A deterioração do Twitter segue a olhos vistos, impulsionada por atitudes intempestivas, inexplicáveis e/ou apenas estúpidas de Elon Musk.

Metade dos 100 maiores anunciantes do Twitter interrompeu a compra de anúncios na plataforma.

Pipocam casos de falhas crassas no sistema de moderação — passa 99% dos posts racistas da Copa, vídeos de um atentado na Nova Zelândia, campanhas de desinformação patrocinadas pela China.

Musk, quando não está exibindo fotos constrangedoras do seu criado-mudo no Twitter, tem feito ameaças à Apple devido à taxa que a empresa cobra de aplicativos distribuídos na App Store.

Parece um movimento preparatório. A proliferação no Twitter de discursos de ódio e outros mal vistos pela Apple, como pornografia, somada ao enfraquecimento da marca Twitter, pode culminar com a remoção do aplicativo da rede social da App Store. Essa possibilidade parece já ter sido aventada pela Apple, de acordo com este post de Musk.

A maioria das pessoas acessa o Twitter por celulares, e usando o aplicativo oficial.

Isso seria desastroso, mas não sem precedentes. Em 2018, a Apple removeu o aplicativo do Tumblr devido à presença de imagens de abusos sexuais infantis.

Para Musk, a solução caso isso aconteça é simples: criar um celular próprio. O ego do homem mais rico do mundo é proporcional à sua fortuna. Boa sorte com isso.

A matéria da Folha de S.Paulo falando mal do @Choquei/Twitter é, fora evidenciar uma dor de cotovelo do jornal, um caso prático das regras que regem a indústria de conteúdo, assunto que abordei na última coluna da newsletter.

As inteligências artificiais que produzem conteúdo aceleram um movimento que já acontece há algum tempo e que tem as redes sociais como origem e propulsoras.

Nas redes, características que se pensam importantes (e que são) em outros contextos, como qualidade, confiança e responsabilidade, beiram o inútil. O que importa é a circulação e, já de cara, o Choquei larga na frente no mínimo por dois motivos:

  • É um perfil de fofocas comentando guerras e política institucional, algo inusitado e reforçado pelos “🚨 GRAVE” e outros artifícios quase caricatos, a fim de viralizar;
  • Aproveita-se do trabalho alheio (a parte chata/difícil: apuração, checagem) para focar no conteúdo em si, o que lhe confere uma agilidade que jornal (sério) algum conseguiria rivalizar.

Fora isso, a Folha poderia ter escolhido outro exemplo que não um erro próprio de apuração (!) para bater no Choquei. Na dinâmica das redes sociais, uma “correção adicionada ao texto do jornal dias depois”, citada como sinal de virtude e superioridade do jornal, talvez tenha o mesmo efeito que apagar o post sem explicações (a atitude tomada pelo Choquei). Via Folha de S.Paulo.

O YouTube desmonetizou todos os canais da Jovem Pan nesta quarta (23) por iniciativa própria, ou seja, sem ser provocado pela Justiça. A’O Globo, a plataforma de vídeos do Google justificou a decisão afirmando que o programa “Os Pingos nos Is”:

Incorreu em repetidas violações das nossas políticas contra desinformação em eleições e nossas diretrizes de conteúdo adequado para publicidade, incluindo as relacionadas a questões polêmicas e eventos sensíveis, atos perigosos ou nocivos, além de outras políticas de monetização

Teria sido uma grande decisão se tomada meses, anos atrás, quando esse e outros canais já infringiam regras da plataforma e o YouTube/Google, em vez de punir a Jovem Pan, promovia os canais da emissora em seu algoritmo de recomendação. Via O Globo.

Brasília recebe a partir desta quarta (23) uma mostra de filmes em realidade virtual. Quem avisa é o Filipe Gontijo, que ao lado de Henrique Siqueira assina a direção dos filmes. Eles trabalham com o formato há quase uma década — muito antes do ~metaverso surgir; entrevistei o Filipe para esta matéria, em 2016.

A mostra será no Museu Vivo da História Candanga, de 23 a 26 de novembro. Veja os filmes que serão exibidos nesta página.

A demissão em massa da Amazon, que atingiu ~10 mil funcionários, pesou bastante na divisão responsável pela Alexa e dispositivos relacionados.

O Business Insider obteve documentos internos da Amazon e falou com funcionários para entender os motivos. O principal é uma falha grotesca de estratégia. Os dispositivos compatíveis com a Alexa são vendidos a preço de custo com o intuito de gerar receita durante o uso. Acontece que os casos de uso limitados (a maioria usa a Alexa para definir timers e pedir a previsão do tempo) não geram receita.

Ainda segundo as fontes e documentos, a Alexa deve dar um prejuízo de US$ 10 bilhões à Amazon em 2022. A iniciativa, lançada em 2014, era um projeto queridinho do fundador e ex-CEO da empresa, Jeff Bezos, que deixou o cargo em 2021. Desde 2020, porém, Bezos já demonstrava desinteresse pela Alexa. Via Business Insider (em inglês).

Como quem não quer nada, em uma resposta no Twitter, Matt Mullenweg, CEO da Automattic, prometeu que o Tumblr ganhará suporte ao protocolo ActivityPub, o mesmo usado pelo Mastodon e que lhe garante descentralização e federação.

Isso é muito promissor. Embora seja uma rede social pequena para os padrões comerciais, o Tumblr é maior que qualquer instância e a Automattic, que comprou o que sobrou do Tumblr com um troco de pinga em 2021, tem grana, pessoal e expertise para aproveitar o momento.

O Tumblr pode se tornar a principal porta de entrada para quem deseja conhecer o fediverso, mas se frustrou com a experiência complicada de escolher (ou mesmo saber o que é) uma instância do Mastodon. Não há prazo para essa novidade ser implementada, mas Mullenweg disse que será “o quanto antes”. Via @photomatt/Twitter (em inglês).

Os banimentos perpétuos de Donald Trump, Jordan Peterson e Kanye West no Twitter foram revertidos por Elon Musk. Trump, o caso mais notório, como resultado de uma enquete feita por Musk na própria plataforma — a mesma que meses atrás ele acusava de estar repleta de robôs e perfis automatizados. A promessa de só tomar decisões de moderação depois de instituir um conselho? Quem se importa? O Twitter de Musk é uma grande e cara piada de mau gosto. Via @elonmusk/Twitter, Semafor (ambos em inglês).

A InfoMoney foi atrás de investidores que perderam tudo com a quebra da FTX, ex-segunda maior corretora de criptoativos do mundo.

Um engenheiro civil de Passo Fundo (RS) fez dois empréstimos bancários que somou às suas economias para investir no negócio. Perdeu R$ 700 mil. Longe de mim culpar a vítima, mas é difícil pensar em ideia pior que fazer um empréstimo junto ao banco (quiçá dois!) para investir num negócio extremamente volátil.

As chances de recuperar o prejuízo são baixas, como explica o advogado consultado na matéria. Primeiro porque há peixes mais graúdos na fila — a FTX deve US$ 3,1 bilhões aos 50 maiores credores.

Segundo porque a FTX era uma bagunça. John J. Ray III, CEO que assumiu o lugar do fundador Sam Bankman-Fried, classificou a situação da empresa como “sem precedentes”. A fala tem maior peso vindo de quem vem — Ray III esteve à frente da reconstrução de outra empresa envolvida em um mega-escândalo de fraude, o da Enron no início dos anos 2000. Via InfoMoney, Bloomberg, Coindesk (os dois últimos em inglês).

Elon Musk deu um ultimato aos funcionários que sobraram no Twitter: comprometa-se com jornadas extenuantes de trabalho ou caiam fora. Mais gente que o esperado optou por cair fora.

O Twitter está na UTI e seus sistemas podem quebrar a qualquer momento, em grande parte porque falta gente para manter as coisas funcionando.

Musk é tão tóxico que, por comparação, conseguiu a proeza de fazer Mark Zuckerberg/Meta e a Amazon ganharem confete por demitirem dezenas de milhares de pessoas de forma ~humanizada — leia-se com o mínimo de dignidade. (Foram 11 mil demissões na Meta e 10 mil na Amazon.) Via The Verge (2) (em inglês).

O Evernote, aplicativo de anotações pioneiro, foi vendido por valor não divulgado à Bending Spoons, empresa italiana especializada em aplicativos móveis.

No comunicado oficial, Ian Small, CEO do Evernote, diz que com a venda, o Evernote “aproveitará a comprovada experiência e as amplas tecnologias proprietárias” da Bending Spoons para melhorar o aplicativo — que, não faz muito tempo, em 2020, passou por uma reformulação profunda em todas as plataformas, adotando o framework Electron.

Um “case” de pioneirismo que não se converteu em domínio, o Evernote parecia inescapável em algum momento do início dos anos 2010, com seus aplicativos onipresentes e, até então, funcionais.

A startup levantou US$ 290 milhões entre 2007 e 2014 e, em algum momento depois disso, meio que se perdeu: funcionalidades básicas passaram a falhar, aplicativos diversos foram lançados e até produtos físicos, como cadernos Moleskine e meias (!), passaram a ser vendidos com a marca Evernote.

Em paralelo, algumas decisões de negócio, em especial a imposição de limitações rígidas ao plano gratuito (sincronia apenas entre dois dispositivos) somada a um forte aumento dos planos pagos e uma tentativa desastrosa de atualizar a política de privacidade em 2016, afugentaram muitos usuários. Via Evernote (em inglês).

Não é fácil manter uma operação editorial de pé. Duas más notícias vindas de fora:

  1. O Protocol, site derivado do Politico que cobria tecnologia, fechou as portas após três anos de operação deixando 60 pessoas sem emprego.
  2. O Buzzfeed, que por algum tempo deu as cartas do setor ao surfar o algoritmo do Facebook com compilações de memes, está numa espiral decadente desde que abriu capital via SPAC em 2021. Os números são ruins: prejuízo de US$ 27 milhões no último trimestre, queda de 32% no tempo gasto na página pelos leitores e uma queda brutal no engajamento no Facebook, de 91,2%, entre 2018 e 2021 — e este ano deve ser ainda pior.

Via Protocol, CNN e The Verge (todos em inglês).

A ideia de que livros digitais (e-books) “não desgastam” e, por isso, teriam uma vida útil maior que a do livro de papel é… bem, uma espécie de falácia. Quem diz é o pessoal do Internet Archive, que sabe uma coisa ou outra de preservação digital:

Nossos livros de papel têm durado centenas de anos em nossas estantes e ainda são legíveis. Sem manutenção ativa, teremos sorte se nossos livros digitais durarem uma década.

A constante evolução dos meios digitais, somada à sanha capitalista das editoras, tornam o trabalho de preservação bastante difícil. O Internet Archive pede que esse trabalho seja reconhecido e que sejam dadas as devidas condições para instituições interessadas consigam desempenhá-lo. Via Internet Archive (em inglês).

por Shūmiàn 书面

A Conferência Mundial da Internet, evento organizado anualmente pela China para promover seu modelo de governança da web, foi realizada na semana passada em Wuzhen, na província de Zhejiang.

Apesar do clima adverso devido às sanções estadunidenses, compareceram centenas de representantes da indústria de tecnologia, dos quais se destacam os CEOs de IBM, Intel e Cisco.

Na abertura do evento, Xi Jinping divulgou uma carta pedindo por maior cooperação tecnológica global. A Conferência também serviu para a estreia de Li Shulei como chefe de propaganda do PCCh, cargo que assumiu no 20º Congresso Nacional do partido.

Li criticou as atuais regras internacionais para a internet e citou o recém-publicado white paper sobre o ciberespaço como uma tentativa de aprimorar a rede. O documento pode ser lido na íntegra aqui.


A Shūmiàn 书面 é uma plataforma independente, que publica notícias e análises de política, economia, relações exteriores e sociedade da China. Receba a newsletter semanal, sem custo.

Uma falha crítica no OpenSSL descoberta no final de outubro atrasou o lançamento do Fedora 37 em algumas semanas. A versão final da nova versão do sistema chegou nesta terça (15).

Os principais destaques do Fedora 37 são o ambiente Gnome 43, kernel Linux 6.0 e suporte oficial ao Raspberry Pi 4. Há novas edições também (CoreOS e Cloud). Mais detalhes nos links ao lado. Via Fedora Magazine (2) (em inglês).

Vez ou outra temos a sensação de que a história humana está condenada ao mesmo roteiro repetido eternamente, apenas com personagens e contextos um pouco diferentes.

Há alguns anos, o Substack despontou como destino principal para escritores de fim de semana e gente que quer levar a sério o radical ato de escrever textões na internet. Não por acaso: é uma ferramenta fácil de usar, bem apresentável e em constante evolução. Mais importante, é totalmente gratuito a menos que você cobre pelas sua newsletter, e não há qualquer pressão para que ela seja cobrada.

Não surpreende, pois, que uma centralização no Substack esteja em curso. Além de ver cada vez mais newsletters com endereços terminados em substack.com, fui chamado à atenção para o fenômeno por este texto do Erik Hoel (no Substack!). Nele, Hoel exalta algumas características descentralizadas do Substack, seus efeitos de rede e o potencial de crescimento (“growth”) que desencadeia em newsletters de todos os tamanhos.

Não é algo muito diferente do que aconteceu no Facebook, Twitter, Instagram, do que acontece em paralelo no TikTok. Produza seu conteúdo ali, em uma plataforma de terceiros cheia de facilidades e gratuita, em troca da atenção das pessoas.

Isso funciona bem até o dia em que a plataforma passa a querer capitalizar, a realizar sua promessa (de lucro). Aí o alcance do Facebook/Instagram desaba e, caso você queira se comunicar com as pessoas que seguiram/curtiram sua página em algum momento do passado, precisa tirar o escorpião do bolso.

O Substack ainda está na fase de crescimento e tem uma aura descolada, anti-redes sociais. No fundo, é uma startup clássica, com +US$ 80 milhões levantados em quatro rodadas de investimento feita por firmas como a16z, Y Combinator e Quiet Capital — as de sempre.

Por tudo que o Substack faz de bom (e é bastante coisa), o saldo de concentrarmos a escrita ativa na web e no e-mail em uma startup só tende ao negativo. Porque é questão de tempo (ainda que seja bastante tempo) para que o arrocho dos escritores comece. Quando isso acontecer, é bom que o próximo Substack esteja pronto. Essas viradas costumam ser abruptas e destrutivas.