No Twitter, Pedro Burgos chama a atenção a uma característica comum dos países bem sucedidos no combate à pandemia de COVID-19:

Pergunta honesta: algum país conseguiu ir bem no combate à pandemia sem “violar” a privacidade dos seus cidadãos? Todos os cases de sucesso fizeram coisas que provocariam arrepios em ativistas de privacidade que conheço.

Acho que nenhum ativista prega a inviolabilidade total da privacidade dos cidadãos. (Ok, talvez gente como o Stallman, mas esses são fora da curva e estão longe de falar pela maioria.) Todos nós rotineiramente abrimos mão da privacidade, quando declaramos o imposto de renda ou fazemos um cadastro governamental para ter acesso a serviços públicos, por exemplo. O caso da Austrália, que mantém listas com dados pessoais de frequentadores de bares e restaurantes, a gente já faz aqui, voluntariamente, quando abre uma comanda — passa nome e telefone, dados bem pessoais, sem ter a menor ideia do que o estabelecimento fará com eles.

O que pesa mais ao se “violar” a privacidade não é o ato em si, mas as motivações e circunstâncias. Se há opacidade ou transparência, se há salvaguardas legais de que a cessão parcial da privacidade será restrita àquela finalidade, se temos garantias robustas de que abusos (digo, ações imprevistas) não serão cometidos.

Uma pandemia é uma situação excepcional e, como tal, faria sentido negociar suspensões temporárias de direitos a fim de combatê-la. A gente já faz isso, ainda que aos trancos e barrancos, com o direito de ir e vir, um que é ainda mais básico que o da privacidade. Não acharia ruim, por exemplo, que pessoas contaminadas ou que tiveram contato com contaminados fossem rastreadas mais de perto. Seria justificável, pois há um bem maior em jogo.

Os “cases” que o Pedro listou no fio têm um ponto em comum que me parece mais relevante que as violações à privacidade: todos os países bem sucedidos são orientais. Ele cita isso, de passagem, ao dizer que “a discussão sobre esse ‘trade-off’ passa também por especificidades culturais das sociedades em questão”, mas talvez seja mais que um mero “trade-off”; talvez este seja o principal fator de diferenciação entre o sucesso oriental e o fracasso ocidental.

No Ocidente, sabemos bem, vige a primazia do individualismo. Atribuímos à responsabilidade individual o papel de pedra fundamental da sociedade, e vamos à luta assim, no “cada um por si”, mesmo quando enfrentamos um inimigo que só pode ser vencido em conjunto, caso de uma pandemia. Os inacreditáveis protestos contra o “lockdown”, medida comprovadamente eficaz para conter a disseminação da doença, entram nessa conta — a galera de camiseta amarela e sem máscara que vai a esses protestos argumenta que o “lockdown” fere sua liberdade individual.

No Oriente, por outro lado, há um senso maior de coletividade, ou uma disposição a pequenos sacrifícios em nome de um bem maior. Suspeito (pois careço de conhecimento) que seja o caso mesmo em países mais alinhados ao Ocidente, como Austrália e Israel. Isso se reflete, e muito, em esforços coletivos. Os desastres no Brasil e nos Estados Unidos são fortes evidências de que a ingerência individual tem limites e, em situações extremas como a que vivenciamos, põe milhares de vidas em risco.

Como aponta o próprio Pedro, esse senso de coletividade é um traço cultural, ou seja, não se cria da noite para o dia, e depende de outras variáveis para florescer das quais carecemos no momento, como um nível mínimo de confiança uns nos outros e em quem nos lidera. Não é um assunto muito popular, mas fica a torcida (e o “dever de casa”) de começar a virar essa chave para que, na próxima pandemia, que infelizmente virá, estejamos melhor preparados.

Tenho um anúncio a fazer. Estou de volta ao conselho diretor da Free Software Foundation. […] Alguns de vocês ficarão felizes, outros podem ficar desapontados, mas quem sabe? De qualquer forma, é assim que será e eu não pretendo sair outra vez.

— Richard M. Stallman, fundador e ex-presidente da Free Software Foundation (FSF). Via The Register (em inglês).

Em 2019, Stallman deixou voluntariamente a presidência e uma cadeira no conselho da FSF e sua posição como cientista visitante do Laboratório de Ciência da Computação e Inteligência Artificial do MIT. Ele havia feito comentários considerados insensíveis em defesa do professor Marvin Minsky, morto em 2016, que teria tido relações sexuais com uma das vítimas de Jeffrey Epstein, que suicidou-se em 2019 enquanto era acusado de tráfico e exploração sexual.

Stallman é uma figura importante na história da computação e, ao mesmo tempo, um sujeito controverso e sem tato social. O incidente com Minsky foi apenas mais um episódio, talvez o mais estridente, de vários; uns apenas antipáticos, outros problemáticos.

As contribuições dele — além da FSF, ele criou o Emacs e o GNU — são indeléveis, mas não deveriam servir de salvo-conduto, especialmente em um conselho diretor, que, vale lembrar, não é um órgão técnico; é político, de liderança. A própria FSF especifica suas atribuições e o que se espera dele: “A boa governança começa com o conselho de diretores, que supervisiona a organização e é responsável pelo seu sucesso”, diz o site. “O papel do conselho (e sua obrigação legal) é supervisionar o gerenciamento da organização e garantir que ela cumpra sua missão.” Reintegrar Stallman ao conselho passa uma mensagem péssima ao público externo e aos voluntários da fundação.

O Procon-SP multou a Apple em R$ 10,5 milhões devido, entre outros motivos, à remoção do carregador de parede das caixas de iPhones novos. No ano fiscal de 2020, a Apple faturou US$ 274,5 bilhões, cerca de R$ 1,5 trilhão na cotação atual. A multa do Procon-SP, da qual a Apple ainda pode recorrer na Justiça, representa 0,0007% desse valor. Apesar do aspecto didático, nada que vá tirar o sono de Tim Cook. Via Uol Tilt.

Professores dos cursos de Física e Medicina da Universidade Estadual de Maringá (UEM) desenvolveram um capacete de oxigênio de baixo custo para pacientes moderados de COVID-19, ou seja, aqueles que precisam de oxigênio, mas ainda não de intubação. O capacete é uma alternativa menos invasiva e mais consistente às máscaras de oxigênio. No primeiro lote, de 100 unidades, o custo por unidade ficou em R$ 65. Via CBN.

Achados e perdidos #8

Todo sábado, pego uns links que acumulei ao longo da semana e que, embora curiosos e/ou interessantes, não renderam nem notinhas, e os publico num compilado que chamo de “achados e perdidos”. É um conteúdo mais leve, curto, quase lúdico — a cara do fim de semana.

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Uma receita feita com Lego em stop motion. (Bônus: aprendi a cortar pimentão de um jeito mais prático.)

— O Rotary Phone é um celular (com 4G!) que usa um disco, como aqueles telefones fixos antigos, como interface. Sai na metade do ano por US$ 390 e, até onde vi, não acompanha a agenda em papel.

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Instagram está desenvolvendo uma versão para crianças com menos de 13 anos

Não é todo dia que o Facebook emplaca dois “o que poderia dar errado?”, mas hoje sim. Um documento interno vazado revela que a equipe do Instagram está desenvolvendo uma versão do Instagram para crianças com menos de 13 anos. Repetindo: o que poderia dar errado? Via BuzzFeed News (em inglês).

Nunca é demais enfatizar: esta pulseira não pode ler seu cérebro.

— Andrew “Boz” Bosworth, VP do Laboratório de Realidade do Facebook

O Facebook está desenvolvendo uma “pulseira neural” capaz de ler sinais elétricos enviados às suas mãos e reenviá-los a uma interface de realidade aumentada. O que poderia dar errado? Via BuzzFeed News (em inglês).

A economia das senhas compartilhadas

Nunca conheci alguém que pagasse a Netflix para usar a assinatura sozinho. Regra geral, todo mundo compartilha senhas. Em tese, esse compartilhamento só pode ser feito entre pessoas da mesma família, na mesma casa. Na prática, nossas “famílias” são enormes, heterogêneas, às vezes espalhadas pelo Brasil e ter completos desconhecidos no meio.

Estima-se que ~30% dos mais de 200 milhões de assinantes da Netflix compartilhem senhas. (Se eu tivesse que chutar um percentual, seria um maior.) Toda essa galera ficou alerta dias atrás, quando alguns usuários relataram em redes sociais que a Netflix estava pedindo uma confirmação extra em novos logins compartilhados e reforçando, na mesma tela, aquela cláusula dos termos de uso que restringe o reuso de uma mesma senha à família. A farra das senhas estaria com os dias contados?

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Post livre #260

Toda semana, o Manual do Usuário publica o post livre, um post sem conteúdo, apenas para abrir os comentários e conversarmos sobre quaisquer assuntos. Ele fecha no domingo por volta das 16h.

Uma dúvida legítima em torno do NFT (ouça o nosso podcast) é o que as pessoas efetivamente recebem ao comprarem um? Jonty Wareing fez uma breve pesquisa e descobriu que, de duas, uma:

O token NFT que você compra aponta para uma URL na internet ou para um hash IPFS. Na maioria dos casos, ele faz referência a um gateway IPFS na internet, mantido pela startup de quem você comprou o NFT. Ah, e aquela URL não é o arquivo de mídia. Aquela URL é um arquivo de meta dados no formato JSON.

Aqui está o arquivo JSON de uma arte do Beeple, arrematada por US$ 66,6 mil em novembro de 2020.

Em outras palavras, você adquire um arquivo de poucas linhas de texto ligado ao site da startup que criou e vendeu o NFT, o que significa que se essa startup fechar ou o site sair do ar, seu certificado meio que se torna um arquivo inútil — lembre-se que ele está numa blockchain e, por isso, não pode ser alterado. Via @jonty/Twitter (em inglês).

Não é todo dia que o Audacity, ótimo editor de áudio de código aberto, ganha uma grande atualização. O Audacity 3.0, liberado nesta quarta (17), traz como destaque a nova maneira de salvar projetos: em vez de um punhado de arquivos soltos dentro de uma pasta, como era até a versão anterior, agora todos eles ficam salvos dentro de um *.aup3, diminuindo as chances do usuário apagar algo que não devia e acelerando a abertura e fechamento dos projetos. (A título de curiosidade, a versão 2.0 foi lançada em março de 2012, há nove anos.) Via Audacity (em inglês).

Depois de perder uma batalha judicial de cinco anos, nesta quarta (17) a Uber passou a tratar seus motoristas como funcionários no Reino Unido. Com isso, eles terão direito a salário mínimo, férias remuneradas e aposentadoria. Até o momento, a empresa não quebrou e, segundo um porta-voz, a mudança não deverá acarretar aumento nos preços aos consumidores. Via BBC News.

Toda quinta, na newsletter do Manual (cadastre-se gratuitamente), indico leituras longas/de fôlego (artigos, reportagens, ensaios) publicadas em outros sites.

Seria o máximo se esse trabalho fosse colaborativo, feito com a sua ajuda.

Indique nos comentários uma leitura longa da última semana, relacionada aos temas que costumam aparecer aqui no site, que você acha que deveria ser lida por mais gente. Vale em português ou inglês.

Em conferência com acionistas em Seul, o co-CEO da Samsung, DJ Koh, sinalizou que a empresa não lançará um novo Galaxy Note em 2021. Embora a empresa esteja sofrendo com a escassez de chips — um problema multisetorial, que afeta de celulares à fabricação de automóveis —, essa não seria a única explicação para a ausência de novo Galaxy Note este ano. Segundo Koh, o objetivo é “simplificar a linha de produtos”, mesmo não se falando (ainda?) em eliminar de vez a linha Note. A princípio, ela deverá voltar em 2022.

Lembrando que o Galaxy S21 Ultra, lançado em janeiro deste ano, trouxe suporte à S Pen, o até então grande diferencial da linha Galaxy Note. Via Bloomberg (em inglês, com paywall), Android Authority (em inglês).