O que tem no seu celular, Alberto?
Nota do editor: Toda semana, publico a tela inicial do celular de alguém que lê o blog. Quer participar? Preencha este formulário. Quer mais? Acesse o arquivo. Todos os links de apps levam à App Store, Play Store ou F-Droid.
Qual o seu nome e o que você faz?
Muita gente vê meu celular e estilo de vida como uma aversão à tecnologia, então convém dizer que sou programador. Gosto de jogar, ver filmes e ler. E, para todos esses hobbies, adoro conhecer a história deles. Jogar jogos velhos, ver filmes antigos e ler a fundo a história de coisas estranhamente específicas, mesmo que esse conhecimento não me sirva de nada.
Nota do editor: A entrevista foi feita em julho de 2025.
Qual celular e sistema operacional você usa?
Em meados do ano passado, troquei meu celular moderno pelo Cat S22, um “dumb phone” levemente inteligente. Ele possui sistema Android GO; limitado, mas funcional. Também possui teclado físico e um touchscreen bem ruim — esperado, considerando o tamanho da tela. Por fora, é um flip phone tradicional. Na época, comprei por R$ 400.
A troca foi motivada por querer passar mais tempo com meus hobbies. Não queria pausar um jogo para ver algo no celular. Sim, tinha opções menos radicais, como excluir aplicativos ou colocar o aparelho em outro cômodo, mas a ideia de não ter a opção de maneira alguma me agrada bem mais.
E mesmo fora de casa, seja num Uber (embora use 99), é gostoso poder ver a vista e aproveitar esses momentos em que não tenho nada para entreter minha mente além dela mesma.
É com ele que sobrevivo, saio de caso e me viro. Em casa, guardado em uma gaveta no escritório, existe um smartphone velho. Nele tem aplicativos de banco, provedor de internet, luz e outras coisas. Pego ele em média três vezes por mês, para garantir que está tudo ok com minha vida financeira. De resto, pago tudo no cartão ou no dinheiro (sim, isso acontece).

Fale um pouco do seu papel de parede.
Inexistente. Infelizmente a maioria dos sites fornece papéis de parede para telas convencionais. Assim, aproveitei a vibe minimalista e simplesmente desisti de todos.
Por que a sua tela inicial é do jeito que é?
Os ícones são todos de um pacote de itens pixelados. Por padrão, o nome do app fica embaixo, mas optei por retirá-lo, para deixar mais limpo. Alguns simplesmente mantive o ícone sugerido quando fiz a troca (como o telefone, relógio e o PocketCast). Outros, selecionei sem muito critério (o pato representar o 99 não tem nenhum motivo, até a cor amarela foi por acaso).
Os apps, começando da primeira linha, da esquerda pra direita:
- 99. Tentei o Uber, mas mesmo na versão “lite” ele simplesmente fechava todas às vezes que tentava iniciar. O 99 funciona bem, é leve e ágil.
- Google Maps. Funciona. Muito mal. Infelizmente o zoom por pinça é bem difícil na tela do celular, mesmo sensível a toques. Por ser um celular fraco, existe um atraso forte que só dificulta tudo. Está aqui para ser usado em caso de emergências. É funcional quando preciso ir para um lugar exato. Definitivamente não é útil para achar algum restaurante ou buscar um posto de gasolina, por exemplo.
- BH Bus. Antes desse celular, usava o aplicativo para pegar ônibus. Bastava gerar um QR Code, apontar para a câmera no ônibus, e entrar. Obviamente isso não funciona tão bem numa 640×480, então voltei a usar cartão recarregável. Honestamente, é até mais fácil só usar o cartão. De qualquer forma o aplicativo tem um leiaute bem limpo, é bem fácil navegar para consultar os horários de um determinado ponto e saber quando sair.
- Relógio. Fora despertador, uso a função de Timer. O único que tenho salvo é um de 16min16s, o equivalente a uma soneca perfeita. Recomendo.
- Spotify. Eu era mais feliz quando o Spotify Lite existia. Mesmo assim, a versão padrão é leve o suficiente para não ser problemática. Porém, a interface é bem confusa para ser navegada no teclado físico. Por conta de ter que sempre me render a tocar na tela, raramente uso. Se algum app tivesse que cair, essa seria a primeira opção.
- WhatsApp. Sim, o jornal é o WhatsApp. Não tem motivos para isso. Na vida pessoal, quando preciso conversar, uso a versão de navegador no PC. Para que manter no celular? Porque às vezes preciso encontrar pessoas. Na maioria das vezes, faço como os antigos, agendo a hora que vou me encontrar com amigos, saio de casa e espero que eles estejam lá (ou a caminho). Às vezes vão se atrasar, às vezes precisam avisar que estão no ponto X. E sempre mandam esses recados por WhatsApp. Não vou pedir que mudem e mandem por SMS só pra mim. Consigo ler. Responder é um saco, já que tenho que usar o teclado numérico físico. No fim, ele serve quase como um pager bombado. Leio as mensagens, mas não tenho a opção de responder. Honestamente, gosto muito desse arranjo.
- PocketCast. O motivo de não usar o Spotify. Surpreendentemente, tem a melhor estrutura para ser navegada pelo teclado físico. Embora use pouco, consigo fazer tudo sem a tocar na tela, e ter uma longa fila de podcasts já prontas (às vezes pelo computador) ajuda muito.
- Telefone. Telefone.
- Barra de busca. Só está aí porque não consegui apagar.
Quais os aplicativos que você mais usa?
Sempre tiro um cochilo de 16min16s, então é provável que o timer seja o aplicativo que eu mais use.
Qual o aplicativo mais obscuro/estranho/surpreendente que você usa e gostaria que mais gente conhecesse?
BH Bus. Usem transporte coletivo.
Por fim, algum recado?
Queria concluir com o que esse celular não é.
Ele não é um manifesto contra a tecnologia. Trabalho com programação, gosto de jogar jogos e muitas facilidades da minha vida vêm de inovações nem sempre positivas (compro livros quase que mensalmente pela Amazon). Ter um celular velho tem a ver com aproveitar meus hobbies, não com renegar inovações.
Também não é nada que eu queira incentivar ou declarar como a forma superior de conviver com a modernidade. A minha realidade (jovem, solteiro, sem filhos) me permite. Uma pessoa com filhos, por exemplo, dificilmente conseguiria aderir a isso. Da mesma forma, seria complicado para quem trabalha com mídias sociais em qualquer nível.
Minha adesão foi fruto de uma vontade pessoal que eu não quero projetar em ninguém, e não acho que isso faz da minha rotina melhor ou pior que outras. Foi somente a maneira que encontrei de, dentro da minha realidade, melhorá-la.
Simplesmente foi a melhor publicação desta coluna. Não diminuindo a importância das demais, que também foram ótimas, mas sim por trazer o mais próximo do que é usar verdadeiramente uma alternativa tecnológica.
A franqueza sobre as limitações foi incrível.
As vezes assisto no Youtube alguns vídeos sobre “uma semana sem usar celular”, ou “uma semana usando um dumbphone”. Nunca conseguiram ser tão claros como você foi no texto.
Parabéns!
Um dos posts mais interessantes dessa seção!
Preciso muito me distanciar do celular, pois tenho convicção do tempo que perco com besteiras pelo fácil acesso, sua solução foi genial!
Eu também fiquei super tentado. As limitações são um pouco desafiadoras.
Que diferente. Não consigo me imaginar usando um desses.
Sobre Uber: voce nao precisa de smartphone, nem instalar aplicativo e nem GPS para usar.
Voce pode acessar pelo site deles (uber.com). Para ativar a conta requer email e SMS e apenas isso. Pode acessar em qualquer navegador web em smartphones, laptops e desktops.
Uma vez que voce fizer isso, os cookies ja ficam salvos e voce pode acessar normalmente sem precisar do email ou SMS. Depois voce coloca o local, o destino e faz o pedido da corrida.
Eu tambem faco assim no meu PinePhone com PureOS GNU.
Que chique senhor Alberto. Eu tambem tenho o mesmo estilo de vida que voce, só mudando que tenho que carregar o smartphone pra ver os onibus que passam na parada que estou, pq tenho baixa visao e nao enxergo o letreiro do onibus, ai uso um app pra saber quando ele esta vindo kkkkk mas todo meu contato é feito usando um Nokia 2660 4G azul( LINDOOO!!) nele tenho 2 chips das operadoras que tem o melhor sinal em brasilia (Tim e Claro) e no Smart deixo um chip da vivo que esta no Vivo Easy com um pacote de internet ha uns 10 meses e ainda tem 7gb (comprei 15GB) Nele tambem uso o signal pra falar com um amigo volta emeia e com minha mae (forcei ela a usar o signal ) Mas ligações de trabalho, sms, calendario, tudo fica no burro fone. Muito bom ver relato, gosto de pessoas assim, faço das suas as minhas palavras sobre a questão de nao ser um movimento anti tecnologia, é so um estilo de vida mais lento e que valoriza mais dar atenção para outras coisas. Quando to jogando o jogo da cobrinha no onibus usando o Nokia, sou massacrado com olhares do povo fazendo cara e caretas de risos, duvida, averão… eu não ligo. Meu plano e ser cada dia mais offline, mesmo tendo smartphone, posso jogar eles numa gaveta e pegar só as vezes. sei das consequencias atuais dessa ação mas não há como sustentar uma vida tendo como base dela o celular. Me diz, aonde voce comprou o seu Cat? eu pensei em comprar um mas por não ser Dual-Sim, me quebra muito.
A questão chave você foi muito feliz quando disse: “estilo de vida”.
Gostei muito do post, Alberto.
Estou nessa de ficar longe das telas pelo msm motivo, quero ler mais, assistir mais meus animes, me dedicar mais aos estudos, mas às vezes estou no celular e quando vejo passei 30-40 minutos vendo coisas que já esqueci.
Seu relato mostra que é possível, apesar de limitações, que é possível viver um pouco alheio ao smartphone.
Caraca, muito bacana.
Esse CAT22 é da Cartepillar, não é? Sempre tive curiosidade de ver uns aparelhos deles. Pelo que me recordo eles prezam pela resistência, esse mais simples também?
Como foi o processo de escolha do aparelho exatamente? O uso do Android Go foi uma escolha ou resultado da escolha do aparelho em si?
Tem algumas complicações com aplicativos (como no caso da Uber) encontrou outras dificuldades?
Sou bem a favor do transporte público também, mas infelizmente essa posição de escolha é um grande privilégio que temos, que bom você também poder seguir assim como gosta.
Então, infelizmente (ou felizmente) meu celular não passou por tantas provações físicas, mas a construção dele me da confiança de que aguentaria umas boas quedas sem nenhum problema. O que tenho certeza é que tem uma excelente resistência à água, deixar ele se afogar não é um problema.
Infelizmente o último celular da Caterpillar foi lançado em 2023, abandonaram o mercado e isso pode ser um problema pela falta de suporte (apesar de, considerando que não foram lançados oficialmente no Brasil, imagino que seria um problema de qualquer jeito).
Sobre a escolha, optei pelo celular em si, antes de saber que usava Android Go e as consequências disso. Queria muito adotar um dumbphone, mas infelizmente sabia que havia uma consequência óbvia para minhas relações pessoais. O CatS22 foi uma solução ideal, já que ele é tão ineficiente e incapaz de realizar tarefas de um smartphone, que não faz sentido eu tentar.
O que, aliás, me coloca na próxima pergunta. Acabei não tendo muitas dificuldades já que não testei muita coisa. Fiz uma lista mínima do “essencial para sobreviver” e testei estes. Por sorte, todos eram relativamente simples e, fora o Uber, nenhum me deu dor de cabeça.
Ah, e concordo completamente sobre o uso do transporte público ser também um recorte de privilégio. Inclusive minha luta pessoal é muito mais por uma melhora no sistema. Não simplesmente solicitar que as pessoas “usem, porque sim”. Um sistema com ônibus de qualidade, boa cobertura e horários confiáveis é quase uma questão de dignidade para a sociedade, especialmente os que usam por questões que vão além de convicções e preferências.
Oi Alberto! Que legal o seu celular, parabéns por encarar a tecnologia de um jeito simples e prático, como a vida deve ser. Adoro BH e também sou do transporte público, o cartão aqui em Sampa é o famoso Bilhete Único. Você falou que, por conta do teclado, não tem o hábito de responder o WhatsApp. E no SMS, você recebe bastante, responde as mensagens? Sucesso para você!
Ei Keli!
Em BH teoricamente até temos um bilhete único, já que ele funciona também para o metro. Mas a cobertura desse é tão limitada que acabo esquecendo dele (embora adore pegar ele e uso sempre que posso).
Minha vida seria até mais fácil se as pessoas usassem mais o SMS. Por ser leve, ele funciona até melhor que o WhatsApp nesse celular de baixas capacidades, embora em termos de digitar a dificuldade seja basicamente a mesma. Já testei mandar SMS para pessoas, mas descobri que boa parte simplesmente ignora notificações vindas de lá por hábito, então acaba não funcionando tão bem.