imagine all the A.I.

Furiosa e outras personagens femininas do filme Mad Max: Estrada da Fúria, em paisagem no deserto.

-imagine que vocês sejam outras pessoas

-quem?

-não sei, imagine. é uma situação hipotética

-tá

odiava essa brincadeira, mas não ia falar isso de novo. da outra vez disseram que não tinha “poder de abstração”. respondeu que isso, de ficar fantasiando, era coisa de criança. ficou um clima ruim, levaram para o pessoal. dessa vez não ia falar nada e torcer para a coisa toda perder a graça rápido.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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-agora imagine que a gente venceu na vida, tem emprego que gosta, salário bom, casa dos sonhos, filhos, tudo.

-tá

até aí, tudo bem. a ideia geral de uma vida boa não é difícil de evocar. o problema sempre são os detalhes. qual emprego? quanto dinheiro? como seria essa casa? quantos filhos? eles teriam algum problema psicológico de leve a moderado, representando um desafio motivador mas não frustrante?

-agora imagine que a gente vive num futuro em que o mundo real virou um deserto atômico e a gente vive dentro das máquinas. não a gente, a nossa consciência.

aí já era seu limite. muito abstrato.sua mente fez um desvio de rota do jogo e começou a pensar naquelas mulheres que viviam no deserto, no último Mad Max.

-mas ninguém vive nesse deserto? porque a vezes dá pra viver ali. só é difícil, mas dá.

-não dá, é atômico, radioativo. se quiser viver, tem que ser dentro da máquina.

-tá

-só que assim, nessa condição, você não pode ser muito feliz. porque sobrecarrega o sistema

aquilo não fazia sentido nenhum. por que raios o sistema ia ser tipo uma internet discada, um pacote limitado de dados?

-tá

-então a gente pode escolher duas coisas boas pra ter na vida, tipo emprego e casa, e duas ruins, tipo filhos e sei lá, uma doença crônica. o que vocês escolheriam?

nessa altura já estava pensando que era plenamente possível viver em um algum canto do deserto radioativo que não fosse tão radioativo assim. mas falou que o que achava que devia falar.

-casa e filhos

-e as ruins?

-emprego e rinite alérgica?

-mas esses dois aí você já tem na vida real.

-então, sei conviver bem. o melhor dos dois mundos

-você não tem ambição…


Paula Gomes é doutora em Cinema pela Unicamp, divulgadora científica, fotógrafa e videomaker.

Publicado originalmente no Medium em 11 de setembro de 2019.

Foto do topo: Warner Bros./Reprodução.

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1 comentário

  1. As vezes acho (só acho) que no final somos consciências dentro de máquinas…

    (E a pessoa que conheci na vida que tinha muita ambição, caiu e perdeu tudo por causa desta ambição)

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