Metáfora do corpo e da presença

Um robô grande vermelho, um holograma de mulher e dois homens cartunescos em torno de uma mesa numa espécie de nave espacial, com o espaço e um planeta vistos pela janela ao fundo.

Nossas relações sociais, emoções, experiências e percepções sobre o mundo são constantemente remodeladas por bilionários. Estes delimitam novos espaços a serem habitados, assim como ampliam o repertório do que entendemos como “presença”. Nossos modos de existir, seja em gravidade zero ou a partir da ausência de carne e osso, são atualizados por quem detém recursos de produção tecnológica de ponta — fenômeno que ocorre com mais intensidade nos últimos anos.

De modo interessante, nossos imaginários sobre “futuro” — por vezes muito próximos da organização social mostrada na animação Os Jetsons, da década de 1960 — parecem viabilizados por esses mesmos bilionários. Foguetes, espaço, robôs que fazem serviços domésticos, chamadas por vídeo: futuros edificados por atores que administram o presente. Pode-se dizer que quem está no controle do “futuro” hoje — ou de nossas ideias sobre este — também controla nossas interações sociais e expressões de nossos corpos.

Nesse contexto, nossos corpos são reinventados e recombinados a espaços pouco ou não antes habitados. O corpo está em constante (e quase impositivamente em) diálogo com interesses de atores atrelados à promoção da tecnologia. E com o lucro destes.

Tal ideia pode ser pensada a partir do que foi trazido a público recentemente por Mark Zuckerberg, co-fundador e CEO do Facebook, que, após redefinir o modo como bilhões de pessoas interagem desde 2004, com suas redes e aplicativos sociais, decidiu investir no metaverso, tecnologia que, além de digitalizar por completo as nossas malhas sociais,  pode impulsionar substancialmente a coleta e venda dos nossos dados.

O metaverso1 consiste em espaços digitais onde as pessoas interagem de modo imersivo umas com as outras. O maior diferencial da interação ali é justamente o nível de imersão que o usuário experiencia. Gestos, roupas, movimentos, características pessoais e de personalidade, assim como nossos gostos, podem ser reproduzidos  de modo a se aproximarem do repertório de possibilidades de nossas ações físicas.

Mesmo que o avatar não represente fielmente a imagem do usuário, detalhes como expressões faciais, postura e movimentos em geral apontam uma maior imersão do corpo físico no campo digital — que após ficar por muito tempo se manifestando através de cliques, escrita e voz, agora ganha promessa de mais liberdade e visibilidade.

Em uma das possibilidades, a da representação fidedigna de nossos corpos no digital, a atenção ao “plágio” dos detalhes físicos e de nosso cotidiano tem como aspiração confundir nossos sentidos sobre os limites da realidade do corpo físico com o corpo digital.  Ao invés de nos sentirmos emocionalmente envolvidos a partir de cliques em frente a uma tela, interagiríamos com o universo virtual através de projeções tridimensionais de nossos corpos — projeções que refletiriam nossos movimentos e expressões através de um avatar. A ideia é a de que podemos “entrar”, “mergulhar” no espaço digital, e não ficarmos “na frente” dele.

Avatar: corpo como interface

O avatar, representação de nossos corpos no espaço digital, assume importância considerável nesse cenário. Isso porque as sensações de “realidade” e “qualidade” de nossas interações online estabelecem conexões com a proximidade representativa dos avatares com o mundo físico.

Freeman e Maloney (2021), ao investigarem como identidades em realidades virtuais são percebidas e construídas por usuários através de avatares, destacam os movimentos corporais como peças-chave para a compreensão (e aceitação) da imersão: os movimentos dos avatares — sendo os mesmos do corpo físico — possibilitam que os usuários apreendam a tecnologia como uma extensão de seus corpos.

Isso não quer dizer que todas as representações virtuais em espaços digitais imersivos como o metaverso sejam correspondências do corpo humano do usuário. Muitos desses constroem avatares de gênero, raça, idade e espécies diferentes das que apresentam no mundo físico. Nesses casos, o que oferece o senso de realidade reside mais na mimese do movimento do que na analogia do corpo de carne e osso.

Interessante salientar que avatares apresentados a partir de imagens, desenhos, vídeos e escritos foram percebidos pelos pesquisados de Freeman e Maloney (2021) como personagens, enquanto que os avatares da realidade virtual foram tratados como “vida real”.

Aseeri e Interrante (2020) também apresentam dados interessantes sobre as percepções de usuários em espaços permeados por realidade virtual. As autoras  demonstram que o uso de avatares com aparência realista faz com que usuários apresentem maior nível de confiança em suas comunicações e estabeleçam conexões interpessoais mais profundas.

Esses estudos apontam um maior senso de presença nas interações online quando o corpo atua como interface imediata entre o digital e o “analógico”.

O metaverso popularizado por Zuckerberg se propõe justamente a atuar na dimensão dos sentidos. Propõe-se a atualizar a experiência da intercorporeidade de modo a focar na absorção de nossos sentidos, dissipando ainda mais as já fluidas fronteiras entre o “estar aqui” e o “estar lá”: o controle de nossas emoções e percepções passa a carregar novo grau de potência; e a construção da imprecisão das realidades pode ser pensada como mais uma forma de colonização de nossas vidas sociais e de nossos sentidos.

Tradução do corpo

Diferentes culturas codificam nos corpos de seus membros os sentidos de sua sociedade — sentidos de beleza, saúde, valores, aceitação. Como aponta Barbosa et al. (2011), na Grécia Antiga o corpo era treinado e idealizado de modo a ser “elemento e glorificação do Estado”. No cristianismo o corpo assume expressão de “proibido”: reprimido, o corpo é uma lembrança das dores da salvação e percebido como secundário em relação ao bem-estar do espírito e da alma. No Renascimento, o corpo é percebido como objeto de estudos e experimentos a partir de um prisma científico. No período capitalista o corpo passa a ser visto como parte de uma máquina, manipulável e mecânico.

Nos dias atuais, uma das características de nossos corpos é que operam como redes fluidas de sociabilidade: elementos impulsionados a fazerem parte de circuitos digitais. Também experienciamos as constantes metamorfoses que nossas presenças assumem a partir dos diversos arranjos sociotécnicos que surgem. Nossa presença é ressignificada por tais arranjos, mas se pensarmos bem, a presença frequentemente foi ressignificada culturalmente em diferentes sociedades.

Um corpo que não está no plano físico pode ter sua presença reproduzida por meio de técnicas de tradução que visam prolongar sua existência em outra dimensão. Múmias, pirâmides, estátuas, pinturas, fotografias, hologramas, entre outros, foram e são recursos que viabilizam pensar a variedade dos modos de presenças, modos de existir.

A sensação da presença da carne ausente e/ou descarnada é, há algum tempo, produzida por nós mesmos. Desafiador seria duvidarmos do poder de representação das fotografias, por exemplo. Rasgar uma foto de um ente querido pode causar dor e significar uma etapa do aniquilamento de sua própria existência. A reprodução da presença é prática que fazemos em níveis básicos em nosso cotidiano.

O metaverso é mais uma dessas formas de pensar como existimos e como nossa presença é construída a partir de arranjos sociotécnicos — e de interesses de terceiros. De acordo com Zuckerberg, seu novo investimento proporcionará que sintamos realmente presentes em um espaço e em uma interação:

A qualidade definidora do metaverso será um sentimento de presença — como se você estivesse ali com outra pessoa ou em outro lugar. Sentir-se verdadeiramente presente com outro alguem é o maior sonho da tecnologia social. É por isso que estamos focados em construir isso. (ZUCKERGBERG, 2021).

Há preocupação com a experiência da presença. Como se essa pudesse ser entendida e sentida de modo uniforme por todos. E como se o metaverso pudesse tornar (in)coerentes nossos sentidos. Aliás, é questionável se o sentimento de presença possa se estabelecer de modo tão apurado através de óculos, internet, sensores e demais apetrechos. Um abraço apertado em alguém querido pode ser dado à distância, mediado pelo aparato tecnológico?

O metaverso traz à luz a potencialidade de nos adaptarmos a um novo modo de nos fazermos presentes, a potencialidade de mais uma metamorfose de nossos corpos. Delineia mais possibilidades de tornar o ausente presente, de nos fragmentarmos em intercorporalidades de maneira mais diluída. Instiga a confusão de nossos sentidos sobre nossas representações de mundo, dos outros e de nós mesmos. O que o metaverso propõe, no entanto, não é algo novo.

Duas mulheres, em estilo cartoon, olhando para a câmera. Em um ambiente virtual, com luzes coloridas acima e decoração neon.
Imagem: Facebook/Divulgação.

O que podemos pensar acerca de tal tecnologia, é que nossos corpos e nossa presença serão pedaços de software em busca de subjetividades que lhes deem significados. Assim como fotos importantes só ganham sentido de presença quando imaginadas a partir de toda a bagagem emocional e criativa de quem a detém.

Experiências no metaverso serão percebidas diferentemente pelos usuários — assim como experienciamos mídias digitais de modo heterogêneo hoje. O que desafiaria pensarmos com certo ceticismo toda a aura mágica prometida pelas falas de Zuckerberg sobre as possibilidades do metaverso em termos de “presença”:

Não penso que se trate principalmente de se envolver mais com a internet. Acho que é sobre estar envolvido de forma mais natural. (ZUCKERBERG, 2021).

A frase é interessante, pois o frenesi criado sobre o metaverso se aproxima muito da ideia de “teletransporte”, ou de uma realidade que experienciaríamos de modo “natural”, como se não tivéssemos que aprender nela — como se não tivéssemos que, também, construí-la com nossos sentidos e percepções.

É improvável que a naturalidade que Zuckerberg menciona como decorrente de tal tecnologia seja apreendida de modo uniforme pelos usuários. Isso porque para se fazer próxima do sujeito, a tecnologia tem que considerar a subjetividade. É esta que irá ditar o quão “natural” o espaço virtual será.

Metaverso, presença construída

Zuckerberg pode estar certo sobre a possibilidade de o metaverso borrar ainda mais as fronteiras entre átomos e bits, mas ao fim, as interpretações e os sentimentos sobre a experiência do metaverso serão daqueles que vivenciam a tecnologia. Não há como assegurar que a “naturalidade” seja percebida de mesmo modo, e com a mesma intensidade por todos.

O usuário poderá se sentir mais ou menos próximo do mundo físico a depender de como constrói seu avatar, por exemplo. É possível que a aparência de sua representação no metaverso inspire conexão, proximidade, honestidade, mas também distância com o mundo físico.

O mesmo pode acontecer junto à construção de ambientes de trabalho que, a depender do modo como estão representados, podem incitar maior ou menor identificação e pertença entre seus colaboradores, clientes e visitantes.

A busca pela ampliação do mundo real/físico ao espaço digital dependerá, substancialmente, da recepção da imaginação e das interações sociais que os usuários do metaverso estabelecerão. Não há como determinar de antemão a impressão e a característica de  “naturalidade”  do metaverso pelo usuário. A realidade é atravessada e construída por subjetividades e por vivências.

Referências

ASEERI, Sahar; INTERRANTE, Victoria. 2020. The Influence of Avatar Representation on Interpersonal Communication in Virtual Social Environments. In: IEEE Transactions on Visualization and Computer Graphics, vol. 27, no. 5, pp. 2608-2617, May 2021, doi: 10.1109/TVCG.2021.3067783.

BARBOSA, Maria Raquel et al. 2011. Um olhar sobre o corpo: o corpo ontem e hoje. In.: Psicologia e Sociedade, Florianópolis, v. 23, n 1.

FREEMAN, G., & Maloney, D. (2021). Body, Avatar, and Me. Proceedings of the ACM on Human-Computer Interaction, 4(CSCW3), 1–27. doi:10.1145/3432938

ZUCKERBERG, Mark. 2021. Founder’s Letter. In.: Meta. Disponível em: <https://about.fb.com/news/2021/10/founders-letter/> Acesso em: 19, nov. 2021.

Imagem do topo: Facebook/Divulgação.

  1. Termo cunhado em 1992 por Neal Stephenson em seu livro de ficção científica chamado Snow Crash.

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2 comentários

  1. Essa coisa de a internet tentar simular a “vida real” é uma das coisas que mais torço pra dar errado. Uma das melhores coisas da internet é ela ser diferente da “vida real’.

    “Sentir-se verdadeiramente presente com outro alguém é o maior sonho da tecnologia social.”

    Eu quero poder NÃO me sentir VERDADEIRAMENTE presente com alguém na internet justamente pra ter a ótima sensação de estar VERDADEIRAMENTE com alguém.

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