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A loja de apps para Android de um mundo ideal existe

Mascote/logo do F-Droid, grande e com um "C" invertido no peito, contra um fundo azul.

Um dos grandes diferenciais do Android em relação ao iOS que ainda resistem à convergência dos dois sistemas, que a cada nova versão ficam cada vez mais parecidos, é o suporte a lojas de aplicativos alternativas. Se no iOS você só pode baixar apps da App Store, no Android é possível instalar lojas alternativas. Não é simples habilitá-las e a hegemonia da Play Store, a oficial do Google que já vem pré-instalada, deixa pouco espaço para rivais, mas a possibilidade existe e viabiliza o surgimento de pequenas pérolas, como o F-Droid.

Criado em setembro de 2010 pelo programador Ciaran Gultnieks, o F-Droid é uma loja alternativa à Play Store com características bastante peculiares. O projeto é mantido por uma organização sem fins lucrativos e tocado por um grupo de voluntários. Para os usuários finais, o grande diferencial é que o F-Droid é o foco em privacidade e as restrições aos desenvolvedores: a loja só distribui aplicativos gratuitos e de código livre e aberto, sem qualquer coisa proprietária.

Diferentemente do Google, o F-Droid se esforça ao máximo para não coletar dados dos seus usuários. Tanto que os voluntários com quem conversei não sabem dizer quantos usuários a loja tem. “Não existem ‘contas de usuários’, todo mundo pode usar o F-Droid mais ou menos anonimamente, e até via Tor1, e não mantemos relatórios nos servidores”, diz Andreas “Izzy” Itzchak Rehberg, um alemão de cinquenta e poucos anos, especializado em bancos de dados Oracle e autor de diversos livros sobre Android para usuários finais. Ele é um dos quase oitenta voluntários do F-Droid, e um dos principais mantenedores do projeto desde 2018.

A falta de dados não incomoda o grupo, em grande parte porque ele não tem metas de alcance. “Só queremos oferecer a melhor experiência possível de distribuição de apps totalmente FOSS às pessoas”, explicou Torsten Grote, outro voluntário, que desenvolve para Android e se especializou em software livre e aspectos relacionados de liberdade digital, como privacidade e segurança. Ele vive no Brasil e fala português.

Selo "Get it on F-Droid", usado em sites para sinalizar a disponibilidade de um app na F-Droid.
F-Droid também tem um botão padrão para sites linkarem seus apps. Imagem: F-Droid/Reprodução.

É essa experiência o maior incentivo para alguém baixar e usar o F-Droid. Sem bibliotecas e códigos de rastreamento e de publicidade, os apps distribuídos ali tendem a ser menos invasivos que os da Play Store. Também tendem a ser mais seguros. “Nunca houve um caso de malware encontrado no F-Droid, em comparação aos vários na Play Store do Google”, diz Torsten.

No F-Droid, os aplicativos são revisados por um trabalho conjunto de humanos e rotinas automatizadas: essas varrem as submissões de novos apps e de atualizações dos já publicados em busca de partes proprietárias (proibidas na loja), dados de licenças e meta dados, e os resultados são revisados por um revisor humano. “Como nenhum sistema é perfeito”, diz Izzy, “rodamos testes/varreduras manuais de APKs [instaladores] de tempos em tempos com diferentes scanners — especialmente se melhoramos a detecção de algo. Até agora, tem funcionado com sucesso”.

E, como já dito, todos são gratuitos — usuários podem dar gorjetas aos desenvolvedores, como forma de estimulá-los a manterem seus projetos. O próprio F-Droid também é mantido por doações.

Outra característica peculiar, talvez única do F-Droid, é que se trata de uma loja “extensível”. Não só pelo código ser aberto (o que faz dele um sucesso entre pesquisadores), mas também por trabalhar com uma lógica de repositórios2, espécies de mapas para novos aplicativos guardados em servidores externos. Alguém pode criar um repositório e oferecê-lo dentro do F-Droid — cabe ao usuário adicioná-lo em suas instalações da loja.

O repositório oficial da F-Droid conta com pouco menos de 4 mil aplicativos, uma gota d’água se comparado ao oceano que é a Play Store, hoje com quase 3 milhões de apps. Os repositórios expandem a oferta de apps (aqui tem uma lista dos conhecidos), ainda que isso não diminua muito a vantagem numérica da loja do Google. O próprio Izzy mantém um, com ~680 aplicativos, e que serve como uma “área de ensaio” para apps que ainda não cumprem os requisitos rígidos para ingressarem no repositório oficial. Como se nota, cada repositório pode ter regras próprias, mais relaxadas que a do oficial.

Print da tela inicial do F-Droid.
Imagem: Conny Duck/Wikimedia Commons.

Apesar do número bem menor, o F-Droid se baseia em critérios mais qualitativos — e qualquer um que já mergulho em resultados de busca ou categorias da Play Store sabe que qualidade não é uma constante por lá. A revisão mais criteriosa dos apps, com base em princípios bem definidos e focados em privacidade, praticamente elimina as chances de se baixar um app malicioso, ou que coleta dados em excesso. Mesmo àqueles não se preocupam com privacidade digital há ganhos: o consumo de bateria e dados trafegados é menor, e o impacto do aplicativo no desempenho do celular tende a ser mais ameno.

Como forma de fomentar o uso da loja alternativa, alguns desenvolvedores que cobram por seus apps na Play Store os oferecem gratuitamente no F-Droid. Outros publicam versões “limpas”, sem as bibliotecas e códigos que coletam dados e exibem publicidade, presentes na versão da Play Store. O Telegram, por exemplo, tem uma versão no F-Droid sem toda a parafernália do Google.

Apesar do sucesso e das vantagens óbvias aos usuários, o F-Droid ainda é uma loja pouco conhecida, como praticamente todas as lojas alternativas para Android. Nem a Amazon, que tem a sua, consegue fazer barulho e rivalizar a Play Store. Pesa contra, também, os empecilhos para habilitá-las (veja no final da matéria um passo a passo).

Um caminho para popularizar o F-Droid seria inclui-lo de fábrica nos celulares. (É uma estratégia que a Samsung adota, porém com sua loja própria, e que a Huawei adotou também desde que foi proibida pelos Estados Unidos de trabalhar com o Android do Google.) Hans-Christopher Steiner, austríaco de 40 e poucos anos que trabalha com software livre, explica que a F-Droid trabalhou com a Fairphone, uma pequena fabricante de celulares sustentáveis da Holanda, no projeto Fairphone Open, uma versão livre do Android. “Infelizmente, eles não continuaram aquele projeto com o Fairphone 3”, lamenta. “Há muitas empresas que incluíram versões personalizadas da F-Droid, como sistemas de automação doméstica, celulares personalizados etc. E há empresas e organizações, como o Calyx Institute e a Copperhead, que incluem a F-Droid em suas ROMs”. Há uma solução “white label”, ou seja, que usa o código da F-Droid, mas com outra marca por cima, disponível.

Izzy lembra que algumas ROMs alternativas do Android trazer a F-Droid pré-instalada, como o LineageOS for microG. A escassez de dados, porém, limita ao grupo apontar exatamente quem e como estão usando a loja que criaram e mantêm. “Isso é quase um lance de estimativa”, diz Izzy. “Eu nunca vi uma lista [de empresas/sistemas que usam a F-Droid], então não temos como dar uma resposta completa”.

Felizmente, não é necessário comprar um celular novo nem arriscar-se com ROMs alternativas para usufruir do F-Droid.

Como instalar o F-Droid

O F-Droid não é distribuído pela Play Store, o que significa que é visto pelo Android do Google como um app de “fonte desconhecida”. O caminho é um pouco diferente, mas não chega a ser algo complicado.

Acesse o site do F-Droid e toque no botão Baixar F-Droid ou aponte a câmera do celular para o QR code que aparece para baixar o APK, o arquivo que instalará a loja. Terminado o download, abra-o e, quando o Android perguntar se deseja permitir que o app seja instalado, diga que sim.

E é só isso. O mesmo procedimento será necessário quando você for instalar o primeiro app a partir do F-Droid e, depois, para instalar cada app. Basta confirmar a instalação que ela começa.

Quanto às atualizações desses apps e da própria loja, ela é feita diariamente por padrão, porém não é automática; é preciso iniciá-las pelo F-Droid. Mantenha as notificações do F-Droid ativadas para ser avisado de novas versões — incluindo a da própria loja.

Apps do F-Droid

Pedi ajuda aos apoiadores do Manual no nosso grupo do Telegram (veja como entrar) que usam o F-Droid. Seguem algumas sugestões de apps disponíveis lá, listados em ordem alfabética:

  • AntennaPod: App de podcasts.
  • Aurora Store: Um front-end para a Play Store. Permite baixar apps de lá sem ter uma conta Google.
  • Blokada: Bloqueador de anúncios que promete pegar leve com a bateria do celular.
  • DNS66: Bloqueador de anúncios.
  • Fennec F-Droid: Navegador web, compilado a partir do Firefox, porém sem códigos proprietários e telemetria.
  • K-9 Mail: App de e-mail.
  • KeePassDX: Gerenciador de senhas.
  • Librera Reader: Leitor de e-books e PDFs.
  • Loop: App para acompanhar e criar hábitos.
  • Markor: App de notas e listas de tarefas.
  • NewPipe: App de YouTube sem qualquer código do Google ou do YouTube — e, portanto, sem anúncios.
  • OpenBoard: Teclado padrão do Android, mas sem qualquer ligação com o Google.
  • OsmAnd: Mapas com navegação curva a curva baseados no OpenStreetMap.
  • Slide: App para Reddit.
  • Telegram FOSS: Versão do Telegram sem códigos proprietários.
  • Tusky: App para Mastodon.
  • Twidere: App para Twitter.
  • VLC: Player de áudio e vídeo que toca praticamente qualquer formato.
  1. Um sistema que anonimiza comunicações via internet redirecionando requisições por vários pontos da rede, mantida gratuitamente por voluntários, antes do destino desejado. Saiba mais na Wikipédia.
  2. Quem usa Linux muito provavelmente está familiarizado com os repositórios. Se não for o seu caso, leia isto.

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10 comentários

  1. Eu já tinha ouvido falar dessa loja f-droid, porém nunca tinha tentando usá-la.

    Instalei no meu celular e vou tentar substituir alguns apps da play store por apps da f-droid.

  2. Atualmente, da Play Store, eu só uso alguns poucos apps proprietários. A maioria dos apps em meu celular vêm da F-Droid (inclusive eu cuido da tradução de alguns). Eu gostaria de acrescentar, além dos citados acima, os apps:

    – Conversations: um comunicador instantâneo, cliente para rede XMPP, que permite tanto o uso de servidores específicos como também oferece um servidor próprio.
    – My Expenses: um gerenciador financeiro pessoal muito rico em recursos, inclusive com opções de importação/exportação de dados.
    – Puzzles: um port da Simon Tatham’s Portable Puzzle Collection, um conjunto de 39 jogos de lógica que eu conheço desde a época do saudoso Palm Pilot.
    – Suntimes: um canivete suíço para quem gosta de dados astronômicos ligados aos movimentos da Terra e da Lua (como horários de nascer e por do Sol e da Lua e datas de equinócios e solstícios). É interessante porque ele possui uma série de widgets e até mesmo alarmes para esses momentos.
    – Tasks.org: um gerenciador de tarefas, que é um fork livre do antigo Astrid.

    E mais um tanto de outros, que ficaria um tempo citando aqui. Vale muito a pena dar uma passeada por lá.

    1. se puder compartilhar mais apps bons eu agradeço.

      irei testar o “my expenses”, pois quero susbtituir o “minhas finanças”, mas até agora ele se mostrou imbatível (e todos que encontrei na f-droid não eram bons)

  3. Uso a F Droid há um tempo! Obrigado pela dica do Telegram FOSS, eu usava a versão da play store. Alias, o Signal não está na F droid, infelizmente.

    Se me permitem uma sugestão adicional, eu uso o KISS Launcher. Para quem gosta de usar a busca para encontrar apps no celular, é uma maravilha.

    Eu também uso o Simple Keyboard para teclado sem rastreio de digitação. Leva um tempo para se adaptar ao mundo sem swipe, mas funciona bem.

    Parabéns por mais uma ótima materia!

    Abraço !

  4. Nossa, eu sou fã do F-Droid há uns anos. Seria muito interessante que as fabricantes dessem o direito (à força ou não, daí já não sei) de escolha da loja no Android, daria visibilidade à este tipo de iniciativa e o fortaleceria, ou seja, ganha-ganha. Enfim…

    Sobre o NewPipe, ele é um que precisa de configurar seu próprio repositório pra que ele seja atualizado com maior frequência, pois o processo de verificação vagaroso do F-Droid não acompanha o ritmo de atualizações do aplicativo. Isso é importante pois constantemente ele “quebra”, já que carrega o conteúdo que interessa do YT (e outros tb) e sempre que há alguma mudança no YT, ele precisa se adaptar junto. O resto é só alegria.

  5. eu já conhecia o microG e o lineage, mas não sabia que tinha um projeto que unia ambos, que massa! pretendo testar qualquer dia

    1. Uso a F Droid há um tempo! Obrigado pela dica do Telegram FOSS, eu usava a versão da play store. Alias, o Signal não está na F droid, infelizmente.

      Se me permitem uma sugestão adicional, eu uso o KISS Launcher. Para quem gosta de usar a busca para encontrar apps no celular, é uma maravilha.

      Eu também uso o Simple Keyboard para teclado sem rastreio de digitação. Leva um tempo para se adaptar ao mundo sem swipe, mas funciona bem.

      Parabéns por mais uma ótima materia!

      Abraço !

      1. Em caso da pessoa não querer largar mão do teclado swipe, tem o NetGuard (que também está no F-Droid). É só bloquear o acesso do teclado a internet usando o NetGuard, também uso ele para que não apareça propagandas em outros aplicativos que us da PlayStore.

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