Ícone do Facebook em macro.

#DeleteFacebook? Excluir sua conta no Facebook não é tão fácil quanto parece


19/3/18 às 19h38

Na internet, vez ou outra topamos com o relato de alguém que largou o Facebook. Mesmo assim, com mais de dois bilhões de usuários, encontrar essas pessoas não chega a ser algo corriqueiro. O total de usuários dilui o poder de presença dos excluídos. Por essas e outras, o barulho que esses relatos de desertores causam é compreensível: eles repercutem pois raros e são raros porque não é fácil virar as costas a uma rede tão pervasiva como é o caso do Facebook.

Você acha que é fácil sair do Facebook? Você está enganado.

A ideia de excluir a conta no Facebook voltou com força depois da confirmação de que os dados de milhões de usuários foram usados em esquemas de manipulação no Brexit e nas eleições à presidência dos Estados Unidos, em 2016, conduzidos pela empresa Cambridge Analytica.

O problema é que não houve mesmo violação dos sistemas de segurança ou qualquer erro no sistema do Facebook. Ele funcionou da maneira como foi feito para funcionar. A Cambridge Analytica e seus comparsas atuaram em uma fase externa ao Facebook — a acusação é de que um acadêmico vendeu os dados que obteve licitamente do Facebook usando um desses apps de teste de personalidade.

O modelo de negócio do Facebook se baseia em um aparato de vigilância massivo que coleta o que for possível a fim de municiar anunciantes, empresas como a Cambridge Analytica e vá saber quem mais. Esse episódio expõe essa falha fundamental. Não há uma brecha a ser fechada; o Facebook é uma enorme brecha. Como ponderou a pesquisadora Zeynep Tufecki,

A defesa do Facebook de que a coleta de dados de milhões de usuários do FB pela Cambridge Analytica não é tecnicamente uma “brecha” é uma declaração mais profunda e condenatória do que há de errado com o modelo de negócios do Facebook do que [se fosse] uma “brecha”.

O Facebook está sofrendo uma pressão enorme, talvez sem precedente em sua conturbada história. As ações estão em queda e, como aquela saudosa banda que uniu todas as tribos, democratas e republicanos nos Estados Unidos, autoridades britânicas incluindo a primeira ministra Theresa May e o líder do Parlamento Europeu estão exigindo explicações de Mark Zuckerberg.

Para alguns, este episódio é a gota d’água para abandonar o Facebook. Excluir o perfil, dar no pé, viver como se vivia circa 2007, naquele limbo entre a derrocada do Orkut e o domínio completo e absoluto do Facebook. Mas… será que essa opção existe de fato?

O dilema

Sair do Facebook, enquanto quase 1/3 da população mundial lá dentro, não seria “lavar as mãos”? O combate a tudo de ruim que o Facebook permite e representa não deveria ser feito de dentro? Ou o melhor é seguir o exemplo da Folha e pular fora, em uma tentativa de esvaziar um balão gigantesco e com gás aparentemente infinito? Seria uma estratégia melhor?

Não há respostas óbvias. Esse dilema é daqueles que nos deixa a pensar, muito e frequentemente, sem que se chegue a uma solução fácil. De qualquer forma, as pessoas estão se movimentando. Nesta segunda-feira (19), a hashtag #DeleteFacebook esteve entre as mais populares no Twitter em inglês. Falar (ou tuitar) é diferente de fazer, mas o fato de o assunto estar sendo debatido já é alguma coisa.

O grande problema em apagar o perfil no Facebook é que, ao contrário ao que se costuma ouvir quando alguém reclama da perversidade da rede e manifesta esse desejo, sair não é tão simples quanto escolher a opção no painel de configurações e não entrar mais na rede. Digo, é, mas as consequências dessa decisão são mais profundas. Não é uma questão de “só sair”, de “basta querer”. O Facebook sitiou uma parte considerável da vida de muita gente no Ocidente, a tal ponto que, se não torna impossível, dificulta muito um abandono completo sem danos consideráveis à vida social e profissional de quem está já se deixou fisgar.

Para esses perfis — que são difíceis de quantificar, mas que formam, seguramente, a maioria nos grandes centros urbanos —, o Facebook adquiriu um caráter utilitário.

O Facebook já é algo similar aos bancos. Com exceção dos banqueiros, ninguém morre de amores por bancos, se orgulha do banco com que trabalha ou se anima em interagir com o gerente ou encarar filas para usufruir de serviços meia boca, mas essenciais, e que a qualquer deslize te colocam no cheque especial e cobram juros anuais na casa dos três dígitos. Nem os apps dos bancos são bons! É uma desgraça generalizada a que nos submetemos porque a alternativa (não usar) nos faria perder dinheiro e/ou aumentaria significativamente a insegurança financeira, duas condições insensatas na sociedade capitalista do século XXI em que estamos inseridos.

Outro exemplo: a própria internet. Ainda que jamais tenha acessado o Google ou qualquer outra coisa online, indiretamente você a usa porque serviços essenciais são gerenciados pela rede. Não há escapatória, resumidamente.

Então, embora seja tecnicamente possível dar uma banana ao Facebook e excluir sua conta, é preciso pesar o que se perde com isso. Na sequência, uma lista não exaustiva do que me ocorreu enquanto pensava, nos últimos dias, se dou cabo da minha conta lá ou não.

Onde o Facebook nos prende

São inúmeros os pontos que fazem até os mais decididos pensarem duas, três, várias vezes antes de excluírem seus perfis para, no fim, desistirem.

Comecemos pela utilidade básica do Facebook, a relação com contatos (ou “amigos”). Ela nos impõe o primeiro obstáculo. Para muita gente, a lista de amigos na rede social substituiu a agenda de contatos de papel ou mesmo a do celular. Como se desfazer disso?

O Facebook é um grande diretório de (quase) todas as pessoas que você já conheceu na vida, então alguém disposto a sair do Facebook ou abre mão desse mapa social (“grafo social”, na terminologia técnica) valioso, ou tem um trabalho enorme para replicá-la em outro local. (O Facebook até exporta seus dados, mas não em um formato que facilite a importação em outro sistema; é só um listão em texto puro.) Pessoas com quem você não tem intimidade, mas “conhece”, estão no Facebook. Sem o número de telefone ou endereço de e-mail, um “oi” no Messenger muitas vezes resolve. Em muitos casos, é o único meio.

Fora dos círculos de amizades e contatos profissionais, o Facebook também tem uma força descomunal. No comércio, por exemplo. As ferramentas convenientes, somadas ao alcance que a plataforma oferece (oferecia?) a todos os tipos de negócio, das maiores multinacionais do mundo à venda da esquina da cidadezinha do interior, motivou muitos proprietários e agências de publicidade a ignorarem completamente os bons e velhos (e democráticos) sites da web. “Estamos na internet” virou sinônimo de “temos uma página no ‘face'”.

Com frequência, a presença digital da empresa se resume a uma página no Facebook. No máximo, isso e mais um perfil de negócios no Instagram. Que é do Facebook. Nas fachadas das cidades, os números de telefone ganharam o ícone do WhatsApp ao lado, um movimento tão forte que fez o Facebook criar uma solução que conecta empresas a clientes via WhatsApp. Ah sim: o WhatsApp também é do Facebook.

(Quando falo em “sair do Facebook” e para todos os efeitos da reflexão que proponho aqui, refiro-me a uma ruptura completa, o que inclui apagar o perfil no Instagram e deixar de usar o WhatsApp.)

Então, até agora você já perdeu contato com metade das pessoas que conheceu na vida e será forçado a telefonar para falar com com praticamente todos os estabelecimentos comerciais em atividade. Calma, estamos só no começo.

Muito da vida social e cultural das cidades está concentrada na página de eventos do Facebook.. Jornais com forte vínculo regional, como é o caso da Gazeta do Povo, fazem uma boa cobertura do circuito mainstream, mas aquele show na quebrada, aquela festa da faculdade que cresceu e recepciona gente de fora, toda uma sorte de eventos periféricos que enriquecem a vida urbana, têm sua divulgação, em muitos casos, restrita a eventos no Facebook. É onde todo mundo está, a relação custo-benefício é ótima, tudo funciona bem… não há incentivo óbvio para fazer diferente.

O mesmo vale para promoções de restaurantes, que aparecem nas linhas do tempo de páginas no Facebook e, mais recentemente, no Stories do Instagram. Cursos, mobilizações, praticamente todas as reuniões públicas entre pessoas desconhecidas podem (e viram) eventos no Facebook, sem a garantia de que serão promovidas de outra forma, longe das garras de Mark Zuckerberg.

Desconhecidas? A quem queremos enganar? Até convites para festas de aniversário são mediados por um evento no Facebook. É seguro esperar que os amigos mais próximos se lembrem do excluído do Facebook na hora de fazer a lista de convidados. Os do círculo estendido? Vá saber.

Nas universidades, as antigas (e eficientes) listas de e-mail foram substituídas por grupos no Facebook ou grupos no WhatsApp. Grupos de condomínio, de pais e mães, da pelada dos fins de semana, de praticamente toda organização social imaginada pelo homem até hoje se adequa à dinâmica dos grupos do WhatsApp e, obviamente, acabam virando grupos do WhatsApp.

A onipresença do WhatsApp, aliás, que é o app mais usado no Brasil, também tem efeitos no ambiente de trabalho. Grupos criados para tarefas específicas ou grupos de profissionais que colaboram acabam se rendendo à facilidade dos grupos para avançar os projetos. E para falarem abobrinhas nos grupos extraoficiais. E para qualquer outra comunicação por texto baseada na troca de mensagens em tempo real.

Em uma empresa onde o WhatsApp é usado dessa maneira, qual seria a reação de um gestor a um subordinado que anunciasse que não usará mais o app? Em muitos ambientes, a ideia de não estar no WhatsApp é quase alienígena. É preciso estar muito determinado para romper essa presunção de que todo celular vem com aquele maldito ícone verde e enfrentar as consequências.

Ora, até no Congresso o WhatsApp é usado por políticos para mobilizar suas bases e tramar acordos — lícitos e ilícitos. A vida política, as campanhas, o relacionamento entre nossos representantes e os cidadãos acontece pelo Facebook. Sempre me causa espanto, como se estivéssemos em um episódio de Black Mirror, quando vejo cenas de bastidores com cinco, seis deputados falando para a tela de um celular, em “lives” das suas páginas no Facebook.

A democracia está se empoleirando sobre as bases frágeis e obscuras do Facebook e não é preciso refletir muito para saber que isso vai dar ruim.

Deve ter mais situações que complicam o rompimento com o Facebook, mas o que apontei até aqui já deve ser suficiente para concluir que abandonar tudo é difícil, e não por acaso.

Ao concentrar relações, funcionalidades e até aplicativos que poderiam, se explorados por outras empresas, confrontar a posição de dominação do Facebook, Mark Zuckerberg aumentou dramaticamente o poder de retenção da sua rede. Para muita gente, sair do Facebook não é opção; para outros, o Facebook é autossuficiente, é maior que a internet.

Por isso se fala tanto em regular o Facebook e por isso o escrutínio por que passa só tende a aumentar. É muito poder na mão de uma pessoa só — Zuckerberg tem a palavra final no comando do Facebook.

Como toda empresa, o Facebook também é guiado pela sua capacidade de gerar riqueza a seus acionistas. Todo o resto vem depois disso, o que, à luz do modelo de negócios do Facebook, explica muita coisa: da dependência que ele cria nos usuários a essa situação em que nos metemos, de termos nos tornado reféns de um site que gera lucros bilionários vendendo a alma (os dados) dos seus usuários a quem puder pagar mais.

Como excluir a conta no Facebook

Existem duas maneiras de sair do Facebook: desativando sua conta ou excluindo-a.

Ao desativar a conta, todos os seus dados continuam nos servidores Facebook, mas você meio que “some” para seus contatos lá dentro. A documentação oficial da rede social diz que “as pessoas não poderão ver sua Linha do Tempo ou pesquisar você” e que “algumas informações podem continuar visíveis (por exemplo, as mensagens que você enviou)”. Como nada é excluído de fato, você pode reativar sua conta a qualquer momento e continuar de onde parou.

Para desativar sua conta, entre nas configurações, depois em “Geral” (ou clique aqui); nessa tela, clique em “Gerenciar conta” e, depois, em “Desativar sua conta”. É preciso inserir a senha para confirmar a ação.

A desativação da conta pode ser um bom “treinamento” para ver se estar fora do Facebook é danoso para você. Se não, é só seguir para o próximo passo e excluir a conta.

A exclusão é definitiva. Ela leva alguns dias para ser processada e, dentro desse período, pode ser cancelada. Após confirmada, o Facebook diz que “pode levar até 90 dias para os dados armazenados nos sistemas de backup serem excluídos. Suas informações não poderão ser acessadas no Facebook durante este período”.

Para excluir sua conta, clique aqui. O Facebook pede uma confirmação.

De qualquer forma, é uma boa ideia pedir um backup das suas informações antes de desativar ou excluir sua conta. Ela traz uma página web simples, acessível offline, com fotos, lista de contatos (e dados como e-mail e telefone), além de informações de anúncios (como os tópicos que te definem e em quais você já clicou). Basta entrar na aba “Geral” das configurações e clicar no link “Baixar uma cópia dos seus dados do Facebook”, no rodapé da página.

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