Gadgetbridge simplifica a relação entre o celular e relógios e pulseiras fitness
Colocar um relógio ou pulseira “inteligente” no pulso pressupõe instalar um aplicativo no celular. Faz sentido, considerando a tela diminuta desses dispositivos.
O problema é que tais aplicativos costumam fazer mais do que se esperaria de um do tipo. O da Huawei, por exemplo, tem uma loja de faces para o relógio e treinamentos por inteligência artificial e sabe-se lá mais o que ele faz nos bastidores. O da Apple (Fitness), que é dos mais calminhos, reserva local de destaque para o botão do Fitness+, assinatura paga para ter acesso a aulas gravadas.
A IA, aliás, tem se alastrado nos aplicativos que acompanham os relógios. (Daqui em diante, entenda “relógios” como “relógios e pulseiras”.) As principais empresas do setor jogaram suas respectivas IAs nos aplicativos de saúde para dar sentido à tonelada de dados que os relógios coletam e armazenam no celular. Que elas “alucinem” parece ser (mas não deveria) mero detalhe.
Existe uma saída (que eu conheça, pelo menos) que não passa por esses aplicativos oficiais. E apenas se você tiver um celular Android. É o Gadgetbridge.
Já conhecia o Gadgetbridge há um bom tempo. Aplicativo livre e de código aberto, é uma alternativa aos das fabricantes de relógios — ou a alguns deles. Todos estão diligentemente listados no site oficial. No momento em que escrevo, são 612 dispositivos, a maioria deles salvo da obsolescência por algum código criado sem fins comerciais. O software livre é lindo, né?
Sim, mas e o Gadgetbridge? Testei-o por alguns dias pareado com uma pulseira Band 11, da Huawei, conectada a um Moto G7 Play com LineageOS 22.2 (Android 16). Ela ainda está em estágio “experimental”, o que talvez explique os contratempos com que me deparei e relato a seguir. De qualquer forma, o básico funciona e, como é comum nos relógios da Huawei, o pareamento inicial com o Gadgetbridge dispensa o aplicativo oficial.

É legal não ter que instalar o monstruoso aplicativo da Huawei. Seria melhor se o pareamento fosse mais suave. Passei por alguns solavancos para estabelecer a conexão (só foi na segunda tentativa) e, depois, para ativar o monitoramento de algumas métricas, como o oxímetro (SpO2) e a queima de calorias. Essa última o relógio se limitou a registrar as calorias ativas, e não o total, como é com o app da Huawei. O Gadgetbridge parece fazer uma estimativa do consumo calórico com base em dados como idade, peso e altura, e apenas soma as calorias ativas registradas no relógio.
O VO2 máximo, que o aplicativo da Huawei registra apenas em atividades aeróbicas, com o Gadgetbridge… nem isso.
Outra coisa que se perde, em partes, é o acesso facilitado a novas faces para o relógio. A lojinha da Huawei tem milhares delas (embora poucas sejam compatíveis com o novo tamanho de tela da Band 11), incluindo algumas gratuitas. O Gadgetbridge lista as nativas e permite instalar outras a partir de arquivos. Quais? Zero ideia. (Também dá para alternar entre as fases no próprio relógio.) Para quem gosta de trocar a face o tempo todo, é um revés relevante.
Não consegui fazer as integrações com o calendário e a previsão do tempo. O obturador remoto também não rolou. Aquela opção para encontrar o outro dispositivo funcionou quando o relógio estava perdido, mas não quando foi a vez do celular. Apenas o controle de mídia (com o aplicativo Oto Music) e os alarmes corresponderam às expectativas.
Uma última anomalia que detectei: instabilidades na conexão com o celular. Não chega a ser um grande problema, a menos que você seja cabeça de vento e viva esquecendo onde deixou o celular. O que incomoda é quando o Gadgetbridge afirma estar conectado ao relógio mesmo não estando, ou com uma conexão fraca. Uma pista para saber quando tal situação se manifesta é verificar o percentual de bateria restante do relógio na aba “Dispositivos”. Se, em vez do número percentual, aparecer uma interrogação, o mais fácil a fazer é desconectar e reconectar a pulseira manualmente.
Muitas dessas falhas provavelmente se explicam pelo status experimental da Huawei Band 11 no projeto. Relógios mais antigos — portanto, melhor testados — talvez se saiam melhor.

Gosto estético é subjetivo, por isso não direi que o Gadgetbridge é feio. Perto do aplicativo oficial da Huawei, por exemplo, parece-me tão feio quanto, só que de um jeito diferente. É fato, porém, que ele é mais simples e direto que qualquer outro que já tenha usado, distinção que tende a aumentar na nova leva de aplicativos fitness com infusão de IA.
A interface se divide em duas abas: a do painel, que exibe várias informações (personalizáveis) de saúde, e a dos dispositivos, que lista os seus pareados com o aplicativo.
Os gráficos parecem saídos de uma planilha feita no LibreOffice em 2010. A despeito disso, são competentes para sua finalidade, que é oferecer uma visão panorâmica do dia em questão. Gosto muito do primeiro deles, algo que não tinha visto antes: um arco duplo que agrega as atividades físicas e o sono em um dia completo.
Há muitas opções, divididas em dois locais distintos: as gerais do aplicativo no menu de hambúrguer e relacionadas ao relógio pareado na aba “Dispositivos”. Esse arranjo labiríntico me deu alguns perdidos quando tentava encontrar uma ou outra configuração específica, em especial nas do dispositivo, que não tem busca interna.

O detalhamento dos treinos segue a tônica do app em si, ou seja, visual espartano e métricas básicas, dentro do que alguém que não seja (ou se ache) atleta precisa ter à mão. O que não significa que seja insuficiente. Os relatórios de treinos aeróbicos são bastante detalhados. Achei mais fáceis de ler que os dos aplicativos da Apple e da Huawei, apenas por concentrarem todos os dados, incluindo zonas de frequência cardíaca e ritmo (“pace”), na mesma tela, sem exigir que eu adivinhe onde essas coisas estão. (Demorei um tempo que tenho vergonha de revelar para descobrir onde ficam as zonas de frequência cardíaca no Apple Fitness.)
O Gadgetbridge não ganhará prêmios de design ou usabilidade, mas achei-o competente para o que se propõe e para o meu perfil de uso. Como já dito aqui, meu uso desses relógios é tímido: temporizador (“timer”), frequência cardíaca durante exercícios aeróbicos e… bem, ver as horas. Pessoas mais exigentes ou que gostam de triturar os dados gerados (ou colocar uma IA para fazê-lo) podem se decepcionar com a frugalidade do aplicativo. A essas, são mais interessantes o da própria fabricante ou de terceiros que processam os dados com mais detalhes.
Detalhe importante: o Gadgetbridge não é distribuído na Play Store do Google. É preciso ter outra loja no celular, a F-Droid, e baixá-lo de lá. Vale a pena tê-la; para mim, a F-Droid é a loja de apps ideal.
Eu tenho a Huawei Band 10. Comprei na última BF justamente por conta da compatibilidade com o gadget Bridge.
No Android da Samsung funciona tudo certinho: inclusive o VO2. E tem um mostrador preto com a hora estilizada que eu acho bem bonito.
Uma das funções que eu mais gosto desses relógios é o despertador silencioso. Quem mais gosta dessa função é minha esposa: permite que eu acorde cedo sem acordar ela.
Votos: 0Recentemente a Samsung solicitou que eu cedesse os dados da minha “pulseira fit” para treinamento de IA. Neguei e, silenciosamente, ela parou de identificar os treinos automaticamente e perdeu tantas outras funções.
Não que eu ache que aquilo era uma função necessária, mas é sempre frustrante perder funções de algo que você comprou por conta de um capricho da empresa – afinal, não eram novas funções, eram coisas que já funcionavam.
Ah, aliás, Ghedin, acho que encontrei um errinho aqui: “É uma funcionalidade com, nesse modelo específico, ainda Não funciona.”
Votos: 0Meu deus! Vou botar a culpa desse “errinho” (obrigado pela generosidade) no corretor gramatical do macOS 27 👀
Abordei neste post a nova política da Samsung para seu aplicativo de saúde. É outro capítulo da ausência de consentimento no mundo da IA: quando não é obrigatório, a recusa tem esse gosto salgado.
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