Monop√≥lios sempre emperraram a inova√ß√£o ‚ÄĒ e n√£o √© diferente com as Big Tech

Mascote do jogo Banco Imobiliário à direita contra um fundo branco.

Dois mil e dez foi um ano movimentado em tecnologia. A Apple lan√ßou o iPhone 4 e o iPad, comprou a startup Siri (que viraria seu assistente pessoal) e Steve Jobs voltou a aparecer ap√≥s meses longe dos olhares do mundo. A Microsoft foi atr√°s da AWS com o Azure e ainda tentava entrar na guerra dos smartphones com o Windows Phone 7. A Amazon j√° ensaiava atacar outras frentes, mas a venda de livros ainda era seu neg√≥cio principal ‚ÄĒ em 2010, pela primeira vez, os e-books venderam mais que as c√≥pias f√≠sicas. A Intel comprou a McAfee, Yahoo, Nokia e HTC eram relevantes e surgiram as primeiras informa√ß√Ķes sobre o smartphone que o Facebook estava fabricando (tr√™s anos depois descobriu-se que era por uma parceria com a HTC). S√≥ o fato de ter o iPhone 4 e o iPad j√° dariam import√Ęncia ao ano: o primeiro lan√ßou essa tend√™ncias de smartphones ‚Äúembalados‚ÄĚ em vidro, o segundo desengatilhou uma outra tend√™ncia ‚ÄĒ ainda viva, mas de menor f√īlego, √© verdade ‚ÄĒ, de tablets como substitutos de notebooks.

Em suma, 2010 foi um ano de produto em tecnologia. Assim como tinha sido 2009, 2008, 2007 e por a√≠ vai. √ďbvio, houve tretas: Apple e Nokia e Microsoft e HTC digladiando nos tribunais sobre, principalmente, patentes. Mas as luzes da ribalta estavam nos produtos, o hardware rec√©m-lan√ßado, naquele servi√ßo novo que fez sucesso e que o Facebook n√£o demoraria muito a copiar (s√≥ em 2010, a rede social copiou o retweet do Twitter e o servi√ßo completo do Foursquare no Facebook Places). Voc√™ n√£o precisa acreditar em mim: o Techmeme guarda as principais manchetes do mercado de tecnologia h√° mais de uma d√©cada. √Č s√≥ entrar l√° e escolher o dia e a hora de 2010 para ver um comp√™ndio dessas e outras manchetes.

√Č sempre bom parar e olhar para tr√°s para entender o quanto o passado √© diferente do ponto que voc√™ ocupa agora no tempo-espa√ßo e se esfor√ßar para entender como aquilo l√° atr√°s virou isso de agora. Fa√ßa o mesmo exerc√≠cio e entre na capa do Techmeme do dia em que voc√™ est√° ouvindo este podcast: enquanto gravo, as principais not√≠cias dizem respeito a investimentos bilion√°rios para neutralizar as emiss√Ķes de carbono de uma empresa gigantesca, as investiga√ß√Ķes de um √≥rg√£o de controle sobre outra gigante e um pa√≠s do Oriente cancelando o banimento de um servi√ßo online. De novo: claro, existem not√≠cias sobre novos produtos e um ou outra startup que levantou um capital violento para oferecer um servi√ßo qualquer. Mas h√° um contraste expl√≠cito entre o esp√≠rito do tempo (ou zeigeist, se voc√™ prefere ler Thomas Mann no original) de 2010 e o esp√≠rito do tempo de 2020: a guerra dos smartphones n√£o importa mais. As compras multibilion√°rias s√£o, hoje, por servi√ßos quase desconhecidos, principalmente de intelig√™ncia artificial, semicondutores e computa√ß√£o em nuvem. Passou-se o tempo das enormes consolida√ß√Ķes.

Num efeito parecido com a sensa√ß√£o de se apreciar as obras do Vik Muniz, quanto mais voc√™ se afasta, mais o agrupamento daquelas not√≠cias forma uma imagem completa: a crescente concentra√ß√£o de participa√ß√£o de mercado que nos coloca no caminho das ‚Äúdistopias‚ÄĚ descritas nas melhores fic√ß√Ķes cient√≠ficas1.

Hoje, para cada not√≠cia euf√≥rica de novos unic√≥rnios e do empreendedor que venceu a pobreza para amealhar uma fortuna, existem ainda mais not√≠cias sobre o aumento da taxa de suic√≠dio entre os jovens, o crescimento da informalidade entre os trabalhadores e da consequente desigualdade social, os galopantes vazamentos de dados pessoais, a interfer√™ncia estrangeira em elei√ß√Ķes nacionais e a corros√£o do debate online pela polariza√ß√£o.

Por tr√°s das investiga√ß√Ķes, dos processos, das amea√ßas de quebra, das compras de rivais, do cont√≠nuo crescimento econ√īmico e das apari√ß√Ķes ensaiadas como um bal√© pelos seus executivos principais h√° o mesmo pano de fundo: o tamanho que as Big Tech2 atingiram. √Č comum encontrar discuss√Ķes sobre o monop√≥lio que Google, Facebook, Apple, Amazon, Microsoft, Alibaba e Tencent t√™m do mercado global. Em 2015, as cinco maiores empresas do Big Tech valiam, juntas, US$ 1,7 trilh√£o. Em 2019, esse valor mais que triplicou, para US$ 5,2 trilh√Ķes. Se em 2010 a palavra que sintetizava a tecnologia era ‚Äúproduto‚ÄĚ, em 2020 est√° mais para ‚Äúgrandeza‚ÄĚ. Ou ‚Äúconcentra√ß√£o‚ÄĚ. Ou ‚Äúmonop√≥lio‚ÄĚ. Mas o que √© monop√≥lio? D√° para considerar um monop√≥lio quando se tem tantas empresas mais ou menos rivais? Se voc√™ vai opinar sobre o assunto, √© bom que, pelo menos, saiba do que est√° falando. O primeiro epis√≥dio da segunda temporada do Tecnocracia vai explorar o que s√£o e quais os efeitos dos monop√≥lios para voc√™ e para a economia.

Essa preocupa√ß√£o com o tamanho que uma empresa pode adquirir e como isso impacta a maneira como ela usa seu poder √© razoavelmente recente ‚ÄĒ data do in√≠cio do s√©culo XX. N√£o que empresas gigantescas s√≥ tenham surgido a partir dessa √©poca. Um quiz: qual √© a maior empresa da hist√≥ria? N√£o √© Amazon, Apple ou Google. H√° uma teoria amplamente aceita de que a maior empresa da hist√≥ria surgiu no s√©culo XVII: a Companhia Holandesa das √ćndias Ocidentais tinha valor de mercado estimado em cerca de US$ 7,5 trilh√Ķes, mais de sete vezes mais que qualquer Big Tech atual. Como voc√™, com certeza, prestou aten√ß√£o na aula de hist√≥ria, eu n√£o preciso explicar o que foi a Companhia Holandesa das √ćndias Ocidentais, n√©? Mentira, a gente sabe que ningu√©m lembra disso.

A Companhia Holandesa das √ćndias Ocidentais come√ßa como uma empresa de log√≠stica mar√≠tima na √©poca das Grandes Navega√ß√Ķes. Vamos lembrar que as duas grandes pot√™ncias da √©poca eram pa√≠ses pequenos na Europa, mas com enorme tradi√ß√£o mar√≠tima: Holanda, pouco menor que o Esp√≠rito Santo, e Portugal, mais ou menos do tamanho de Santa Catarina. Ali√°s, a Holanda s√≥ se viu obrigada a construir uma esquadra organizada e ir atr√°s dos seus amados temperos quando Portugal, que tinha o monop√≥lio do com√©rcio mar√≠timo entre Europa e √Āsia, resolveu parar de vender. Com o governo holand√™s como financiador e acionista, a Companhia ganhou monop√≥lio (olha l√°‚Ķ) de 21 anos para fazer o com√©rcio de especiarias no mercado holand√™s. Trazer temperos e ch√°s da √ćndia para revender sem competi√ß√£o na Holanda era um neg√≥cio lucrativo, mas, duas d√©cadas depois de institu√≠da, a empresa achou um neg√≥cio ainda melhor: o tr√°fico de escravos. Com o apoio do governo holand√™s, milhares de africanos foram sequestrados para a Am√©rica durante mais de um s√©culo em navios holandeses.

Enquanto fez parte, de novo com Portugal, da rota do tr√°fico negreiro no Atl√Ęntico, a Companhia Holandesa das √ćndias Ocidentais conquistou e colonizou in√ļmeros pa√≠ses3, foi a primeira empresa da hist√≥ria a abrir capital na Amsterdam Stock Exchange, a primeira bolsa de valores no modelo praticado at√© hoje e chegou a ter mais de 70 mil funcion√°rios pelo mundo. A empresa era t√£o grande que ganhou, do pr√≥prio governo holand√™s, a prerrogativa de treinar um ex√©rcito pr√≥prio, ocupar territ√≥rios e declarar guerras. Era quase uma na√ß√£o dentro de outra na√ß√£o. Guarda essa ideia para mais tarde.

A questão é que, no século XVII, não havia ainda uma preocupação tão grande sobre os impactos de monopólio e do tamanho das empresas no funcionamento do governo. Primeiro, para criar um negócio com esse porte você precisaria não apenas da autorização, mas do dinheiro do governo. Segundo, monarquias estavam felizes de concentram seus lucros e poderes em empresários que se arriscavam para tornar o reino ainda mais rico. Todo rei ou rainha estava sentado/a no trono por vontade de Deus e mercador nenhum poderia tirar isso deles.

Voltando. Essa preocupação pelo impacto do tamanho dos negócios, um movimento chamado de antitruste, nasce no começo do século XX quando vários setores nos Estados Unidos e na Europa foram dominados, de maneira planejada, por alguns poucos players. Nos EUA, essas empresas foram chamadas de trusts (logo, antitruste foi o nome dado ao movimento para quebrá-las). Praticamente todos os setores da economia norte-americana tinham um trust que congregava as maiores empresas do setor

“Esse movimento de monopoliza√ß√£o aconteceu em velocidade enorme nos EUA. Em apenas uma d√©cada, de 1895 a 1904, pelo menos 2.274 empresas se uniram, criando 157 corpora√ß√Ķes que, na maioria dos casos, dominava as suas ind√ļstrias. No come√ßo dos anos 1900, quase todas as ind√ļstrias dos Estados Unidos eram ou controladas ou em vias de ser por um monopolista √ļnico”. Esse √© um trecho de The Curse of Bigness, um livrinho curto escrito pelo pesquisador Tim Wu, favorito aqui do Tecnocracia, sobre a hist√≥ria do monop√≥lio. Muito do que voc√™ vai ouvir neste epis√≥dio foi tirado desse livro. Como nos dois livros anteriores de Wu, se voc√™ tem interesse na forma como o mercado de tecnologia se formou, eu te aconselho fortemente a ler. Ainda n√£o tem vers√£o em portugu√™s, s√≥ ingl√™s.

O movimento de monopoliza√ß√£o foi alimentado por crises econ√īmicas severas nos EUA e na Europa, o que fez com que centenas de empresas quebrassem. Com esse cen√°rio desolador, cresceu um argumento liberal de que uma das principais culpadas era a “competi√ß√£o ruinosa”. “Na mesma maneira que Peter Thiel argumenta hoje que o monop√≥lio ‘lidera o progresso’ e que ‘competi√ß√£o √© para perdedores’, os apoiadores do Movimento Trust achavam que o conceito de competi√ß√£o defendido por Adam Smith n√£o tinha espa√ßo na economia moderna e industrializada”. Sem competi√ß√£o, a empresa dona do setor n√£o teria que se preocupar em oferecer produtos melhores ou cortar as margens. Se houvesse uma chance de consolidar o setor e deixar tudo em uma m√£o, melhor.

O pioneiro do movimento foi um sujeito chamado John Rockefeller que at√© hoje nomeia uma s√©rie de atra√ß√Ķes nos Estados Unidos, a come√ßar por um pr√©dio em Nova York onde os brasileiros adoram ir no fim do ano para tirar foto no rinque de patina√ß√£o. Rockefeller fundou a Standard Oil, a maior empresa de petr√≥leo dos Estados Unido. Uma das grandes inova√ß√Ķes da empresa foi uma estrat√©gia de “consolida√ß√£o horizontal”, em que um player controla as fases de produ√ß√£o e distribui√ß√£o de um jeito que fica imposs√≠vel a rivais florescerem. Com isso, a Standard Oil era capaz de esmagar competidores menores com cortes de pre√ßo, leis que favoreciam seus neg√≥cios e o controle da cadeia log√≠stica4. Rockefeller usou todas as cartas que tinha e colheu os resultados: trinta anos ap√≥s fundada, a Standard Oil controlava 91% da produ√ß√£o e 85% da venda para consumidores e empresas. Com produto, log√≠stica, lobby e controle do cadeia de suprimentos, a Standard Oil consolidou o mercado e se transformou na maior empresa privada do mundo. Rockefeller, consequentemente, ficou t√£o rico que √©, at√© hoje, o norte-americano mais rico da hist√≥ria, com fortuna estimada em US$ 400 bilh√Ķes de d√≥lares, quase quatro vezes mais que Jeff Bezos, da Amazon, atual pessoa mais rica do mundo com fortuna estimada em US$ 110 bilh√Ķes.

Charge mostrando Theodore Roosevelt segurando as cabeças de  Nelson W. Aldric e de John D. Rockefeller, ambos em forma de serpentes.
Roosevelt segura as serpentes Rockefeller e Nelson W. Aldrich (senador republicado chegado do bilionário), em 1906. Ilustração: Frank Arthur Nankivell/Revista Puck.

Muita gente prestou aten√ß√£o na aula de Rockefeller e replicou o modelo em seus respectivos setores. Os maiores cinemas nos EUA se uniram no Film Trust para controlar a produ√ß√£o e exibi√ß√£o de filmes, deixando de fora qualquer est√ļdio ou cinema menor que n√£o concordasse com a venda de filmes em pacote. Um grupo de imigrantes insatisfeitos resolveu criar seus pr√≥prios est√ļdios ‚ÄĒ da√≠ vem a Warner Brothers, a Paramount, a MGM e a 20th Century Fox, uma hist√≥ria j√° contada no Tecnocracia #15. Al√©m dos donos de neg√≥cios que partiram para a consolida√ß√£o, um outro tipo de profissional copiou Rockefeller: os investidores. O principal dele foi um sujeito chamado John Pierpont Morgan. Ele estudava os setores que ainda n√£o tinham formado um trust e, com um bolso fundo, oferecia uma montanha de dinheiro para comprar dezenas de empresas e transform√°-las em uma s√≥. “Entre os muitos projetos de Morgan estava a consolida√ß√£o do sistema de transporte f√©rreo do Nordeste dos EUA em um monop√≥lio, o New Haven Railroad. Morgan e seu bra√ßo-direito, Charles Mellen, negociaram a fus√£o de 336 empresas, incluindo a respons√°vel pelos trilhos de Boston e do Maine, para criar um novo sistema”. O nome pode n√£o lhe dizer nada, mas voc√™ conhece o tal de John Pierpont ‚ÄĒ o banco que esse sujeito fundou continua bem forte at√© hoje ‚ÄĒ “J” de John, “P” de Pierpont, Morgan. JP Morgan. Os trusts dominavam os setores petrol√≠feros, de telecomunica√ß√Ķes, cinematogr√°fico, ferrovi√°rio, de prote√≠na animal‚Ķ A lista √© longa.

E ningu√©m estava olhando para essa concentra√ß√£o, voc√™ deve estar se perguntando? Sim, estavam. Em 1890, o Congresso norte-americano aprovou um conjunto de leis para regulamentar a competi√ß√£o entre empresas, chamado de Sherman Act, em homenagem ao senador que o prop√īs, John Sherman. Tal qual o Brasil, por√©m, a lei n√£o pegou. Qualquer um que tenha estudado minimamente teoria jur√≠dica sabe que uma lei n√£o significa nada se ela n√£o for cumprida. √Č preciso vontade pol√≠tica. O Sherman Act estava promulgado e, na teoria, valia, mas faltava vontade pol√≠tica para aplic√°-lo, principalmente porque a aplica√ß√£o envolveria comprar brigas com os empres√°rios mais poderosos do pa√≠s. N√£o √© muito diferente de hoje, n√≥s vamos ver adiante. O Sherman Act s√≥ deixou de ser decorativo uma d√©cada depois, quando o ent√£o presidente norte-americano, Theodore Roosevelt5, transformou a quebra dos trusts em prioridade pol√≠tica.

A doutrina vigente ao abordar os monop√≥lios era at√© ent√£o era o laissez-faire (“deixar acontecer”, em franc√™s): o governo n√£o tinha papel nenhum no desenrolar da economia. Se houvesse problemas, o pr√≥prio mercado resolver-los-ia (al√ī, Michel Temer). Roosevelt n√£o compartilhava da ideia. Para ele, os monop√≥lios “eram uma quest√£o de democracia pol√≠tica. Ele via claramente o crescente poder dos trusts como uma s√©ria quest√£o pol√≠tica, no papel de uma amea√ßa √† proposi√ß√£o b√°sica do estado democr√°tico. (‚Ķ) Ele tamb√©m entendia, como dever√≠amos entender hoje, que ignorar a mis√©ria econ√īmica e se negar a dar ao p√ļblico o que eles querem pode levar a solu√ß√Ķes pol√≠ticas mais extremas, como o marxismo ou a revolu√ß√£o anarquista”. Com essa vis√£o clara, o presidente foi atr√°s dos dois maiores monopolistas: primeiro Morgan, depois Rockefeller. Nos dois resultados, ap√≥s uma briga feroz nos tribunais que acabou na Suprema Corte, os resultados penderam para o Sherman Act: a tentativa de Morgan em concentrar o mercado ferrovi√°rio foi dissolvida e a Standard Oil foi quebrada em 34 empresas, algumas das quais voc√™ conhece at√© hoje: a Standard Oil de New Jersey virou a Exxon, a de New York virou a Mobil e a da Calif√≥rnia virou a Chevron.

A tecnologia adora cuspir monopólios

A gente j√° falou de cinema, de petr√≥leo, de carne e at√© de urso de pel√ļcia. Voc√™ pode estar pensando: “Guilherme, esse n√£o √© um podcast sobre tecnologia?”. Sim. Esse contexto todo tem raz√£o: nos √ļltimos 50 anos, nenhum outro setor passou por tantas fases de concentra√ß√£o e pariu tantos monop√≥lios como o das telecomunica√ß√Ķes. A √ļltima grande quebra de monop√≥lio no mundo aconteceu nos anos 1980 quando o Departamento de Justi√ßa dos EUA quebrou a AT&T em 9 empresas regionais. Dessa quebra sa√≠ram quase todas as grandes operadoras norte-americanas de hoje, como Verizon, T-Mobile, Sprint e a pr√≥pria AT&T ‚ÄĒ com o mesmo nome, mas √°rea de atua√ß√£o bem menor. Desde ent√£o, essas operadoras v√™m, vagarosamente, se unindo de novo a ponto de o sistema de telecomunica√ß√Ķes norte-americano hoje ser controlado por tr√™s grandes empresas. Quem detalhou muito bem essa hist√≥ria, tanto da quebra como da gradual concentra√ß√£o nas d√©cadas seguintes, foi um sujeito do qual eu nunca falei aqui chamado Tim Wu, num livro que eu tamb√©m nunca citei, chamado The Master Switch. (Se voc√™ √© novo ou nova ao Tecnocracia, essa √© uma enorme ironia: n√£o existe um livro que recomendei mais vezes que o The Master Switch, que rememora a cria√ß√£o de grandes conglomerados de telecomunica√ß√Ķes no mundo.)

O Brasil passou por um momento semelhante a esse descrito pelo Wu quando, na d√©cada de 1990, o governo de Fernando Henrique Cardoso resolveu quebrar a Telebr√°s para privatizar o sistema de telefonia e ainda levantar uma grana que ajudaria na estabiliza√ß√£o da moeda, necess√°ria para o sucesso do Plano Real. Em 1998, a estatal Telebr√°s, respons√°vel por fornecer linhas de telefonia fixa para consumidor final, foi quebrada em 12 operadoras: tr√™s de telefonia fixa, oito de telefonia m√≥vel e uma de telefonia de longa dist√Ęncia, cada com uma √°rea de atua√ß√£o espec√≠fica. Nesses √ļltimos 32 anos, as 12 empresas viraram quatro: a Vivo (que comprou a Telemig Celular, a Amaz√īnia Celular e a GVT, entre outras), a Claro (que comprou a Net e a Embratel), a Oi (que ganhou dinheiro do BNDES e altera√ß√Ķes no Marco Legal de Telecomunica√ß√Ķes para comprar a Brasil Telecom) e a Telecom It√°lia. Se voc√™ for mais r√≠gido/a, o mercado brasileiro est√° realmente na m√£o de tr√™s grupos, j√° que a Oi vem enfrentando uma crise terr√≠vel h√°, no m√≠nimo, cinco anos, que j√° a levou a pedir a segunda maior recupera√ß√£o judicial do capitalismo brasileiro (a lideran√ßa √© da Odebrecht). Em todas as m√©tricas a operadora brasileira vem perdendo market share e n√£o h√° Deus Ex Machina que a salve.

Tal qual o rio corre em direção ao mar, o mercado de tecnologia parece correr em direção ao monopólio, independente se falamos de serviços de telefonia e banda larga, mainframes, navegadores ou aplicativos de mensagem. A teoria ganha corpo quando você considera o histórico das ondas de tecnologia.

Primeiro exemplo: IBM. Muito antes de virar um assunto sexy para discutir na mesa de bar, a tecnologia come√ßou a entrar na vida das pessoas em grandes computadores usados dentro de empresas para substituir c√°lculos manuais. Eram os mainframes e quem dominou o mercado foi a IBM. O pioneirismo da IBM lhe deu mais de 70% do mercado de mainframes. Com esse poder, a empresa criou entraves aos rivais, que inclu√≠am venda casada, padr√Ķes que s√≥ a beneficiavam, compras para matar inova√ß√Ķes, ‚Äúsabotagem no departamento comercial e an√ļncios falsos de produto‚ÄĚ. Em 1969, o governo norte-americano processou a IBM por abuso de poder. O processo tramitou por mais de 13 anos e foi engavetado em 1982. Ainda que n√£o tenha produzido uma puni√ß√£o oficial, o caso for√ßou a IBM a mudar sua estrat√©gia de competi√ß√£o, numa teoria que o Wu chama de ‚Äúguarda na esquina‚ÄĚ: se voc√™ sabe que um guarda est√° olhando cada a√ß√£o sua, a chance de voc√™ se envolver em atividades ilegais cai consider√°vel.

O pr√≥ximo mercado a estourar ap√≥s o de mainframes foi o de computadores pessoais. Ao lan√ßar o IBM 5150, primeiro PC da hist√≥ria, a empresa desistiu de casar hardware com software e apostou numa arquitetura aberta, algo ‚Äúamplamente entendido, at√© mesmo por funcion√°rios da IBM, como respons√°vel pelo nascimento de uma ind√ļstria de software independente‚ÄĚ. Nessa pujante nova ind√ļstria de softwares se destacou uma desenvolvedora fundada em Seattle por Paul Allen (morto em 2019) e Bill Gates. S√≥ existiu um mercado de softwares por que a IBM, pressionada pelo governo, n√£o se meteu. Se n√£o, voc√™ estaria usando o OS/2 e o Lotus at√© hoje

Segundo exemplo: Microsoft. Com o DOS, depois o Windows e depois o Office, a Microsoft chegou a concentrar mais de 90% do mercado de sistema operacional e softwares de produtividade, o que lhe rendeu o posto de maior empresa do mundo perto da virada do século. Quando dois estudantes universitários criaram um navegador, o Mosaic, que se transformou em um sucesso comercial a ponto de protagonizar o primeiro IPO de sucesso da internet mundial, Bill Gates notou que havia ali um risco ao império. Nos anos seguintes, a Microsoft usou seu tamanho para integrar o Internet Explorer ao Windows e transformá-lo no navegador mais popular do mundo. Quando o Mosaic, renomeado para Netscape, foi incapaz de manter a competição, a Microsoft perdeu o motivo para continuar desenvolvendo o IE, que estacionou na versão 6. A Microsoft só voltou a desenvolver o navegador quando o fantasma do Netscape, encarnado num novo grupo chamado Firefox, voltou para assombrá-la.

Bill Gates gesticulando; letreiro da c√Ęmera informando data e hora ‚ÄĒ 28 de agosto de 1998.
Bill Gates durante interrogatório no caso Estados Unidos vs. Microsoft, em 1998. Foto: Internet Archive/Reprodução.

Em 1992, a Federal Trade Commission, equivalente ao CADE no Brasil, abriu um processo para investigar se a Microsoft estava abusando do seu monop√≥lio para acabar com a competi√ß√£o no setor. Oito anos depois, sem qualquer surpresa, a Justi√ßa descobriu que, sim, a empresa abusava do seu monop√≥lio n√£o s√≥ contra o Mosaic, mas contra quase uma dezena de outras empresas. A solu√ß√£o seria quebr√°-la. A Microsoft apelou e, em 2001, chegou a um acordo com a Justi√ßa norte-americana que a manteve inteira, mas a obrigou a pagar uma multa bilion√°ria (nos EUA e na Europa) e a oferecer op√ß√Ķes de navegadores al√©m do IE para usu√°rios do Windows. O estrago para o mercado de navegadores j√° estava feito, mas, tal qual o caso da IBM, o tapa na m√£o que a Microsoft recebeu mudou sua estrat√©gia para a pr√≥xima onda, a internet. S√≥ existiu um mercado independente de servi√ßos online e apps por que a Microsoft, pressionada pelo governo, n√£o se meteu. Se n√£o, voc√™ estaria usando o Bing at√© hoje.

Terceiro exemplo: Intel. A ascens√£o da Microsoft foi tamb√©m a ascens√£o da Intel, praticamente a √ļnica fabricante de processadores, numa parceria conhecida como WinTel. Abrir uma f√°brica de semicondutor √© bem mais dif√≠cil do que inaugurar uma startup, mas, ainda assim, havia empresas que tentavam competir com a Intel. A que teve mais sucesso foi a AMD, que fabricava chips para servidor tecnicamente melhores que os da Intel. Dona de mais de 90% do mercado de chips para computadores, a Intel come√ßou a oferecer descontos e incentivos a empresas de computadores que se comprometessem a n√£o comprar AMD. A AMD entrou com uma a√ß√£o contra a Intel em 2005 e antes que se aproximasse de um veredicto de quebra, as duas fizeram um acordo pelo qual a Intel pagaria US$ 1,25 bilh√£o e mudaria suas estrat√©gias de venda para parceiros. De novo, o estrago para o mercado de chips para computadores e servidores j√° estava feito, mas, ao saber que estava sendo observada, a Intel adotou uma estrat√©gia menos agressiva quando chegou a pr√≥xima onda, de system on a chip (SoC). O exemplo aqui √© interessante tamb√©m por que a Intel nunca foi tecnicamente boa em chips min√ļsculos como os necess√°rios para smartphones e tablets. Ao n√£o usar seu peso para quebrar rivais, o mercado de chips ganhou uma nova arquitetura, a ARM, e novos players que acabaram sendo comprados por gigantes como Apple e Samsung, que passaram ent√£o a fabricar seus pr√≥prios chips e se encaminham para n√£o precisarem mais da Intel.

Multa, mas n√£o quebra

O que os exemplos de AT&T, IBM, Microsoft e Intel têm em comum é o uso do poder de um líder de mercado para prejudicar rivais, diminuindo a competitividade do setor. Se você acompanha minimamente o mercado de tecnologia, já deve ter aparecido na sua cabeça algumas atitudes das grandes empresas atuais do setor que se assemelham com o que essas outras fizeram lá atrás. Quando o Facebook compra o Instagram e o WhatsApp e concentra o mercado de apps de mensagens, ele não está impactando a competitividade? Quando o Google, que já tinha o Google Videos, compra o YouTube, ele não está impactando a competitividade não apenas do setor de vídeos, mas também o de busca, já que o segundo maior buscador do mundo em volume de consultas não é o Bing, mas o YouTube? Ao criar marcas próprias dos produtos mais vendidos no site e dar destaque maior a suas próprias marcas (muitas vezes sem revelar que é sua) que a de terceiros, a Amazon não está abusando da sua posição de maior varejista online do planeta?

Dois mil e nove foi um ano em que a discuss√£o sobre o tamanho do Big Tech esquentou. Nos EUA e na Europa, as duas √°reas mais impactantes do mundo, processos antitruste foram abertos. Ainda fala-se pouco sobre puni√ß√Ķes e, quando o assunto √© oficialmente levantado, a poss√≠vel sa√≠da √© mais multa do que quebra. N√£o que os donos do Big Tech n√£o tenham medo de uma quebra ‚ÄĒ a rapidez com que o Facebook sugeriu integrar suas tr√™s plataformas de mensageria, Facebook Messenger, Instagram e WhatsApp, vendido como um investimento de privacidade, √©, na verdade, uma tentativa atabalhoada de argumentar que uma quebra poderia matar algum dos servi√ßo. Se j√° existem ind√≠cios claros de que a a√ß√£o do Big Tech est√° freando a competi√ß√£o do setor, por que replicaram o exemplo da AT&T? A moda, h√° d√©cadas, √© n√£o quebrar o neg√≥cio, mas impor uma multa ‚ÄĒ em muitos casos, barata. O medo pode at√© existir, mas Zuckeberg, Bezos e Brin e Page podem dormir tranquilos por enquanto.

De novo, recorramos √† hist√≥ria. O √°pice do antitruste como algo fundamental para o capitalismo aconteceu entre as d√©cadas de 1950 e 1960, quando o governo norte-americano e pa√≠ses europeus quebraram dezenas de trusts ap√≥s a II Guerra Mundial. Esse af√£ antitruste perdeu g√°s a partir da d√©cada de 1980, quando a doutrina sobre o assunto deu um cavalo de pau alimentado por acad√™micos sa√≠dos da Universidade de Chicago, liderados pelo advogado Robert Bork. At√© ent√£o, o monop√≥lio era visto como prejudicial por atrapalhar a competi√ß√£o. J√° a teoria de Chicago defendia que o monop√≥lio s√≥ podia ser julgado pelas vantagens que traria ao consumidor. Se uma empresa concentra 90% do seu setor e os clientes est√£o pagando menos, por que impor qualquer san√ß√£o? Os te√≥ricos alegavam que, enquanto o pre√ßo continuasse baixo, o monop√≥lio seria √≥timo para o consumidor. Nesse estado te√≥rico (lembre-se disso) de monop√≥lio, o √ļnico detentor, sem ter que competir com os rivais, poderia repassar ao consumidor pre√ßos menores.

O argumento funciona s√≥ no discurso, n√£o na realidade, como Wu prova com alguns exemplos no livro. Fiquemos em dois. Um: entre 2005 e 2017, a ind√ļstria farmac√™utica passou por uma consolida√ß√£o que uniu mais de 60 empresas em 10. Em alguns casos, o aumento nos pre√ßos de determinadas droga variou entre 1.000% e 6.000% no mesmo per√≠odo. Dois: a ind√ļstria de avia√ß√£o se concentrou em tr√™s players, menos da metade de duas d√©cadas atr√°s, o que nos coloca nesse atual cen√°rio de assentos diminuindo e novas taxas, como a de mala de m√£o. Esse √© um exemplo para os Estados Unidos, mas que vale tamb√©m para o Brasil.

Mesmo com ind√≠cios claros, as quebras pararam nos anos 1980. N√£o √† toa, a √ļltima foi a da AT&T. No mercado de tecnologia h√° outro fator que sugere que quebrar Big Tech n√£o vai ser t√£o simples. Em tecnologia, o foco em pre√ßo para o consumidor √© mais complicado principalmente por que os servi√ßos oferecidos s√£o gratuitos. O dinheiro de verdade √© ganho na comercializa√ß√£o dos dados. H√° outro argumento forte para endossar a teoria de Bork, principalmente na computa√ß√£o em nuvem: l√≠der do setor, a Amazon Web Services gosta de alardear os cortes de pre√ßos constantes que promove nos seus servi√ßos, decorr√™ncia direta n√£o apenas da escala do servi√ßo, mas tamb√©m da lei de Moore.

√Č preciso um novo paradigma para se encarar o problema, um paradigma que j√° foi usado: o ponto principal n√£o √© o pre√ßo, mas a atua√ß√£o √† la Cronos, de matar no ninho os potenciais novos rivais. Desde sua funda√ß√£o, o Facebook fez 67 aquisi√ß√Ķes aprovadas sem restri√ß√Ķes, enquanto a Amazon fez 91. Ambas s√≥ ficam atr√°s do Google, que comprou 214 startups (algumas com restri√ß√Ķes impostas pelo governo). Nestas centenas de startups est√£o as mais conhecidas, mas tamb√©m est√£o dezenas de “acqui-hires” (quando a empresa compra outra s√≥ pra contratar seus funcion√°rios) e algumas compradas para inevitavelmente tirar do mercado um servi√ßo ou produto que poderia se tornar uma amea√ßa adiante. O manto sobre as compras torna praticamente imposs√≠vel saber se a tecnologia foi aproveitada ou simplesmente arquivada no arquivo de c√≥digos para n√£o ser mais usada por ningu√©m. Os processos antitruste s√£o importantes n√£o apenas por colocar o ‚Äúguarda na esquina‚ÄĚ, mas tamb√©m para revelarem uma s√©rie de documentos que, por outra forma, jamais veriam a luz do Sol. Quando a empresa n√£o concorda em ser comprada, como foi o caso do Snapchat, √© muito f√°cil copiar a ideia e explor√°-la numa plataforma muito maior. A forma como o Facebook copiou o Snapchat para lan√ßar os Stories no Instagram deveria ter acendido todas as luzes amarelas sobre competi√ß√£o prejudicada.

O governo como co-conspirador

H√° outro ponto a se considerar na discuss√£o sobre o impacto dos monop√≥lios na sociedade: sua rela√ß√£o com a pol√≠tica. Uma das raz√Ķes pelas quais o antitruste estava muito forte nas d√©cadas de 1950 e 1960 foi o fim da II Guerra Mundial. No julgamento dos crimes de guerra, entraram n√£o apenas soldados, oficiais e membros dos ex√©rcitos e dos governos totalit√°rios, mas empres√°rios que compunham trusts no Jap√£o, na It√°lia e na Alemanha. Pesquisadores que passaram as √ļltimas d√©cadas debru√ßados sobre o impacto pol√≠tico dos monop√≥lios descobriram que ‚Äúconcentra√ß√£o econ√īmica extrema produz enorme desigualdade financeira e sofrimento material, alimentando um apetite por lideran√ßas nacionalistas e extremistas‚ÄĚ, segundo Wu. O pesquisador de antitruste Daniel Crane √© ainda mais direto: ‚Äúa ideologia de apoiar e sofisticar o antitruste no p√≥s-Guerra cresceu nos EUA e na Europa como rea√ß√£o ao papel que o poder econ√īmico concentrado teve na ascens√£o do fascismo‚ÄĚ. De novo Wu: “a ascens√£o e o exerc√≠cio do poder por Adolf Hitler foram facilitados pela toler√Ęncia da Rep√ļblica Germ√Ęnica aos monop√≥lios em ind√ļstrias-chave, como a Krupp no setor b√©lico, a Siemens no setor ferrovi√°rio e de infraestrutura e, principalmente, o cartel I.G. Farben no setor qu√≠mico‚ÄĚ.

Vamos com cuidado aqui para não toparmos o mindinho na Lei de Godwin: ter poucas empresas enormes concentrando um setor não significa que, necessariamente, a democracia morreu. O ponto é que é mais fácil haver a aliança entre um governo autoritário e um monopólio que fecha os olhos para os impactos políticos e sociais enquanto está enchendo o próprio bolso. Não é uma questão de crença política; é só negócios.

Vejamos o exemplo da Farben, um monop√≥lio criado em 1925 pela uni√£o das seis maiores empresas qu√≠micas da Alemanha. Durante a ascens√£o dos nazistas ao poder, a Farben era acusada de ser uma ‚Äúinternational capitalist Jewish company‚ÄĚ, at√© que come√ßou a doar dinheiro para o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alem√£es (o Partido Nazista) e virar um dos fornecedores do governo no Terceiro Reich. A Farben era t√£o ligada ao regime que usou m√£o de obra escrava de milhares de judeus presos em campos de concentra√ß√£o, inclusive de Auschwitz. Durante a II Guerra, a Farben foi a maior empresa qu√≠mica do mundo. Com a derrota do Eixo, os aliados a quebraram em tr√™s empresas que existem at√© hoje e das quais voc√™ j√° ouviu falar: Bayern, a BASF e a Hoechst. No julgamento de Nuremberg, 24 executivos da Farben foram condenados por escravid√£o humana e outras ofensas. O Partido Nazista precisava de dinheiro e armas, a Farben precisava de mercado e m√£o de obra. Uma m√£o lava a outra, as duas matam milh√Ķes de pessoas pela Europa6.

Executivos da Farben durante julgamento em Nuremberg.
Executivos da Farben durante julgamento em Nuremberg. Foto: Wikimedia Commons.

Num cen√°rio assim, o governo abandona totalmente seu papel regulador e para de trabalhar em prol da sociedade para trabalhar em nome do projeto de poder. J√° a empresa esquece suas prefer√™ncias pol√≠ticas e se alia a qualquer um que a mantenha na ponta. Governo e empresa viram co-conspiradores. √Č parecido com o que a Apple e, principalmente, o Facebook v√™m fazendo ao se aproximar de Trump, entre encontros a portas fechadas com Zuckeberg e a manuten√ß√£o de regras que beneficiam campanhas de desinforma√ß√£o online. O consultor de Zuckerberg na quest√£o, ali√°s, √© Peter Thiel, membro do conselho do Facebook e t√£o entusiasta do conceito de monop√≥lio que defende que “competi√ß√£o √© para perdedores”.

De novo: eu n√£o acho que a concentra√ß√£o de renda e poder da Big Tech hoje est√° nos levando a um cen√°rio parecido. Aqui a gente est√° explorando um cen√°rio real da jun√ß√£o entre um governo autorit√°rio e monop√≥lios n√£o regulamentados para mostrar o que pode acontecer. Aconteceu de verdade e h√° pouco tempo ‚ÄĒ h√° 60 anos, seus av√≥s e talvez seus pais j√° estavam vivos.

A discuss√£o sobre monop√≥lio √© muito mais complexa do que simplesmente parar na quest√£o do pre√ßo. O Big Tech hoje tem muito poder e dinheiro e nada indica que essa concentra√ß√£o vai parar. Lembrando: em cinco anos, o valor de mercado das cinco maiores mais que triplicou, enquanto o mercado passou longe desse crescimento. √Č √≥bvio que estamos indo em dire√ß√£o a um cen√°rio de concentra√ß√£o ainda maior. Como ser√°? Eu n√£o acho que ser√° algo nos moldes da Farben (e posso estar errado), mas a gente pode ter a plena certeza de que, por baixo das campanhas de rela√ß√Ķes p√ļblicas e publicidade, n√£o ser√° nada bonito.

Esperar que Facebook, Google, Amazon, Apple e afins sejam quebradas parece, a essa altura, um wishful thinking (feliz ano novo, Luciana Gimenez). Se elas s√≥ receberem um tapa na m√£o que as impe√ßa de avan√ßar sobre a pr√≥xima onda ‚ÄĒ como aconteceu com IBM, Microsoft e Intel ‚ÄĒ, o lucro j√° ser√° enorme.

Imagem do topo: Hasbro/Reprodução.


  1. Defini√ß√£o do dicion√°rio Houaiss para ‚Äúdistopia‚ÄĚ: lugar ou estado imagin√°rio em que se vive em condi√ß√Ķes de extrema opress√£o, desespero ou priva√ß√£o. ‚Ü©
  2. Big Tech é a expressão usada para descrever o grupo das maiores empresas de tecnologia do mundo: Google, Microsoft, Facebook, Apple e afins. ↩
  3. Em uma miss√£o explorat√≥ria a partir de uma das col√īnias, um navegador holand√™s descobriu um peda√ßo de terra grande no sudeste da √Āsia e lhe deu um nome em homenagem a uma das prov√≠ncias holandesas, Zel√Ęndia. O peda√ßo de terra at√© hoje se chama Nova Zel√Ęndia por isso. ‚Ü©
  4. Ainda que n√£o tenha sido a inspira√ß√£o direta do personagem de Daniel Day Lewis, √© poss√≠vel ver em Sangue negro, filme do diretor Paul Thomas Anderson, muitas das estrat√©gias sujas usadas pelos bar√Ķes do setor para esmagar a competi√ß√£o. ‚Ü©
  5. A aplica√ß√£o do Sherman Act n√£o foi o √ļnico impacto que Theodore Roosevelt chegou a voc√™: o 26¬ļ presidente norte-americano √© tamb√©m respons√°vel direto pelo urso de pel√ļcia, n√£o chamado de Teddy Bear √† toa. ‚Ü©
  6. Esse √© um caso extremo, mas existem outros perturbadores: o Rockefeller e o Graham Bell, fundador do que virou a AT&T, deram milh√Ķes de d√≥lares e apoiaram publicamente programas de eugenia. Ambos tinham sempre a orelha dos pol√≠ticos. √Č nessa hora da troca que o poder econ√īmico usa seu espa√ßo na mesa pol√≠tica. ‚Ü©

√ćndice 20#1

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6 coment√°rios

  1. Excelente aula sobre a hist√≥ria dos monop√≥lios. Acabei de escrever um artigo, em certa medida, fazendo uma apologia a Apple. Vou ter que rever os conceitos no pr√≥ximo, principalmente no que tange ao coment√°rio da “aproxima√ß√£o” da empresa com o Trump.

    Guardei o Tchmeme pra fazer uma pesquisa l√° e me interessei pelo Tim Wu.
    Estou iniciando nas discuss√Ķes sobre tecnologia e foi muito boa descoberta pra mim, o Manual do Usu√°rio.

  2. A pior coisa que os reguladores permitiram foi o Facebook agir sem freio, comprando tudo e todos e copiando os concorrentes na cara de pau!
    Hoje ficamos a mercê do Whatsapp e Instagram (Facebook já abandonei há tempos) e nenhuma imagem de concorrentes no retrovisor. Atualmente, percebi a migração de alguns amigos para o Telegram, mas também não confio nos serviços desse aplicativo. Vamos aguardar se a união Européia irá tomar as rédeas da situação. O problema é o medos que eles têm de que seus produtos sejam taxados pelos EUA como represália a essa quebra das Big Techs.

  3. Nada como os “chicago boys” para falarem merda sobre economia. N√£o √© por nada que o nosso atual “super” ministro da economia √© adepto das doutrina da Escola de Chicago. Vamos ser muito felizes com esse cara mandando nos rumos econ√īmicos do pa√≠s, n√£o tem como dar errado uma doutrina que prega o monop√≥lio como algo bom.

    ~~

    Atualmente quem defende uma quebra das Big Tech é a Elizabeth Warren, adversária do Bernie Sanders nas primárias. Ela defende, principalmente, que o Facebook passe por uma quebra em todos os setores e dê a luz a novas empresas com foco de atuação bastante limitado. Ambos, Sanders e Warren, defendem ainda uma severa tributação aos bilionários do Vale do Silício como forma de mantê-los com influência reduzida nos governos.

    Não à atoa, o progressismo da Apple, Google, Amazon e Facebook já se diluiu e todas elas fecharam a casa pros democratas e se abraçaram com o Trump.

    No final, principalmente em economias como a dos EUA, o que importa √© o lucro exorbitante e a capacidade de manter-se explorando as pessoas (trabalhadores e usu√°rios) para extrair at√© a √ļltima gota de sangue de todos. Bilion√°rios n√£o deveriam existir.

  4. Que conte√ļdo sensacional! O fato de ter o texto para ir acompanhando audio tamb√©m ajuda muito. Parab√©ns pelo trabalho, certo que teve muita pesquisa e tempo dedicado para tal.

  5. Como sempre, excelente conte√ļdo.
    Um dos podcasts que acompanho vem dado alguma atenção para a discussão dos monopólios das big techs.

    No mesmo dia da publica√ß√£o desse tecnocracia, eles publicaram uma entrevista sobre as discuss√Ķes que est√£o acontecendo nos EUA: https://www.theverge.com/2020/1/23/21078903/podcast-house-antitrust-chairman-cicilline-tech-monopoly-vergecast

    O DHH (criador do Rails e criador do Basecamp) foi um dos que testemunhou em um dos comit√™s. Ele publicou o conte√ļdo do testemunho dele: https://m.signalvnoise.com/testimony-before-the-house-antitrust-subcommittee/

    Existem muitas discuss√Ķes, mas se acontecer√° algo (al√©m das multas) ainda √© muito incerto.