Renderização mostrando uma fachada fictícia do Facebook em estado decadente, enferrujada e com letras faltando.

Qual será a gota d’água que te fará sair do Facebook?


7/2/19 às 10h44

No final de 2018, Ryan Mac do BuzzFeed News publicou uma lista com todos os vacilos do Facebook ao longo do ano. “Literalmente apenas uma grande lista dos escândalos do Facebook em 2018” era o título da matéria, que elenca mais de 30 tópicos. Fazendo uma conta simples, ela revela que o Facebook protagonizou ou viabilizou alguma coisa errada uma vez a cada dez dias.

Já no primeiro mês de 2019, a série se mantém. E os casos que emergiram em janeiro parecem ainda mais graves. É quase como se Mark Zuckerberg tivesse se transformado em um vilão cartunesco de comédia pastelão da Sessão da Tarde.

O primeiro foi a descoberta de que, mesmo ciente de que crianças estavam gastando o dinheiro dos pais em joguinhos distribuídos pelo Facebook, a direção da empresa não fez nada para conter esse comportamento e, depois, recusou-se a reembolsar os pais. Em alguns casos, o prejuízo chegou aos milhares de dólares.

No mais recente, o Facebook burlou as diretrizes da Apple e estava distribuindo, por fora da App Store, um aplicativo que monitorava todo o tráfego e dados dos celulares de voluntários que, em troca, recebiam US$ 20 por mês pela devassa de seus dados pessoais. Alguns eram menores de idade. O programa da Apple pelo qual o Facebook conseguia fazer isso é apenas para uso interno — apps necessários dentro da empresa e para versões de testes. Após as revelações, a Apple baniu o Facebook do programa, mas o acesso foi restaurado dois dias depois. (O Google também foi pego fazendo a mesma coisa.)

Em dezembro, excluí meu perfil no Facebook. Antes, já tinha saído do Instagram. Há muito tempo acompanhava com atenção os malfeitos da empresa e sempre me incomodou muito o fato de ela se safar impune de situações cada vez mais absurdas e ultrajantes.

Para mim, a gota d’água foi a revelação, em novembro, de que o Facebook pagou uma agência para elaborar dossiês e atacar o desafeto George Soros com boatos liberados à imprensa. O Facebook, que se diz vítima de atores que exploram inadvertidamente suas plataformas para espalharem “fake news”, pagou uma empresa para criar e disseminar “fake news”. Isso está além do antiético. É uma fratura exposta de uma empresa quebrada por dentro, que não tem conserto.

Apesar de tudo isso, o movimento #deletefacebook nunca engrenou. Prova são os resultados financeiros do Facebook, divulgados no início de fevereiro: no último trimestre de 2018, o número de usuários da rede social aumentou em 2,2%, de 2,27 bilhões para 2,32 bilhões. Combinados aos do Instagram e WhatsApp (a “família” de apps, métrica que se tornará a única daqui em diante), são 2,7 bilhões de pessoas usando os aplicativos do Facebook.

Não é qualquer um que consegue acordar um dia e simplesmente encerrar seus perfis nessas redes sociais. Já falei disso, inclusive, e ainda não consegui me desvencilhar do WhatsApp. Muitos negócios dependem da publicidade barata que só o sistema de vigilância e manipulação em massa que o Facebook construiu consegue entregar. Mas, para muita gente, é perfeitamente viável pular fora. Em seu livro com o sugestivo título Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais [Amazon], Jaron Lanier aborda o dilema logo na introdução:

Sim, ter condições de deletar sua conta é um privilégio; muitas pessoas de fato não conseguem. No entanto, ter certa liberdade para sair das redes sociais e não aproveitar a chance não é apoiar os menos favorecidos, mas reforçar o sistema no qual muitas pessoas estão presas. Sou prova viva de que é possível ter uma vida pública sem usar as redes sociais. Aqueles de nós que têm opções devem explorá-las, senão elas vão continuar apenas no plano teórico. Os negócios vão atrás do dinheiro, então aqueles que têm opção também têm poder e responsabilidades. Você, você mesmo, tem a responsabilidade de inventar e colocar em prática maneiras de viver sem essa porcaria que está destruindo a nossa sociedade. Por ora, sair das redes sociais é a única forma de descobrir o que pode substituir o nosso grande equívoco.

Considere, também, as pesquisas recorrentes que apontam que deixar o Facebook aumenta a qualidade de vida e o bem-estar das pessoas. A última (PDF), publicada por pesquisadores das Universidades de Stanford e Nova York, descobriu que pessoas que toparam ficar quatro semanas sem usar o Facebook observaram um “aumento do bem-estar subjetivo” e “aumento de atividades offline como socializar com amigos e familiares”.

Dito tudo isso, pergunto: qual seria a gota d’água para você sair do Facebook?


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Imagem do topo: Andrei Lacatusu/Behance.

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