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O que é NFT? / As barganhas que arriscam nossa privacidade na internet

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No programa de hoje, Rodrigo Ghedin e Jacqueline Lafloufa falam de NFT, sigla em inglês para “tokens não-fungíveis”, um novo uso de blockchain que atribui exclusividade e propriedade a bens digitais. Nesta semana, alguns artistas como a Grimes e o Kings of Leon fizeram vendas vultuosas de NFTs, e já tem quem veja a modalidade, que consome muita energia, como a salvação ou uma saída para artistas faturarem. Será?

No segundo bloco, fazemos um apanhado de notícias que têm em comum algum tipo de barganha pela nossa privacidade. Do Google à empresa que fez o Deep Nostalgia, passando pelos descontos na farmácia, parece que sempre tem um asterisco, uma condição capaz de comprometer a privacidade dos usuários. Esse é o único caminho? Tem como escapar dele?

Nas indicações, a Jacque recomenda o livro O ano do pensamento mágico, da Joan Didion, e Ghedin, a série Doutor Castor, disponível no Globoplay.

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12 comentários

  1. Achei a análise sobre o NFT do Ghedin muito fraca. O que parece é que ele tentou desmerecer a arte contemporânea em detrimento a sua fala preconceituosa sobre arte criada através de ferramentas digitais, ou que não necessariamente contemplem um escopo de reprodução física, como pinturas à óleo. Em todo o seu discurso, percebi uma tentativa de desmoralizar o ativo digital como obra de arte em si, trazendo a retórica da reprodutibilidade como justificativa para tal.
    Vale lembrar que a tokenização em blockchain de obras de arte físicas já é um serviço oferecido por diversas empresas, como a Veriart. A Câmara Brasileira do Livro tem um serviço de registro autoral em blockchain, que permite tanto ativos físicos como digitais.
    https://servicos.cbl.org.br/registro/

    Creio que a discussão sobre a reprodutibilidade técnica cai por terra pelo simples fato de que obras físicas também são alvos de tais cópias. Hoje, dependendo de quanto você está disposto a pagar, há várias iniciativas que prometem recriar traços, tonalidades e formas de qualquer pintura. Então, fica a pergunta: A dimensão da reprodutibilidade, enquanto escrutínio humano, pelo menos hoje, não é exclusivo do mundo digital, mas também do físico. O certificado de autenticidade, nesse sentido, vem como uma forma de atestar que aquela obra foi realmente feita pelo autor e que ele – e a cadeia de pessoas envolvidas na compra/venda desta obra de arte – estão cientes das transações. Isso para obra física ou digital. Galeristas e curadores vão continuar existindo, mas com o advento do NFT, que inaugura o conceito estético da Cripto Arte, as transações entre artistas e público será muito mais democratizada e “segura”, do ponto de vista da transação (imutável), do comprador – que terá certeza que estará apoiando o criador -, e do artista, que terá “controle” sobre quem detém as “peças” originais, que foram “cunhadas” para serem transacionadas. Nesse sentido, cópias não cunhadas como NFT, como exemplo um printscreen de uma ilustração digital, não serão consideradas válidas, e portanto, descartadas do mercado (enquanto obras de arte originais).

    O NFT não é a obra de arte em si mesma, NFT é o certificação “contratual” de que um artista está transacionando sua obra para alguém. E como a blockchain até agora é um sistema que garante a fidedignidade e não falseabilidade de uma transação, a ação se torna portanto imutável.
    Sobre a questão do problema ambiental com o gasto energético para manter a blockchains no ar, Segue uma pesquisa que relata que 74% da energia consumida blockchain BTC vem de fontes renováveis.
    https://exame.com/future-of-money/criptoativos/74-por-cento-da-energia-consumida-pelo-bitcoin-vem-de-fontes-renovaveis-estudo/

    Notícias sobre as empresas que “recriam” obras físicas:
    https://petapixel.com/2013/08/30/fuji-is-using-3d-printing-and-scanning-to-create-near-flawless-van-gogh-replicas/
    https://news.artnet.com/art-world/artificial-intelligence-is-reproducing-art-masterpieces-1405558

    1. Mas o problema é justamente este. O NFT simplesmente viabiliza o mercado de arte no mundo digital — introduzindo nele essa ficção do capitalismo que é a “autenticidade”. De fato, o NFT não é novidade nenhuma e tende a uberizar o mercado de galerias.

      A questão é: o que se tem feito de arte digital nos últimos quarenta anos já é em geral muito mais sofisticado do que os objetos com os quais o mercado de NFT está associado. Artistas como Aram Bartholl, que citei abaixo, produzem obras que dificilmente se resumiriam a um objeto digital associado ao NFT.

      1. Sobre a uberização das galerias, faço-lhe uma pergunta: Já tentou expor em uma galeria? Sabe o quão é difícil e quase um monopólio em sua totalidade? Artistas periféricos tem uma dificuldade imensa de entrar nesse mundo sem um “apadrinhado” que os coloque no cenário. NFT trás uma aproximação entre quem quer consumir arte e quem a cria.

        “A questão é: o que se tem feito de arte digital nos últimos quarenta anos já é em geral muito mais sofisticado do que os objetos com os quais o mercado de NFT está associado.”

        Desculpe, mas Vaporwave, Glitch Art, Aesthetic Design (para citar alguns) não eram possíveis 40 anos atrás e por si só representam uma estética que remete a uma releitura de tempos analógicos. O valor estético comparativo que você atribui aos atuais objetos de arte contemporânea, em comparação com um momento histórico da arte, não pode ser considerado como valor estético universal. A discussão que promovi não é essa. Você a reduziu à sua própria perspectiva de gosto. NFTs não fazem diferença nisso, pois não são obras de arte, mas amplitudes para tais.

        1. vaporwave, glitch, etc, são mais tendências do mundo do design e da ilustração que propriamente do mundo da arte

          claro, há muitos artistas digitais que trabalham com o glitch, mas não na perspectiva colocada por esses marketplaces: em geral se tratam de instalações ou performances que não focam no objeto específico, mas no conjunto daquela experiência (sem aqui qualquer ingenuidade quanto à potencialidade mercadológica disso). E também é problemático dizer que se trata de algo “inovador”: as brincadeiras famosas de nam june paik ocorriam muito em função do glitch em equipamentos eletrônicos não digitais

          e definitivamente não se trata de questão de gosto, mas de reconhecer o mundo da arte como ele é: perverso, elitista, excludente, etc. É ingenuidade querer “democratizar” um mundo que é por natureza elitista. Deveríamos alvejar a destruição desse mundo, não a generalização de suas práticas perversas, não acha? É claro que galerias são excludentes e restritas a grupos privilegiados, mas quando falo em uberização é justamente por conta desse aspecto: é ingenuidade achar que a solução está na generalização desses marketplaces. A solução está em superar esse sistema. O NFT só o aperfeiçoa e aprofunda.

    2. Pelo contrário, eu valorizo a arte digital na minha fala ao não reduzi-la a uma mercadoria, a um preço. O NFT esvazia a arte de qualquer significado que não o pecuniário — o que, particularmente, creio que soa a um insulto a quem produz arte, seja ela de qual tipo for.

      Rob Horning, da revista Real Life, coloca isso com melhores palavras que eu:

      In a sense, the aim of NFTs is to empty content of whatever it contains that makes it circulate, that makes people want to see it and copy it and redistribute it, and reduce instead to a moment of property, an assertion of the self who owns it over its potential social significance. Or to put that another way, NFTs make the social significance of any digital artifact the simple fact that it can be owned and valued, and that value can fluctuate. As Schachter puts it, “NFT ‘art’ doesn’t communicate much, nor have anything in the way of purpose other than its exchange value.”

      Quando você diz que “o certificado de autenticidade, nesse sentido, vem como uma forma de atestar que aquela obra foi realmente feita pelo autor”, refere-se a um problema real? Existem muitos casos de apropriação indevida de obras digitais? Se o NFT resolve um “não-problema”, por que existe? (A resposta está ali em cima.) Até agora, a única utilidade percebida foi criar hype e fazer gente como Logan Paul e Jack Dorsey enriquecerem ainda mais. E há que se considerar, também, que todos esses milhares de dólares rolando pode ser de gente sentada em cima de grandes fortunas originadas na especulação com criptomoedas — ou seja, é uma riqueza artificial circulando em um mercado artificial a fim de promoverem a si mesmas para se valorizarem artificialmente.

      A pesquisa do consumo energético de fontes limpas que você indicou é enviesada, foi produzida por uma empresa de criptomoedas. Independentemente da fonte, todo desperdício de energia é ruim. Estou sempre aberto a mudar de opinião, mas até agora nada me convenceu de que criptomoedas são um grande poço de consumo energético que não retornam absolutamente nada à sociedade e que na prática só servem para evadir divisas e lavar dinheiro.

      1. Retirando uma citação do autor que citou:
        “There can be no “art” without an art world that mediates it and negotiates it, that functions dynamically and is capable of unpredictable shifts. As unjust and irrational as the art world can be, it can’t be replaced with “smart contracts” on blockchains that purport to arbitrate value automatically. In the blockchain there is no space for difference. Everything is explicit and empty.”

        Por mais injusto e racional que o mundo da arte pode ser? Arte não é necessariamente prescindida de mediação ou negociação. Não estou afirmando a necessidade da existência do NFT para tal, pois ela transcende à conceitos.

        Sobre as perguntas que fez, sério mesmo que vc acredita que isso advém de um não-problema? Pesquise a breve evolução histórica sobre os primeiros projetos para tokenização de obras físicas em blockchain (onde alguns culminaram nas especificações RFC correspondentes ao NFT).

        Mas não quero aqui mudar sua opinião pessoal, meu pensamento já foi expresso.
        Deixarei você refletir sobre seu próprio conservadorismo a partir da negação da apropriação de ferramentas para afirmar tais estéticas artísticas.

        1. Ah e sobre a energia para mineração. Há alguns estudos que teorizam sobre a viabilidade técnica para utilização de fontes energéticas. Se o estudo em questão que citei usa dados reais, eu realmente não sei e me desculpe por ter citado.

          Mas há a possibilidade, mesmo sendo um desperdício ou não (essa não é a questão).
          https://www.bloomberg.com.br/blog/produtores-de-bitcoins-saem-em-busca-de-energia-limpa/
          http://www.cest.poli.usp.br/wp-content/uploads/2018/08/V3N6-Impactos-Ambientais-da-Minera%C3%A7%C3%A3o-de-Criptomoedas.pdf

        2. não entendo como denunciar o caráter essencialmente mercadológico e capitalista do NFT seja algo “conservador”

        3. por que a insistência num instrumento de aperfeiçoamento do capitalismo como o NFT?

          não é a existência dele que fomenta ou não a prática da arte digital

          ao contrário, ele só reitera o que de pior há no capitalismo: a propriedade intelectual e a renda da forma

          1. Gabriel, eu não sei se você já conhece a iniciativa ECSA (Economic Space Agency). Caso contrário, recomendo que leia sobre (https://economicspace.agency/).

            Acho que vc está resistente demais sobre a possibilidade de novas formas de reorganização social através da criptoeconomia.
            Como os próprios membros falam:

            “Maybe the most difficult thing to understand about a cryptoeconomy is that it has the potential to cause an irreversible change in what we understand as ‘the economy’: making the economy itself a design space. In the face of a widespread rejection of ‘neoliberalism’ as both an economic and cultural agenda, and a distrust in the capacity of states to deliver the social good, we are looking to design and build an economy that is distributed and decentralized, while directly responsive to socially-constructed visions of ‘value’.”
            https://medium.com/econaut/towards-post-capitalism-7679d2831408

      2. ghedin, há um problema nessa abordagem que é insistir numa certa essência “pura” da obra de arte — como se ela não fosse também mercadoria

        não acho que seja esse um bom argumento contrário ao NFT, porque certificados de autenticidade sempre existiram e eles sempre moveram a compra e venda de obras em galerias: o NFT simplesmente aperfeiçoa e digitaliza algo que sempre existiu

  2. Sobre o NFT no mundo da arte:

    acho ingenuidade achar que esta ferramenta vá “desarticular” todo o mercado de intermediários, como os galeristas. Ao contrário, a função dele é justamente viabilizar esse mercado para objetos digitais: a função do NFT é simplesmente produzir um atestado de propriedade de um objeto digital — uma mercadoria única, afinal. Se a intenção for especular e revender esse objeto digital (na verdade, o que se revende é o próprio NFT mais do que propriamente o objeto), galeristas digitais serão mais necessários do que nunca (mesmo que eles se transformem em marketplaces para o caso da massificação da propriedade desses objetos). Em certo sentido, trata-se da uberização das galerias.

    Sobre a analogia com as cópias de obras de arte “físicas”, o uso de NFT lembra em alguma medida a prática da gravura: o gravurista normalmente produz uma série limitada de reproduções assinadas a partir da matriz que ele criou. Ele sempre pode, é claro, produzir novas séries assinadas/limitadas no futuro. O NFT permite fazer algo parecido — mas com todas as implicações ambientais ressaltadas por Ghedin.

    De todo modo, o que acho mais interessante é como o NFT está “atrasado” em relação à história da arte como um todo, falando grosseiramente. Eu diria que ele seria uma novidade se estivéssemos no início do século 20, quando o mundo da arte ainda estava restrito aos suportes tradicionais (pintura, desenho, gravura, escultura, etc), mas hoje soa como algo que sempre existiu (é simplesmente a versão digital dos certificados de autenticidade que sempre acompanharam obras de arte vendidas em galerias, agora com a suposta “segurança” associada ao blockchain). A arte contemporânea que lida com o mundo digital hoje desenvolve obras como instalações/happenings/performances que se articulam com as potencialidades digitais e não propriamente simplesmente reproduzam suportes tradicionais em meio digital (como desenhos ou ilustrações). Artistas como Aram Bartholl, por exemplo, conhecido pelos seus famosos Dead Drops, promovem inserções poéticas em meios digitais que se expressam de forma muito mais sofisticada do que uma ilustração ou modelo eletrônico.

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