Close nos ícones dos apps do Facebook e WhatsApp em um celular da Samsung.

O grande plano focado em privacidade do Facebook não tem nada a ver com privacidade


7/3/19 às 8h35

Não existe Carnaval nos Estados Unidos, mas Mark Zuckerberg aguardou a Quarta-feira de Cinzas para anunciar seu grandioso plano de colocar a privacidade no centro da estratégia do Facebook. Uma iniciativa questionável desde a largada porque, nos diz o histórico do Facebook, privacidade sempre foi um assunto acessório e incômodo aos objetivos da empresa, tratado como mais como um fardo do que como ponto forte. Nas entrelinhas, há motivos de sobra no textão de Zuckerberg para no mínimo suspeitar de que desta vez não será diferente.

No texto, publicado no perfil pessoal de Zuckerberg e não na forma de um comunicado à imprensa, o cofundador e CEO do Facebook delineia uma “visão focada em privacidade para redes sociais”. No quinto parágrafo, a resume assim:

Acredito que o futuro da comunicação mudará para cada vez mais para serviços privados e criptografados onde as pessoas podem confiar que o que elas dizem umas às outras permanecerá seguro e que suas mensagens não serão eternas. Este é o futuro que espero ajudar a construir.

Esse tal futuro é o presente, com a única diferença de que hoje ele está parcialmente fragmentado e não tem os holofotes do marketing do Facebook.

O “serviço privado e criptografado” é o WhatsApp. O das “mensagens que não são eternas”, os Stories do Instagram e também do WhatsApp. São tendências que o Facebook notou há muito tempo e que já explora com relativo sucesso, embora o potencial remanescente seja imenso.

O Facebook é uma empresa reativa; analisa os dados antes de dar cada passo. E é uma empresa que está, com razão, sob fogo cerrado há pelo menos 12 meses em decorrência de uma sucessão de escândalos, a maioria relacionada à (sem surpresa) privacidade. Anunciar com pompa uma suposta grande mudança que visa reforçar seu ponto mais fraco é conveniente, quase um “cala boca” aos críticos, e ao mesmo tempo gera um crédito imediato para que ações totalizantes sejam feitas nos produtos do Facebook.

O plano passa por uma mudança fundamental na maneira como os apps de mensagens do Facebook — WhatsApp, Messenger e Instagram Direct — funcionam. A intenção, diz Zuckerberg, é uni-los em uma base comum, criptografada de ponta a ponta e interoperável. No texto, ele explica que os apps continuarão independentes e que a união dos perfis será opcional. Provavelmente “opcional” à maneira Facebook, ou seja, aceite com um clique, recuse com oito cliques em telas cuidadosamente criadas para induzi-lo a aceitar a barganha faustiana que será apresentada, tal qual ocorreu com o aceite que os europeus tiveram que dar às práticas comerciais do Facebook à luz do Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDPR, na sigla em inglês).

Tacho a iniciativa de barganha faustiana, o famoso pacto com o diabo, porque ela pretende, em última instância, derrubar as frágeis paredes que hoje separam as propriedades do Facebook e permitem situações como a minha — usar o WhatsApp sem ter que me relacionar com a rede social Facebook ou o Instagram. O terreno já foi preparado: os três apps — Facebook, Instagram e WhatsApp — têm funções cada vez mais similares e, do lado corporativo, a empresa Facebook já avisou os acionistas que só se referirá ao número de usuários somados de todas as suas propriedades e não mais o de cada uma individualmente, como vinha fazendo desde que abriu seu capital.

Conectar as identidades dos usuários dará uma visão mais ampla ao algoritmo do Facebook de como agimos e de quem somos. Zuckerberg diz que tornar seus apps de mensagens interoperáveis facilitará o contato com amigos e estranhos — por exemplo, quando estivermos vendendo algo em uma OLX da vida será possível negociar com estranhos pelo WhatsApp sem informar o número do telefone e estejam eles no WhatsApp ou no Messenger. Sim, mas também dará um mapa mais completo das nossas atividades online, pois não conversamos com todos usando apenas um aplicativo. Também servirá à criação de um produto mais competitivo na tentativa de conquistar mercados onde a disputa pelo posto de app de mensagens mais popular ainda está em aberto, em especial os Estados Unidos, o mais rentável do planeta.

Em seu texto, Zuckerberg diz que os meta dados que coleta são necessários para rodar os sistemas anti-spam e de segurança, mas que “uma parte importante da solução é, antes de tudo, coletar menos dados pessoais”. É sintomático que a explicação pare aí, que ela não avance ao principal uso que se faz desses dados: a criação de perfis dos usuários para segmentar anúncios publicitários. Aliás, em momento algum o texto fala sobre publicidade segmentada.

No que, dada essa incompletude, só nos resta imaginar o porquê disso.

Um palpite é que o Facebook não precisa dos conteúdos de conversas de aplicativos de mensagens. O WhatsApp, nesse sentido, deve ter servido como câmara de testes e o próprio Zuckerberg, em entrevista à Wired, disse que já não usa o conteúdo das conversas para segmentar anúncios. Saber quando, com quem, em que horários e outros meta dados do tipo — que não são criptografados — permite traçar um perfil que, se não perfeito, gera uma segmentação minimamente boa. O movimento não é inédito. O Google, outro glutão por dados que faz dinheiro nos vendendo a anunciantes, anunciou algo similar para o Gmail em junho de 2017. O Facebook já tem fontes de dados pessoais generosas; unir os apps de mensagens em uma mesma fundação só aumentará a vigilância dos hábitos dos usuários.

Outro aspecto importante do anúncio é que o foco privacidade não implica no fim dos feeds públicos, não criptografados do Facebook ou do Instagram, a segunda maior máquina de fazer dinheiro com publicidade da história da humanidade — só perde para a do Google. Na referida entrevista à Wired, Zuckerberg expande a analogia que costuma fazer, a da “praça pública”, como ele enxerga o feed do Facebook, com a ideia da “sala de estar”, que seriam os apps de mensagens privados, criptografados de ponta a ponta e com mensagens efêmeras. É um acréscimo, não uma troca. “Facebook e Instagram e o equivalente digital à praça pública serão sempre importantes. Na verdade, acho que eles continuarão crescendo em importância”, disse.

O caráter aditivo também se faz visível nos negócios. Ok, então os anúncios talvez sofram um pequeno abalo devido ao uso maior de espaços privados em detrimento de feeds públicos. Ainda assim, ele seguirá firme e forte nos feeds do Facebook e do Instagram — e, em breve, no Status do WhatsApp. Não há nada que nos leve a crer que essa mudança de postura impactará significativamente o negócio de anúncios do Facebook.

Tirando isso do caminho, fica a questão: de que maneiras seria possível fazer dinheiro com tríade Instagram Direct–Messenger–WhatsApp se tornando a força dominante no mercado? Não é preciso exercitar a imaginação. O Facebook já trabalha com a comunicação entre consumidores e negócios no WhatsApp, experimenta com a transformação do Instagram em um grande shopping virtual e planeja lançar, ainda neste primeiro semestre, uma criptomoeda lastreada em uma cesta de moedas nacionais a ser usada no WhatsApp. É isso, comércio puro e simples, basicamente, só que potencializado.

A fundação que o Facebook pretende criar com seus apps de mensagens é para dominar o comércio. Não tem nada a ver com privacidade. Privacidade é, no máximo, um pré-requisito para garantir a integralidade das soluções de comércio dentro da plataforma e, de quebra, passar um verniz de boa intenção e credibilidade de que a desgastada imagem do Facebook tanto precisa.

No mais, não é como se dependêssemos apenas de uma empresa para entregar soluções de comunicação privada. Muito menos o Facebook, que em 15 anos de existência tem agido, sistematicamente e por vezes de maneira antiética, para se estabelecer como a maior rede social do planeta. Essa ideia é tão absurda e ridícula quanto dar a chave do galinheiro ao lobo. O grande problema do Facebook e do Google é que eles se enxergam como entes à parte das dinâmicas de mercado. Para as duas empresas, não há devassa da privacidade se os dados dos usuários estiverem guardados em seus servidores.

Com urgência crescente, faz-se necessária uma ação incisiva dos órgãos reguladores de governos mundo afora para barrar essa e outras estratégias totalizantes do Facebook. Enquanto isso não acontece, a nós, meros usuário, o que resta é mitigar ao máximo a exposição à empresa. E a única solução comprovadamente eficaz é sair, excluir a sua conta. Parece extremo, mas não é. E não é fácil também, eu sei. Mas acredite: é possível.

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15 comentários

  1. Com aquela história de perfis sombra, eu acho pouco efetivo simplesmente tentar excluir nosso perfil. É melhor do que nada, eu sei. O Facebook já está bem enraizado em nossa sociedade e o Whatsapp é um sucesso tão grande que torna praticamente inviável ou muito pouco prático não usá-lo.

  2. Já deletei meus perfis do Instagram e Facebook e não sinto falta nenhuma dos dois. Já fazia algum tempo que percebia que eles não eram saudáveis, via mais anúncios do que posts de amigos e as notícias dos últimos tempos sobre as empresas do Zuckerberg me fizeram tomar essa decisão.
    Em relação ao WhatsApp, é difícil sair, mas pretendo aos poucos ir deixando de usar tanto. Não dá pra aceitar o que eles fazem com nossos dados.

  3. “Com urgência crescente, faz-se necessária uma ação incisiva dos órgãos reguladores de governos mundo afora”

    Único ponto que não concordei com o artigo, muito bom por sinal.

    A internet é uma das mais belíssimas criação humana e estados não devem meter suas mãos sujas nela!

    1. A internet só é livre porque em diversas ocasiões o Estado fez o seu papel de regulador desta. Marco Civil e tantas outras legislações mundo agora tentam arduamente manter a interne livre. Observe os planos de internet móvel e de internet fixa em locais onde a neutralidade de rede e outros poréns não chegaram e irá perceber o papel do Estado como regulador desse meio.

      Sempre bom lembrar, também, que a internet só existe por criação e subvenção do Estado.

    2. A internet como conhecemos só existe por ação estatal de regulação. Marco Civil é algo que nos mantém ligeiramente protegidos em alguns aspectos. GDPR na UE é outro destes projetos.

      A internet como meio de livre negociação, livre associação e livre tráfego só existe porque é entendida e mantida pela força de regulação estatal. Sem essa ação estaríamos, provavelmente, com uma internet proprietária e fechada; sem garantias individuais e sem garantias de liberdade.

      Aliás, bom lembrar que a internet, sobremaneira, só existe por ação direta do Estado e subvenção desse aos padrões abertos de comunicação.

      O Estado deve fazer o seu papel o mais rápido possível e regulamentar esse problema dos dados e da criptografia/segurança do Facebook.

      1. Com relação ao marco civil este só se fez necessário por conta de problemas anteriores que a interferência estatal criaram, existindo praticamente um monopólio na mão de poucos.

        O livre mercado toma conta de resolver problemas do tipo, não é necessário um estado paternalista por trás que tem como interesse proteger os seus eleitoreszinhos dos malvados capitalistas. Além do mais, com relação ao caso do Facebook, a solução é muito simples; pare de usar o serviço. A descentralização da internet – que de fato deu-se por ação estatal, mas que na minha opinião seria algo que seria alcançado de todas as formas – torna isso possível, não é necessário choramingar aos pés de políticos sujos para que resolvam o problema criando outros.

        1. A tendência do capitalismo é o monopólio e a exploração do mais fraco. O Estado precisa intervir porque, caso contrário, estaríamos todos sujeitos à ganância de umas poucas pessoas que se acham no direito de serem mais que os outros. Curiosamente, gente que, em geral, explora brechas, tem relações escusas e se aproveita de outras vantagens pouco republicanas para conquistar o que tem — vide a Amazon, para ficar em um exemplo flagrante e ultrajante, que pagou exatamente zero dólar em cima de US$ 11,2 bilhões de lucro em 2018. Mérito de Bezos ou dos seus lobbistas? Cadê a mão invisível do mercado para consertar esse óbvio desvio?

          O Estado não é “políticos sujos”. O Estados somos nós, eu e você. São pessoas que se organizam, que convencionam leis, regimentos e instituições e que elegem representantes para tornar a vida em sociedade minimamente viável. O que você classifica “choramingar” é o debate de problemas, algo salutar, ou melhor, indispensável em qualquer democracia. E os “políticos sujos” são quem nos representa na definição de soluções para esses problemas, daí vivermos em uma democracia representativa.

          Se há abusos, e as empresas são prolíficas em cometê-los, é preciso que uma força externa interfira. É inacreditável que com o tanto de corrupção e de excessos nas grandes empresas essa ideia ingênua de autorregulação persista. Como se um grande Conar das empresas fosse resolver alguma coisa. Até parece.

          E só por curiosidade, que “problemas anteriores que a interferência estatal criaram” são esses que motivaram o Marco Civil da Internet?

          1. E, indo mais além Ghedin: o Facebook está indo bem além do aceitável.

            Do Meio de hoje:

            “A Comissão para Proteção de Dados da Irlanda quer detalhes dos planos do Facebook. Como a sede da empresa na Europa fica lá, é a Irlanda o país responsável pela fiscalização da rede na União Europeia. A ideia de maior integração entre Facebook, Instagram e WhatsApp é um rompimento do acordo da companhia com a UE na época em que a análise antitruste autorizou a compra do WhatsApp. É também, dependendo de como for implementado, uma ruptura da legislação de privacidade de Bruxelas.

            Pois é… A empresa está investindo pesado em lobby. Políticos nos EUA, Reino Unido, Canadá e até Brasil estão recebendo ofertas e ouvindo ameaças. É uma ação para impedir regulação.”

            The Guardian

            CNN

        2. Os monopólios são tratados pelos liberais como anomalias a serem corrigidas pelo Estado. Adam Smith e Rayek falam sobre isso ao longo de sua obra. Inclusive se quiser ver como uma economia liberal lida com monopólios veja sobre o caso Rockefeler/Texaco nos EUA nos 1800. Ou mesmo as práticas abusivas da MS + IE nos anos 90 que levaram ao fatiamento e posterior enfraquecimento do IE no mercado de web.

          *Ainda assim, lhe pergunto quais são os monopólios que o Estado criou interferindo no mercado de telecomunicações do Brasil?*

          O caso do Facebook é um caso que chamamos de “assimetria de informações” em ciências sociais. Não podemos esperar que as pessoas simplesmente tenham acesso a toda a informação necessária para tomar decisões complexas (ainda mais quando a empresas usa de práticas na margem do que é tido como legal para impor tais práticas de mercado) e nesse caso, novamente retomando os teóricos liberais, o que temos é uma necessária intervenção estatal nas práticas abusivas de tais empresas. O livre mercado dá conta até certo ponto, o papel estatal dentro de uma economia liberal é de manter as regras e o mercado funcionando em igualdade para todas as empresas. E é exatamente esse tipo de ação que se pede no texto.

          Você dizer que a internet seria descentralizada sem o Estado é um grande salto. Nada indica que sim, pelo contrário, o mercado tende e se proteger de concorrência e isso gera padrões bizarros como Betamax vs. VHS na era dos VCR’s. A intervenção do Estado mantendo os padrões de comunicação abertos, mantendo fundações que se preocupam com a interoperabilidade desses padrões (seja indiretamente ou diretamente) e, mais do que isso, criando a rede inicialmente é fundamental para entendermos o papel estatal dentro de um processo de inovação e de criação de novas tecnologias. Em nenhum lugar do mundo as empresas privadas são responsáveis pelo grosso da pesquisa de base (O P de P&D), esse papel é Estatal porque é o papel de desenvolver tecnologias do zero. O desenvolvimento, usualmente, é mantido em parida 50-50 entre empresas e indústria e apenas na fase final, de marketing e aplicação é que temos um massivo investimento por parte dos entes privados. Atualmente uma peça não vive sem a outra, claro, mas o grosso de toda a inovação é oriunda de ação estatal e não tem nenhum horizonte de mudança. Então, resumindo, esperar que o livre mercado, como ente etéreo, faça esse papel é “wishful thinking”, e pior, baseado em nada.

  4. É a velha estratégia do Facebook de fazer um discurso, depois implementar porcamente ou nem isso, ganhando créditos de relações públicas enquanto mantém seus negócios como sempre foi.

    Perder o conteúdo das conversas é ruim, pois abre outras possibilidades de segmentação e recomendação de produtos. Acredito que o Facebook e o Google só abriram mão dessa informação pelo custo de relações públicas, “apenas” cruzar os dados dos usuários e comportamentos já possibilita bastante coisa e incomoda menos os usuários.

    Em resumo, mais um recuo parcial para continuar o mesmo esquema de negócio, tipo indústria do cigarro aceitando colocar as fotos atrás do maço.

  5. E tem mais, o facebook usa seu número de telefone de modo público (não permite deixar privado, no máximo para amigos), desativei isso hoje, mas excluir já acho bem difícil, ainda mais que como comentei outras vezes, a parte de eventos é complicada de se desfazer.