindo que os designers da Apple acham que será um bastante popular (“Quando você pressiona dois dedos na tela, o sensor de frequência cardíaca registra e envia as batidas do seu coração. Um jeito simples e especial de contar a alguém como você se sente.”)

Mas espere. Espere um pouco aí. Por que alguém faria isso?

Vamos dar à Apple algum crédito por dar a um dos amantes um nome de gênero neutro, (tem outra dupla de relógios pertencentes a “Dana” e “Luke”) mas isso nos convida a um cenário que é ridiculamente fácil de satirizar. Eliza enviará por mensagem de texto a quantidade de calorias ingeridas no mês seguinte? Quando Jamie mandar sua localização no mapa, será um sinal de que ela está pronta para levar a relação a um novo nível? Em que nível de intimidade o convite para compartilhar batimentos cardíacos deixa de ser uma interação estranha? Existe um limite de quantas taxas de batimentos cardíacos você pode carregar de uma vez? Você pode arquivá-las e colecioná-las? (Estou imaginando uma barraquinha pulsando com as animações de um punhado de batimentos cardíacos que um artista talvez crie com o aval de Tracey Emin.) Isso não é uma maneira de promover a verdadeira intimidade através da tecnologia.

E se a Apple consegue convencê-lo a usar a frequência cardíaca de alguém em seu pulso, será mais fácil a ela induzi-lo a usar o TouchID, seu recurso de biometria por impressão digital, em vez da proteção por senha.

O Biogram, um app de compartilhamento de fotos desenvolvido no Centro para Computação Corporal da USC, espera que compartilhar as batidas do coração seja algo tão natural que incluiremos essa informação até nas nossas fotos.

Ann Druyna ficou famosa por gravar suas ondas cerebrais para o Golden Record, quando ela acabara de se apaixonar por Carl Sagan. Foi algo espontâneo e fora do script, lançado ao espaço para vagar por 100 milhões de anos, pela infinitesimal possibilidade de que senhores alienígenas possam interceptá-las.

Apps que promovem o sexting com impressões digitais e batimentos cardíacos normalizam o compartilhamento de dados biométricos sem qualquer motivo ou explicação. O objetivo corporativo de relaxar os limites dos consumidores não é, definitivamente, nada romântico.


Joanne McNeil é uma escritora e pesquisadora interessada nas formas como a tecnologia está moldando a arte, política e sociedade. No momento, está escrevendo um livro sobre  cultura e privacidade na Internet e é residente na Eyebeam, em Nova York.

Este post foi publicado originalmente na The Message, e traduzido e republicado no Manual do Usuário com autorização da autora.

Tradução: Rodrigo Ghedin.

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9 comentários

  1. Eu sempre penso sobre essa mudança de relacionamento entre as pessoas. Aí fico imaginando o que meus avós pensam sobre o chat online, os emojis, as redes sociais, que nós usamos com naturalidade. Talvez para eles seja um absurdo, signifique falta de uma real conexão entre as pessoas, efemeridade. E talvez tenham razão. Mas nós usamos naturalmente sem estranheza alguma. O que parece estar acontecendo, e me coloco nessa posição, é o que sempre aconteceu, as gerações mais velhas não conseguem entender as mudanças. Quem nunca ouviu alguém falando “infância boa foi a minha”. A gente já falou, nossos pais já falaram e nossos avós também. E nossos filhos também falarão, e netos. Não que compartilhar seus batimentos cardíacos seja algo legal ou útil, mas sempre que algo novo me causa estranheza, tento olhar sob um outro ponto de vista, pois talvez seja eu que esteja ficando “obsoleto”. Eu gosto muito dessa intersecção entre tecnologia e humanas, inclusive (desculpa o merXã), meu projeto Olah! é sobre isso, online e offline se misturando e criando novas possibilidades.

  2. Muito preguiçoso esse tipo de ideia, é simplesmente pegar tudo que sai de um sensor e enviar como algo pessoal. É a coisa menos Apple-like que a Apple fez ultimamente…

  3. – Sério, linda! Só pensar em você que meu coração acelera!
    – Manda teus batimentos pra mim então!
    – Err…

    Como dizem os Titãs, “não existe o amor, apenas provas de amor”.

  4. Pra mim, esse Apple Watch até agora é um enorme flop. Talvez mude, mas é bem difícil. Acho que ontem anunciaram um app de jogos pra ele.

    Nossa, deve ser o máximo jogar numa tela onde quase 90% dela é coberta pelo seu dedo ao tentar interagir com um jogo.