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Tenho um anúncio a fazer. Estou de volta ao conselho diretor da Free Software Foundation. […] Alguns de vocês ficarão felizes, outros podem ficar desapontados, mas quem sabe? De qualquer forma, é assim que será e eu não pretendo sair outra vez.

— Richard M. Stallman, fundador e ex-presidente da Free Software Foundation (FSF). Via The Register (em inglês).

Em 2019, Stallman deixou voluntariamente a presidência e uma cadeira no conselho da FSF e sua posição como cientista visitante do Laboratório de Ciência da Computação e Inteligência Artificial do MIT. Ele havia feito comentários considerados insensíveis em defesa do professor Marvin Minsky, morto em 2016, que teria tido relações sexuais com uma das vítimas de Jeffrey Epstein, que suicidou-se em 2019 enquanto era acusado de tráfico e exploração sexual.

Stallman é uma figura importante na história da computação e, ao mesmo tempo, um sujeito controverso e sem tato social. O incidente com Minsky foi apenas mais um episódio, talvez o mais estridente, de vários; uns apenas antipáticos, outros problemáticos.

As contribuições dele — além da FSF, ele criou o Emacs e o GNU — são indeléveis, mas não deveriam servir de salvo-conduto, especialmente em um conselho diretor, que, vale lembrar, não é um órgão técnico; é político, de liderança. A própria FSF especifica suas atribuições e o que se espera dele: “A boa governança começa com o conselho de diretores, que supervisiona a organização e é responsável pelo seu sucesso”, diz o site. “O papel do conselho (e sua obrigação legal) é supervisionar o gerenciamento da organização e garantir que ela cumpra sua missão.” Reintegrar Stallman ao conselho passa uma mensagem péssima ao público externo e aos voluntários da fundação.

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20 comentários

  1. Quem decide o que pode e o que não pode falar a ponto de afastar uma pessoa de uma instituição/empresa? Quem decide o que é certo e o errado? A esquerda? O progressismo desvirtuado?
    O cara é o precursor e maior nome daquilo que a FSF representa. Mas não pode integrar o board pq a esquerda acha o que ele faz na vida pessoal reprovável.
    Imagina se Einstein gostasse de, sei lá, ver crianças fazendo sexo. O que ele trouxe de progresso deveria ser esquecido/anulado/cancelado?
    Por favor vocês…
    Deixem a vida pessoal das pessoas em paz. Cada um faz o que quer e pensa como quer. Peguem o que importa da pessoa. Ele não foi nomeado pro Ministério da Inclusão Social ou pra Secretaria da Mulher. Ele voltou pra porcaria da FSF!

    1. Exceto que não é “cada um faz o que quer”, né? Todos vivemos em comunidade, não dá para fechar os olhos e ignorar o que se passa ao nosso redor, especialmente quando se trata de pessoas públicas como é o caso do Stallman.

      “O que ele trouxe de progresso deveria ser esquecido/anulado/cancelado?” Longe disso. Ninguém está advogando apagar o nome ou o papel do Stallman no software livre, mas apenas questionando a inserção dele em uma posição de liderança quando há indícios fortes o bastante apontando que ele é um líder ruim e que essa ruindade afeta os interesses da FSF.

      É curioso, talvez sintomático, que para uma “direita” raivosa a ideia de se levantar contra a misoginia seja uma pauta “da esquerda”. Pelo amor de deus…

  2. Stallman como representante do Open Source não é diferente de botar o Carlos Cardoso como presidente do sindicato de profissionais de informática no Brasil…

      1. Digo na situação atual.

        Stallman tem seus méritos, mas já foi a época dele.

        A imagem de “nerd retraído e recluso” deveria ser posta de lado um pouco em prol de pessoas que falem com “gente comum”. É assim que poderia ser (e fazer) melhor.

  3. Eu fico BEM decepcionado com a volta dele para a FSF. Se você integra um conselho diretor de uma Fundação tão importante para o SL, onde o ideal é sobretudo político (do contrário vira “só” open-source) você deve sim se preocupar com outras questões políticas do indivíduo. Dizer que uma coisa deve ficar separada da outra é que é erro estratégico e deposicionamento. O caso relacionado ao Epstein e aos e-mails do Stallman que vieram a público são repugnantes e aquilo não devia ser tratado apenas como “algo particular dele”.

    Isso me fez lembrar a situação ocorrida com a Fundação Mozilla e a movimentação dos funcionários pedindo a saída do então CEO, que em “sua vida particular” financiava campanhas/organizações contra a legalização da união homeafetiva, uma postura não compatível com a posição que ocupava numa fundação que promove a liberdade e considera as pessoas acima do lucro do setor. A pressão dos funcionários deu certo e ele saiu, e foi tentar ganhar o seu dinheiro com o Brave para poder financiar outras questões eticamente questionáveis.

    Outra questão sobre a defesa do Stallman na FSF, é sobre “ah, ele é conservador sobre a defesa do SL e isso que é preciso no conselho”. Rapaz, não tem nenhuma outra pessoa que encampe os ideais, só ele? Ele é a “última bolacha do pacote”? Por favor né… tá na hora de largar o osso de ídolos do passado e passar representar/dar voz a pessoas tão engajadas na comunidade e com os ideais do SL quanto ele. Ele teve sua contribuição, enorme por sinal, mas é preciso mostrar que não é o único. Tenho ojeriza a certos indivíduos aí do SL que vivem comunicando a importância política do SL e etc, mas só dentro do mundo de ovo delas, pois se for política além do nicho onde eles se encontram não importa… gostam de viver de heróis, pintos ingênuos.

    1. Muitas pessoas defendem o movimento do software livre. Mas o RMS é um dos poucos que defende com afinco durante mais de 3 décadas. Ele não é a última bolacha do pacote, certamente. Mas tenha em mente que movimento do software livre é diferente do movimento open source e muitas das pessoas que você possa ter em mente são do open source. Não precisamos descartar os ‘velhos’ só pq são velhos ou pra mostrar que não são os únicos. Pelo seu comentário, fica parecendo que o RMS era um déspota na FSF impedindo a participação das pessoas. A FSF e as FSF irmãs, como a FSF América Latina, sempre foram abertas para todos os que compartilham das ideias do movimento do software livre, independente de outras visões de mundo que possuam, sem hostiliza-las.

      Eu não conheço muito sobre a Fundação Mozilla, então não vou comentar sobre o caso. Mas, se o CEO estava realmente atuando contra a missão da fundação, evidentemente que não pode continuar. Não foi o caso do RMS.

  4. A FSF e seu board estão atrelados a missão da fundação. Usar a palavra politico me parece uma tentativa de atrelar à missão da fundação questões não relacionadas a liberdade de software e que não fazem parte da sua missão. Se a missão tiver que abraçar toda a sorte de questões, vira um balaio de gatos e o foco da FSF se dilui e o movimento do software livre se enfraquece mais ainda. Essas outras questões não deixam de ser importantes, mas deveriam ser tratadas em instituições próprias e não imbutidas e tornadas centrais em missões de outras instituições.

    A mim, usar questões não relacionadas é uma tentativa de minar o Stallman e sua posição conservadora em relação ao movimento que fundou. Por posição conservadora entenda por preservar as ideias originais do movimento, ou seja, não resignifica-las. A beleza e a importância do movimento são justamente essas ideias e é por isso que elas precisam ser preservadas.

    A mim, a FSF deve se ater única e exclusivamente a sua missão, e deixar de fora a pessoa mais proeminente na conversão do movimento do software livre é um erro estratégico. Seus problemas não relacionados ao movimento, deveriam ser tratados fora da FSF.

    A sua reintegração não passou uma imagem ruim pra mim. Fico feliz com a volta do Stallman pq sei que em relação ao movimento do software livre sua posição é irredutível e em prol da conversão das ideias do movimento. E é isso que espero dos integrantes do board da FSF.

    Opinão do Alexandre Oliva sobre a situação do Stallman: https://www.fsfla.org/ikiwiki/blogs/lxo/2020-12-19-leadership.en.html

    1. Tudo é político. A FSF é super política, muito mais do que técnica, afinal a tecnologia já existe há décadas, mas ainda não tem tração fora dos círculos especializados. Por que será? Um palpite: política.

      Seu comentário tenta passar a ideia de que a FSF e o movimento vivem no vácuo. E isso funciona bem para quem já está convertido, para quem entende a missão e consegue relevar a presença de um sujeito tóxico no conselho diretor da fundação. Agora, imagine alguém que nunca ouviu falar disso e se depara com esse cenário. Ou melhor, imagine uma mulher (que, goste ou não, é 50% do “público-alvo” da FSF). A FSF jamais cumprirá sua missão sem oferecer um ambiente receptivo a todos. E, como eu disse no texto, as contribuições do Stallman são indeléveis, mas hoje ele é um elemento radioativo lá dentro e, portanto, um obstáculo ao cumprimento da missão da FSF.

      1. Concordo integralmente contigo Ghedin, o argumento do “isso é particular” passa do ser ingênuo nesse caso, me embrulha o estômago só de pensar mais nisso.

        1. Sem Argumentum ad hominem por favor (https://pt.wikipedia.org/wiki/Argumentum_ad_hominem).

          O comprometimento do RMS com o movimento do software livre é inegável. Esteve na FSF por muito tempo e ela não se tornou, não é, uma entidade que hostiliza ninguém por razoes diversas a sua missão. Ou você já viu a FSF fazendo campanha pela liberdade de software só para homens? Os emails do RMS são um problema dele, não da FSF. Não devemos personificar a entidade. Estou com ele na defesa pela liberdade de software, e não nos demais aspectos da sua vida.

          1. Quando uma pessoa com problemas de sociabilidade faz parte de um núcleo político, o ideal é que tenha ao menos contrapontos que possam complementar e evitar que a FSF atue de forma anti-social.

            Esse é o ponto: um órgão é feito de pessoas, e querendo ou não, os atos da pessoa ainda que indiretamente ao órgão pode atingi-lo ou interferir em decisões e operações políticas.

            Se ele entrar no conselho, mas sua atuação ficar restrita a justamente conselhos e ações dentro da fundação de software livre, legal.

            Mas se os atos dele começarem a interferir na fundação, tem que se repensar tudo.

            É que nem partido político: os membros dão a sustentação e a moral do partido. Um partido com pessoas problemáticas resulta em um partido problemático (Novo e PSL por exemplo).

          2. Caracteriza ad hominem ao falar de argumento, como bem deixei claro na minha primeira interação? Penso que não… talvez seja melhor guardar seus links…, ou leia-os.
            Se vc usa argumento que me faz embrulhar o estômago, e se sente atacado por isso, é outra questão longe de ad hominem.

            Abraços.

          3. O ad hominem está em “passa do ser ingênuo nesse caso”, do tipo abusivo segundo a classificação na Wikipédia.

          4. Eu concordo com você, Ligeiro. Comportamentos individuais podem afetar sim as entidades de que se participa. Considero correto o afastamento do RMS da FSF na época. A FSF não tinha nada a ver com seu comportamento e seria injusto tal comportamento afeta-la. O que eu discordo é da ideia de pena pérpetua, onde o RMS não poderia mais defender a liberdade de software, participando da FSF, por comportamento alheio a missão da fundação, especialmente por esses comportamentos, até onde vai meu conhecimento, não terem ocorrido dentro da FSF enquanto ele participava dela.

      2. “Por que será?” Bem, a grande maioria das pessoas não se importa com liberdade de software e não por causa da atuação da FSF. As ideias não prosperam na sociedade pq poucas pessoas se importam e são contrarias a modelos de negocio de empresas/países influentes. Talvez, em algum momento do tempo, aconteça algum evento que mude a percepção das pessoas fazendo-as enxergarem o quanto o software proprietário é nocivo à uma sociedade onde, na prática, software permeia todos seus aspectos.

        Tudo é politica sim, mas existem escopos diferentes. E a missão da FSF tem um foco, a defesa da liberdade de software dos usuários. O que não a torna contrária as visões fora do foco.

        A FSF não hostiliza ninguém por razões politicas diversas a sua missão, nem mesmo internamente, até onde vai meu conhecimento. E o Stallman estava lá a maior parte do tempo. Posso não gostar dele no board sabendo o que se sabe agora, mas na FSF, até onde sei, sua presença não tornava o ambiente radioativo às mulheres. Ademais, FSF não é o Stallman e o Stallman não é a FSF, duvido muito que a presença dele seja capaz de piorar ou melhorar o ambiente da FSF em relação a ‘radioatividade’. Agora, sua atuação na defesa da liberdade de software, missão da FSF, é inegável desde o surgimento do movimento. Então, a missão da FSF não fica comprometida com sua presença, ela é reforçada.

        1. O escopo da FSF está bem definido, acho que aí concordamos. O que estou tentando dizer é que nenhuma causa, missão ou iniciativa humana jamais avançou isolada, ou seja, eventos alheios ao escopo interferem nesse escopo.

          Isso acontece em todos os ambientes. Em empresas de capital aberto, por exemplo, cujo escopo é fazer dinheiro, CEOs excelentes nisso caem por atitudes pessoais alheias ao cargo — vide a queda do Travis Kalanick, da Uber, por exemplo. Acontece no governo, acontece até no condomínio onde a gente mora.

          Concordo, também, que penalizá-lo perpetuamente seria errado. Até onde sei, Stallman continuava trabalhando na FSF, e ok. Agora, alçá-lo ao conselho diretor, um cargo puramente político e que efetivamente representa o movimento? Sei lá, passa uma imagem muito ruim, de que o movimento do software livre faz pouco caso das pessoas que Stallman ofendeu ao longo dos anos. Falando por mim (e, desconfio, em muitas outras pessoas que simpatizam com a causa), ainda respeito e admiro a missão da FSF, mas esse evento deixou um gosto forte de decepção e desconfiança.

        2. João, realmente acredito que você deva fazer a análise sintática do que eu escrevi…, fazendo-a corretamente tenho certeza que você vai entender que não houve ad hominem nenhum.

          Abraços,

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