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Pelo meio ambiente

Nova caixa do iPhone 12, cor verde, em tamanho reduzido, em um ambiente branco.

No dia em que a Apple apresentou o iPhone 12, falou-se mais de um “não produto” que dos novos celulares. Especificamente, da remoção do carregador de parede e dos fones de ouvido das caixas dos novos modelos e dos antigos que continuam à venda (SE, XR e 11).

A retirada desses acessórios, que vinham na caixa desde o primeiro iPhone, de 2007, foi posicionada como parte dos esforços da Apple em diminuir seu impacto ambiental. Sem eles, há dois ganhos: logística mais eficiente e menos acessórios redundantes, que acabavam sem uso, sendo produzidos e vendidos.

Todo esforço em prol do meio ambiente é válido, e não há como negar que a controversa medida da Apple terá, sim, um impacto positivo — segundo a empresa, será possível carregar 70% mais caixas de iPhone no mesmo espaço usado antes, o que evitará emissões de carbono equivalentes a 450 mil carros rodando por ano. Por outro lado, medidas do tipo não podem ser encaradas no vácuo. É preciso contextualizá-las. Afinal, como alguém brincou no Twitter, se a preservação do meio ambiente fosse prioridade, o mais certo a se fazer seria deixar de fabricar iPhones.

Medidas em prol do meio ambiente anunciadas por multinacionais de capital aberto, como esta da Apple, são paliativos que nos afastam de encarar uma contradição existencial: a Apple e o modelo de consumo que ela pratica e que sustenta seu negócio é a grande mazela ao meio ambiente. Obviamente, isso jamais será questionado — ao menos, não pela própria Apple.

Mas, mesmo desconsiderando essa medida extrema, há outras menos polêmicas e tão ou mais eficazes que a Apple já poderia ter tomado para se tornar mais verde, mas que inexplicavelmente ainda não foram consideradas.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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Repensar os AirPods, por exemplo. Esses fones de ouvido, posicionados como ideais para donos de iPhone desde que a entrada padrão de fones foi removida, em 2016, são irreparáveis. Após dois anos de uso, quando a bateria degrada naturalmente, eles viram lixo eletrônico.

Outra ideia seria facilitar os reparos em seus produtos, mas o que acontece há anos é justamente o contrário: produtos da Apple são cada vez mais fechados, recheados de cola e de componentes soldados — sem falar nos obstáculos artificiais, via software, apenas para dificultar reparos por terceiros, além de fazer lobby nos EUA para emperrar leis pró-reparo.

No campo dos acessórios de celular, foco da discussão da semana, adotar o padrão USB-C no iPhone seria um enorme avanço. Em vez disso, há mais de uma década a Apple faz lobby para contornar o esforço da União Europeia em padronizar a indústria de celulares no USB-C a fim de reduzir a produção do lixo eletrônico gerado por… cabos e carregadores.

A propósito, o cabo, único acessório que sobrou na caixa do iPhone, agora virá com uma ponta USB-C, o que o torna incompatível com as centenas de milhões de carregadores de parede espalhados pelo mundo, que têm entrada USB-A. Há quem diga que essa decisão, somada ao novo MagSafe dos iPhone 12, são as bases para um futuro iPhone sem buraco algum, o que tornaria cabos de recarga desnecessários. Nesse meio tempo, mais algumas dezenas de milhões de novos cabos serão fabricados para, caso essa teoria se concretize, daqui a alguns anos virarem mais lixo eletrônico.

Ajudaria a sustentar a narrativa verde da Apple se a remoção dos acessórios fosse acompanhada de um desconto ou crédito para os consumidores gastarem na App Store. Por menor que seja o custo deles1, a Apple está economizando. O desconto sinalizaria ao público, numa linguagem bem mercadológica, que a Apple não fez o que fez de olho em aumentar sua margem de lucro — independentemente disso ter pesado ou não. Não só não tem desconto, como um dos modelos encareceu: o iPhone 12, sucessor direto do iPhone 11, ficou 14,3% mais caro nos Estados Unidos2.

Foto do topo: Apple/Divulgação.

  1. Não encontrei valores, mas fabricar fones de ouvido simples e carregadores de parede deve ser muito barato na escala da Apple, coisa de centavos ou uns poucos dólares, ainda que esses produtos cheguem ao consumidor final custando caro — no Brasil, o carregador básico de 5W custa R$ 219, mesmo preço dos EarPods.
  2. Os preços no Brasil ainda não foram anunciados, mas a julgar que no dia do anúncio os modelos antigos, ainda à venda, encareceram um bocado, há a possibilidade de que o iPhone 12 mais barato, digo, menos caro chegue aqui na casa dos R$ 7 mil.

Edição 20#38

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6 comentários

  1. Acho interessante o efeito psicológico dessa mudança, já que a Apple sempre conseguiu esticar mais as margens de lucros que seus concorrentes. Mesmo que a “experiência” seja equivalente, ela economiza em vários pontos como memória, tela e o processador próprio e cobra os maiores preços.

    A diferença, nesse caso, e só que a questão de tirar da caixa algo físico que vinha e isso acaba doendo muito. Na prática, é só mais uma coisa que a Apple lucra mais que todos outros, mas a indignação é muito maior.

    A escala é muito menor, mas muito parecido com a questão do Exynos e Snapdragon da Samsung: a revolta é pela sensação de estar sendo lesado, mesmo que eles até tenham colocado mais acessórios na caixa do Exynos para justificar. O problema é que tem um outro melhor vendido em outro país.

    Em relação ao meio-ambiente, é isso aí: só faz sentido quando convém para ela.

    De qualquer forma, gostaria de saber o que significa na prática os números que eles deram. Primeiro se é verdade, segundo se é relevante. Espero que seja, já que usuário da Apple vai engolir de qualquer forma e os demais devem copiar, espero que ao menos seja relevante.

  2. Sinceramente, encarei essa desculpa mais como uma chacota com a causa ambiental. Parece mais que fizeram isso pra rir na “cara” da UE quando fizerem exigências. Imagino a cena como o vereador Jamm aprontando mais um contra Leslie Knop em Parks and Recreation.

  3. É engraçado ver anúncios da Samsung ironizando que o iPhone não tem mais carregador na caixa e saber que em menos de três anos eles vão fazer a mesma coisa. Assim como eles fizeram piadinha depois que o iPhone perdeu a entrada pra fone de ouvido e, umas duas gerações depois, foram apagar todos os vídeos pra poder lançar um Galaxy sem porta pra fone de ouvido.

    1. Exatamente.
      Eu ri dos anúncios naquela época.
      Quando o Galaxy Note 10 veio sem entrada P2, eu pensei “é, acabou”.
      Nenhuma das outras empresas vai perder a oportunidade de economizar na caixa sem baixar o preço dos seus celulares, já percebeu?
      A expectativa do consumidor é de que a competição leve à redução dos preços, mas o que acontece é o contrário. Apple cria moda, concorrentes seguem o mesmo.

  4. É um absurdo, mas vindo da Apple, que precisa mostrar que tá em alta e colocando o lucro em primeiro lugar, ñ é nada surpreendente. Com certeza as outras empresas vão seguir nesse mesmo argumento e daqui um ano ñ vamos pensar nessa baboseira de prevenção ecologica que a empresa vem tentando empurrar para todo mundo.

  5. Greenwashing é o que Apple está fazendo. Nada do que eles colocaram faz muito sentido no “grande esquema das coisas”. A logística pode até ser otimizada, mas o lixo gerado pela Apple – mineração, produção/fabricação, vendas – está lá, inserido dentro da cadeia de produção de todos os seus produtos.

    Fico com a sensação de que a Apple simplesmente achou um modo de lucrar ainda mais com seus produtos e tentar vender-se, ao mesmo tempo, como eco-friendly.

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