Ex-engenheiro do Facebook explica por que levar a criptografia de ponta a ponta ao Messenger e Instagram é uma ideia ruim

Em 2019, o Facebook anunciou que levaria a criptografia de ponta a ponta, até hoje presente apenas no WhatsApp, a seus outros mensageiros — Instagram e Messenger — em 2022. Nesta segunda (22), a empresa avisou que a mudança levará mais tempo e só será implementada em 2023. Motivo? Para “fazer a coisa direito”, segundo Antigone Davis, diretor global de segurança do Facebook. Grupos de defesa da criança alegam que a mudança dificultará o combate ao assédio e outros abusos contra menores que ocorrem nessas plataformas. Via BBC News (em inglês).

No Twitter, David Thiel, ex-engenheiro de segurança do Facebook (trabalhou lá entre setembro de 2015 e março de 2020), deu uma (agora não tão rara) visão de dentro. “A direção decidiu mover todas as mensagens dentro das propriedades do Facebook em um sistema E2EE [criptografado de ponta a ponta] em um cronograma absurdamente acelerado. […] O esforço foi anunciado sem qualquer ‘roadmap’ de como alcançá-lo”, escreveu.

Nessa época, disse David, os sistemas automatizados do Facebook para coibir assédio e abusos contra menores “estavam operando com efetividade menor que 10%”. “Estava claro que a maior parte dos estragos escapava da detecção”, disse Thiel. A direção do Facebook sabia disso e mesmo assim avançou, o que levou a demissões na equipe de segurança infantil. “É um trabalho inimaginavelmente difícil e a perspectiva de piorar 90% nele é super desmoralizante”, disse.

David demonstra o caráter apressado do anúncio com a falta de direcionamento (qual sistema/tecnologia usar?) e a indiferença aos desafios peculiares de cada plataforma. O WhatsApp, que tem criptografia de ponta a ponta desde 2016, é um serviço muito diferente do Messenger e do Instagram. Vale uma citação completa aqui:

O WhatsApp não recomenda pessoas para fazer amizade e interagir. Ele não hospeda grupos secretos de tamanho infinito. Ele não oferece uma pesquisa global de cada usuário. Ele não agrupa pessoas por localização ou instituições como escolas.

Enquanto isso, o Facebook tenta pegar redes sociais existentes, fundi-las e criar novas. Isso levou a situações absurdamente inapropriadas (incluindo, literalmente, recomendar vítimas a seus abusadores), em particular quando combinado à sincronia de contatos [do celular] e ao rastreamento de pixels “offsite” [em outras propriedades que não são do Facebook].

Colocar a criptografia de ponta a ponta sem mudar o modelo sempre foi uma ideia ruim. Então é óbvio que ela foi adiada, e continuará sendo. Ninguém — defensores da privacidade ou da segurança infantil — deveria se contentar com as coisas como elas estão.

David se diz favorável à criptografia de ponta a ponta, mas quando o objeto muda de uma plataforma de conversas privadas entre pessoas conhecidas para um modelo de rede social, seu entusiasmo se enfraquece. “Esses sistemas [criptografados de ponta a ponta] são mais seguros e funcionam melhor quando separados da descoberta, dos algoritmos de recomendação e dos incentivos do marketing.” Via @elegant_wallaby/Twitter (em inglês).

DuckDuckGo anuncia bloqueador de rastreadores em apps para Android

O DuckDuckGo anunciou, ainda em testes, um sistema de proteção contra rastreamento em apps no Android. O recurso lembra ou foi inspirado pela Transparência no Rastreamento em Apps (ATT, na sigla em inglês) da Apple, mas o funcionamento é diferente: o app cria uma VPN local e por ela filtra os rastreadores. É o mesmo sistema de outros bloqueadores consolidados para Android, como Blokada e AdAway.

É preciso inscrever-se em uma lista de espera para usufruir do recurso do DuckDuckGo em seu app: entre nas configurações, depois em Privacy e, no campo App Tracking Protection, toque em Join the Private Waitlist. Via DuckDuckGo (em inglês).

OK

O corretor ortográfico do teclado do iPhone que transforma “e” em “é” é um problema comum e amplamente difundido, mas precisamos falar do Android que transforma qualquer “ok” em “OK” e te faz mandar, quase sempre sem querer, uma energia total passivo-agressiva aos interlocutores.

Twitter desiste do AMP

Depois do Google, agora é a vez do Twitter abandonar o AMP, formato de sites leves que carregam rapidamente. Donos de sites já perceberam uma queda no tráfego AMP vindo do Twitter, mesmo com a documentação oficial informando que o suporte à tecnologia na rede social será descontinuado “no quarto trimestre”.

Não acompanho de perto as idas e vindas do desenvolvimento web, então minha surpresa pode ser infundada. Dito isso, estou um pouco surpreso com o desmantelamento acelerado (risos) do AMP. O que só reforça que a única utilidade prática do AMP foi aquilo que os críticos sempre afirmaram e evidências recentes comprovaram: que o AMP era um cavalo de Troia criado apenas para consolidar o domínio do Google sobre a web. Via Search Engine Island (em inglês).

Com taxa zero para restaurantes, prefeitura cria aplicativo próprio de delivery no Rio

A cidade do Rio de Janeiro começou a testar o Entrega.Rio, serviço de delivery via aplicativo que não cobra taxa dos restaurantes e promete maior rentabilidade aos entregadores. Nesta fase, que vai até 4 de janeiro de 2022, apenas servidores da prefeitura poderão fazer pedidos. Que ideia maluca, essa: oferecer um serviço a preço de custo para beneficiar restaurantes, entregadores e, no fim, o próprio cliente, que deverá pagar menos pelas refeições. Via Diário do Rio.

Anúncios no Telegram são menos invasivos que WhatsApp sem anúncios, diz CEO do Telegram

Pavel Durov, CEO do Telegram, aproveitou o anúncio do serviço de publicidade da plataforma em inglês (ele já havia dado o recado em russo) para disparar contra o WhatsApp.

“Com o Telegram, você está mais livre de anúncios [‘ad-free’] do que com o WhatsApp”, escreveu Durov. “O WhatsApp já compartilha dados dos usuários com anunciantes — mesmo que o app em si não exiba anúncios. No Telegram, por outro lado, os anunciantes jamais obtêm seus dados privados.”

O CEO do Telegram cita dois links, do The Guardian e da Reuters, para embasar a alegação de que o WhatsApp compartilha dados com terceiros. É verdade, mas, convenientemente, ele não diz que o conteúdo das conversas está mais protegido no WhatsApp, onde a criptografia de ponta a ponta é o default. (No Telegram o recurso existe, mas é opcional e pouco usado.)

Apesar das promessas e do modelo de publicidade projetado para preservar a privacidade dos usuários, ele não é à prova de falhas. Segundo o Russia Beyond, os primeiros anúncios veiculados foram de baixa qualidade, com cursos de investimento e esquemas de criptomoedas.

(Considere, porém, que o Russia Beyond é ligado ao governo russo e o Kremlin não morre de amores pelo Telegram.) Via @durov/Telegram (em inglês) e Russia Beyond (em inglês).

Threads, app para “melhores amigos” no Instagram, será encerrado até o fim do ano

Em mais uma prova da sua incapacidade de criar sucessos, o Facebook confirmou ao TechCrunch que até o fim do ano descontinuará o Threads, aplicativo lançado em 2019 repleto de ideias diferentes para o Instagram, a princípio focado em mensagens e stories para os “Melhores amigos”. Não se preocupe se não conhecia ou se lembrava dele; é justamente por isso que o Facebook o encerrará. Via TechCrunch (em inglês).

Apple anuncia programa para que os consumidores consertem seus próprios iPhones

A Apple, que ao longo dos anos criou todo tipo de empecilho ao reparo dos seus produtos e fez lobby dizendo que permitir que os próprios consumidores consertassem seus iPhones e MacBooks era “perigoso”, anunciou nesta quarta (17) um programa de reparo “self-service”, inicialmente para as linhas iPhone 12 e 13, com a promessa de expandi-lo aos Macs com chip M1 em 2022.

Inicialmente, a novidade focará nos reparos mais comuns nesses celulares, como trocas de telas e baterias, e estará restrito aos Estados Unidos — ao longo do ano que vem mais países serão contemplados.

A Apple oferecerá mais de 200 componentes genuínos em uma loja online, com manuais e ferramentas necessárias para o conserto. Além de comprar esses materiais, os clientes poderão trocar os componentes quebrados por créditos. A Apple diz, porém, que o novo programa “é destinado a indivíduos técnicos com conhecimento e experiência no reparo de dispositivos eletrônicos”, e que à maioria o melhor caminho continua sendo as assistências autorizadas.

O iFixit classificou a novidade como um marco e uma “concessão à nossa competência coletiva”. Apesar disso, a empresa, especializada no conserto de dispositivos eletrônicos e que advoga pelo direito ao reparo, apontou alguns problemas que permanecem, como as travas de software ao uso de partes de outro iPhone e de partes não-genuínas e os preços elevados dos componentes. Não ajuda, também, os projetos hostis da Apple, com seus parafusos proprietários e em excesso e o uso de cola para grudar alguns componentes.

De qualquer forma, é um passo na direção certa e um atestado de como a pressão regulatória funciona. A Apple não está abrindo isso porque é legal, mas sim antecipando-se a leis dos dois lados do Atlântico que deverão, em breve, obrigar as fabricantes a fazerem exatamente o que ela está fazendo agora: permitir que os consumidores possam, por conta própria, consertarem os produtos que compraram. Via Apple (em inglês), iFixit (em inglês).

É mais lucrativo mostrar anúncios na TV do que vender TVs

Os números da Vizio, fabricante que não atua no Brasil, ajudam a entender por que tornou-se impossível comprar uma TV — em qualquer lugar — que não seja “smart”.

No terceiro trimestre de 2021, a empresa norte-americana lucrou mais que o dobro com serviços (US$ 57,3 milhões) do que com a venda de TVs e outros artefatos, como barras de som (US$ 25,6 mi). Não só: enquanto o negócio de venda de TVs teve uma ligeira em faturamento, de -8%, o de serviços mais que dobrou, em 134%. O negócio de TVs ainda é quase seis vezes maior que o de serviços (US$ 502,5 mi contra US$ 85,9 mi), mas a margem de lucro de serviços é gigantesca — e tem espaço para crescer mais.

Os serviços, que na Vizio são englobados/chamados Platform+, compreendem “anúncios nas telas iniciais da TV, acordos para a inserção de botões em controles remotos, anúncios em canais de streaming, taxa de assinaturas e dados comportamentais coletados e vendidos como parte do programa InScape”, segundo o The Verge.

No comunicado ao mercado, William Wang, CEO of Vizio, se disse orgulhoso dos resultados “na medida em que os investimentos que fizemos no negócio Platform+ continuam rendendo frutos”. De fato. Via Vizio (em inglês), The Verge (em inglês).

Facebook continua coletando dados de menores de idade para segmentar anúncio

Em julho, o Facebook (ou Meta, como preferir) prometeu que passaria a segmentar anúncios a menores de idade apenas pelos critérios de idade, gênero e localização. Em outras palavras, que deixaria de mostrar anúncios por interesses ou hábitos de navegação a esse público.

Uma pesquisa conduzida pela Fairplay, Reset Australia e Global Action Plan demonstrou a promessa não está sendo cumprida.

As pesquisadoras Elena Yi-Ching Ho e Rys Farthing criaram perfis fictícios de três jovens, de 13 e 16 anos, e descobriram que embora suas atividades dentro dos apps do Facebook não sejam gravadas, o que eles faziam fora, em outros sites e apps, sim. Esses dados seriam utilizados, segundo materiais promocionais do Facebook, para o direcionamento automatizado de anúncios, por inteligência artificial.

“Usando esses dados do Pixel do Facebook, o Facebook consegue coletar dados de outras abas e páginas do navegador que as crianças abrem e capturar informações como em quais botões elas clicaram, quais termos elas pesquisaram e quais produtos compraram ou colocaram nos carrinhos (‘conversões’)”, escreveram elas no relatório (PDF). “Não há motivos para armazenam esse tipo de dado de conversão exceto para abastecer o sistema de entrega de anúncios.”

Ao The Guardian, Joe Osborne, porta-voz do Facebook, confirmou a coleta de dados, mas, sem apresentar qualquer evidência objetiva, garantiu que eles não são usados para direcionar anúncios. Via Fairplay (em inglês), The Guardian (em inglês).

O que você leu de bom?

Toda quinta, na newsletter do Manual (cadastre-se gratuitamente), indico leituras longas/de fôlego (artigos, reportagens, ensaios) publicadas em outros sites.

Seria o máximo se esse trabalho fosse colaborativo, feito com a sua ajuda.

Indique nos comentários uma leitura longa da última semana, relacionada aos temas que costumam aparecer aqui no site, que você acha que deveria ser lida por mais gente. Vale em português ou inglês.

Novo Media Player do Windows 11

Print da área de trabalho do Windows 11, com a janela do novo Media Player aberta, em cores claras e com cores de realce que lembram as do Zune (laranja e roxo).
Imagem: Microsoft/Divulgação.

A Microsoft começou a testar um novo app de áudio e vídeo para o Windows 11, batizado apenas de Media Player. Ele substitui o Groove e lida com áudio e vídeo. Pontos extras pelas cores de realce reminiscentes do saudoso Zune.

O apelo a softwares do tipo é mais limitado hoje, com serviços de streaming dominando o consumo audiovisual em meios digitais, e embora a Microsoft não tenha dado detalhes, imagino que o leque de formatos compatíveis com o novo Media Player seja menor que o do VLC, talvez o player mais versátil do mercado — gratuito, de código aberto e ao alcance de qualquer um. Para mais imagens do Media Player, siga o link ao lado. Via Microsoft (em inglês).