Post livre #349

Toda semana, o Manual do Usuário publica o post livre, um post sem conteúdo, apenas para abrir os comentários e conversarmos sobre quaisquer assuntos. Os comentários fecham segunda-feira ao meio-dia.

Privacidade é ok

por Tim Bray

Nota do editor: Vez ou outra alguém sugere criar exceções à criptografia de ponta a ponta de aplicativos como Signal e WhatsApp a fim de combater a criminalidade. É uma ideia bem ruim. O texto abaixo é a resposta de Tim Bray a mais um desses pedidos inócuos. Mesmo parte de um debate norte-americano, achei-a bem embasada e válida no nosso contexto, por isso a trouxe para cá.

Detesto escrever um artigo apenas para dizer que Alguém Está Errado na Internet, mas o de Reid Blackman, “Signal e o perigo da privacidade a todo custo” (em inglês, no New York Times), não está apenas errado: ele é, também, perigosamente enganoso. Ainda não vi uma explicação breve do porquê, então aqui vai uma.

(mais…)

Extensão Privacy Redirect para Safari

“Sair do Twitter” não significa ignorá-lo por completo. Na cobertura do Manual e até mesmo em trocas de mensagens com amigos e familiares, vez ou outra aparece um link para lá.

Foi numa dessas situações que lembrei da extensão Privacy Redirect, que redireciona links de redes sociais comerciais para front-ends alternativos focados em privacidade. No caso do Twitter, o Nitter.

Se você usa Chrome ou Firefox, ótimo: a extensão é gratuita, só instalar e apontar quais serviços deseja que sejam redirecionados.

No caso do Safari, desconhecia alternativa. Aí fiz uma pesquisa e descobri que, em agosto de 2021, alguém lançou uma versão da Privacy Redirect para o navegador da Apple. Custa R$ 10,90, mas… né, o que não custa alguns reais nas plataformas da Apple?

Já tem bastante gente no fediverso, o ambiente descentralizado onde funcionam aplicativos como o Mastodon, mas nem sempre é fácil encontrar novos perfis legais para seguir.

O Followgraph for Mastodon dá uma força nesse sentido. Ele analisa quem você já segue no fediverso e compila uma lista dos perfis mais populares entre os seus seguidores que você não segue. (Parece complexo, mas é bem óbvio depois que se entende a lógica.)

O melhor? Não é preciso autenticar-se, basta informar o seu nomedeusuario@instancia.

Para quem está vindo do Twitter, o Movetodon ajuda a encontrar os que já deixaram para trás o inferno caótico de Elon Musk — caso deste Manual do Usuário. Via @augustocc@mastodon.nl.

A reação das instituições aos eventos em Brasília deste domingo (9), quando terroristas bolsonaristas invadiram as sedes dos três poderes e depredaram-nas, foi imediata.

À noite, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), acatou requerimentos da Advocacia Geral da União (AGU) e do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), e determinou uma série de medidas para conter e desmobilizar os terroristas e responsabilizar os culpados pela arruaça na capital federal.

Entre as medidas, Moraes determinou a suspensão de perfis de golpistas no Facebook, Instagram, TikTok e Twitter, com a preservação integral dos seus conteúdos, e que as empresas de telecomunicações guardem por 90 dias os registros de conexões de quem esteve na Praça dos Três Poderes e no Quartel-General do Exército, no Distrito Federal.

Expediente similar foi usado nos Estados Unidos para identificar e processar os golpistas que, em 6 de janeiro de 2021, promoveram evento similar ao brasileiro deste domingo. Por lá, o Google sozinho repassou dados de geolocalização de quase 6 mil dispositivos ao FBI.

Essa história, aparentemente, não chegou às correntes de “zap” que insuflaram os nossos golpistas a cometerem um dos atos mais deprimentes da história da República. Via STF, Núcleo.

A Coalização Direitos na Rede (CDR) pediu ao Ministério da Justiça e à Secretaria de Comunicação Social da Presidência a regulação e fiscalização imediatas das práticas de “zero rating”, oferta de serviços específicos de internet que não descontam da franquia de dados dos planos móveis, ou seja, que são gratuitos ao usuário final.

O exemplo mais notório de app beneficiado pelo zero rating no Brasil é o WhatsApp.

Sou simpático à demanda — uma óbvia violação ao princípio da neutralidade de rede consagrado no Marco Civil da Internet —, mas talvez seja pedir muito a um governo recém-empossado para, na prática, acabar com a gratuidade do WhatsApp num país dependente desse aplicativo.

A única saída possível para acabar com o zero rating sem causar uma revolta popular seria abolir as franquias dos planos móveis, como já acontece com os planos de banda larga fixa. Aí o problema seria convencer as operadoras.

Em tempo: em 2017, o CADE decidiu que o zero rating era legal em resposta a uma denúncia do Ministério Público contra as principais operadoras do país. Via CDR, Baguete.

Para começar bem o ano, a Meta foi multada pela União Europeia (UE) em € 390 milhões (~R$ 2,25 bilhões) e obrigada a, em três meses, obter o consentimento dos usuários do bloco para continuar exibindo publicidade segmentada baseada em dados pessoais.

As decisões (duas, uma para o Facebook, outra para o Instagram) decorrem de reclamações feitas em 2018 pela noyb, uma organização europeia sem fins lucrativos de direitos digitais, representando a Áustria e a Bélgica. Foi justo quando o GDPR, lei de proteção de dados pessoais da UE, passou a valer.

A Meta, na ocasião, inseriu uma cláusula referente à publicidade em seus termos de uso atualizados a fim de burlar a obrigação, imposta pelo GDPR, de obter o consentimento dos usuários para usar seus dados pessoais na segmentação de publicidade.

Agora, o Conselho de Proteção de Dados da Europa (EDPB, na sigla em inglês), decidiu que a manobra foi ilegal. Por isso, além da multa, a Meta terá que obter o consentimento explícito dos usuários para continuar exibindo publicidade baseada em seus dados pessoais.

A decisão reverte uma mais branda tomada anteriormente pela Comissão de Dados Pessoais (DPC) da Irlanda, onde fica a sede europeia da Meta. As multas somavam pouco mais de € 60 milhões (~R$ 350 milhões).

E pode piorar (ou melhorar, né?): segundo a noyb, há uma terceira decisão pendente, referente ao WhatsApp, feita em nome da Alemanha. Ela deve ser divulgada na semana que vem.

A Meta disse em nota que discorda das decisões e que vai recorrer. Via noyb (em inglês).

É fácil encontrar aplicativos de contagem regressiva, mas um que conte os dias passados a partir de uma data… menos fácil. Topei com o Days Since no MacMagazine (para iOS, gratuito por tempo limitado via compra dentro do app) e é ótimo.

Quis um aplicativo do tipo quando experimentei esses xampus em barra. Eles costumam ser mais caros que os líquidos, mas afirmam que duram mais. Será? Não que a duração fosse o único critério para adotá-los ou não, mas queria um jeito fácil de tirar a prova.

E, sim, não é um tipo de aplicativo essencial; uma anotação no calendário ou mesmo num bloquinho de notas já cumpre o objetivo. Talvez isso explique a escassez de aplicativos do tipo. Ainda assim, fiquei contente com o achado. O Days Since é ótimo. Via MacMagazine.

Post livre #348

Toda semana, o Manual do Usuário publica o post livre, um post sem conteúdo, apenas para abrir os comentários e conversarmos sobre quaisquer assuntos. Os comentários fecham segunda-feira ao meio-dia.

O Product Hunt é um fórum muito popular entre startups para lançarem produtos e serviços. Em muitas situações, ele serve de termômetro para tsunamis que ainda estão longe de arrebentar em nós.

Diariamente, o Product Hunt envia um e-mail com os serviços/produtos mais votados do dia anterior. Nos dois primeiros dias úteis do ano, chamou a minha atenção o tanto de serviços que geram conteúdo com um clique usando inteligências artificiais nesses rankings:

  • TweePT3, um gerador de posts para o Twitter. Usa o GPT-3, da OpenAI.
  • Ansy, gerador de respostas para servidores no Discord. Usa GPT-3.
  • TweetEmote, outro gerador de posts no Twitter. Não especifica qual IA usa.
  • SuperReply, gerador de respostas para e-mails. Não especifica a IA usada.
  • Rizz, teclado para iOS gerador de respostas. Não especifica a IA.
  • LinkedIn Posts Generator, autoexplicativo, gera posts a partir de outros links, como se fossem resumos. Não especifica a IA.

Por um lado, a profusão dessas soluções acelera e pode até melhorar a comunicação. Por outro, em breve corremos o risco de estarmos falando com robôs o tempo todo, e de robôs estarem falando com robôs e… bom, onde ficamos nós, humanos?

Não é preciso uma bola de cristal para prever que, em 2023, inteligências artificiais “generativas”, que criam conteúdo do nada, serão uma tendência.

Segundo os sites The Information e Bloomberg, a Microsoft estuda usar o ChatGTP, da OpenAI, para fornecer conteúdo ao Bing, seu buscador web.

A Microsoft aposta que o tom conversacional e as respostas contextuais do ChatGPT podem ser mais assertivas que listas de links e, com isso, ganhar usuários do Google, líder disparado do setor.

O ChatGPT ganhou os holofotes desde que foi lançado, em novembro de 2022, pela sua capacidade de formular textos, códigos e até poesia a partir de enunciados curtos escritos por seres humanos.

Boa parte das respostas ainda contém equívocos e vícios, porém. Em dezembro, Sam Altman, CEO da OpenAI, disse que “é um erro confiar [no ChatGPT] para qualquer coisa importante no momento”.

A Microsoft já investiu US$ 1 bilhão na OpenAI e utiliza outras tecnologias similares da empresa em seus produtos, como o gerador de imagens DALL-E 2 no Designer, seu clone do Canva.

O Google, maior buscador do mundo, vem acompanhando o desenvolvimento dessa tecnologia (a deles é chamada LaMDA), mas descarta por ora o uso em produção devido ao “risco de reputação” decorrente de “problemas factuais” e outros do modelo, de acordo com Jeff Dean, líder da divisão de IA da empresa, em uma reunião interna vazada pela CNBC. Via Bloomberg, CNBC (ambos em inglês).

Levantamento de Molly White, do ótimo Web3 is Going Just Great (W3IGG), revelou que os muitos hacks e golpes envolvendo plataformas da chamada “Web3” causaram prejuízo de US$ 4,27 bilhões (~R$ 23 bilhões) em 2022.

Molly diz que é uma “estimativa bastante conservadora” porque “ainda não temos uma boa imagem do tanto de dinheiro perdido em alguns dos maiores colapsos do ano”, como os da criptomoeda Luna e da exchange FTX.

O valor acima pode ser visualizado em um novíssimo “placar do golpismo”, que Molly subiu no W3IGG. O maior rombo de 2022 foi o hack de uma “ponte” do jogo Axie Infinity, da Sky Mavis: só ali foram perdidos US$ 625 milhões (~R$ 3,37 bilhões). Via newsletter da Molly White (em inglês).

No apagar das luzes de 2022 (sábado, 31), o LineageOS 20 foi lançado. O projeto atualiza o Android para uma grande variedade de celulares — muitos deles já abandonados pelas fabricantes — e remove os códigos e aplicativos proprietários do Google. O LineageOS 20 é baseado no Android 13, lançado em agosto de 2022.

Fora as mudanças e melhorias do Android 13, o outro destaque do LineageOS 20 é o Aperture, novo aplicativo padrão de câmera baseado na biblioteca CameraX, do próprio Google. Segundo o projeto, o Aperture “oferece uma experiência do app de câmera muito mais próxima do ‘padrão’ [do Google] em muitos dispositivos”.

Os guias de atualização estão listados aqui. Dispositivos com suporte oficial não precisam mais ser formatados, ou seja, é possível atualizar a partir da versão 19.1 (baseada no Android 12) sem perder seus dados. De qualquer forma, um bom backup é sempre recomendado. Via LineageOS (em inglês).

Uma das maiores aberrações da era Bolsonaro, a tentativa de privatizar o Serpro e o Dataprev, foi revogada por Lula em um dos primeiros atos do novo governo.

Por meio de despacho, o presidente recém-empossado determinou a revogação dos “atos que dão andamento à privatização” de armazéns e imóveis da Conab e de seis estatais — além das duas já referidas, o despacho menciona ainda os Correios, a EBC, o Nuclep, a Pré-Sal Petróleo e a Petrobrás. Via Diário Oficial da União.